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Nem Tudo o Que Luz
V. C. Andrews
Traduo de MariA EMLIA FERROS MouRA
Titulo originaL: ALL TRAT GLITTERS
Crculo de Leitores
Copyright - 1995 by Virginia C. Andrews Trust
Nmero de edio: 4902
Depsito legal nmero 152 221/00
ISBN 97242-2300-0



Prlogo

        Ao fim da tarde, pouco depois de o Sol se ter escondido atrs dos ciprestes na parte ocidental do bayou, sento-me na velha cadeira de balouo de carvalho 
da grandmre Catherine com Pearl nos braos e entoo uma melodia cajun.  uma cano de embalar que a grandmre costumava cantar-me antes de me pr a dormir, mesmo 
quando eu j era uma rapariguinha de tranas at aos ombros e corria pelos campos, desde as margens do pntano at  nossa cabana apoiada sobre finas estacas de 
madeira. Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir-lhe a voz.
        - Ruby.  hora da ceia, menina. Ruby...
        A voz dela desvanece-se, contudo, da minha memria, como o fumo do fogo bojudo de algum perdendo-se no vento.
        Agora, tenho perto de dezanove anos e passaram-se quase trs meses desde que Pearl nasceu durante um dos mais terriveis furaces que atingiram o bayou. rvores 
que a fora do vento atirou para as estradas foram afastadas para o lado, mas ainda continuam sobre o alcatro, idnticas a soldados feridos  espera de serem tratados 
e devolvidos  forma anterior.
        Parece que tambm eu estou  espera de ser tratada e devolvida  forma anterior. Na realidade, foi este o verdadeiro motivo para o meu regresso de Nova Orlees 
ao bayou.
        Depois de o meu pai, que se sentia muito culpado pelo que acontecera ao irmo, o meu tio Jean, ter morrido de um trgico ataque de corao, Daphne, a minha 
madrasta, tomou as rdeas da nossa vida com uma atitude vingativa. Daphne sempre mostrara ressentimento contra mim desde o dia em que eu me apresentara na casa deles, 
a filha gmea at ento desconhecida, aquela que a grandmre Catherine mantivera em segredo para que no fosse vendida e afastada para longe pelo grandpre Jack, 
como fizera com Gisselle.
        At  minha chegada, Daphne e o meu pai, Pierre Dumas, haviam conseguido manter a verdade enterrada sob uma pilha de mentiras; depois do meu aparecimento, 
porm, viram-se obrigados a criar um novo embuste: proclamar que eu fora roubada do meu bero no dia em que Gisselle e eu tnhamos nascido.
        Na verdade, o meu pai apaixonara-se pela minha me, Gabrielle, durante uma das frequentes caadas que ele e o pai faziam pelos pntanos. O grandpre Jack 
servia-lhes de guia e, mal o meu pai pousara o olhar na minha encantadora me, uma mulher que a grandmre Catherine descrevia como um esprito livre e inocente, 
cara-lhe aos ps. Ela tambm se apaixonara por ele. Daphne no podia ter filhos e, assim, quando a minha me engravidou de Gisselle e de mim, o grandpre Jack aceitou 
um acordo proposto pelo meu av Dumas. Vendeu Gisselle, e Daphne fingiu que Gisselle era sua filha.
        A grandmre Catherine nunca lhe perdoou e expulsou-o da nossa casa. Vivia no pntano como um animal selvagem e sobrevivia a caar ratos-almiscarados e a 
apanhar ostras, bem como a guiar turistas, quando estava sbrio bastante para o fazer. Antes de morrer, a grandmre Catherine, que era uma traiteur, uma curandeira 
espiritual, obrigou-me a prometer que iria para Nova Orlees procurar o meu pai e a minha irm.
        
        No entanto, a vida mostrou-se ainda mais insuportvel para mim naquela terra. Gisselle no me aceitou desde incio e fez-me a vida num inferno em Nova Orlees 
e em Greenwood, o colgio particular onde nos puseram em Baton Rouge.
        Ficou particularmente irritada pela rapidez com que o seu antigo namorado Beau Andreas se apaixonou por mim e eu por ele. Mais tarde, quando engravidei de 
Beau, Daphne ordenou-me que fizesse um aborto numa qualquer clnica horrvel, mas, em vez disso, fugi e regressei ao nico lar que alguma vez conhecera: o bayou.
        O grandpre Jack afogou-se durante uma das suas excurses sob os vapores do lcool e teria ficado sozinha se no fosse o meu secreto meio-irmo Paul. Antes 
de conhecermos os nossos verdadeiros laos, Paul e eu tnhamos sido namorados. Ficou com o corao despedaado ao saber que o pai dele seduzira a minha me quando 
ela era muito nova e negou-se a aceitar a realidade at hoje.
        Desde que voltei ao bayou, nunca me abandonou um s instante e prope-me casamento todos os dias. O pai  dono de uma das maiores fbricas de conservas de 
camaro da zona; porm, devido a uma herana de terras, Paul tornou-se um dos homens mais ricos da nossa terra, tendo-se descoberto petrleo na sua propriedade.
        Agora, Paul est a construir uma casa enorme onde espera que Pearl, ele, e eu vivamos algum dia. Sabe que a nossa relao ter de submeter-se a certas condies, 
que no poderemos ser amantes, mas est disposto a sacrificar-se para poder passar a vida ao meu lado.
        Sinto-me tentada pela sua oferta, na medida em que perdi Beau, o meu nico e grande amor, e fiquei sozinha com a nossa filha, a tentar sobreviver levando 
o mesmo tipo de existncia de quando a grandmre Catherine era viva: tecendo lenis e entranando cestos, cozinhando gumbo e vendendo a mercadoria aos turistas 
na nossa banca  beira da estrada. No  uma vida satisfatria e no oferece grandes possibilidades  minha pequena filha, bela e encantadora.
        Sento-me todas as noites na cadeira de balouo, como  agora o caso, e embalo Pearl at ela adormecer, enquanto pondero o que deverei fazer. Observo, esperanada, 
o retrato da grandmre Catherine que pintara antes de ela morrer e que a representa sentada nesta mesma cadeira na varanda da frente. Atrs dela, na janela, pintei 
o rosto angelical da minha me. As duas devolvem-me o olhar, como se esperassem que descubra a deciso certa.
        Oh! Como desejava que estivessem vivas e ao meu lado e pudessem indicar-me o caminho. Dentro de menos de um ano e meio, terei dinheiro, pois irei receber 
a minha herana como uma das filhas do meu pai; nutro, todavia, um grande desagrado por esse mundo em Nova Orlees, apesar da bonita casa no Garden District e de 
toda a riqueza implicada.
        A mera ideia de voltar a encarar Daphne, uma mulher que outrora tentou encarcerar-me numa instituio psiquitrica, uma mulher cuja beleza dissimulava a 
sua verdadeira natureza fria, provoca-me calafrios. Alm disso, se algo aprendi enquanto vivi na casa Dumas, rodeada de criados e bens valiosos,  que esse dinheiro 
e riqueza no compram a felicidade quando no se tem amor.
        
        No existia amor naquela casa depois de o meu pai morrer e enquanto ele viveu, sofrendo sob a sombra obscura dos seus pecados do passado. Tentei dar-lhe 
alegria e felicidade, mas Daphne e Gisselle eram excessivamente determinadas e egostas para me permitirem que fosse bem sucedida. Agora esto ambas satisfeitas 
com a minha partida, por ter sido apanhada na minha paixo e engravidado, provando ser o que elas sempre me consideraram... uma cajun intil. A famlia de Beau mandou-o 
para a Europa e Gisselle mal cabe em si de contente por me escrever sobre as suas namoradas e toda a riqueza e felicidade da vida que ela leva.
        Talvez devesse casar-me com Paul. S os pais dele sabem a verdade a nosso respeito e guardaram-na como um profundo e obscuro segredo. De qualquer maneira, 
todos os antigos amigos da minha grandmre Catherine pensam que Pearl  filha de Paul. Ela tem o seu cabelo chatim, uma mistura de louro e castanho, e os olhos da 
cor de ns ambos: azul-celeste. Tem uma pele macia e delicada, branca mas com um brilho que me faz recordar prolas sempre que poiso os olhos nela.
        Paul no perde uma oportunidade para me suplicar que case com ele; no tenho coragem de o contrariar, pois sempre esteve ao meu lado. Encontrava-se presente 
quando Pearl nasceu, protegendo-nos durante o furaco. Traz-nos comida e presentes todos os dias e passa o tempo livre a arranjar-me coisas na cabana.
        Seria uma aliana pecaminosa, se no consumssemos a nossa ligao? O casamento  mais do que algo que apenas moraliza e legaliza o sexo. As pessoas casam-se 
para amar e partilhar de formas mais altrustas. Casam para terem algum ao lado durante a doena e dificuldades, para terem companhia e se protegerem uma  outra 
at  morte. E Paul seria um pai maravilhoso para Pearl. Ama-a como se realmente fosse sua filha. Acho que acredita que o , acredita mesmo.
        Por outro lado, seria justo para Paul negar-lhe o que qualquer homem espera e necessita de uma mulher? Ele afirma que est disposto a esse sacrifcio por 
me amar tanto e salienta que os nossos padres catlicos fazem esse sacrifcio por um amor mais elevado. Porque no poder fazer o mesmo? J ameaou tornar-se monge, 
se o rejeitar.
        Oh, grandmre, no podes dar-me qualquer sinal? Tinhas poderes espirituais to maravilhosos quando eras viva. Afastavas os espritos maus, curavas pessoas 
que estavam doentes, davas esperana a toda a gente e levantavas-lhe o moral. Onde hei-de procurar respostas?
        Como se compreendesse o meu tormento, Pearl mexe-se e pe-se a chorar. Beijo-lhe as faces macias e, como fao muitas vezes sempre que contemplo o seu querido 
e pequeno rosto, penso em Beau e no seu maravilhoso sorriso, nos olhos ternos e nos lbios tentadores. Ele tem de ver a prpria filha. Interrogo-me sobre se isso 
alguma vez acontecer.
        Agora, Pearl encontra-se sob a minha inteira responsabilidade. Optei por t-la, guard-la, am-la e acarinh-la. As decises que tomei quando ela nasceu 
so decises que nos afectaro s duas. J no posso pensar apenas no que  bom para mim, no que est certo para mim. Tenho de pensar tambm no bem-estar dela. As 
decises que estou prestes a tomar podem causar-me dor, mas sero as melhores para Pearl.
        Ela volta a acalmar-se. Fecha os olhos e retoma o sono tranquilo, confiante e confortvel, ignorando a tempestade de problemas que nos rodeiam. O que nos 
reserva o destino?
        
        "Se ao menos tudo isto tivesse acontecido anos mais tarde", penso. "O Beau e eu teriamos casado e tido uma casa fantstica no Garden District. A Pearl cresceria 
numa casa cheia de amor, num mundo to precioso como os mundos imaginrios dos nossos sonhos. Se tivssemos sido mais cuidadosos e..."
        Tomo conscincia de que o "se" nada significa num mundo real, um mundo onde os sonhos se transformam muitas vezes em sombras. "Deixa-te de se, Ruby", digo 
para mim prpria.
        Continuo a balouar e a cantarolar em voz baixa. L fora, o Sol desaparece por completo e d lugar a uma escurido densa e profunda, onde apenas os olhos 
da coruja reflectem a luz das estrelas.
        Levanto-me e deito Pearl no bero, um bero que Paul lhe comprou, depois do que volto at junto da janela e observo a noite. Os aligatores deslizam junto 
s margens do canal. Ouo-lhes as caudas a espadanar a gua. Morcegos entrelaam-se no musgo e mergulham, a fim de apanhar insectos para a ceia, enquanto os guaxinins 
se pem a chorar.
        Como o meu mundo se encheu de solido e, todavia, nunca tive medo de estar s at agora; neste momento h mais algum com que me preocupar e que devo proteger: 
a minha querida Pearl, adormecida, com sonhos de beb,  espera de que a sua vida comece.
        Cabe-me zelar para que principie com sol e no com sombras, com esperana e no com medo. Como o farei? As respostas pairam nas trevas,  espera de serem 
descobertas. Foram ali deixadas pelos espritos do bem ou do mal?



1

OPES
               
               O rudo do motor do barco de Paul a aproximar-se perturbou um casal de garas que se pavoneavam arrogantes no grosso ramo de um cipreste, e ambas 
abriram as asas e voaram ao sabor da brisa do golfo para mergulhar mais fundo, nos pntanos. Aves dos arrozais tambm bateram as asas, elevando-se acima das guas 
e desaparecendo no matagal.
               Era uma tarde muito quente e hmida de quinta-feira nos finais de Maro; Pearl mantinha-se muito atenta e animada, contorcendo-se e lutando por se 
libertar do meu abrao e gatinhar at s tocas cobertas de relva que serviam de abrigo aos ratos-almiscarados e s lontras. O cabelo crescera-lhe mais rapidamente 
no ltimo ms e j lhe chegava abaixo das orelhas e ao fundo da nuca. Inclinava-se agora mais para o louro do que para o castanho. Eu vestira-a com um vestido cor 
de marfim com franjas rosa na gola e nas mangas. Tinha caladas as botinhas de algodo amarelo que lhe fizera na semana anterior.
                medida que o barco de Paul se aproximava, Pearl ergueu os olhos. Embora pouco mais tivesse do que oito meses, possua a ateno e perspiccia de 
uma criana de um ano. Adorava Paul e ficava deliciada com todas as suas visitas, de olhos brilhantes, com os bracinhos e mos a acenar, dando pontaps para se soltar 
de mim e correr at junto dele.
               O barco de Paul descreveu a curva do canal e ele acenou, mal nos descobriu no embarcadouro. Eu concordara finalmente em que nos levasse a ver a sua 
grande casa nova, que estava quase pronta. At ento, evitara faz-lo, receosa de que, logo que pusesse os ps na manso, me sentisse tentada a aceitar a proposta 
de Paul.
               Talvez fosse apenas dos meus olhos, mas achava que Paul se tornara mais elegante e mais maduro, desde que eu regressara ao bayou. Mantinha ainda ocasionalmente 
aqueLe brilho juvenil nos olhos azuis, mas agora, na maior parte das vezes, mostrava-se pensativo e srio. As suas novas responsabilidades profissionais bem como 
a superviso da construo da casa, aliadas  preocupao com Pearl e comigo, obscureciam-lhe as feies, vincando uma sombra que me perturbava, temendo estar a 
arrast-lo comigo na desgraa.
        Paul no se poupava, obviamente, a esforos para me convencer de que me enganava. Sempre que sugeria tal coisa, ria-se e dizia:
        - No sabes que, quando regressaste ao bayou, trouxeste o sol de volta  minha vida?
        Nesse momento, o rosto abria-se-lhe num sorriso, enquanto trazia o barco at ao embarcadouro.
        - Ei! Sabes uma coisa? - replicou, excitado. - Acabaram de pendurar e ligar os lustres. Espera s at os veres. So um espectculo. Mandei-os importar de 
Frana. A piscina est cheia e a funcionar. Sabes que os materiais das portas envidraadas vieram de Espanha? Paguei uma fortuna por eles - acrescentou de um jacto.
        - Ol, Paul - cumprimentei a rir.
        -
         O qu? Oh, desculpa. - Inclinou-se para me beijar na face. - Acho que pareo um tanto excitado com a nossa casa, hem?
        Baixei os olhos. No conseguia evitar aquele aperto no corao sempre que ele se referia  nossa casa.
        -Paul...
        - No digas nada - apressou-se a redarguir. - No chegues a concluses, nem decises. Deixa que a casa e o terreno crcundante falem por si.
        Abanei a cabea. Alguma vez ele aceitaria um "no" como resposta? Imaginei que mesmo que me casasse com outra pessoa e vivesse at aos cem anos, ele continuaria 
a aparecer-me  porta de casa, esperando que mudasse de opinio.
        Entrmos todos no barco e Paul voltou a ligar o motor. Pearl riu quando demos meia-volta e enfrentmos a brisa, enquanto a espuma nos salpicava os braos 
e o rosto. O incio da Primavera arrancara os algatores  hbernao. Dormitavam nos aterros e na gua pantanosa, e os olhos sonolentos pouca curiosidade denotavam 
quando passmos, a toda a velocidade, ao lado deles.
        Aqui e alm, aglomerados de cobras verdes apartavam-se para voltarem a unir-se, semelhantes a fios que se teciam sob a gua. Rs-touros saltavam por cima 
de nenfares, e lontras acolhiam-se  segurana de sombras e pequenas aberturas. O pntano, ele prprio semelhante a um animal gigantesco, parecia espreguiar-se, 
bocejar e tomar forma  medida que a Primavera chegava e caminhava, determinada, rumo ao calor do Vero.
        - O poo nmero trs deitou por fora esta manh - gritou Paul para se fazer ouvir acima do ruido do motor. - Parece que ultrapassar quatro ou cinco vezes 
o que estava calculado.
        - Que maravilha, Paul!
        - O futuro no podia afigurar-se mais brilhante, Ruby. Est ao nosso alcance ter tudo, fazer tudo, ir a qualquer lugar... A Pearl seria uma verdadeira princesa.
        - No quero que ela seja uma princesa, Paul. Quero que ela seja uma bonita e jovem mulherzinha, capaz de apreciar o valor de coisas importantes - retorqu 
num tom spero. - J vi demasiadas pessoas levadas enganosamente pela prpria riqueza a acreditar que eram felizes.
        - No ser assim connosco - garantiu-me Paul.
        Os acres de riqueza da terra petrolfera de Paul e a casa situavam-se a sudeste da minha cabana. Avanmos pelo meio de canais, por vezes to estreitos que 
podamos esticar o brao e tocar na margem de cada lado do barco. Cortmos caminho atravs de alguns lagos salobres e metemo-nos por uma rede de canais, antes de 
virarmos a sul para entrar na sua propriedade.
        No fora at ali desde que partira para Nova Orlees e, por conseguinte, ao avistar o telhado da manso erguendo-se acima dos pltanos e ciprestes, que se 
estendiam na nossa frente, fiquei atordoada. Sentia-me como se fosse Alice a ser levada para o seu Pas das Maravilhas.
        Paul j mandara construir um cais e havia um relvado, que se estendia desde o pntano at ao comeo dos terrenos da casa. Avistei os camies e carros pertencentes 
aos operrios, que ainda se esforavam arduamente, pois Paul apressara os trabalhos e mostrara-se disposto a pagar a todos a dobrar para que a casa ficasse pronta 
antes do prazo previsto. A leste, avistvamos as torres de petrleo a trabalhar.
        -
         Aposto que nunca sonhaste que o rapaz cajun que andava por ai na sua scooter viesse a ser dono de tudo isto - comentou Paul, orgulhoso, de mos nas ancas, 
com um sorriso de orelha a orelha. - Imagina o que diria a tua grandmre Catherine.
        - Provavelmente a grandmre j esperava que tal acontecesse - retorqui.
        - Provavelmente - anuiu com uma gargalhada. - Sempre que me olhava, sentia que ela conseguia ler-me no s os pensamentos, mas tambm os sonhos.
        Ajudou-me, a mim e a Pearl, a sair do barco.
        - Eu levo-a - ofereceu-se. Pearl estava surpreendida com a vastido da casa que se estendia diante de ns. - Gostaria de chamar-lhe Cypress Woods - afirmou., 
- O que achas?
        - Sim,  um nome maravilhoso.  fantstico, Paul. Esta forma como surge do nada...  magia.
        Esboou um largo sorriso de orgulho.
        - Disse ao arquitecto que pretendia uma casa que se assemelhasse a um templo grego. Faz com que a residncia dos Dumas no Garden District parea um bangal.
        - Era isso o que pretendias fazer, Paul... ofuscar a casa do meu pai? Disse-te...
        - No me censures, Ruby. De que serve tudo o que tenho, se no puder us-lo para te agradar e impressionar? - retorquiu, enquanto os olhos me fixavam com 
uma expresso grave.
        - Oh, Paul! - exclamei com um abanar de cabea e respirando fundo. O que poderia eu contrapor ao seu entusiasmo e aos seus sonhos?
         medida que nos aproximvamos da casa, esta parecia ainda maior. A toda a volta da varanda do piso superior havia um corrimo de ferro com desenhos em forma 
de diamantes. Dos dois lados da casa, Paul mandara construir alas num prolongamento dos elementos predominantes da parte principal.
        -  onde vivero os criados - indicou. - Acho que d mais privacidade a toda a gente. A maioria das paredes deste lugar tem sessenta centmetros de espessura. 
Vais ver como o interior  fresco, mesmo sem ventoinhas nem ar condicionado.
        Uma pequena escada de pedra levou-nos  varanda e  entrada do primeiro piso. Caminhmos por entre as grandes colunas e entrmos no vestbulo de ladrilhos 
espanhis, um trio destinado a cortar a respirao a qualquer visitante que pisasse aquela manso, pois no era apenas amplo e comprido; o tecto, extremamente alto, 
fazia ecoar os nossos passos.
        - Pensa em toda a arte maravilhosa que podias pendurar nessas vastas paredes, Ruby - observou Paul.
        Percorremos divises espaosas e arejadas umas atrs das outras, todas elas dando para o vestbulo de entrada. Sobre as nossas cabeas, estavam pendurados 
os lustres a que Paul se referira com tanto orgulho. Eram ofuscantes, e as lmpadas em formato de lgrimas assemelhavam-se a uma chuva de diamantes. A escadaria 
circular tinha o dobro da largura e do requinte da que existia na casa dos Dumas.
        - A cozinha fica nas traseiras - disse Paul. - Muni-a de todo o equipamento mais moderno. Qualquer cozinheira sentir-se-ia no paraso a trabalhar ali. Talvez 
consigas descobrir para onde foi a tua Nina Jackson e convenc-la a vir viver aqui - acrescentou.
        
        Sabia quanto eu gostava de Nina, a cozinheira do meu pai. Era uma praticante vudu e afeioara-se a mim desde o primeiro dia em que eu chegara de Nova Orlees. 
Ou seja, depois de se convencer que eu no era uma morta-viva feita  imagem e semelhana de Gisselle.
        - Acho que nada tentaria a Nina a deixar Nova Orlees - contrapus.
        - Mal o dela - apressou-se Paul a redarguir. Denotava uma grande sensibilidade em relao ao facto de os crioulos ricos interpretarem qualquer comparao 
como uma critica ao nosso mundo cajun.
        - O que quero dizer  que ela est demasiado ligada ao seu mundo vudu, Paul - expliquei, e ele esboou um aceno de concordncia.
        - Deixa-me levar-te ao andar de cima.
        Subimos as escadas at quatro espaosos quartos, cada um deles com roupeiro exterior e interior. Havia dois enormes quartos principais, algo que Paul imaginara 
sem dvida com a proposta de casamento em mente. Ambos davam para os pntanos. Havia, contudo, uma porta de comunicao.
        - Bom? - quis saber ansioso, perscrutando-me o rosto com o olhar.
        -  uma casa magnfica, Paul.
        - Guardei o melhor para o fim - declarou com aquele brilho travesso no olhar. - Segue-me - prosseguiu, levando-nos atravs de uma porta que abria para uma 
escadaria exterior. Era nas traseiras da manso e, por conseguinte, no a vira quando nos tnhamos aproximado.
        A escadaria conduziu-nos a um sto enorme com vigas de cipreste talhadas  mo. Havia amplas janelas com vista para os campos e canais, mas nenhuma virada 
para o lado dos poos de petrleo. As enormes clarabias providenciavam muita luz, tornando-o alegre e arejado. .
        - Sabes o que  isto? - perguntou com um ligeiro sorriso divertido. - Ser o teu estdio - concluiu, erguendo os braos.
        Abri muito os olhos, entusiasmada com as possibilidades.
        - Como podes ver preocupei-me com a melhor vista. Olha, Ruby, olha o que p'oderias pintar - convidou, dirigindo-se  janela. - Olha o mundo que amamos, o 
nosso mundo, um mundo que decerto te levaria a voltares aos teus fantsticos talentos artsticos e a criares obras-primas que os teus amigos crioulos lutariam por 
adquirir.
Manteve-se junto da janela com Pearl ao colo. Ela sentia-se intrigada e fascinada pela vista. Por baixo de ns, os operrios da construo haviam iniciado o trabalho 
de limpeza. O vento trazia-nos as suas vozes e risos.  distncia, os canais que se entrelaavam atravs dos pntanos na direco de Houma e da minha cabana pareciam 
irreais, meros brinquedos.
               Avistei os pssaros voando de rvore em rvore, e  direita um pescador de ostras regressando a casa depois de um dia de apanha. Havia todo um reduto 
de imagens e ideias  escolha de um artista que quisesse embelezar a imaginao.
        - No podes ser feliz aqui, Ruby? - inquiriu Paul, suplicando com o olhar.
               - Quem no conseguiria ser feliz aqui, Paul?  algo que se situa para l das palavras. Sabes, porm, o que me tem levado a hesitar - repliquei quase 
num sussurro.
               -
                E sabes que pensei em tudo com o mximo cuidado e arranjei uma forma de estarmos juntos sem pecar. Oh, Ruby. No temos culpa que os nossos pais nos 
tivessem criado com esta mancha de impureza na mente. Apenas quero zelar por ti e pela Pearl e dar-vos felicidade e segurana para sempre.
               - Mas... Paul, h um lado da vida que eliminarias para ti - lembrei-lhe. - s um homem, um belo homem cheio de juventude e virilidade.
        - Estou disposto a faz-lo - apressou-se a vincar.
               Baixei os olhos. Tinha de confessar os meus verdadeiros sentimentos.
               - Ignoro se estarei disposta a faz-lo, Paul. Sabes que estive apaixonada, loucamente apaixonada, e experimentei o xtase resultante de tocar em algum 
que amamos e algum que nos ama.
               - Sei - anuiu tristemente. - Mas no te peo que abdiques desse xtase.
               - O que pretendes implicar? - redargui, erguendo bruscamente os olhos.
               - Estabeleamos um pacto: se um de ns encontrar algum com quem possa viver esse xtase, o outro no obstruir o caminho, mesmo que tal implique... 
a separao.
               "Entretanto, Ruby, volta a aplicar toda a tua paixo na arte. Pelo meu lado, dedicar-me-ei ao trabalho e  minha ambio para todos ns. Deixa-me 
dar-te o que, sem este seno, seria o mais perfeito dos mundos, um mundo em que sabes que ters amor e em que a Pearl gozar de segurana e conforto, longe da infelicidade 
que vemos atingir tanta gente nas famlias a que chamamos normais - suplicou.
        Pearl fitou-me, como que unindo-se quela splica, com uma expresso terna e tranquila nos olhos cor de safira.
        - No sei, Paul.
        - Podemos amparar-nos. Podemos dar calor um ao outro. Podemos ajudar-nos mutuamente... para sempre. Passaste por mais tragdia e infelicidade do que algum 
da tua idade deveria ter sofrido. Por esse motivo, s mais velha do que os anos que tens. Deixa que a sabedoria substitua a paixo. Deixa que a lealdade, a dedicao 
e a pura bondade sejam os alicerces das nossas vidas. Juntos, criaremos o nosso mosteiro especial.
        Fitei-o nos olhos e deparei com uma expresso sincera. Era tudo to irresistvel: a sua devoo, aquela casa maravilhosa, a promessa de uma vida segura e 
feliz depois de haver vivido toda a tristeza que ele mencionara.
        - E os teus pais, Paul? - perguntei, sentindo-me arrastada para um "sim".
        - O que tm eles? - replicou bruscamente. - Criaram-me no embuste. O meu pai aceitar a minha deciso e, se no o fizer... o que tem? Agora, sou dono da 
minha fortuna - acrescentou, ao mesmo tempo que os olhos se estreitavam e escureciam.
        Abanei a cabea, confusa. Lembrava-me do amargo aviso da grandmre Catherine quanto a separar um homem cajun da famlia. Paul pareceu escutar o meu pensamento 
e descontraiu-se.
        -
         Escuta - pediu. - Falarei com o meu pai e vou mostrar-lhe por que razo se trata de uma boa deciso para ns os dois Quando ele perceber que a escolha  
positiva, compreender.
        Mordi o lbio inferior e ia a abanar a cabea numa recusa.
        - No digas sim, nem no - apressou-se a replicar. - Diz que vais pensar, pensar seriamente no assunto. Perseguir-te-ei para sempre, Ruby Dumas, at te tornares 
Ruby Tate - afirmou, virando-se em seguida a fim de mostrar a paisagem a Pearl.
        Recuei e observei-os. "Ele daria um pai maravilhoso", voltei a pensar. "Talvez seja chegada a altura de tomar uma deciso em beneficio da Pearl e no apenas 
de mim."
        Percorri com o olhar o que seria um estdio fantstico, imaginando onde colocaria as minhas mesas e prateleiras. Quando me virei para trs, ele e Pearl fitavam-me.
        - Pode finalmente ser "sim"? - inquiriu, ao deparar com a expresso do meu rosto.
        Esbocei um aceno de cabea e ele inundou de beijos a carinha de Pearl, fazendo-a rir.
        O crepsculo baixara j sobre o bayou quando regressmos  minha casa. As barbas-de-velho que se estendiam sobre os ciprestes e salgueiros ofereciam uma 
viso agradvel e perturbante. Atravessmos as sombras lanadas pelas rvores que pendiam sobre a gua e o movimento suave do barco embalou Pearl at a adormecer. 
Tudo era realmente maravilhoso ali, pensei. Pertencamos quele lugar e se tal significava viver com Paul ao abrigo do nosso acordo especial, talvez fosse isso o 
que o destino me reservava, a mim e a Pearl.
        - Tenho de ir jantar a casa - anunciou Paul, quando chegmos ao cais e nos ajudou a sair do barco. - O tio John, o irmo da minha me, chegou de Clearvater, 
na Florida, e prometi que estaria presente - declarou num tom de desculpa.
        - Est bem. Sinto-me cansada e esta noite quero deitar-me cedo.
        - Apareo assim que puder, amanh. Esta noite, se conseguir uma hora com o meu pai a ss, falo-lhe da nossa deciso - acrescentou firmemente.
        O corao comeou a bater-me com fora no peito. Uma coisa era conversar de tudo aquilo e outra era dar, de facto, incio  srie de acontecimentos que nos 
tornaria marido e mulher.
        - Espero que seja a deciso certa, Paul - retorqui.
        - Claro que . Deixa de te preocupares. Seremos muito felizes - prometeu e inclinou-se para me beijar na face. - Alm disso, Deus deve-nos um pouco de felicidade 
e sucesso - acrescentou com um sorriso.
        Fiquei a acenar-lhe, enquanto ele se afastava no barco. Depois, dei de comer a Pearl e deitei-a, comi um pouco de gumbo, li  luz do candeeiro a petrleo 
e fui dormir, rezando para que a sabedoria se encarregasse das decises certas.
        As manhs comeavam para mim exactamente da mesma maneira como no tempo em que vivera ali com a grandmre Catherine. Depois de levar l para fora as mantas, 
cestos e chapus de palmito que tecera na sala do tear, punha Pearl no carrinho,  sombra, junto  banca  beira da estrada e bordava para passar o tempo e esperar 
por clientes.
        
        Estava uma manh calma; uma meia dzia de carros j havia parado, e  hora do almoo j vendera a maior parte das mantas e cestos. Tivera apenas alguns clientes 
para o meu gumbo e, em seguida, a tarde tranquila e quente instalara-se sobre o bayou. Quando os insectos comearam a incomodar Pearl, resolvi que chegara a altura 
de fazer um intervalo e levei-a para a cabana, a fim de que dormisse a sesta. Esperara que Paul aparecesse durante o almoo; mas a meio da tarde continuava sem dar 
sinal.
        Preparei um pouco de limonada fresca e sentei-me na varanda da frente, a pensar no passado. No bolso, conservava amarrotada a carta mais recente da minha 
irm gmea, Gisselle. Frequentava um luxuoso colgio privado de Nova Iorque, que mais parecia um abrigo para jovens ricas e mimadas do que um estabelecimento de 
ensino superior. As professoras, segundo o que escrevia, desculpavam-na quando no lia, no apresentava os trabalhos de casa ou no prestava ateno nas aulas. Gabava-se 
mesmo de como faltava frequentemente s aulas sem que a repreendessem.
        No entanto, em todas as cartas, adorava incluir algumas notcias sobre Beau e, ainda que elas me fossem dolorosas, tinha de l-las repetidas vezes. Desdobrei 
a carta e dediquei-me a essas passagens. "Pode interessar-te saber", escrevia, consciente de quanto eu desejava saber... que o Beau est a levar mais a srio a sua 
ligao com esta rapariga, na Europa. Os pais dele disseram  Daphne que o Beau e a sua debutante francesa se encontram a pouca distncia de anunciarem um noivado 
formal. No se cansam de a elogiar, de como  bonita, de como  rica, de como  culta. Afirmaram que a melhor coisa que poderiam ter feito por ele fora mand-lo 
para a Europa e mant-lo l.
Agora, deixa-me falar-te dos rapazes aqui em Gallier...
        
        Fiz uma bola com a carta e voltei a met-la no bolso. As recordaes de Beau pareciam ainda mais fortes, agora que estava a pensar casar com Paul e optar 
por uma vida confortvel e segura. Afigurava-se, contudo, uma vida sem paixo e, sempre que reflectia nisso, pensava em Beau. O seu terno sorriso desenhou-se na 
minha frente e recordei a manh em que Gisselle e eu estvamos de partida para Greenwood, o colgio particular em Baton Rouge. Ele chegara mesmo  hora e s tivramos 
uns minutos para as despedidas, mas surpreendeu-me ao dar-me o medalho que ainda conservo escondido debaixo da blusa.
        Tirei-o para fora e abri-o, a fim de contemplar o rosto dele e o meu. "Oh, Beau", pensei. "Decerto nunca amarei outro homem to apaixonadamente como te amei, 
e, se no pude ter-te, talvez uma vida feliz e segura com o Paul seja a escolha certa." A sensao de lgrimas quentes nas faces surpreendeu-me. Limpei-as rapidamente 
e voltei a sentar-me no preciso momento em que um enorme automvel conhecido estacionava no ptio. Era Octavous, o pai de Paul. Fechei o medalho e enfiei-o de 
novo a toda a pressa por baixo da blusa, onde ficou entre os seios.
        
        Mr. Tate, um homem alto e de aspecto distinto que se apresentava sempre bem vestido e altivo, desceu do carro. Vi-lhe os ombros descados, como os de um 
velho cansado; o olhar tambm era triste. Paul fora buscar a sua beleza ao pai, dono de uma boca e maxilar de traado firme e um nariz aquilino, sem ser grande ou 
pequeno de mais. H j algum tempo que no via Mr. Tate e fiquei um pouco surpreendida ao verificar como tinha envelhecido entretanto.
        - Boa tarde, Ruby - cumprimentou, quando chegou aos degraus. - Queria saber se seria possvel falar-te em privado.
        O corao ameaava saltar-me do peito. No me lembrava de termos trocado mais de meia dzia de palavras ao longo dos anos, na sua maioria saudaes e despedidas 
junto  igreja.
        - Com certeza - acedi, levantando-me. - Vamos l para dentro. Quer um copo de limonada? Acabei de preparar um jarro.
        - Sim, obrigado - agradeceu, seguindo-me at ao interior da casa.
        - Sente-se, por favor - convidei, esboando um aceno de cabea na direco da minha nica pea de mobilirio em bom estado: a cadeira de balouo.
        Servi-lhe o copo de limonada e regressei  sala de estar.
        - Obrigado - agradeceu, pegando no copo, enquanto me sentava diante dele no desbotado sof castanho, to desfiado nos braos que j deixava ver a esponja 
que o forrava. - Muito boa - elogiou, depois de beber um gole de limonada. Olhou nervosamente em volta por um momento e sorriu. - No tens muita coisa, Ruby, mas 
mantns tudo em ordem - observou.
        - No tanto como a grandmre Catherine o fazia - repliquei.
        - A tua grandmre era uma mulher de fibra. Devo confessar que nunca fui muito dado  cura pela f nem aos remdios de ervas que ela preparava, mas conheo 
muitas pessoas que confiavam muito nela. E se algum conseguia enfrentar o teu grandpre era ela - acrescentou.
        - Sinto muito a falta dela - admiti. Ele esboou um aceno de cabea e bebeu mais um gole de limonada, aps o que respirou fundo.
        -Acho... acho que estou um pouco nervoso. O passado tem artes de voltar e dar-nos um murro no estmago, por vezes quando menos se espera - retorquiu. Inclinou-se 
para a frente, fixando-me com um olhar duro e penetrante.
        "s a neta da Catherine Landry - prosseguiu -, e tu prpria sofreste muito. Consigo ver no teu rosto que s muito mais velha e experiente do que a bonita 
rapariguinha que eu costumava ver caminhar at  igreja ao lado da sua av.
        - O passado deu-nos um murro no estmago a ambos - redargui e detectei-lhe um brilho mais vivo no olhar.
        - Sim. Bom, nesse caso compreenders porque  que no quero usar de subterfugios. Conheces um pouco do que aconteceu no passado e tens provavelmente algumas 
ideias a meu respeito. S a mim me critico por isso. H vinte e um anos, eu era o que poderia chamar-se um homem muito jovem e emproado. No estou aqui para justificar 
nem arranjar desculpas - apressou-se a vincar. - O que fiz foi errado e tenho-o pago de uma forma ou outra toda a minha vida.
        "Mas a tua me... a Gabrielle... era uma jovem mulher muito especial. - Abanou a cabea e sorriu ante a recordao. - Dado ser a filha da tua grandmre, 
costumava pensar que ela era uma das deusas do pntano sobre quem os velhos murmuravam e em quem metade dos cristos acreditava, apesar de tudo. Dava a sensao 
de que era impossvel chegar junto dela, surpreend-la... sem que se desse pela sua beleza... a sua beleza to espiritual. Sei que te  difcil compreender algo 
sobre uma mulher que nunca conheceste, mas ela era assim.
        
        No fundo do corao, senti que se formavam ondas de medo. Por que razo me dizia tudo aquilo agora!
        - Sempre que a via - continuou -, sentia um baque no corao e apetecia-me andar nos bicos dos ps  volta dela. Quando ela me olhava... assemelhava-se quela 
criatura grega... sabes, aquele querubim de arco e flecha.
        - O Cupido?
        - Sim, o Cupido. Eu era casado, mas ainda no tnhamos filhos. Tentei amar a minha mulher. Tentei mesmo - afirmou, erguendo a mo -, mas era como se a Gabrielle 
lanasse feitios ou coisa assim. Um dia, eu avanava sozinho com o barco, varejando pelo meio do pntano quando, ao descrever uma curva, a avistei nadando completamente 
nua. Pensei que o tempo havia parado. Fiquei paralisado e sustive a respirao. No conseguia desviar o olhar dela. Tinha uns olhos jovens e felizes e riu quando 
deu pela minha presena. Fui incapaz de me dominar. Desfiz-me das roupas o mais depressa que consegui e mergulhei na gua. Nadmos lado a lado, salpicando-nos de 
gua um ao outro e atormentando-nos com um abraar e largar dos corpos. Segui-a para fora de gua at  canoa dela e a...
        "Bom... O resto j sabes. Admiti francamente o que tinha feito, mal se revelou. O teu grandpre Jack veio no meu encalo
        "A Gladys ficou, obviamente, arrasada. Sucumbi, chorei e implorei-lhe que me perdoasse. Acabou por no o fazer, mas comportou-se de uma forma mais digna 
do que alguma vez julguei possvel. Resolveu que imaginariamos que a criana era dela e deu incio a um elaborado embuste, fingindo-se grvida.
        "O teu grandpre no ficou satisfeito com o pagamento inicial. Continuou a vir procurar-me de tempos a tempos, exigindo mais, at que coloquei ponto final 
no assunto. Nessa altura, o Paul era um rapazinho e apercebi-me de que ningum acreditaria numa histria contada pelo Jack Landry. Deixou de me importunar e tudo 
acabou ali.
        "Claro que, desde ento, passei a maior parte da minha vida a tentar compensar a minha mulher. A Gladys nunca permitiu que o Paul pensasse que ela era outra 
coisa que no sua me e, at saber a verdade, o Paul apenas sentiu um amor filial por ela. Estou certo disso. De facto, vou ao ponto de dizer que ele ainda nutre 
esse sentimento pela Gladys. S que s vezes  um jovem terrivelmente confuso. J tivemos as nossas discusses a esse respeito e pensei que ele compreendia, aceitava 
e at perdoava.
        Fez uma pausa e, ansiosamente, de olhos semicerrados, ficou  espera que eu digerisse o relato.
        -  muito para se pedir a algum que perdoe, sobretudo o Paul - observei. Os lbios dele retesaram-se por um instante e depois esboou um aceno de cabea, 
como que a confirmar uma ideia a meu respeito.
        - Tenho de confessar que quando fugiste para Nova Orlees me senti feliz - continuou. - Julguei que ele comeasse a procurar uma bonita jovem para sua mulher 
e o turbilho findasse, mas... voltaste e na noite passada... na noite passada, veio ter comigo e ps-me a par da vossa deciso. Durante todo o tempo em que se ocupou 
da construo dessa manso, receei algo do gnero, mas esperava ter-me enganado.
        Recostou-se, momentaneamente esgotado.
        -
         O nosso plano reside em vivermos juntos, lado a lado - repliquei num tom suave. - De qualquer maneira, h muita gente por aqui a pensar que a Pearl  filha 
do Paul.
        - Eu sei. A prpria Gladys o receou durante um tempo at o Paul explicar o que se passara. Agora ela encontra-se em profunda depresso. Ambos desejamos o 
melhor para o Paul - prosseguiu, voltando a sentar-se, direito. - Queremos que tenha uma vida normal, que tenha as coisas que competem a
qualquer homem, sobretudo filhos dele. No me parece que ele se aperceba do que est a propor-te.
        "Em resumo, Ruby, vim aqui para interceder a favor do meu filho. Vim aqui para pedir que recuses casar com ele. No
h necessidade de que ele pague pelos pecados do pai. Talvez, por esta nica vez, o filho no seja obrigado a ter os erros e a dor do pai pendentes sobre a sua cabea. 
Podemos mudar tudo isso, impedir que acontea, se o afastares. Depois, ele assentar e casar com qualquer bonita rapariga e...
        - A ltima coisa que quero neste mundo  magoar o Paul, Mister Tate - garanti, com as lgrimas a carem-me pelo rosto. No fiz qualquer esforo para as limpar 
e escorreram-me pelo queixo.
        - Tambm fao este pedido pela minha mulher. No quero que ela sofra mais. Parece que este pecado que cometi no morre. Voltou a erguer a sua horrvel cabea 
para me atormentar, mesmo vinte e um anos depois. - Endireitou-se no assento. - Estou disposto a oferecer-te alguma segurana, Ruby. Posso dar-te o que precisas, 
at encontrares outro jovem e...
        - No! - gritei. - No me oferea um suborno, Mister Tate. D a sensao de que todos querem comprar os seus problemas neste mundo, quer se trate de crioulos 
ricos ou cajuns ricos, que todos pensam que o dinheiro tem o poder de remediar todos os erros. Estou a aguentar-me perfeitamente e em breve herdarei dinheiro da 
herana do meu pai.
        - Desculpa - pediu num sussurro. - Apenas pensei que...
        - No o quero.
        Virei costas, e um pesado silncio caiu entre ns.
        - Peo-te pelo meu filho - declarou em voz baixa. Fechei os olhos e tentei engolir, mas tinha um n na garganta. Era como se j tivesse engolido uma pequena 
pedra que se entalasse no meu peito. Esbocei um aceno de cabea.
        - Direi ao Paul que no posso faz-lo - prometi -, mas no sei se consegue entender quanto ele o deseja.
        - Compreendo. Estou preparado para fazer tudo ao meu alcance que o ajude a ultrapassar a situao.
        - No se oferea para lhe comprar nada - avisei, de olhos chispantes e ele pareceu encolher-se na cadeira de balouo. - O Paul no  como o grandpre Jack.
        - Eu sei - disse e acrescentou, passado um momento: - Tenho mais um favor a pedir-te.
        - O que ? - quis saber, fervilhando de raiva como leite a ferver numa cafeteira.
        - Por favor, no lhe contes que vim aqui, hoje. Tive de o mandar fazer um recado que o afastasse destas bandas para te poder visitar sem que ele o soubesse. 
Se descobrisse...
        - No lhe contarei - retorqu.
        - Obrigado - agradeceu, levantando-se. - s uma jovem fantstica e muito bonita tambm. Tenho a certeza de que um dia encontrars a felicidade, e se houver 
algo que precises, algo que possa fazer por ti...
        -
         No h nada - interrompi, bruscamente. Ele detectou a fria estampada nos meus olhos, e o sorriso desvaneceu-se.
        - Tenho de ir andando - declarou.
        No me levantei. Deixei-me ficar sentada, de olhos postos no cho, at o ouvir sair, ligar o motor do carro e afastar-se. Depois atirei-me para cima do sof 
e chorei at me secarem as lgrimas.
        

2

UMA QUESTO POR RESOLVER
        
        Quando Pearl acordou da sesta, dei-lhe um bibero e levei-a outra vez l para fora. Sentei-me junto  banca da estrada, atenta  possibilidade de negcio 
ao fim da tarde. Houve muita actividade durante cerca de uma hora e depois a estrada ficou calma e vazia, enquanto o poente estendia as suas longas sombras sobre 
o alcatro, num correr do reposteiro sobre o dia.
        Tinha o corao pesado. A visita de Mr. Tate lanara uma profunda tristeza sobre tudo. Era como se Pearl e eu no tivssemos casa. No pertencamos ao bayou 
e no pertencamos a Nova Orlees, mas achava que ainda seria pior viver aqui, depois de ter repelido Paul. Sempre que ele me visitasse, se  que desejaria faz-lo, 
existiria esta tempestade de tristeza pendente sobre as nossas cabeas.
        "Talvez Mister Tate tenha razo", pensei. Talvez depois de ter recusado Paul, ele encontrasse outra pessoa, mas mesmo que tal fosse uma fraca possibilidade, 
sabia que teria muito mais hiptese de se concretizar se Pearl e eu desaparecssemos realmente da vida dele. Depois de se aperceber de que o nosso casamento e vida 
em comum era impossvel, poderia procurar a felicidade noutro lado.
Mas para onde iramos? O que faramos?, interroguei-me. No tinha outros parentes a quem pudesse recorrer. Transportei Pearl para dentro de casa e levei o que restava 
na banca, tentando desesperadamente pensar em qualquer tipo de futuro para ns. Por fim, tive uma ideia. Resolvi engolir o orgulho, sentei-me  mesa e escrevi uma 
carta a Daphne.

"Cara Daphne,
               Estive sem lhe escrever durante todo este tempo, porque no me passou pela cabea que lhe interessasse ter notcias minhas. Longe de mim afirmar que 
no tenha ficado perturbada por saber que eu estava grvida do Beau. Tenho idade suficiente para tomar conscincia que devo ser responsvel pelos meus actos, mas 
era incapaz de ir por diante com o aborto que me propusera e, agora que tenho a minha filha, a quem chamei Pearl, sinto-me feliz por no o haver feito, embora saiba 
que as nossas vidas sero dificeis.
               Julguei que se regressasse ao bayou, ao mundo onde crescera e fora feliz, tudo correria bem e no representaria um problema para ningum e muito menos 
para a Daphne. Nunca nos entendemos enquanto o meu pai foi vivo e no prevejo que a situao venha a mudar.
               No entanto, as circunstncias aqui no se processam como imaginei e cheguei  concluso de que no posso permanecer. Contudo, fique tranquila. No 
estou a pedir-lhe que me aceite de novo. Peo-lhe apenas que me d parte da minha herana agora, para que possa construir uma vida para mim e para a minha filha 
noutro lugar... no em Nova Orlees, nem to-pouco no bayou. No ir dar-me nada que no me pertena; apenas mo dar mais cedo. Estou certa de que concordar em 
que o meu pai desejaria que o fizesse.
               
               Por favor; tome este assunto em considerao e informe-me assim que puder. Garanto-lhe que, mal o faa, pouco ou nenhum contacto teremos.
Cumprimentos,
Ruby".
        
        Enquanto endereava a carta, ouvi um carro a parar junto da minha casa. Parei de escrever e apressei-me a esconder a carta no bolso do vestido.
        - Ol - saudou Paul. - Desculpa no ter chegado mais cedo, mas um recado levou-me at Breaux Bridge. Que tal foi o teu dia? Agitado?
        - Um pouco - respondi, baixando o olhar, mas era tarde de mais.
        - Passa-se alguma coisa - retorquiu. - O que ?
        - Paul - comecei, depois de respirar fundo. - No podemos faz-lo. No podemos casar e viver em Cypress Woods. Pensei e repensei no assunto e sei que  impossvel.
        - O que te levou a mudar de opinio? - perguntou, com um esgar de surpresa e desapontamento. - Ontem, estavas to feliz, na casa. Era como se uma nuvem tivesse 
deixado de te ensombrar o rosto - recordou-me.
- Estavas certo quanto a Cypress Woods. A casa e a propriedade emanam magia. Foi como se tivssemos entrado num mundo de fantasia e, por momentos, deixei-me convencer. 
Ali foi fcil fingir e ignorar a realidade.
        - E ento? E o nosso mundo. Posso torn-lo to maravilhoso quanto um mundo de fantasia. E desde que no magoemos ningum...
        - Mas estamos a magoar algum, Paul. Estamos a magoar-nos um ao outro - vinquei, num tom triste.
        - No - retorquiu, mas sabia que tinha de falar depressa e bruscamente, ou romperia em lgrimas.
        - Estamos, sim. Podemos fingir. Podemos fazer promessas. Podemos fazer acordos especiais, mas o resultado  o mesmo... estamos a condenar-nos a uma vida 
contra a natureza.
        - Contra a natureza... estar com algum que se ama e se deseja proteger e...
        - E que nunca se abraar com paixo, de quem nunca se ter filhos, sem jamais revelar a verdade... Nunca poderemos contar  Pearl com medo das consequncias. 
Sou incapaz.
        - Claro que poderemos contar-lhe quando tiver idade para entender - corrigiu. - E ela entender. Ouve, Ruby...
        - No, Paul. Eu... no acho que consiga fazer os sacrificios de que tu te julgas capaz - conclu.
        Fixou-me por um momento de olhos semicerrados e com um brilho de suspeita.
        - No te acredito. Aconteceu qualquer coisa. Algum te falou. Quem foi? Uma das amigas da tua grandmre Catherine? O padre? Quem?
        - No - ripostei. - Ningum falou comigo, excepto se a minha prpria conscincia tambm contar. - Tive de desviar o rosto. No conseguia aguentar a dor que 
os olhos dele reflectiam.
        -Mas... Tive uma conversa com o meu pai na noite passada e, depois de lhe explicar tudo, ele concordou e deu-me a sua aprovao. As minhas irms nada conhecem 
do passado; por isso, ficaram contentssimas ao saber que serias minha mulher e a nova irm delas. E at mesmo a minha me...
        -
         O que h quanto  tua me, Paul? - inquiri num tom spero. Ele fechou e abriu novamente os olhos.
        - Aceitar - prometeu.
        - Aceitar no  aprovar - ripostei, abanando a cabea e disparando as palavras como se fossem balas. - Se aceitar,  porque no quer perder-te - salientei. 
- De qualquer maneira, a deciso no  dela.  minha - acrescentei um pouco mais rispidamente do que era minha inteno.
        Paul empalideceu.
        -Ruby... a casa... tudo o que tenho...  apenas para ti. Nem sequer quero saber de mim... para ti e para a Pearl.
        - Tens de preocupar-te contigo, Paul. Devias faz-lo. E errado da minha parte ser egosta ao ponto de te negar um casamento normal e uma famlia normal.
        - Mas cabe-me a mim decidir - protestou.
        - Ests demasiado... confuso para tomar a deciso certa - redargui, desviando o olhar.
        - Reflecte melhor no assunto - suplicou e esboou um aceno de cabea, convencendo-se de que ainda havia esperana.
-        Volto amanh para falarmos outra vez no assunto.
        - No, Paul. J decidi. No vale a pena estarmos sempre a falar no mesmo. Sou incapaz de aguentar. Incapaz - gritei, chorosa e virando-lhe as costas. Pearl, 
sentindo a infelicidade que se gerara entre ns, ps-se tambm a chorar. -  melhor ires embora - disse. - O beb est a ficar perturbado.
        -Ruby...
        - Por favor, Paul. No tornes isto ainda mais difcil do que tem de ser.
        Dirigiu-se  porta, mas deixou-se ficar na ombreira, a olhar l para fora.
        - Durante todo o dia andei como se estivesse nas nuvens - confessou. - Nada podia fazer-me infeliz.
        Embora me sentisse muito mal, consegui recompor-me.
        - Voltars a sentir-te assim, Paul - garanti. - Tenho a certeza.
        - No, no voltarei - retorquiu, virando-se para mim com os olhos cheios de dor e raiva. Tinha as faces to vermelhas que parecia um turista do Norte, queimado 
do sol. - Juro que nunca mais olharei para outra mulher. Nunca mais beijarei outra mulher. Nunca mais abraarei outra mulher. - Ergueu o punho direito e agitou-o 
na direco do tecto. - Farei os mesmos votos de castidade que o nosso padre e transformarei aquela manso num santurio. Ali viverei sozinho para sempre e ali morrerei 
sem ningum ao meu lado, ningum exceptuando a tua recordao - acrescentou, depois do que abriu a porta, atravessou a varanda a correr e transps os degraus.
        - Paul! - gritei.
        No conseguia v-lo to irritado e magoado. Mas ele no voltou. Ouvi-o ligar o motor, e os pneus chiaram quando partiu a toda a velocidade, de corao despedaado.
        Dava a sensao de que conseguia magoar todos em que tocava. Teria eu nascido para provocar dor aos que me amavam?
Engoli as lgrimas para que Pearl no ficasse triste, mas sentia-me como uma ilha rodeada de um mar encapelado. Agora no tinha realmente ningum.
        
        Quando o corao acalmou, comecei a preparar o jantar. A minha filha pressentiu a minha infelicidade, apesar das minhas tentativas de a dispersar com o trabalho. 
Sempre que falava, ela ouvia-a na minha voz e, ao fit-la, divisava a tristeza nos meus olhos.
        Enquanto o caldo fervia, sentei-me com ela na cadeira de balouo da grandmre Catherine, observando o retrato. Os rostos da grandmre Catherine e da minha 
me pareciam ambos tristes e compreensivos. A recordao muito viva da perturbao de Paul pairava  minha volta, semelhante a tempestade. Sempre que olhava para 
a porta, via-o de p, olhando para trs e proferindo as suas juras e ameaas. Por que razo estava a magoar a nica pessoa que queria amar-me e dar ternura a mim 
e  minha filha? Onde  que voltaria a encontrar tal afecto?
        - Estou a agir devidamente, grandmre? - sussurrei, mas apenas me respondeu o silncio e Pearl estalou os lbios.
        Dei-lhe de comer, mas o apetite dela era to reduzido quanto o meu. Chupou apenas um pouco do bibero e, enquanto o fazia, fechava os olhos inmeras vezes. 
Era como se estivesse to emocionalmente exausta quanto eu, como se cada sentimento, cada emoo passasse de mim para ela atravs dos fios invisveis que ligavam 
me e filha.
        Resolvi lev-la para cima e met-la na cama; acabara de me levantar para o fazer, quando ouvi o rudo de um carro a aproximar-se. Os faris varreram a casa, 
depois parou e ouvi o abrir e fechar de uma porta. Paul teria voltado com novos argumentos? Mesmo que assim fosse, no vacilaria na minha deciso, pensei.
        Os pesados passos no cho, l fora, indicaram-me, todavia, que se tratava de outra pessoa. Soaram fortes pancadas na porta que fizeram com que toda a cabana 
abanasse nas suas finas estacas de madeira. Avancei devagar da cozinha e o corao ps-se a bater-me no peito com quase tanta fora como aquelas pancadas.
        - Quem ? - perguntei.
        Pearl tambm olhou, curiosa, na direco da porta. Em vez de responder, o visitante empurrou to bruscamente a porta que quase a arrancou dos gonzos. Vi 
entrar um homem enorme, com o cabelo castanho e hirsuto chegando-lhe ao pescoo sujo e volumoso. As mos eram imensas, com dedos cobertos de gordura e fuligem. Quando 
ficou sob a luz do candeeiro a petrleo, soltei uma exclamao abafada.
        Embora o houvesse encontrado uma nica vez depois de apenas o ter visto umas escassas vezes antes, o rosto de Buster Trahaw ficara-me na memria ao lado 
dos meus piores pesadelos. Estava ainda mais feio do que no dia em que viera l a casa com o grandpre Jack para firmarem o acordo de que nos casaramos, se ele 
desse mil dlares ao meu av. Pior ainda, este permitiria que ele dormisse comigo antes, para me testar, como se eu fosse qualquer pea de mercadoria.
        Recordava-me dele como um homem de trinta e tal anos, alto e robusto, com uma faixa de gordura  volta do estmago e dos lados, que fazia com que parecesse 
usar um tubo por baixo da camisa. Agora estava ainda mais gordo, e os traos faciais, distorcidos pelo peso, davam-lhe ares do cruzamento entre um porco e um homem. 
E usava alm disso uma barba encaracolada e por aparar  roda do queixo com plos esparsos e unidos no pescoo, tornando-o igualmente semelhante a um macaco.
        
        Quando sorria, os lbios grossos quase desapareciam sob o bigode e plos do queixo, revelando a falta da maioria dos dentes da frente. Os que restavam estavam 
manchados de tabaco de mascar, fazendo com que a boca se assemelhasse a um forno imundo. A pele na parte visvel das faces era escamosa, assemelhando-se  de uma 
cobra. Das narinas enormes saam plos finos, e as sobrancelhas uniam-se numa linha grossa e escura sobre os olhos castanhos e desorbitados.
        -  verdade! - exclamou. - Voltaste. Os Sater informaram-me quando trouxe o meu camio para reparar.
        Inclinou-se para trs, abriu um pouco a porta e cuspiu um bocado de tabaco de mascar. Depois continuou a mirar-me com um enorme sorriso.
        - O que deseja? - inquiri, apertando Pearl com fora nos braos. Ela ps-se a choramingar baixinho, como um cachorrinho, ao v-lo.
        - O que desejo? - replicou, ao mesmo tempo que o sorriso desaparecia. - No sabes quem sou? Sou o Buster Trahaw
e desejo o que me pertence,  isso - vincou, avanando uns
passos. Recuei outros tantos. -  essa a tua criana?  um
doce. Com que ento andaste a fazer bebs sem mim? - acrescentou e soltou uma risada. - Pois isso acabou.
        Senti-me sem pinga de sangue quando deixou bem claras as suas intenes.
        - Do que est para a a falar? Saia. No o convidei para a minha casa. Saia ou...
        - Eh! Esqueces-te do que me pertence?
        - Ignoro do que est a falar.
        - Estou a falar do acordo que fiz com o teu grandpre Jack, do dinheiro que lhe dei na noite antes de fugires. Deixei que o guardasse, porque ele disse que 
voltarias. Sabia, claro, que ele era um velho mentiroso, mas calculei que o dinheiro estava gasto e bem gasto. Disse com os meus botes: "A tua altura chegar, Buster." 
E chegou mesmo, hem?
        - No - ripostei. - No fiz acordos consigo. Agora, saia.
        - No sarei sem ter o que me pertence. O que tem de to estranho? Fazes bebs sem um marido ao teu lado, no  verdade? - replicou com aquele sorriso desdentado.
        -Saia! - gritei.
        Pearl ps-se a chorar. Ia a virar as costas, mas Buster agiu rapidamente e agarrou-me o pulso.
        - Cuidado. No deixes cair o beb - avisou num tom de ameaa.
        Tentei manter o rosto afastado do dele. O hlito e o cheiro provenientes da roupa e do corpo bastavam para me dar a volta ao estmago. Comeou a desprender-me 
os braos de Pearl.
        - No! - opus-me, mas no queria que o beb se magoasse. Pearl gritou histericamente quando ele lhe rodeou a cintura com aquelas mos grandes e sujas.
        - Deixa-me pegar-lhe um instante, est bem? Tambm tenho filhos. Sei como se faz.
        De preferncia a lutar e a puxar Pearl entre ns, tive de solt-la.
        - No a magoe - supliquei. Ela chorava e estendia os braos na minha direco.
        - Ei, ento... ... o teu tio Buster - disse. - Bonita menina. Aposto que tambm vai dar cabo do corao de algum.
        - Por favor, devolva-ma - implorei.
        - Claro. O Buster Trahaw no faz mal a bebs. O Buster Trahaw faz bebs - replicou e riu da prpria piada.
        
        Voltei a pegar em Pearl e recuei.
        - Mete-a na cama - ordenou. - Temos negcios a tratar.
        - Por favor, deixe-nos ss... por favor...
        - No me vou embora sem ter o que vim procurar - insistiu. - Agora, vai ser difcl ou fcil? Para mim, pode ser das duas maneiras. Mas a verdade  que prefiro 
 bruta - redarguiu, voltando a sorrir. -  como lutar com um aligtor. - Avanou na minha direco, e eu soltei uma exclamao abafada. - Mete-a na cama, ou vai 
comear a ser j educada, ouviste?
        Engoli em seco. Era dficl respirar e no morrer asfixiada por tudo o que estava a acontecer.
        - Pe-na naquele sof - ordenou. - Vai chorar at adormecer, como a maioria dos bebs. Vai l.
        Fixei o sof e a porta; embora fosse estpido, teve senso bastante para prever a minha inteno e recuou para me impedir a fuga. Levei relutantemente Pearl 
at ao sof e deitei-a. Ela no parava de gritar.
        Buster agarrou-me no pulso e atraiu-me a si. Tentei resistir, mas assemelhava-se a suster a mar. Envolveu-me nos braos gigantescos, esmagando-me de encontro 
ao estmago e ao peito. Depois, beliscou-me o queixo com os dedos grossos e forou-me a erguer o rosto, de forma a poder pousar os lbios moles na minha boca. Sufocava 
sob aquela presso hmida, sustendo a respirao e tentando manter a conscincia. Temia que, se desmaiasse, ele me arrancasse a roupa e levasse a melhor.
        Fez descer a mo direita at abaixo da minha cintura; agarrou-me pelo traseiro, em concha, e ergueu-me, balanando-me nas mos, como se o meu peso fosse 
igual ao de Pearl.
        - Mas que bela pea de mercadoria temos aqui. O teu grandpre Jack tinha razo. Oh, se tinha...
        - Por favor - supliquei. - Perto da criana, no! Por favor.
        - Claro, querida. De qualquer maneira quero uma cama a srio para ns. Vai  frente e mostra o caminho at l acima.
        Virou-me bruscamente e empurrou-me para a cozinha e depois em direco  escada. Virei a cabea e fitei Pearl. Ela chorava a plenos pulmes e todo o corpinho 
lhe tremia.
        - V - ordenou Buster.
        Obedeci, enquanto procurava forma de me escapar. Pousei os olhos no caldo que deixara a ferver no fogo.
        - Espere - disse. - Tenho de desligar isto.
        - Ora a est uma boa mulher cajun - elogiou Buster. Sempre a pensar nos seus cozinhados. Depois, poderei provar um bocado do teu gumbo. Quando vou para 
a cama, fico sempre com uma fome de urso.
        Recuou para trs de mim. Sabia que dispunha apenas de uns segundos e que, se no os aproveitasse, estaria condenada a subir aquelas escadas. Uma vez l, 
estaria encurralada e  sua merc. Mesmo que pudesse atirar-me de uma janela no o faria, pois estaria a deix-lo a ss com Pearl. Fechei os olhos, rezei e agarrei 
com fora nas pegas da panela. Depois, virei-me o mais rapidamente que consegui e atirei o contedo a ferver  cara de Buster.
        
        Ele gritou e, encolhendo-me por baixo dos seus braos, disparei como uma seta para fora da cozinha. Agarrei em Pearl e precipitei-me pela porta da cabana, 
ao longo da varanda e pelos degraus. Corri pela noite sem olhar para trs. Escutei os seus gritos e pragas e ouvi-o aos tropees l dentro, derrubando cadeiras, 
partindo pratos e estilhaando o vidro de uma janela com raiva. Mas no parei. Continuei a correr atravs da escurido.
        Pearl ficou to chocada com a minha atitude que deixou de chorar. Contudo, tremia de medo, sentindo o palpitar do meu prprio corpo. Receei que Buster viesse 
atrs de ns, mas, ao ver que no o fazia, temi que se metesse no carro e nos perseguisse. Mantive-me, portanto, nas valas junto  berma da estrada, disposta a mergulhar 
nos arbustos e a esconder-me, mal avistasse faris de carro.
        Ignoro como consegui equilibrar-me e no cair com Pearl nos braos, mas tive a sorte de haver algum luar, espreitando para l das nuvens. Proporcionava-me 
luz suficiente para ver o caminho na minha frente. Por sorte, nunca avistei o carro. Cheguei a casa de Mrs. Thibodeau e bati com fora  porta da frente.
        - Ruby! - exclamou, mal me avistou com Pearl ao colo.
-        O que aconteceu?
        - Oh, Mistress Thibodeau. Ajude-nos, por favor. O Buster Trahaw acabou de tentar violar-me na minha casa - gritei. Ela abriu a porta e deixou-nos entrar 
de imediato, fechando-a  chave.
        - Senta-te ali na sala de estar - disse, plida ante o choque. - Vou buscar-te gua e depois telefono  Polcia. Graas a Deus que mandei instalar telefone 
no ano passado.
        Trouxe-me um copo de gua da cozinha e pegou em Pearl ao colo. Bebi o lquido fresco e recostei-me, de olhos fechados, com o corao a bater-me com tanta 
fora que julguei que Mrs. Thibodeau pudesse v-lo a subir e descer sob a blusa.
        - Pobre rapariga, pobre criana. Oh, meu Deus... O Buster Trahaw, disseste. Oh, meu Deus...
        Pearl deixou de chorar. Gemeu um pouco e depois fechou os olhos e adormeceu. Peguei-lhe novamente, enquanto Mrs. Thibodeau regressava  cozinha para chamar 
a Polcia. Pouco depois chegou um carro-patrulha e, quando os dois agentes entraram, descrevi o que me acontecera.
        - Temos mais do que uma queixa contra esse intil - declarou um dos polcias. - Deixe-se ficar aqui at voltarmos.
        No estava em condies de me mexer um centmetro que fosse. Cerca de uma hora depois, vieram informar-nos de que ainda o tinham encontrado na minha cabana. 
Causara alguns prejuzos e depois fora buscar uma garrafa de usque ao carro e sentara-se  espera do meu regresso. Pelo que contaram, fora necessrio chamarem mais 
dois colegas para os ajudar a dominar Buster.
        - Metemo-lo na cadeia, onde ele pertence - informou-me o polcia. - Mas ter de acompanhar-nos ao posto, a fim de apresentar queixa. Pode faz-lo agora ou 
de manh.
        - Ela est exausta - observou Mrs. Thibodeau.
        - Amanh, ento - anuiu o polcia. - De qualquer maneira, no deve querer voltar  sua casa, por agora - acrescentou, olhando para Mrs. Thibodeau. - Precisar 
de uns arranjos.
        - Oh, Mistress Thibodeau! - gemi. - Ele deu cabo da nica casa que tenho.
        -
         Ento, ento. Sabes que todos te ajudaremos a repar-la. No te preocupes. Agora, dorme um pouco para que a Pearl te veja fresca e alegre de manh.
        Esbocei um aceno de concordncia. Ela trouxe-me um cobertor e deitei-me no sof com Pearl nos meus braos. Julguei que seria incapaz de dormir, mas, mal 
fechei os olhos, o cansao apoderou-se de mim; depois do que me pareceram uns instantes, o sol da manh aquecia-me o rosto. Pearl gemeu, quando me mexi. Acordou 
totalmente, pestanejou e fitou-me. Ao compreender pelos meus olhos que estava a salvo, sorriu. Beijei-a e agradeci a Deus por termos escapado.
        Depois de Mrs. Thibodeau nos ter preparado o pequeno-almoo, deixei Pearl na sua companhia e fui a p  cidade, a fim de apresentar queixa no comissariado. 
No podiam ter sido mais simpticos. Arranjaram-me de imediato uma cadeira e certificaram-se de que estava bem instalada. Uma secretria trouxe-me caf.
        - No tem de preocupar-se a provar o que quer que seja - declarou o polcia que estava sentado  secretria. - O Buster no nega o que fez. Continua a queixar-se 
de que no obteve a recompensa pelo dinheiro que pagou. O que quer dizer com isso?
        Tive de contar-lhe o que o grandpre Jack fizera. Sentia-me envergonhada, mas era a minha nica sada. Todos os polcias que ouviram a histria esboaram 
um aceno de compreenso e repugnncia pelo sucedido. Infelizmente, alguns deles ainda se recordavam muito bem do grandpre Jack.
        - Ele e o Buster so feitos da mesma fibra - afirmou o polcia que estava sentado  secretria. Em seguida, recolheu o meu depoimento e disse-me que no 
me preocupasse. Buster Trahaw no voltaria a incomodar-me. Zelariam para que fosse
metido em algum lugar de que perderiam a chave. Agradeci-lhes e voltei para casa de Mrs. Thibodeau.
        
        Acho que o motivo por que algumas das pessoas do bayou ainda no tinham telefones nem televisores nas cabanas se devia a que as notcias viajavam quase to 
depressa como se eles existissem. Quando peguei em Pearl e me dirigi  nossa casa, havia cerca de uma dzia de vizinhos ocupados com ela. Tomado de raiva, Buster 
deitara abaixo a porta da frente e partira quase todas as janelas.
        Por milagre, a velha cadeira de balouo da grandmre Catherine sobrevivera, embora aparentemente ele lhe tivesse dado uns pontaps. O mesmo no aconteceu 
a duas das cadeiras da cozinha, que ficaram com as pernas partidas. Por sorte, comeara a beber antes de resolver subir ao andar de cima e, assim, no quebrara nada. 
Destrura, contudo, uma boa parte da minha cozinha. Depois de conhecidos os pormenores, os meus vizinhos providenciaram os arranjos.
        Ao chegar a casa, avistei Mr. Rodrigues a reparar a porta de entrada. Recordei-me de uma noite em que a grandmre Catherine fora chamada  casa dele para 
se ocupar de um couchemal, um esprito do mal que fica a pairar sempre que uma criana no batizada morre. Mostrou-se muito grato e, depois dessa noite, nunca se 
poupava a esforos para nos ajudar.
        
        L dentro, Mrs. Rodrigues e as outras mulheres andavam a limpar tudo. J haviam feito uma colecta para substituir os pratos e copos partidos. Antes da tarde, 
tudo se assemelhava a uma grande romaria, como aquelas em que um grupo de vizinhos ajuda a reparar um telhado, sucedendo-se depois uma festa em que todos trazem 
qualquer coisa. A bondade dos meus vizinhos fez com que as lgrimas comeassem a correr-me pelo rosto.
        - No, no chores, Ruby - pediu Mrs. Livaudis. - Estas pessoas recordam as coisas boas que a tua grandmre Catherine fez por elas e sentem-se felizes por 
poderem ajudar-te.
        - Obrigada, Mistress Livaudis - agradeci, e ela abraou-me, como as restantes mulheres, antes de se ir embora.
        - No me agrada deixar-te sozinha - declarou Mrs. Thibodeau. - Podem voltar para a minha casa, se quiseres.
        - Ficaremos bem agora, Mstress Thibodeau. Obrigada pela sua ajuda - repliquei.
        - A gente cajun no se magoa entre si - salientou Mrs. Thibodeau. - Esse Buster foi sempre um ovo podre, desde o dia em que o conceberam.
        - Eu sei, Mistress Thibodeau.
        - Mesmo assim, querida, no est certo que uma jovem como tu fique aqui sozinha nos pntanos com uma criana para criar. - Abanou a cabea e premiu os lbios. 
- Aquele que partilhou o prazer de a conceber devia igualmente partilhar as responsabilidades - acrescentou.
        - Eu fico bem, Mistress Thibodeau. A srio.
        - Espero que no te importes que diga o que penso, Ruby, mas sei que a tua grandmre iria querer que me preocupasse, e preocupo-me.
        Esbocei um aceno de cabea.
        - Bom,  tudo. J falei. Agora  contigo. Os tempos mudaram - continuou, abanando a cabea. - Os tempos e as pessoas. Boa noite, querida. - Abramo-nos 
e ela foi-se embora.
        Ao princpio da noite todos se haviam afastado e o ambiente voltou a acalmar-se. Deitei Pearl cantando-lhe baixinho, e depois desci para tomar um caf e 
sentar-me c fora. As palavras de Mrs. Thibodeau ecoaram novamente: sabia que se tratava de palavras no s pensadas por outras vizinhas, mas tambm ditas por elas 
nas minhas costas. O incidente com Buster Trahaw apenas contribura para que o assunto fosse muito mais verbalizado.
        Quando mudei de roupa, encontrei no bolso a carta que tinha escrito a Daphne. Agora, mais do que nunca, sentia que devia deit-la no correio. Voltei a casa, 
acabei de escrever a morada e sa novamente para a pr na caixa do correio, a fim de que o carteiro a recolhesse de manh. Sentei-me outra vez na varanda e senti-me 
finalmente descontrada.
        Contudo, momentos depois, um arrepio na nuca levou-me a tomar conscincia de que algum se encontrava por perto a observar. Senti um aperto no corao. Sustive 
a respirao e, ao virar-me, avistei a silhueta de algum recortada nas sombras. Soltei uma exclamao abafada, mas a pessoa deu rapidamente um passo em frente. 
Era Paul. Regressara de barco e viera a p do embarcadouro.
        - No era minha inteno assustar-te - replicou. - Queria esperar at todos se terem ido embora. Ests bem?
        - Sim. Agora.
        - Quanto tempo passou depois de me ter ido embora, antes de o Buster ter vindo atacar-te? - inquiriu, colocando-se mais sob o brilho da luz da varanda.
        - Oh, bastante - respondi. - Foi quase  hora do jantar.
        - Se estivesse aqui...
        -
         Podias ter-te ferido, Paul. Foi uma sorte ter conseguido escapar.
        - Podia ter-me ferido ou t-lo ferido - redarguiu, orgulhoso. - Ou... ele podia nem sequer aparecer - acrescentou. Sentou-se no degrau da varanda e encostou-se 
 coluna. Um momento depois, comentou: - Uma jovem e uma criana no deviam estar ss. - Era como se tivesse ouvido as palavras de Mrs. Thibodeau.
        -Paul...
        - No, Ruby - replicou, voltando-se na minha direco. Mesmo sob aquela luz escassa, conseguia detectar o brilho de determinao transmitido pelo olhar. 
- Quero proteger-te, a ti e  Pearl. No mundo que consideras pura magia, no terias de defrontar os tipos da laia do Buster Trahaw. Posso prometer-to. Nem to-pouco 
a Pearl - assinalou.
        - Mas no  justo para ti, Paul - ripostei num fio de voz cansado. Toda a minha resistncia se esvaa.
        Fitou-me um momento e depois esboou um vagaroso aceno de cabea.
        - O meu pai veio falar contigo, no foi? No precisas de responder. Sei que o fez. Li-lhe a verdade nos olhos, na noite passada ao jantar. Apenas se preocupa 
com o peso da prpria conscincia. Por que razo tenho de pagar pelos seus pecados? -        gritou, sem aguardar a minha resposta.
        - Mas  exactamente o que ele no quer que faas, Paul. Se casares comigo...
        - Serei feliz. No tenho poder de deciso sobre o meu futuro? - replicou. - E no venhas dizer-me que  o destino, Ruby. Quando se chega a uma bifurcao 
de canais, escolhe-se um ou outro. S depois de se ter feito a escolha  que o destino assume o controlo e talvez nem mesmo ento. Quero fazer essa primeira escolha 
e no receio o canal por onde dirigir a nossa piroga, desde que tu e a Pearl estejam ao meu lado.
        Suspirei e recostei a cabea na cadeira.
        - No podes ser feliz comigo, Ruby? Mesmo sob as condies que definimos? No podes? Achaste que sim. Sei-o. Porque no tentamos pelo menos? Porque no me 
deixas tentar? Esquece-te de ti, esquece-te de mim. Faamo-lo apenas pela Pearl - sugeriu.
        - Golpe sujo, Paul Marcus Tate - sorri, abanando a cabea.
        - No amor e na guerra vale tudo - asseverou, sorrindo tambm.
        Respirei fundo. Do escuro podiam surgir todos os demnios dos nossos medos infantis.  noite, sempre que pousvamos a cabea na almofada, interrogvamo-nos 
sobre o que as sombras  volta das cabanas ocultavam. No era ingnua ao ponto de pensar que no haveria mais Buster Trahaws  espera ao longo dos dias seguintes 
e foi o que me levou a deitar a carta para Daphne no correio.
        
        Mas que mundo era esse em que queria que Pearl crescesse... o rico mundo crioulo, o mundo cajun dos pntanos... ou o mundo mgico que Paul estava a construir 
para ns? Viver naquela espcie de castelo onde poderia passar o tempo a pintar no grande estdio das guas-furtadas, sentindo-me e estando na realidade acima de 
tudo o que era duro, sujo e dificl, parecia-me como que a concretizao de uma promessa dourada de h muito.
        Deveria fugir para o meu prprio Pas das Maravilhas? Talvez Paul tivesse razo, talvez o pai dele apenas se preocupasse em apaziguar a sua conscincia pesada. 
Talvez fosse chegada a altura de pensar em ns e de pensar em Pearl.
        - Est bem - pronunciei num fio de voz.
        - O qu? O que disseste?
        -Disse... est bem. Casarei contigo e viveremos no nosso paraso privado, acima e para l dos problemas e turbilho dos nossos passados. Obedeceremos ao 
nosso acordo e faremos os nossos votos. Avanaremos juntos por esse canal.
        - Oh, Ruby. Estou to feliz! - exclamou, ao mesmo tempo que se punha de p e se aproximava, agarrando-me nas mos. - Tens razo - disse subitamente, com 
um novo entusiasmo no olhar. - Antes do mais e acima de tudo precisamos de ter a nossa cerimnia privada. Levanta-te - pediu.
        -O qu?
        - Anda. No h melhor igreja do que o terreiro da frente da casa de Catherine Landry - declarou.
        - O que faremos? - quis saber, rindo.
        - Pega-me na mo. - Agarrou na minha e levantou-me.
-        Isso mesmo. Agora... vira-te para esse pedao de Lua. V. Pronta? Repete comigo. Eu, Ruby Dumas... V l. Faz o que te digo - insistiu.
        - Eu, Ruby Dumas...
        - Prometo ser a melhor amiga e companheira que Paul Marcus Tate poderia ter ou desejar.
        Repeti as palavras e abanei a cabea.
        - E prometo dedicar-me  minha arte e tornar-me o mais famosa possvel.
        Isso era fcil de repetir.
        -  tudo o que te peo, Ruby - sussurrou. - Mas tenho
algo mais que pedir a mim prprio - acrescentou e ergueu os
olhos na direco da Lua. - Eu, Paul Marcus Tate, prometo amar e proteger Ruby e Pearl Dumas, lev-las para o meu mundo especial e torn-las to felizes quanto  
possvel ser neste planeta. E prometo trabalhar mais e afastar da nossa casa tudo o que  feio e desagradvel e prometo ser honesto, verdadeiro e compreensivo em 
relao a qualquer e todas as necessidades de Ruby, independentemente do que possa sentir.
        Deu-me um beijo de fugida na face.
        - Bem-vinda  terra da magia - disse. Rimos ambos, mas
o corao batia-me com fora no peito, como se tivesse, de facto, participado em qualquer cerimnia sagrada e importante. - Devamos ter algo... para brindar  nossa 
felicidade.
        - Descobri um pouco da aguardente de amora da grandmre Catherine numa garrafa, no fundo de um armrio - repliquei.
        Fomos at dentro de casa e derramei algumas preciosas gotas em dois copos. Brindmos, a rir, e engolimos a aguardente de uma s vez. Parecia adequado que 
firmssemos o compromisso com algo que a minha grandmre fizera.
        - Nenhuma cerimnia, nada que um padre ou juiz pudessem dizer iria superar isto - declarou Paul -, pois vem do fundo dos nossos coraes.
        Sorri. Nunca imaginei que pudesse sentir-me to bem passado to pouco tempo depois do meu suplcio com Buster Trahaw.
        -
         Como poderamos casar-nos? - indaguei, voltando a pensar nos pais dele.
        - Uma cerimnia simples... Basta-nos fugir daqui - decidiu. - Venho amanh e iremos no carro at Breaux Bridge. H l um padre reformado que nos casar, 
com documentos assinados e tudo.  um velho amigo da famlia.
        - Mas vai querer saber porque  que os teus pais no esto connosco, no  verdade, Paul?
        - Deixa o assunto comigo - replicou. - Vou comear a cuidar de ti, desde o momento em que acordar amanh at ao dia em que morrer - prometeu. - Ou at quando 
me permitires estar perto de ti, a fim de o fazer - corrigiu. - Est pronta s sete. E pensa apenas - acrescentou ainda - que todas as velhas alcoviteiras que tm 
andado a falar sobre ns vo finalmente calar-se.
        Paul ficou comigo a conversar sobre a casa, as coisas que tnhamos de comprar e fazer depois de nos mudarmos. Estava to excitado que mal entendi uma palavra. 
Continuou a falar at me sentir to cansada que no conseguia manter os olhos abertos.
        -  melhor ir-me embora e deixar-te dormir um pouco.
Amanh, espera-nos um dia em cheio. - Beijou-me na face e
fiquei a observ-lo a afastar-se rumo ao canal, a fim de levar o barco para casa.
        No entanto, antes de regressar  minha cabana, dirigi-me  caixa do correio, de onde tirei a carta que escrevera a Daphne. No a enviaria, mas tambm fui 
incapaz de a rasgar. Se aprendera algo na minha vida era que nada tem selo de eternidade, nem certeza. No conseguia fechar todas as portas. Por enquanto.
        No entanto, pelo menos nessa noite, pensei, adormeceria facilmente, sonhando com aquele grande sto e o meu maravilhoso estdio e todos os fantsticos quadros 
que pintaria nos dias vindouros. Que lugar maravilhoso para Pearl crescer. Fitei-a, aconcheguei-lhe a roupa e fui-me deitar, ansiando pelos meus sonhos.
        

3

O MEU VERDADEIRO PAS DAS MARAVILHAS
        
        O palrar de Pearl acordou-me. Estava um dia muito nublado, os raios de sol no conseguindo infiltrar-se atravs das cortinas para me acariciar as plpebras 
at que as abrisse. Mal acordei, voltou-me todo o significado do que me dispunha a fazer. "Vou fugir", pensei. As perguntas surgiam de todos os lados. Quando  que, 
de facto, me mudaria com Pearl para Cypress Woods? Como iramos anunciar o nosso casamento  comunidade? J teria informado a famlia nesta altura? O que  que pretendia 
levar da cabana, se  que queria alguma coisa? Que gnero de casamento teramos?
        Levantei-me; invadiu-me, porm, a estranha sensao de estar a viver um sonho. At mesmo Pearl denotava um olhar calmo e peculiar, mostrando-se mais paciente 
do que normalmente, sem chorar para pedir o pequeno-almoo, nem exigir que a tirassem do bero e lhe pegassem ao colo.
        - Tambm  um grande dia para ti, minha querida - disse-lhe. - Hoje, vou oferecer-te uma nova vida, um novo nome e um futuro inteiramente diferente, que 
espero pleno de promessas e de felicidade.
        "Temos de escolher-te um bonito vestido. Primeiro, vou dar-te de comer e depois ajudars a mam a escolher tambm o seu vestido de casamento.
        "O meu vestido de casamento - murmurei, ao mesmo tempo que os olhos se me enchiam de lgrimas.
        Fora nessa cabana, nessa mesma sala que a grandmre Catherine e eu falramos do meu futuro casamento.
        - Sempre sonhei - dissera-me, vindo sentar-se ao meu lado e passando-me a mo pelo cabelo - que terias um casamento mgico, como o da lenda cajun das aranhas. 
Lembras-te? O francs rico importou essas aranhas da Frana para o casamento da filha e soltou-as junto aos carvalhos e pinheiros, onde elas teceram as teias. Salpicou 
estas teias de p de ouro e prata e depois fizeram a procisso de casamento  luz das velas. A noite brilhava  volta deles, prometendo-lhes uma vida de amor e esperana.
        "Um dia, casars com um belo homem que poder ser um prncipe e tambm tu ters um casamento sob as estrelas - prometera a grandmre.
        Como ela se teria sentido triste por minha causa, agora. Quanta pena sentia de mim prpria. O corao de uma jovem deveria estar to cheio de alegria na 
manh do casamento que chegaria a ter medo que ele explodisse, disse de mim para mim. Todas as cores se apresentariam mais luminosas e todos os sons mais suaves. 
Tambm pareceria que todas as criaturas em seu redor estariam deliciadas. Haveria vozes felizes e excitadas  sua volta e, para onde quer que olhasse, depararia 
com qualquer preparativo relacionado e totalmente dedicado  maravilhosa cerimnia que estava prestes a partilhar com o homem amado.
        
        E o amor... inund-la-ia. Pararia uns momentos, interrogando-se sobre se voltaria a sentir-se to feliz e contente como nesse instante. Algum outro evento 
poderia trazer-lhe tanta alegria? Estaria rodeada por dzias de amigos, todos entusiasmados, comovidos e falando sem prestar ateno especial s palavras uns dos 
outros, numa cacofonia de gargalhadas, risos, gritos e exclamaes.
        A cozinha estaria cheia dos sons de tachos retinindo, cozinheiras nervosas, cheiros a peixe deliciosos e pratos de galinha, bolos e tartes. Ordens soariam 
pelas salas e os carros andariam numa roda-viva, estacionando e arrancando ao sabor das ordens dadas aos motoristas.
        As crianas seriam tocadas tambm por esse tipo de electricidade, fazendo maldades e sendo enxotadas de um stio para outro. As mulheres mais velhas fingiriam 
estar aborrecidas e preocupadas, mas de vez em quando parariam um pouco a recordar o seu prprio dia especial, a excitao, bebendo lembranas como a abelha o plen 
de uma flor e transformando-as numa memria plena de mel e de momentos do passado. Deveria detectar tudo isto no rosto de cada mulher, quando, por fim, a vissem 
com o vestido de casamento.
        Continuei a imaginar o meu casamento de sonho. A limusina estaria  espera l fora, com o motor a trabalhar, semelhante a um cavalo ansioso por iniciar o 
galope. A porta estaria escancarada. As pessoas comeariam a dar vivas e palmas, enquanto eu transpunha os degraus at ao carro. E depois toda a roda de amigos e 
parentes nos seguiria at  igreja, onde, no interior, o meu maravilhoso e futuro marido se encontrava... transferindo o peso do corpo de uma perna para a outra 
e sorrindo para os pais e parentes, mas sem tirar os olhos da porta  espera de indcios da minha chegada.
        E depois comearia a msica e todos se sentariam com solenidade, mas ansiosos por me verem percorrer a coxia at ao altar, onde me esperava a Santa Eucaristia. 
Os meus ps nunca tocariam no cho. Caminharia como que pelo ar, deslizando devagar em direco aos votos.
        Ao fechar os olhos, pensando em tudo isto, as imagens tinham a realidade de quadros, mas surpreendi-me quando, ao ver-me na sequncia imaginada, ergui o 
rosto e avistei  minha espera... no Paul, mas Beau... o meu adorado amor... finalmente, Beau.
        Emiti um profundo suspiro. No era Beau quem viria buscar-me dentro em pouco, disse de mim para mim. Surgiu-me outra ideia terrvel: provavelmente nem sequer 
pensaria em mim nesse dia, o dia em que eu faria os votos que o afastariam da minha vida para sempre. O choro de Pearl recordou-me, porm, que no estava a fazer 
isto por mim. Fazia-o por ela e pelo futuro promissor e a segurana que lhe traria.
        Optei por um simples e leve vestido de Vero com um decote rectangular e uma saia que descia at cerca de dois centmetros acima dos tornozelos. Continuava 
a usar o medalho que Beau me dera h mais de um ano, antes de eu ter partido para Greenwood School em Baton Rouge, mas agora seria errado faz-lo. Tirei-o e enterrei-o 
debaixo de alguns dos meus outros tesouros na velha arca de carvalho da grandmre Catherine.
        
        Tinha um conjunto cor-de-rosa para Pearl, com um lao branco na gola. Depois de lhe ter dado de comer e vestido, pu-la no bero, vesti-me tambm, sentei-me 
e escovei o cabelo, resolvendo que me limitaria a prend-lo com uma fita, soltando-o o mais suavemente possvel sobre os ombros e as costas. Deixara-o crescer e, 
quando o escovava, chegava-me s omoplatas. Coloquei um pouco de bton, descobri um chapu que outrora pertencera  grandmre Catherine, sentindo assim que a teria 
junto de mim, e depois sa l para fora com Pearl, a fim de aguardar Paul.
        Ouvi-o buzinar, antes de estacionar no terreiro diante da cabana. O carro estava lavado e reluzente; Paul vestia um fato novo azul, a gravata frouxa  volta 
do pescoo. O cabelo brilhava quando desceu do carro, com as madeixas ainda molhadas.
        - Bom dia - saudou. Estvamos ambos to nervosos, que se assemelhava a um primeiro encontro. - Vamos. O padre Antoine, de Breaux Bridge, est  nossa espera. 
Ests muito bonita - acrescentou, abrindo-nos a porta do carro.
-Obrigada, mas no me sinto bonita. Sinto-me... nervosa.
 -  o normal - comentou. Respirou fundo, ligou o motor
e arrancou.
        Comeou a pingar e os limpa pra-brisas moviam-se de um lado para o outro, idnticos a dois compridos dedos indicadores acenando avisos e profetizando infmia. 
Ouvia a palavra ao seu ritmo... infmia, infmia, infmia.
        - Bom. A casa est pronta para nos mudarmos. Claro que de momento apenas tenho o mobilirio bsico. Pensei que, passado um dia ou dois, poderamos fazer 
uma viagem a Nova Orlees.
        - Nova Orlees! Porqu?
        - Para poderes fazer compras nas melhores lojas e teres maior escolha. Tambm no quero que te preocupes com os preos. A tua misso consiste em transformar 
Cypress Woods em algo muito especial, uma casa e propriedade que at mesmo os ricos Crioulos de Nova Orlees invejaro.
        "Tens de montar o teu estdio o mais rapidamente possvel - prosseguiu com um sorriso. Mal regressemos de Nova Orlees, entrevistaremos algumas amas para 
te ajudarem a cuidar da Pearl, a fim de poderes dispor de tempo que necessitas para o teu trabalho.
        - Uma ama? Acho que no vou precisar, Paul.
        - Claro que sim. A dona de Cypress Woods ter todo o tipo de criados. J contratei o nosso mordomo.  um mulato de nome James Humble. Tem cerca de cinquenta 
anos e trabalhou nas melhores casas.
        - Um mordomo? - Ainda no passara assim tanto tempo, desde que ele e eu seguamos na sua piroga atravs dos pntanos, fantasiando sobre todas estas coisas 
que estvamos prestes a realizar.
        - E a nossa criada. Chama-se Molly Mixon.  meio-haitiniana, meio-ndia txot e anda na casa dos vinte e tal. Tambm a contratei por agncia. Mas sei que 
 a nossa cozinheira quem mais vai agradar-te - concluiu com um brilho nos olhos travessos.
        -E porqu?
        - Chama-se Letitia Brown, mas quer que a tratem por Letty. Vai recordar-te a tua Nina Jackson. No revela a sua verdadeira idade, mas penso que anda pelos 
sessenta. Pratica
vuda - confessou, baixando a voz para lhe dar um tom de pressgio.
        - J fizeste tudo isso? - perguntei surpreendida, e ele corou como se tivesse sido apanhado nu.
        - Planeei este dia desde que regressaste ao bayou, Ruby. Sabia que iria acontecer.
        -
         E a tua famlia, Paul? Contaste aos teus pais? - indaguei.
        - No - confessou, aps uns instantes de hesitao. - Achei melhor falar-lhes mais tarde. Depois de ser uma realidade, aceitaro tudo mais facilmente. Tudo 
correr bem - garantia, o que no me acalmou as batidas do corao.
        Embora tivesse deixado de chover quando chegmos a Breaux Bridge, o cu mantinha-se escuro e agoirento. O padre Antoine vivia numa casa ao lado da igreja 
com a governante, Mss Mulrooney. Era um homem com cerca de sessenta e cinco anos e o cabelo fino e grisalho cortado to curto que as madeixas espetavam de lado, 
quais plos de um pincel. Tinha, contudo, uns ternos olhos azuis e o tipo de sorriso que fazia com que as pessoas se sentissem  vontade na sua presena. Miss Malrooney, 
uma mulher alta e magra de cabelo grisalho, ostentava um ar duro e crtico. Eu conhecia o motivo.
        Paul dissera ao padre Antoine que Pearl era filha dele e queria casar-se comigo para tomar a atitude certa, s que desejava que o casamento fosse tranquilo 
e longe dos olhares de censura dos vizinhos e dos amigos da famlia. O padre Antoine mostrou-se compreensivo e satisfeito por Paul ter resolvido ir por diante com 
o casamento e assumir as suas responsabilidades morais.
        A nossa cerimnia de casamento foi o mais rpida que a religio permite. Quando chegou a minha altura de pronunciar os votos, fiz o que poderia ter sido 
pecado: invoquei Beau e disse intmamente que lhe entregava a alma e corao.
        Casar fora muito mais fcil e rpido do que imaginara. No sentia que alguma coisa tivesse mudado, mas, pelo sorriso resplandecente no rosto de Paul todas 
as vezes que me olhava, sabia que tudo mudara. Para melhor ou pior, tnhamos ido em frente e unido os nossos destinos.
        - Bom, j est - replicou. - Como se sente, Mistress Tate?
        - Aterrorizada - respondi e ele riu.
        - No h nenhum motivo para que te sintas aterrorizada. Sobretudo, enquanto estiver perto de ti - salientou. - Portanto, o que queres levar da cabana, se 
 que queres alguma coisa?
        - Tenho a minha roupa e a da Pearl, o retrato da grandmre Catherine e a cadeira de balouo - disse. - Talvez tambm a velha arca e o armrio que o pai lhe 
fez. Tinha tanto orgulho nele.
        - ptimo. Mandarei alguns dos meus homens com um camio esta tarde e eles transportaro o mobilirio. Parece que deixou de chover por algum tempo. Podes 
seguir no teu carro - acrescentou num tom despreocupado.
        - O meu carro? Que carro?
        - Oh, no te disse? Comprei-te um pequeno descapotvel para andares por a... As tuas voltas e coisas assim - respondeu.
        Deduzi da forma como se comportava que era mais do que um pequeno descapotvel e, na verdade, ao chegarmos a Cypress Woods deparei com um Mercedes vermelho 
com uma fita branca em redor da capota e parado em frente da entrada.
        -  meu? - exclamei.
        - O teu primeiro presente de casamento. Goza-o - convdou.
        -
         Oh, Paul.  demasiado! - retorqui, comeando a chorar de felicidade.
        Ali estava a manso com os criados  nossa espera, a bela propriedade, os nossos campos petrolferos l atrs e o meu novo estdio. Teramos desafiado o 
destino, soprado fumo para a sua cara? A recente fortuna de Paul bastaria para manter os ventos uivantes e as frias chuvas da misria bem longe da nossa porta? Pelo 
menos de momento, era-me impossvel deixar de me sentir to optimista e feliz quanto ele.
        "Talvez eu seja a Alice no Pas das Maravilhas", pensei. Talvez essa fosse a inteno desde o primeiro momento e eu nada tivesse a ver com o rico mundo crioulo 
de Nova Orlees, e, talvez por esse motivo, todas aquelas coisas estavam a acontecer ali, coisas para me trazerem de novo para o bayou, onde eu pertencia. Paul pegou 
em Pearl ao colo.
        - Em vez de te transportar, levo a Pearl - explicou. - Afinal, ser ela a princesa.
        Reparei na farinha espalhada nos degraus da frente. Paul tambm a notou.
        - Coisas da Letty, suponho - comentou.
        A porta alta e larga foi aberta pelo nosso mordomo, James Humble. Tinha, pelo menos, um metro e noventa de altura e era um homem elegante de cabelo castanho 
e encaracolado, pele achocolatada e uns olhos castanho-claros. Possua o aspecto e a postura perfeita de mordomo,  espera das nossas ordens.
        - Este  o James - indicou Paul. - James, Madame Tate.
        - Bem-vinda, madame - cumprimentou com um leve aceno de cabea e uma vnia. Tinha uma voz profunda e um sotaque francs de homem culto.
        - Obrigada, James.
        Quando entrei no vestbulo, avistei Molly Mixon, de lado,  nossa espera. Era uma mulher de larga estrutura ssea e braos e ombros robustos.
        - E esta  a Molly - prosseguiu Paul. Molly, Madame Tate.
        Fez uma vnia.
        - Ol, Molly.
        - Como est, madame? - saudou.
        - Onde est a Letty? - inquiriu Paul.
        - Est na cozinha, monsieur, a preparar o jantar de hoje. No quer nenhum de ns no seu local de trabalho - acrescentou.
        - Percebo - anuiu Paul, piscando-me o olho. - Porque no levas, ento, a Pearl primeiro ao seu quarto, Ruby? Quero ir a casa dos meus pais e inform-los. 
 provavelmente o melhor. Se concordares,  bvio.
        - Claro, Paul - retorqui, ao mesmo tempo que a ideia da forma como eles iriam reagir me provocava um peso no peito.
        - Quando voltar, trataremos de ir buscar as tuas coisas, sim?
        - Sim - anui, pegando em Pearl.
        Paul inclinou-se, beijou-me ao de leve na face e saiu apressado.
        - Agora - redargui, virando-me para Molly. - Indica-me o caminho para o quarto da minha filha e veremos o que h a fazer.
        - Sim, madame - disse.
        
Se no tivesse vivido na casa dos Dumas, rodeada de criados, no me sentiria bem com uma criada, um mordomo e uma cozinheira junto de mim. Nunca pretendera dar-me 
ares de grande senhora, mas Paul construra, de facto, uma manso que precisava de criadagem. Apenas me restava tomar a minha posio e tornar-me a dona de Cypress 
Woods.
        
        Letty fazia-me recordar Nina Jackson. Usava o mesmo tipo de leno vermelho com sete ns de pontas reviradas, um tignon; mas era muito mais alta e mais magra, 
surpreendentemente magra para uma cozinheira, com mos compridas de veias salientes que ressaltavam na pele cor de chocolate. Tinha um rosto esguio, uma boca e um 
nariz finos. Contou-me que os olhos estavam demasiado juntos porque a me fora surpreendida por uma cobra no dia em que engravidara. Vi que usava um colar de cnfora 
 volta do pescoo, que sabia destinar-se a afastar os espritos malignos.
        letty era uma cozinheira do tipo normal, que aprendera com chefes de cozinha. A prov-lo havia a primeira refeio que nos preparou. Comearia com ostras 
 Bienville como entrada, seguidas de sopa de tartaruga. O prato principal era filet de hoeuf aux champignons com pur de ervilhas. Para sobremesa fizera um pudim 
de laranja.
        - Notei que deitou farinha nos degraus da frente - retorqui, depois de termos sido apresentadas e trocarmos algumas impresses. Os olhinhos escuros estreitaram-se 
mais.
        - No trabalharia em nenhuma casa sem isso - observou num tom firme.
        - No me importo, Letty. A minha grandmre Catherine era uma mulher traiteur - retorqui, e os olhos denotaram um brilho de reconhecimento.
        - Ento,  uma rapariga santa.
        - No. Apenas a neta dela - corrigi. Nada havia de santo em mim, pensei.
        Apercebi-me de que Paul voltara e apressei-me a ir ao seu encontro. Sorriu, mas detectei-lhe a tristeza no olhar.
        - Ficaram muito desgostosos, no foi? - indaguei.
        - Sim - admitiu. - A minha me chorou e o meu pai amuou, mas, daqui a um tempo, vo acabar por aceitar, tal como te disse - prometeu. - As minhas irms acham, 
obviamente, que  maravilhoso - apressou-se a acrescentar. - Viro todos amanh jantar. Achei que deveramos ter a primeira noite para ns. H dois dos meus homens 
l fora com o camio,  espera de irem  cabana buscar as tuas coisas.
        - A Pearl ainda est a dormir - argui. O relato de Paul extinguira rapidamente toda a excitao e felicidade.
        - V l. Mostra-lhes o caminho no teu carro novo. Estarei aqui, quando ela acordar. Vai. Tenho a Molly para me ajudar - tranquilizou-me.
        - Ela ficar com medo ao acordar num lugar estranho.
        - Mas no estar com um estranho - ripostou, confiante. - Tem-me a mim. - Apercebi-me de como desejava impor-se como pai, mal lhe fosse possvel.
        - Est bem. No vou demorar - prometi.
        Ao chegar  cabana, indiquei as peas de mobilirio que desejava. Comuniquei aos homens de Paul que eu prpria levaria
o retrato. Depois de o guardar em segurana no carro, regressei ao interior da casa e percorri tudo com o olhar. Como a casa parecia vazia e triste sem as poucas 
peas de mobilirio.
        
        Era como se estivesse a perder novamente a grandmre Catherine, cortando quaisquer elos espirituais que ainda pudessem ligar-nos. O esprito dela no podia 
acompanhar-me. Pertencia ali, quelas sombras e cantos,  pequena cabana assente nas finas estacas que havia sido a sua manso, palcio, casa e igualmente a minha 
durante tanto tempo. Nem todos os dias tinham sido felizes, mas tambm nem todos haviam sido tristes.
        Ali, ela confortara-me durante os meus momentos de medo e ansiedade. Ali, ela tecera histrias e fizera nascer as minhas esperanas. Ali, trabalhramos lado 
a lado para sobreviver. Tnhamos rido, chorado e tombado de fadiga juntas no velho sof que o grandpre Jack quase destrura quando se embebedava. Aquelas paredes 
haviam sugado o riso e a dor e absorvido os odores maravilhosos dos cozinhados da minha av. Fora daquelas janelas que,  noite, eu contemplara a Lua e as estrelas, 
sonhara com prncipes e princesas e engendrara os meus prprios contos de fadas.
        "Adeus", pensei. Finalmente, adeus  infncia e a toda a preciosa inocncia que me impedira de ver e acreditar que havia crueldade real no mundo. Parecia-me 
que me mudava para o Pas das Maravilhas em Cypress Woods. Tudo era demasiado belo para ser verdade. Era ali, porm, o meu verdadeiro Pas das Maravilhas. Ali sentira 
a verdadeira magia e ali produzira alguma da minha melhor arte.
        Lgrimas rolaram-me pelas faces. Apressei-me a limp-las, respirei fundo, sa rapidamente da casa, desci os degraus e entrei no carro. Sem olhar para trs, 
abandonei o passado uma segunda e talvez derradeira vez.
        Paul detectou a tristeza que eu tinha espelhada no rosto. Deu ordem a Molly e James para que transportassem as minhas coisas para o meu quarto e para o de 
Pearl; em seguida, levou-me a dar um pequeno passeio.
        Falou dos planos que fizera para os terrenos que rodeavam a casa, as rvores, flores, caminhos e repuxos que imaginara. Falou das festas que daramos, da 
msica e comida. Sabia que ele falava pelos cotovelos s para no me dar tempo a meditar sobre o passado e sentir-me triste.
        - H tanta coisa a fazer aqui - concluiu. - No temos tempo para sentirmos pena de ns prprios.
        - Oh, Paul. Espero que tenhas razo.
        - Claro que tenho - insistiu. Ouvimos algum a chamar e, quando nos virmos, vimos que as irms tinham chegado.
        Jeanne andara na minha turma, quando vivera no bayou. Sempre tnhamos sido boas amigas. Ela era uns trs centmetros mais alta do que eu, com cabelo castanho-escuro 
e olhos amendoados. Parecia-se mais com a me e herdara a sua pele escura, o queixo marcado e o nariz quase perfeito. Sempre a recordei como uma jovem alegre e feliz.
        Toby era dois anos mais nova e, embora no se parecesse tanto com a me, tinha a sua expresso sria. Era um pouco mais baixa, mas com ancas mais largas 
e mais peito. Usava o cabelo castanho cortado curto. Os olhos eram mais argutos, observadores e inquiridores. Tinha o hbito de descair o lbio inferior sempre que 
duvidava ou desaprovava qualquer coisa que algum dissera ou fizera.
        - Recomendei-lhes que esperassem at amanh - comentou Paul num tom irritado.
        -
         Deixa l. Ainda bem que vieram - redargui, indo ter com elas. As duas abraaram-me e beijaram-me, depois do que me seguiram at ao quarto do beb, com Jeanne 
a tagarelar, enquanto eu mudava a fralda a Pearl.
        - Claro que tudo isto  um choque - replicou, e as palavras saam-lhe de enxurrada. - Tem to pouco a ver com o Paul, o chamado "homenzinho perfeito"...
        - Porque  que o fizeram agora? - quis saber Toby. - Porque no o fizeram mal soubeste que estavas grvida?
        Desviei os olhos ao responder, temendo que detectasse as mentiras no meu rosto.
        - Era esse o desejo do Paul, mas no quis arruinar-lhe a carreira - repliquei.
        - E a tua vida? - contraps Toby.
        - Corria bem.
        - A viveres sozinha com uma criana naquela cabana?
        - Oh, Toby. Para qu ir buscar o passado? Tudo isso acabou e v s onde eles esto agora - exclamou Jeanne, de braos abertos. - Todos sentem cimes desta 
casa e da felicidade do Paul.
        Toby aproximou-se de mim e baixou os olhos para Pearl.
        - Quando  que vocs dois... a fizeram? - quis saber.
        - Toby! - insurgiu-se Jeanne.
        - S estou a perguntar. Ela no  obrigada a responder se no quiser, mas agora somos irms. Em principio, no deveramos ter segredos entre ns, pois no? 
Bom, pois no? - insistiu.
        - Segredos no, mas cada um tem algo de privado no corao, algo que mantm resguardado. Talvez ainda sejas demasiado jovem para o perceberes, Toby, mas 
a seu tempo entenders - garanti.
        Era o comentrio mais duro que alguma vez lhe fizera. Ela pestanejou e os lbios uniram-se num esgar momentneo, mas depois esboou um aceno de cabea face 
 minha observao.
        - Tens razo. Desculpa, Ruby
        - No tem importncia. - Sorri. - Devemos ser irms em todos os aspectos.
        - E seremos! - garantiu Jeanne. - Daremos uma ajuda com o beb, no  verdade, Toby? Seremos tias de verdade.
        - Claro - anuiu Toby, fitando Pearl. - Fui baby-sitter o tempo suficiente para saber cuidar de um beb.
        - A Pearl ir receber muitssimo amor e ateno - prometeu Jeanne.
        -  tudo o que quero - retorqui. -  tudo o que realmente quero. E que todos nos tornemos uma famlia.
        - A me ainda no se recomps, pois no, Toby? - comentou Jeanne.
        - O pai tambm no est propriamente a rebentar de orgulho e felicidade - respondeu ela.
        - Talvez o pai no queira enfrentar o facto de ser av to depressa - gracejou Jeanne. - No achas que  isso, Ruby?
-        interpelou.
        Fitei-a por momentos.
        - Sim, provavelmente - anui com um sorriso. Era desconfortvel estar ligada a enganos e semiverdades, mas agora no havia outra sada, pensei.
        Jeanne tentou arrancar a Paul um convite para jantar, mas ele insistiu para que se fossem embora e voltassem com os pais no dia seguinte.
        -
         Ocasio em que teremos uma celebrao a srio - garantiu. - A Ruby e eu estamos muito cansados e precisamos de estar ss, de descansar - explicou.
        Toby esboou um trejeito afectado; Jeanne, tentando contrariar a sua expresso de desapontamento, sorriu e exclamou:
        - Claro que precisam.  a vossa lua-de-mel!
        Paul virou rapidamente a cabea na minha direco e corou.
        - A Jeanne e as suas inconvenincias habituais! - redarguiu Toby. - Anda l, minha querida irm. Vamos para casa.
        - O que  que eu disse?
        - No ligues, Jeanne - sosseguei-a.
        Voltmos todos a abraar-nos e elas foram-se embora.
        - Desculpa - pediu Paul, seguindo-as com o olhar. - Devia ter-te avisado sobre as minhas irms. Foram mimadas e acham que podem ter tudo o que quiserem. 
No pactues com as extravagncias delas. Limta-te a p-las no lugar e tudo correr bem - garantiu-me. - De acordo?
        - Sim - anui, mas era mais uma orao do que uma resposta.
        Nessa noite serviram-nos um jantar maravilhoso. Paul falou das suas jazidas petrolferas e exps algumas outras ideias para negcios. Contou-me que fizera 
reservas para ns em Nova Orlees e que partiramos dentro de dois dias.
        - To depressa?
        - No vale a pena adiar o que tem de ser feito aqui. E lembra-te que quero que te dediques  tua arte - salientou.
        "Sim", pensei. Era altura de voltar ao meu segundo grande amor - a pintura. Depois do jantar, Paul e eu vaguemos pela manso e discutimos o que faramos 
para completar o mobilirio e as decoraes. Apercebi-me, finalmente, de como a tarefa era monumental e interroguei-me em voz alta sobre se seria capaz de execut-la.
        - Claro que s - garantiu-me ele. - Mas talvez eu consiga que a minha me te ajude. Ela adora desempenhar esse tipo de incumbncias; Podes aprender muito 
com a minha me - acrescentou. -  uma mulher de gosto requintado. Tu tambm
- apressou-se a vincar -, s que ela h mais tempo que compra coisas caras. - Sorriu.
        - At que ponto somos ricos, Paul? - inquiri. No haveria limite para as possibilidades?
        - Com o preo do petrleo a subir e os poos a produzirem de quatrocentos a quinhentos por cento mais do que o previsto... somos multimilionrios, Ruby. 
A tua madrasta rica e a tua irm gmea so pobres em comparao connosco.
        - No deixes que elas saibam - pedi -, ou ficam com o corao despedaado.
        Paul riu. Confessei que me sentia cansada. Exausta era uma palavra mais adequada. Emocionalmente, vivera o dia como numa montanha-russa, num momento cheia 
de depresso e tristeza para no momento seguinte erguer-me aos pncaros da felicidade.
        Subi ao andar de cima e preparei-me para a primeira noite na minha bela e nova casa. Paul surpreendeu-me uma vez mais. Encontrei uma bonita camisa de noite, 
roupo e chinelos em cima da cama. Molly fora cmplice da surpresa. Quando agradeci a Paul, ele fingiu nada saber.
        - Deve ter sido a tua fada madrinha - disse.
        
        Fui ver como estava Pearl. Dormia, satisfeita, no seu bero novo e bonito. Inclinei-me e beijei-a na testa. Depois, voltei ao meu quarto e meti-me na minha 
cama enorme de almofadas de penas e colcho macio.
        A tempestade e a chuva tinham avanado para sudeste e as nuvens dissiparam-se, permitindo que um pouco de luar se reflectisse sobre a nossa manso e entrasse 
pelas janelas. Mantinha-me no meio daquele conforto mas extremamente ansiosa quanto ao nosso futuro. Depois, ouvi uma leve pancada na porta de comunicao.
        - Sim?
        Paul abriu-a e espreitou para o interior.
        - Ests bem?
- Estou, Paul. ptima.
        - Confortvel? - insistiu, permanecendo na ombreira da porta, onde se recortava a sua silhueta.
        - Muito.
        - Posso dar-te um beijo de boas-noites? - perguntou num fio de voz.
        Fiquei um momento calada.
        - Podes - respondi.
        Ele aproximou-se, inclinou-se e premiu os lbios de encontro  minha face. Pensei que seria tudo, mas avanou para os meus lbios e virei a cara. Senti como 
ficou desapontado. Afastou-se uns centmetros e depois endireitou-se.
        - Boa noite, Ruby. Amo-te - declarou. - Tanto como qualquer outro homem - acrescentou.
        - Eu sei, Paul. Boa noite.
        - Boa noite - respondeu, num leve e terno sussurro, de novo semelhante  voz de um rapazinho.
        Fechou a porta que nos separava e uma nuvem tapou o buraco que permitira ao luar uma janela no meu novo mundo. Durante algum tempo, a escurido voltou a 
ser espessa e profunda.
        Contudo e embora se situassem do outro lado da casa e a alguma distncia, ouviam-se as bombas de petrleo a escavarem as entranhas da terra para arrancar 
o lquido negro que nos garantiria o futuro e construiria muros de riqueza  nossa volta, afastando os demnios. Paul criara um fosso de petrleo entre ns e os 
problemas que atormentavam o resto do mundo.
        Podia enroscar-me no meu luxuoso conforto, fechar os olhos, afastar todos os meus medos e pensar apenas nas coisas maravilhosas que tinha a fazer. Podia 
sonhar com Pearl como uma rapariguinha montada no seu pnei. Podia sonhar com recepes nos jardins, festas de aniversrio e jantares faustosos. Podia sonhar com 
o meu estdio cheio de obras novas.
"O que mais posso desejar"?, pensei.
"O amor", sussurrou uma vozinha. "Desejar o amor."


4

OUTRA NOVA FAMLIA
               
               Muito cedo, na manh seguinte, ouvi a porta de comunicao a abrir-se e vi que Paul enfiava a cabea e olhava em volta para verificar se eu estava 
acordada. Dispunha-se a ir embora quando o chamei.
               - Oh! No queria despertar-te - apressou-se a replicar.
               - Que horas so?
        -  muito cedo, mas queria dar uma vista de olhos nos poos, antes de ir  fbrica de conservas esta manh. Venho almoar. Dormiste bem?
               - Sim.  uma cama muito confortvel - garanti. - E estas almofadas...  como dormir num barril de manteiga.
        - ptimo - congratulou-se, sorrindo. - At logo, ento. Fechou a porta; levantei-me e vesti-me, antes de Pearl acordar. Pela forma como ela rira e brincara 
no bero, apercebi-me que tambm ela gostara da sua primeira noite na nova casa. Depois do pequeno-almoo, levei Pearl at ao sto a fim de planear o meu estdio 
e fazer uma lista do que compraria quando estivssemos em Nova Orlees. Pearl dormiu o costumado sono do fim da manh e sa at ao ptio lateral para observar os 
homens que Paul contratara para arranjarem os terrenos  volta da manso.
        O cheiro a bambu novo pairava no ar e,  distncia, um casal de garas brancas de neve cortou o cu azul a grande altura. Suspirei de prazer e deslumbramento. 
Estava to absorta na imaginao dos relvados, caminhos empedrados, canteiros e arbustos, que no ouvi um carro subir pelo relvado nem to-pouco o tinir da campainha 
da porta.
               James veio ao ptio informar-me que tinha uma visita. Sem me dar tempo a regressar a casa, o pai de Paul apareceu. Mal James se retirou, Octavious 
aproximou-se de mim, e um calafrio percorreu-me a espinha.
               - Disse ao Paul que viria almoar com vocs e depois o acompanharia aos poos, mas sa cedo para poder ter uma oportunidade de falar contigo a ss 
- explicou.
        - Mister Tate...
        - Podes comear a tratar-me por Octavious ou por... pai - sugeriu sem muita amargura mas tambm sem muito agrado.
        - Octavious. Sei que saiu da minha casa pensando que no iria com isto por diante, mas o Paul ficou to triste... e depois de eu ter sido atacada pelo Buster 
Trahaw...
        - No expliques - pediu, soltando um profundo suspiro e olhando na direco do pntano. - O que est feito no tem remdio. H muito tempo que deixei de 
acreditar que o destino me deve alguma coisa. A sorte que tenho e as bnos que recebo, no as mereo. Vivo somente para zelar pela felicidade e segurana dos meus 
filhos e da minha mulher.
        - O Paul  muito feliz - argumentei.
        -
         Eu sei. Mas a minha mulher... - Baixou momentaneamente os olhos negros e tristes que logo ergueu na minha direco. - Antes do mais, tem horror a que, por 
causa deste casamento, a verdade erga a sua feia cabea na nossa pequena comunidade e destrua todo o embuste que construiu em redor do Paul e dela prpria. As pessoas 
acham que, por sermos uma famlia rica e bem sucedida, somos duros como rochas, mas por detrs de portas fechadas... as nossas lgrimas tm o mesmo sabor a sal.
        - Compreendo - retorqui.
        - A srio? - disse e o rosto iluminou-se-lhe. - Na verdade, vim cedo para te implorar um favor.
        - Claro - anui, sem mesmo ter ouvido o pedido.
        - Quero que mantenhas a... na falta de melhor palavra... a iluso viva sempre que estiveres com ela. Embora saibas a verdade e a Gladys saiba que sabes.
        - No era necessrio pedir - redargui. - F-lo-ia pelo Paul e tambm por Mistress Tate.
        - Obrigado - agradeceu, aliviado, e depois olhou em volta. - Bom. O Paul est realmente a construir uma casa fantstica.  um jovem maravilhoso. Merece ser 
feliz. Orgulho-me muito dele, sempre me orgulhei e sei que a tua me tambm se orgulharia. - Recuou. - Bom... eu... vou falar com um dos operrios, l na frente 
- balbuciou. - Ficarei  espera do Paul. Obrigado - acrescentou e virou rapidamente as costas, desaparecendo no interior da casa.
        O meu corao abrandou, mas o vazio no estmago, que me fazia sentir como se tivesse engolido uma dzia de borboletas vivas, continuou. "Levar o seu tempo", 
pensei "e talvez
nem mesmo o tempo consiga limar as arestas entre mim e os pais do Paul, mas tentarei, pelo Paul." Cada dia desse casamento especial seria um dia cheio de experincias 
e questes. Pelo menos, no incio. Apesar de tudo o que tnhamos e tudo o que viramos a ter, interrogava-me sobre se conseguiria ou no aguentar.
        James voltou e interrompeu-me aqueles tristes pensamentos.
        - Mister Tate ao telefone, madame - anunciou.
        - Oh! Obrigada, James - agradeci e dirigi-me  casa, tomando conscincia de que no fazia ideia de onde se situava o telefone mais prximo.
        - Pode atender aqui no ptio - indicou James com um aceno de cabea para a mesa e cadeiras. Fora colocado um telefone num pequeno banco de bambu ao lado 
de uma das cadeiras.
        - Obrigada, James. - Ri intimamente. Os criados estavam mais familiarizados com a minha nova casa do que eu. - Ol, Paul.
        - Ruby. No demoro a chegar a casa, mas tinha de telefonar-te a contar este golpe de sorte. Pelo menos, assim o penso - disse num tom excitado.
        - O que ?
        - O nosso capataz aqui na fbrica conhecia uma simptica senhora de idade que acabou de perder o emprego como ama, pois a famlia vai mudar-se. Chama-se 
Mistress Flemming. Acabei de contact-la por telefone e pode ir a Cypress Woods esta tarde para uma entrevista pessoal. Falei com a famlia, que ficou contentssima 
por ela.
        - Que idade tem?
        - Sessenta e poucos. Enviuvou h algum tempo. Tem uma filha casada que vive em Inglaterra. Sente a falta da famlia e procura um emprego que lhe permita 
estar com crianas. Se tudo correr bem, talvez possamos contrat-la imediatamente e deix-la com a Pearl, enquanto vamos a Nova Orlees.
        - Oh! No sei se vou conseguir fazer isso to cedo, Paul.
        -
         Bom. Vers depois de lhe falares. Posso dizer-lhe que aparea por volta das duas?
        - Est bem - acedi.
        - O que se passa? No ests feliz? - perguntou. Mesmo do outro lado de um telefone, Paul sabia quando eu estava nervosa, ansiosa, triste ou feliz.
        - Estou, s que te movimentas to depressa que mal tenho tempo de tomar flego para enfrentar uma coisa surpreendente e logo tu me apresentas outra.
        -  esse o meu plano. - Riu. - Inundar-te de coisas boas, afogar-te em felicidade para que nunca lamentes o que fizemos e por que razo o fizemos - prosseguiu. 
- Oh, o meu pai vai almoar connosco. Pode chegar antes de mim, por isso...
        - No te preocupes - interrompi.
        - Depois de telefonar a Mistress Flemming, sigo para casa. O que  que a Letty est a preparar?
        - Receei perguntar-lhe - respondi, dando-me conta do facto nesse momento. Ele riu.
        - Diz-lhe que lhe rogas uma praga, se no se portar bem - redarguiu.
        Desliguei e recostei-me. Sentia-me como se estivesse numa piroga que transpunha cascatas umas atrs das outras, sem tempo para tomar flego.
        - A pequenina acordou, Mistress Tate. - gritou Molly de uma das janelas do andar de cima.
        - Vou j - respondi.
        Agora no tinha tempo para pensar em nada, mas talvez Paul tivesse razo. Talvez fosse melhor assim.
        Ao almoo, nem eu nem o pai de Paul dissemos ou fizemos algo que revelasse que havamos falado antes, mas estvamos todos nervosos. Paul tomou a seu cargo 
a maior parte da conversa. Mostrava-se to excitado que seria necessrio um furaco para o acalmar. O dilogo com o pai centrou-se por fim nos problemas de negcios.
        Mrs. Flemming chegou num txi s duas em ponto. O pai de Paul fora-se embora, mas Paul ficara para a receber na minha companhia. A primeira coisa que me 
chamou a ateno nela foi a semelhana de estatura com a grandmre Catherine. De p, Mrs. Flemming no media mais do que um metro e sessenta, ou sessenta e dois, 
e possua os mesmos traos de boneca: um nariz pequeno e achatado, uma boca suave e olhos brilhantes de um azul-acinzentado. O cabelo ligeiramente prata era percorrido 
por alguns fios de um louro cor de palha. Usava-o preso na nuca, sem madeixas cadas para a testa.
        Mostrou as referncias e fomos todos conversar para a sala de estar. Porm, nenhuma da experincia anterior nem um monte de referncias teria importncia, 
se Pearl no simpatizasse com ela. "Uma criana actua com base no instinto", pensei.
        No preciso momento em que Mrs. Flemming viu a minha filha e Pearl pousou os olhos nela, tomei a minha deciso. Pearl esboou um largo sorriso e no se ops 
quando Mrs. Flemming lhe pegou ao colo. Era como se j se conhecessem, desde o dia em que Pearl nascera.
        - Oh, que menina to linda! - exclamou Mrs. Fleming. - s preciosa, sabes, to preciosa como uma prola. s mesmo.
        Pearl riu, virou os olhos na minha direco, como se quisesse ver se eu estava ou no com cimes, e depois fitou o rosto afectuoso de Mrs. Flemming.
        -
         No tive muita oportunidade de estar com a minha neta quando ela era desta idade - confessou. - A minha filha vive em Inglaterra, sabe? Trocamos muita correspondncia 
e vou l uma vez por ano, mas...
        - Porque no se mudou para l com ela? - indaguei.
        Era uma pergunta muito pessoal e talvez no a devesse ter feito de forma to directa, mas sentia que tinha de saber o mximo possvel sobre a mulher que 
estaria com Pearl quase tanto tempo, se no mais, do que eu.
        O olhar de Mrs. Flemming ensombrou-se.
        - Oh, ela agora tem a sua vida - respondeu. - No quis interferir. - Depois acrescentou: - A me do marido vive com eles.
        No precisava de explicar mais nada. Como diria a grandmre Catherine: "Manter duas grandmres sem problemas debaixo do mesmo tecto  como tentar conservar 
um aligtor na banheira."
        - Onde est a viver agora? - inquiriu Paul.
        - Numa penso.
        Paul fitou-me, enquanto Mrs. Flemming brincava com os dedinhos de Pearl.
        - Bom. Nesse caso, no vejo motivo que impea a sua mudana para aqui - repliquei. - Se as condies a satisfizerem - acrescentei.
        Ela ergueu os olhos, que se iluminaram subitamente.
        - Oh, sim, querida. Sim, obrigada.
        - Vou mandar um dos meus homens lev-la de volta  penso e esperar que rena as suas coisas - decidiu Paul.
        - Primeiro, deixe-me mostrar-lhe onde vai dormir, Mistress Flemming - disse eu, fitando intencionalmente Paul. Ele estava de novo a mover-se com tanta rapidez 
que mal conseguia tomar flego. - O seu quarto  contguo ao quarto do beb.
        Pearl no se queixou quando Mrs. Flemming a levou ao colo at ao quarto. Continuava a sentir que havia algo quase espiritual na forma como as duas se tinham 
sentido mutuamente atraidas e descobri que Mrs. Flemming era canhota. Para os Cajuns significava que podia ter poderes espirituais. Talvez os dela fossem mais subtis, 
os poderes do amor em vez dos poderes de cura.
        - Bom? - quis saber Paul, depois de Mrs. Flemming ter sado com um dos homens dele para ir buscar as suas coisas.
        - Parece perfeita, Paul.
        - Ento, no ters problema em deix-la aqui com a Pearl? - prosseguiu. - S nos ausentaremos um ou dois dias. - Hesitei e ele riu. - Est bem. J encontrei 
a soluo. De vez em quando, preciso lembrar-me de quanto sou realmente rico. Quanto somos, devo vincar.
        - O que queres dizer?
        - Levaremos a Pearl e reservamos um quarto contguo com um bero - elucidou. - Porque hei-de preocupar-me com as despesas, desde que te sintas feliz?
        - Oh, Paul! - exclamei.
        
        Parecia que a sua recente riqueza conseguia solucionar todos os problemas. Lancei-lhe os braos  volta do pescoo e beijei-o na face. Os olhos arregalaram-se 
de uma agradvel surpresa. Recuei, como se tivesse transposto uma fronteira proibida. Por um momento, deixara-me arrebatar pela felicidade e excitao. Um estranho 
brilho de reflexo surgiu-lhe nos olhos azuis.
        - Tudo bem, Ruby - apressou-se a declarar. - Podemos amar-nos de uma forma pura e honesta. S somos meios-irmos. H a outra metade.
        -  a outra metade que me preocupa - confessei num fio de voz.
        - S quero que saibas - retorquiu, agarrando-me nas mos - que a tua felicidade  a nica razo da minha existncia. - O rosto adquiriu uma expresso grave 
e sombria, enquanto nos fitvamos sem desviar o olhar.
        - Eu sei, Paul - redargui, por fim. - E isso por vezes assusta-me.
        - Porqu? - inquiriu, surpreendido.
        -Preocupa-me...  tudo - respondi.
        - De acordo. Deixemo-nos de conversas tristes. Temos de fazer as malas e planear. Preciso tomar umas disposies com o capataz dos poos de petrleo e depois 
voltar  fbrica durante umas horas. Vai fazendo a tua lista de compras e no te esqueas de nada - sugeriu. - A minha famlia estar aqui por volta das seis e meia 
- acrescentou e foi-se embora.
        Esquecera-me desse facto. Enfrentar a me de Paul era algo que temia. As batidas do corao aceleraram-se de ansiedade. Apesar da promessa que fizera ao 
pai de Paul, no era boa a olhar algum no rosto e ignorar a verdade. A minha irm gmea, Gisselle, era perita nessas coisas, no eu. Mas tinha de conseguir faz-lo.
        Mudei de vestido cinco vezes, antes de resolver qual usaria Ir ao jantar com a minha nova famlia. No conseguia decidir se iria levar o cabelo apanhado 
ao alto ou solto. Cada pequeno pormenor assumia de repente uma enorme importncia. Queria causar a melhor impresso que pudesse. Por fim, decidi que apanharia o 
cabelo e desci para jantar no momento exacto em que os Tate chegaram. Paul j estava vestido e  espera na entrada.
        Toby e Jeanne entraram primeiro, com Jeanne fervilhante de excitao e ansiosa por descrever como a comunidade estava a reagir ao nosso enlace. Octavious 
e Gladys Tate vinham atrs; ela agarrava-lhe o brao como se receasse no conseguir aguentar-se de p ou desmaiar se estivesse sem apoio. Beijou Paul na face e depois 
olhou-me quando eu descia a escada.
        Uma mulher alta, apenas uns dois centmetros e meio mais baixa do que o marido, Gladys Tate assumia habitualmente uma postura aristocrata. Sabia que provinha 
de uma abastada famlia em Beaumont, no Texas. Frequentara o liceu e a universidade, onde conhecera Octavious Tate. Surpreendia-me muitas vezes que mais gente no 
suspeitasse que Paul no era, de facto, seu filho. Ela tinha uns traos muito mais duros e angulosos. Havia uma dureza no rosto, uma superioridade, arrogncia e 
indiferena que a distanciava da maioria das mulheres da nossa comunidade cajun, mesmo das que tambm eram ricas.
        
        Costumava usar o cabelo elegante curto e seguia os ditames da moda, mas nessa noite parecia to sombria e deprimida que nem mesmo as roupas mais modernas 
ou o melhor cabeleireiro conseguiriam mudar o seu aspecto triste. Dava-me a sensao de que viera para um velrio e no para um jantar de famlia. Os olhos perscrutaram-me 
o rosto ansiosamente quando me aproximei.
 - Ol - cumprimentei com um sorriso nervoso. Fitei Paul depois acrescentei: - Acho que devo comear a trat-los
por... me e pai...
        Octavious sorriu nervosamente e fitou Gladys, que, apenas devido  presena das irms de Paul, permitiu que os lbios desenhassem um breve esgar. Voltou 
a compor de imediato a sua expresso mais formal.
        - Onde est o beb? - inquiriu num tom frio e duro, dirigindo-se mais a Paul do que a mim.
        - Oh, acabmos de contratar uma ama hoje, me. Chama-se Mistress Flemming. Ela e a Pearl esto l em cima, no quarto. J deu de comer  Pearl, mas vai traz-la 
c abaixo depois de jantarmos.
        - Uma ama? - retorquu Gladys, com um aceno de cabea impressionado.
        -  muito simptica - interferi.
        Os lbios de Gladys Tate suavizaram-se um pouco quando me fitou. Sentia que o clima entre ns era to denso que podia cortar-se  faca.
        - Vou ver como est o jantar - anunciei. - Porque no levas todos at  casa de jantar?
        - Ainda no vi realmente a tua casa, Paul - queixou-se Gladys.
        - Oh,  verdade. Vou dar primeiro uma volta pela casa com a minha me, Ruby.
        - ptimo - concordei, feliz pela oportunidade de me escapar. Ia ser mais dificl do que imaginara, pensei.
        Letty, como se, conhecesse os mais profundos e obscuros segredos, preparou uma refeio que era ainda mais especial do que a primeira que fizera para ns. 
Octavous insistia sem parar em como sentia cimes que o filho tivesse uma cozinheira melhor do que a dele. Pelo seu lado, Gladys elogiou tudo devidamente, mas, 
sempre que falava, pressenti um controlo to tenso que a qualquer instante poderia soltar-se e transformar-se em histeria. Era como se fosse explodir em gritos agudos 
ante a mnima coisa. Mantinha Paul, o pai e eu em suspenso. Fiquei aliviada quando chegmos  sobremesa, que era um souffl de chocolate com rum e o pai de Paul 
declarou que superava todos os que alguma vez provara.
        No preciso momento em que Molly voltava a encher a chvena de caf de todos, Mrs. Flemming apareceu com Pearl ao colo.
        - No  uma maravilha, mam? - exclamou Jeanne. Acho que ela tem os olhos do Paul, no achas?
        Gladys Tate fitou-me um instante e depois olhou para Pearl.
        -  uma bonita criana - declarou num tom muito evasivo.
        - Quer pegar-lhe, madame? - sugeriu Mrs. Flemming. Sustve a respirao. Mrs. Flemming era uma grandmre que sabia quanto uma av desejaria pegar e beijar 
a sua neta.
        - Claro - anuiu Gladys com um sorriso forado.
        
        Mrs. Flemming levou-lhe Pearl, que se contorceu pouco  vontade nos braos dela, mas no chorou. Gladys Tate examinou-lhe o rosto um momento e depois deu-lhe 
um beijo rpido na testa. Sorriu a Mrs. Flemming e esboou um aceno de cabea indicativo de que queria que ela voltasse a pegar-lhe. Mrs. Flemming semicerrou momentaneamente 
os olhos e aproximou-se.
        - Que tal ser uma grandmre, mam? - perguntou Jeanne.
        - Se queres saber se me sinto mais velha por esse motivo,
a resposta  no, Jeanne - replicou Gladys Tate com um sorriso frio. Virou-se, olhou-me do outro lado da mesa e depois
Paul sugeriu que fssemos todos at  biblioteca.
        - Ainda no est muito composta. Nada est, mas depois de a Ruby e eu voltarmos de Nova Orlees, este lugar vai transformar-se num mostrurio.
        - Porque  que no contam  tua me os vossos planos para a decorao da casa? - props Octavious e acrescentou, virando-se para mim: - Foi a Gladys quem 
se encarregou da maior parte da nossa decorao.
        - Oh! Adoraria algumas sugestes - repliquei, fitando-a.
        - No sou decoradora - ripostou Gladys.
        - Ora. No sejas modesta - contraps ousadamente Octavious e esboou-me um aceno de cabea. - A tua sogra  perita quando se trata de mobilar e decorar casas 
luxuosas. Aposto que seria capaz de te acompanhar numa volta pela casa e fazer sugestes.
        - Octavious!
        - Serias, sim, Gladys - insistiu.
        - Vo as duas e eu encarrego-me de fazer companhia aos restantes na biblioteca - disse Paul.
        Por momentos, Gladys pareceu irritada. Mas depois pousou o olhar nas duas filhas, que se mostravam surpreendidas ante a sua relutncia.
        - Claro, se a Ruby quiser realmente - acedeu, contrariada.
        - Por favor - pedi, com os lbios a tremer.
        - ptimo - aprovou Paul, levantando-se.
        - O que devemos ver primeiro? - perguntei a Gladys Tate.
        - Devem comear pelo vosso quarto - sugeriu Jeanne. - Eles tm quartos separados com uma porta de comunicao. No  como um casal real, mam?
        Seguiu-se um profundo momento de silncio. Depois, Gladys sorriu e pronunciou-se:
        - Sim, minha querida.  verdade.
        Quando subimos ao andar superior e percorremos o vestbulo, Gladys manteve-se uns centmetros atrs de mim. No disse palavra. O corao ameaava saltar-me 
do peito, enquanto rebuscava na mente  procura de um tipo de conversa banal que no me fizesse parecer estpida ou nervosa. Pus-me a falar das cores que estava 
a imaginar, tagarelando sobre a sua combinao e o desenho do mobilirio. Ao pararmos na ombreira da porta, ela olhou-me finalmente.
        - Por que razo o fizeste? - perguntou num sussurro rouco. - Porqu, se sabias a verdade?
        - O Paul e eu sempre fomos muito chegados, me. No passado, fui forada a despedaar o corao do Paul por causa da verdade. Sabe como reagiu quando descobriu 
- repliquei.
        - E como achas que me senti? - indagou asperamente. - Ainda no estvamos casados h muito tempo quando o Octavious... foi infiel. A tua me deitou-lhe obviamente 
um feitio. A filha da Catherine Landry tinha, sem dvida, poderes sobrenaturais - salientou.
        
        Engoli em seco. Queria defender a me que nunca conhecera, mas apercebia-me de que a me de Paul desenvolvera aquela teoria para mais facilmente aceitar 
a infidelidade do marido e eu no tinha a inteno de destrui-la.
        -Mas... o que fiz eu? - prosseguiu. - Aceitei, disfarcei os factos e possibilitei que mantivssemos o respeito e o Paul crescesse protegido. Agora vocs 
os dois... decidem casar e...  pecaminoso - retorquu, abanando a cabea. - Pecaminoso.
        - No vivemos juntos dessa maneira, madame.  por isso que temos quartos separados.
        Gladys abanou a cabea com um brilho cruel e crtico nos olhos duros. Depois, respirou fundo e optou por uma expresso de autopiedade.
        - Agora, tenho de voltar a fingir, voltar a engolir o orgulho e fazer o que tem de ser feito para no desgraar os meus filhos. No  justo - declarou, abanando 
a cabea. - No  justo.
        - Ningum saber nada pela minha boca - prometi, e ela soltou uma breve e aguda gargalhada.
        - Porque havias de dizer fosse o que fosse? Olha s para o que tens agora - acrescentou num tom duro, erguendo os braos. - Esta casa, estes terrenos, esta 
imensa riqueza... e um pai para a tua filha. - No despregava os olhos de mim.
        -Madame... me, garanto-lhe...
        - Garantes-me! Ora! Tenho a certeza de que fizeste o mesmo feitio ao Paul que a tua me lanou a Octavious. De me para filha, s que sou eu que pago por 
tudo isso... no o meu querido marido, nem o meu querido filho adoptado. Curioso - acrescentou, depois de uma pausa. - Nunca tinha usado esta expresso antes, nunca, 
mas agora, contigo aqui, apenas posso dizer a verdade: o meu filho adoptado.
        - No  verdade - ripostei. - No seu corao, ama o Paul como se o tivesse dado  luz e ele tambm a ama dessa maneira. Vou fazer-lhe uma promessa, me, 
que  a de jamais interferir nesse amor. Nunca - insisti, de olhos semicerrados e fixando-a com uma expresso determinada.
        Ela sorriu friamente como que implicando que eu no poderia levar isso a cabo, mesmo que quisesse.
        - Mas deve saber que o Paul ama tanto a Pearl como se ela fosse sua - avisei. - Espero que aceite isso e a ame como uma grandmre o faria.
        - Amor - redarguiu. - Toda a gente precisa tanto dele que no admira que estejamos todos esgotados. - Voltou a suspirar e depois percorreu o meu quarto com 
os olhos, ao mesmo tempo que o rosto adquiria uma expresso crtica. - Devias pr uns reposteiros bonitos nestas janelas. O Sol ir pr-se deste lado.  essas cores 
em que estavas a pensar... julguei que supostamente eras uma artista. Usars bege com um pouco de rosa aqui - ordenou. - Quando chegares a Nova Orlees - prosseguiu, 
completando a visita -, h uma loja que conheo em Canal Street...
        Segui-a, agradecida pelas trguas que tinham descido entre ns, embora fossem umas trguas  maneira dela.

        
        Na manh seguinte, levantmo-nos cedo para a nossa viagem a Nova Orlees. Por sorte, a nvoa matutina dissipou-se e as manchas azuis atravessadas pelo brilho 
do sol tornaram a viagem mais agradvel. Detestava percorrer longas distncias  chuva. Porm, enquanto viajvamos pela estrada familiar, era impossvel deixar de 
me sentir algum que revivia um velho pesadelo. Lembrei-me da minha primeira viagem, quando fugira do grandpre Jack. Chegara a Nova Orlees na tera-feira de Carnaval, 
e quase fora violada por um homem com uma mscara carnavalesca, que fingiu ajudar-me a orientar-me na cidade.
        Foi, contudo, esse o dia em que conhecera Beau, recordei. No preciso momento em que me dispunha a desistir e a afastar-me da casa do meu pai, Beau chegara 
como se sado de um barco de sonho numa tela de cinema.
        Mal pus os olhos nele, percebi de imediato que era especial e, pela forma como me fitou ao inteirar-se que eu no era a minha irm gmea, soube que ele pensava 
o mesmo a meu respeito. Quando o lago Pontchartrain se recortou na paisagem com a sua gua de um verde-escuro semeada de pequenas ondas, recordei vivamente o meu 
primeiro encontro com Beau e como estivramos apaixonados desde ento.
        Perdera-me a tal ponto nestas recordaes, que nem me dei conta de que Paul nos conduzira at  cidade; chegramos ao Hotel Farmont. Pearl dormira durante 
a maior parte da viagem, mas, quando descemos, ficou fascinada com os sons do trnsito, as pessoas e toda a actividade  nossa volta. Dirigimo-nos para os nossos 
aposentos. Paul reservara um quarto com duas camas que dava para um outro, onde dormiriam Mrs. Flemng e Pearl.
        Depois de comermos uma refeio ligeira no hotel, Mrs. Flemming levou Pearl a fim de dormir uma sesta, e Paul e eu demos incio s compras. Esquecera-me 
do quanto gostava da cidade. Tinha os seus prprios ritmos especiais que mudavam  medida que o dia se transformava em noite. De manh, apresentava-se muito calma. 
A maioria das lojas no estava aberta e as persianas e portas das varandas apresentavam-se fechadas, sobretudo no famoso French Quarter, o Vieux Carr. As sombras 
ainda reinavam e as ruas estavam relativamente frescas.
        Ao fim da manh, abriram as lojas e as ruas pululavam de gente. As varandas de arabescos sobre as nossas cabeas extravasavam de flores. O Hawkers publcitava 
as suas mercadorias; a msica comeava a atrair os turistas at s portas de restaurantes e bares. Depois,  medida que avanou a tarde, o ritmo acelerou. Os artistas 
de rua ocuparam as devidas posies nas esquinas, fazendo sapateado, malabarismos e tocando guitarras.
        Paul tinha uma lista de lugares onde ir, uma lista que revelou haver sido elaborada pela me.
        - Ela sabe bastante mais sobre tudo isto do que ns - declarou e mostrou-me uma lista de artigos que nos mandara comprar. - O que achas? - quis saber.
        - ptimo - respondi, embora muitas coisas no fossem especialmente da minha preferncia.
        Paul e eu fomos de loja em loja, comprando moblias, acessrios de iluminao, candeeiros e mesas, bem como objectos sugeridos pela me. Comeava a sentir-me 
como se estivesse meramente a ser arrastada.
        - A minha me  uma mulher de muito bom gosto, no ? - declarou, antes de eu ter tido muita oportunidade de comentar.
        - Sim - anui. Era como se ela se encontrasse ali ao nosso lado.
        
        A tarde ia avanada quando Paul e eu fizemos um intervalo e fomos ao Caf du Monde beber um caf e comer os famosos beignets. Podamos observar os artistas 
diante dos cavaletes e os turistas desfilando, de olhos muito abertos e as mquinas fotogrficas penduradas ao pescoo. Uma brisa fria soprava do rio e as flores 
de magnlia que se levantavam e baixavam conferiam um brilho particularmente atraente  atmosfera.
        - Fiz uma reserva de jantar para ns no Amaud's - disse Paul.
        -O Arnaud's?
        - Sim. A minha me sugeriu. No te parece uma boa escolha?
        - Oh, sim, claro - respondi, apressando-me a sorrir. Como  que Paul poderia saber que Beau me levara ao Arnaud's no nosso primeiro encontro formal? Todavia, 
aos meus olhos, era como se a cidade estivesse a conspirar para acordar cada uma das recordaes da minha vida passada ali, quer fossem boas ou ms.
        Tivemos um jantar maravilhoso e Pearl portou-se bem. Depois, Paul quis sentar-se no salo do hotel a ouvirjazz. Fizemo-lo durante algum tempo, mas a viagem 
e as compras com todas as suas implicaes emocionais haviam sido mais cansativas do que pensava. No conseguia manter os olhos abertos. Paul riu e subimos ao nosso 
quarto.
        Esta era a primeira noite que dormamos juntos no mesmo aposento, e, embora no partilhssemos a cama, havia uma intimidade que, de comeo, me provocou um 
certo desconforto. Quando me encontrava de p diante do lavatrio e do espelho, vestida apenas em combinao e a tirar a maquilhagem, vi Paul reflectido no espelho, 
de p, atrs de mim, fitando-me com o azul dos olhos to fundo que me senti despida. Logo que percebeu que o observava, afastou-se rapidamente.
        Dirigi-me  casa de banho e vesti-me para me deitar. Paul j estava na cama quando apaguei a luz e me enfiei debaixo da roupa.
        - Boa noite, Ruby - pronunciou suavemente.
        -Boa noite.
        O silncio e a escurido pareciam adensar-se entre ns. Partilharamos tudo o que um homem e uma mulher que casavam
e se tornavam um s podiam partilhar, excepto uma coisa: um
ao outro. Esse pensamento pairava no escuro sobre mim, aguilhoante e doloroso. Virei-me de lado e, quando fechei os olhos, a minha mente evadiu-se at  recordao 
de Beau e da paixo com que nos amvamos. Por agora, essas lembranas eram tudo o que tinha.
        No dia seguinte, continumos a nossa ronda de compras, de acordo com o rol que Mrs. Tate escrevera. Fui a uma loja de artigos de arte e apresentei-lhes a 
minha lista. Tudo seria entregue. Depois do almoo, Paul e eu passemos pelo French Quarter, procurando agora presentes para as irms e os pais dele.
        - Ainda no falaste no assunto, mas tencionas ver a tua madrasta? - perguntou Paul. - Ela tem de saber do nosso casamento.
        - Estava a pensar faz-lo, sim - respondi. - Embora no esteja muito ansiosa.
        - Acompanho-te.
        - No. De momento, prefiro ir sozinha - retorqui.
        - Est bem - anuiu com um sorriso. - Queres que te chame um txi ou...
        -
         No. Acho que quero ir de elctrico - ripostei.
        Fizera-o tantas vezes quando morava na grande casa do meu pai no Garden District. Continuava a ser um passeio delicioso para mim; porm, no momento em que 
desci e comecei a encaminhar-me para a manso, senti o corao a bater-me com fora no peito.
        Conseguiria voltar quela casa e enfrentar a minha madrasta depois de ter fugido? Sabia que Gisselle estava nas aulas e, portanto, no discutiria com ela, 
mas entrar naquela grande casa, sabendo que o meu pai tinha desaparecido, Nina tambm e Beau se encontrava na Europa envolvido com outra jovem mulher, parecia uma 
tortura imposta a mim prpria.
        Fiz uma pausa do outro lado da rua e contemplei a manso de mrmore branco. Parecia imutvel, congelada no tempo. Talvez se atravessasse aquela rua, tudo 
o que acontecera desde o dia em que chegara desaparecesse e comeasse tudo de novo, pensei. O meu pai ainda estaria vivo, robusto e elegante. Nina Jackson encontrar-se-ia 
na cozinha, dobrada e a resmungar em voz baixa sobre alguns ingredientes, queixando-se de alguns espritos maus que se haviam alojado nos armrios, e Otis ainda 
estaria  porta,  espera de me cumprimentar. Ouviria Gisselle a gritar qualquer protesto l de cima.
        Ia a atravessar quando o familiar Rolls-Royce subiu o acesso. Vi-o parar em frente da casa e Daphne saiu. Se algo ou algum parecia imutvel era ela. Constante 
imagem de gelo, adoptou logo a sua postura de esttua e ditou qualquer ordem ao motorista. O carro afastou-se e ela subiu as escadas. Um novo mordomo, um homem mais 
baixo, de cabelo grisalho, abriu de imediato a porta. Era como se nada mais fizesse do que esperar que a dona da casa chegasse. Sem o saudar, entrou em casa. O mordomo 
fez uma ligeira vnia e, em seguida, olhou para fora, como se olhasse para a liberdade. Um momento depois, a porta estava fechada; recuei para o passeio.
        De sbito, nada se afigurava mais assustador e desagradvel do que a ideia de enfrentar Daphne. Girei sobre os calcanhares e afastei-me, caminhando to rapidamente 
como se estivesse a fugir. No entanto, a verdade  que fugia. Fugia das terriveis lembranas dos modos desdenhosos de Daphne, da sua tentativa de me internar, dos 
cimes do amor do meu pai por mim, da sua nsia por dar uma terrvel imagem minha aos olhos dos pais de Beau. Fugia do vazio daquela grande casa quando o meu pai 
morrera, das sombras e da escurido que pairavam nos cantos.
        Caminhei ao longo de quarteires a fio antes de voltar a apanhar o elctrico e, quando cheguei ao hotel e Paul me abriu a porta, parecia enlouquecida, de 
cabelo desgrenhado e a tristeza estampada no rosto.
        - O que aconteceu? - inquiriu. - O que  que ela te fez?
        - Nada - respondi, atirando-me para cima da cama. - Nem lhe falei. Fui incapaz. Vou escrever-lhe - acrescentei. - E fiquemos por aqui. Vamos para casa... 
agora!
        - Mas ainda temos de fazer umas coisas - protestou, abanando a cabea. - A minha me acha que devamos...
        - Oh, Paul - interrompi, pegando-lhe na mo. - Leva-me para casa. Por favor... leva-me para casa. Tu prprio podes comprar o resto, no podes?
        - Claro - acedeu. - Partiremos imediatamente.
        
        S quando chegmos ao bayou e inicimos a subida para Cypress Woods  que voltou a invadir-me uma profunda sensao de alvio. A nossa manso erguia-se na 
minha frente e apercebi-me de que era esta a minha casa, mesmo que fosse a minha sogra quem a decorava e no eu. Agora, mais do que nunca, senti a-me feliz por ter 
tomado a deciso de casar com Paul e ir para ali. Ficava suficientemente distante e isolada para afastar os fantasmas do meu passado tenebroso.
        Ansiava por comear a montar o meu estdio e voltar a pintar. Os pntanos, os nossos acres de terra e os nossos poos de petrleo estariam dentro dos muros 
que afastariam os demnios. Ali estava segura, pensei. Segura...
        

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NOTCIAS TRISTES
        
        Cada dia dos meus primeiros seis meses como dona de Cypress Woods revelou-se to cheio de responsabilidades e actividades que mal tive tempo de reflectir 
na vida que tinha escolhido para mim e para a minha filha.
        Acho que s dei pelo Inverno quando me apercebi da partida dos gansos-das-neves e vi que a estao terminara. Os primeiros botes primaveris abriam-se numa 
exploso deslumbrante de cor como nunca me fora dado observar. O mobilirio e os apetrechos decorativos para a nova casa tinham comeado a chegar pouco depois da 
nossa viagem a Nova Orlees. Pintores e decoradores, ladrilhadores e pessoal das alcatifas, reposteiros e espelhos, uma parada de artesos, desfilavam todos os dias 
pela casa.
        A me de Paul aparecia quase todas as manhs para supervisionar. Sempre que comentava o assunto, Paul interpretava erradamente ou ignorava os meus propsitos.
        - No  maravilhosa a forma como se interessa por ns? - replicava. - E o facto de ela estar aqui, movendo-se por todas as divises, subindo e descendo as 
escadas, respondendo a perguntas, liberta-te para poderes trabalhar no teu estdio.
        Prestei toda a ateno quele lugar, pois era o nico onde Gladys se recusava a entrar. Paul foi igualmente apanhado por um frenesim de actividade. Os seus 
dias eram divididos entre o trabalho na fbrica e a superviso dos poos de petrleo. Duas semanas depois do nosso regresso de Nova Orlees, foi escavado um novo 
poo. Deu-lhe o nome de "Poo de Pearl" e decidiu que todos os proventos do mesmo seriam depositados numa conta a favor dela. Antes de ter um ano, era mais rica 
do que a maioria das pessoas no final das suas vidas produtivas.
        Nos fins-de-semana, dvamos grandes jantares para os maridos e mulheres das pessoas com quem Paul lidava no seu negcio petrolfero. Todos ficavam impressionados 
com a nossa casa e propriedade, sobretudo os que vinham de Baton Rouge, ou Houston e Dalas. Sabia que todos esperavam muito menos do bayou cajun. Paul tagarelava 
em permanncia a meu respeito, vangloriando-se sem pejo dos meus talentos e sucessos artsticos.
Escrevi finalmente a minha carta a Daphne, mas s depois de haver passado um ms desde a minha tentativa para a contactar em Nova Orlees. De vez em quando, Paul 
perguntava-me se o fizera e eu respondia: "Dentro em pouco. Estou a organizar ideias.>) Ele sabia que eu estava a adiar, mas no me espicaava. Por fim, numa tarde 
em que dispus de tempo para tomar flego, sentei-me no jardim, munida de caneta e papel e comecei a escrever.
               
               "Cara Daphne,
               H quase um ano que no nos escrevemos nem falamos.
               Sei que pouco lhe interessa o que me aconteceu e onde estou agora, mas, em prol e memria do meu pai, resolvi escrever esta carta.
               
               Depois da minha horrvel experincia naquela repugnante clnica onde me mandou para fazer um aborto, fugi e regressei s minhas razes, ao bayou. 
Vivi, durante meses, na velha cabana da minha grandmre, fazendo tudo o que as duas tnhamos feito para sobrevivermos. Dei  luz uma bonita filha a quem chamei Pearl 
e lutei durante meses para providenciar o nosso sustento.
               Apercebi-me de que a minha primeira responsabilidade agora  a minha filha e o seu bem-estar e foi com este objectivo em mente que me casei com o 
Paul Tate. No espero que compreenda, mas temos uma vida em comum muito especial. Mais parecemos scios, empenhados em construir uma felicidade mtua e em oferecer 
um futuro seguro a Pearl, do que marido e mulher. A terra que o Paul herdou revelou-se rica em petrleo. Temos uma bela casa chamada Cypress Woods.
               Nada lhe peo, e muito menos de forma alguma o seu perdo. No deve interpretar esta carta como o meu perdo pelo que tentou fazer-me no passado. 
Na verdade, sinto mais pena do que raiva por si. Espero, porm, que aquilo que o meu pai decidiu dar-me, me seja dado. O meu amor por ele em nada diminuiu. Sinto 
terrivelmente a sua falta.
Zele, por favor, para que o advogado encarregado da minha custdia seja informado da minha nova morada.

Ruby"
        
        No obtive resposta, o que no me surpreendeu. Pelo menos, dera notcias e ela no poderia invocar o argumento de que eu desaparecera e repudiara todo o 
contacto e ligao com a propriedade do meu pai. De facto, nunca a aceitara como uma me ou membro da famlia. Fora uma estranha para mim enquanto vivera na casa 
dos Dumas e continuava a s-lo ainda mais agora.
        Jeanne aparecia com mais frequncia do que Toby para nos visitar e brincar com Pearl. Depois do meu casamento com Paul, abraava-me ternamente como sua nova 
irm e, por vezes, confiava mais em mim do que na sua prpria irm de sangue, Toby, e, sem dvida, mais do que na me. Uma tarde, estvamos sentadas no ptio a beber 
limonada fresca e observando Mrs. Flemming a levar Pearl para um passeio atravs dos jardins.
        Jeanne viera de propsito a Cypress Woods para falar comigo sobre o seu namorado, James Pitot, um jovem advogado. Tratava-se de um homem alto, moreno e elegante 
com uma delicadeza e encanto que me recordavam um pouco o meu pai.
        - Acho que vamos ficar noivos - revelou Jeanne e pela forma como se expressou apercebi-me de que era eu a primeira a sab-lo.
        - Achas?
        - A ideia de um grande "sim" aterroriza-me! - exclamou, o que me obrigou a rir. - No tem graa, Ruby. Mantenho-me acordada noites a fio, atormentada com 
isso.
        - No, no tem graa. No devia rir. Tens razo.
        - O que te levou, finalmente, a decidir casar com o Paul? - indagou.
        "Se ela soubesse a verdade, no se mostraria to calorosa", pensei, receosa.
        - Quero dizer, no sei o que  o amor, o que  realmente. Senti-me atrada por vrios rapazes e sabes que costumava sair com o Danny Morgan...
        - Lembro-me.
        -
         Mas ele tornou-se um... um idiota chapado. O James  diferente. O James ...
        - O qu? Conta-me - pedi.
        - Atencioso, delicado, terno e suave. Ainda no fizemos amor... sabes? - confessou, corando. - Claro que ele queria, mas no consegui, sem ser casada. Disse-lho 
e ele compreendeu. No se erritou.
        - Porque se importa realmente contigo e pelo que te torna feliz - conclu. -  isso o amor ou, pelo menos, a parte mais importante. O resto tambm  obviamente 
importante, mas no tem de haver um toque de sinos sempre que beijas. O que aprendi  que a confiana  o solo onde se planta um longo e duradouro amor, Jeanne.
        - Mas claro que houve um toque de sinos para ti e para o Paul. H muito que vocs os dois estavam apaixonados. Lembro-me de quando ele mal conseguia acabar 
de jantar para pegar na secoter e ir ver-te, mesmo que fossem s dez minutos. Era como... como se o Sol nascesse e se pusesse no teu rosto.
        "No tenho sentimentos to fortes pelo James - admitiu. -        Portanto, receio cometer um erro crasso se responder sim.
        - Algumas pessoas amam demasiado - contrapus num tom suave.
        - Como Ado amou Eva - retorquiu com um aceno de cabea. - Ele comeu o fruto proibido depois de Eva o ter provado s para no a perder. Foi o que o padre 
Rush me contou uma vez.
        - Sim, como Ado - assenti com um sorriso.
        - Mas achei a histria to romntica. Quero que o meu casamento seja romntico, to romntico como o teu - declarou. -        E o teu , no , Ruby?
        Fitei-a. Seria apenas a sua juventude que a impedia de divisar a verdade nos meus olhos, ou estava em causa a minha capacidade de mascarar a realidade? Sorri.
        - , Jeanne, mas isso no acontece de um dia para o outro e, pela forma como falas do James e pelo que me contas dele, tudo indica que sero felizes juntos.
        - Oh, ainda bem que dizes isso! - exclamou. - De facto, valorizo mais a tua opinio do que a de qualquer outra pessoa, mais do que a da mam e sem dvida 
mais do que a da Toby.
        - Gostaria que primeiro falasses com a tua me - retorqui - No quero convencer-te a fazer o que quer que seja. Tens de te convencer a ti prpria.
        Bem no fundo de mim, imaginava Gladys Tate a odiar-me por dar conselhos ntimos  filha dela.
        - No te preocupes, tontinha - redarguu. - Estou convencida. Apenas precisava de ter a certeza. Dantes, tambm te sentias insegura, no?
        - Tambm - confessei.
        - Nunca falas da tua vida em Nova Orlees. Tiveste muitos namorados l, ou quando foste para o colgio?
        - No, muitos no - retorqui, logo desviando os olhos, o que no lhe passou despercebido.
        - Mas houve um?
        - No houve... nenhum, realmente - ripostei, voltando costas com um sorriso. - Sabes como podem ser esses rapazes ricos crioulos... Fazem promessas apenas 
para conseguir ir para a cama e depois partem para outra conquista.
        -E foste?
        -Fui o qu?
        -
         Para a cama com algum deles?
        - Jeanne!
        - Desculpa. Julgava que podia perguntar. Julgava que podamos ser irms, melhores irms do que o foram tu e a tua irm gmea.
        - No seria difcil - comentei com uma gargalhada. Fitei-a uns momentos e depois respondi: - No, no fui. - Sabia que, se lhe contasse a verdade, eu prpria 
romperia em lgrimas e todo este mundo maravilhoso que Paul criara para Pearl e para mim ruiria  nossa volta.
        - Nesse caso, estou certa em esperar at sermos casados? - inquiriu, aliviada.
        - Se  o que sentes, ests - disse-lhe.
        De momento, pareceu satisfeita, mas incomodava-me aconselhar algum a nvel de romance e casamento. Quem era eu para o fazer?
        No dia seguinte, Jeanne veio anunciar o seu noivado com James Pitot. Tinham marcado uma data. Quando Paul soube a notcia, anunciou que o casamento seria 
em Cypress Woods, se ela o quisesse. Jeanne fitou-me com uma expresso cmplice e mostrou-se encantada.
        - A Ruby ajudar-me- a planear o casamento. No  verdade, Ruby?
        - Claro - acedi.
        - Oh, Paul! - exclamou. - Fizeste mais do que casar com a mulher que sempre amaste e dar-nos uma bela e adorvel sobrinha. Deste-me uma irm maravilhosa.
        Abramo-nos e beijmo-nos e esperei ter dito o que se impunha e que Jeanne estivesse destinada a um ptimo e feliz casamento. De qualquer maneira, havia 
um grande acontecimento de famlia a planear. Parecia que Paul tinha razo: as nossas vidas seriam plenas de excitao e nunca montonas.
        Nessa noite, Paul bateu na porta de comunicao e entrou no meu quarto quando eu estava em frente do espelho do toucador, escovando o cabelo. J vestira 
a camisa de noite. Ele optara por um leve pijama de seda azul, um dos presentes de aniversrio que lhe comprara.
        - Acabei de falar ao telefone com o meu pai. Ele acha que a casa dele agora se assemelha a um posto de comando militar. J elaboraram longas listas de convidados 
e comearam a planear os preliminares. Jura que parecem os preparativos para uma batalha.
        Sorri.
        - Gostava que tivssemos tido um casamento de arromba - declarou. - Merecias nada mais nada menos do que ser tratada como algumas das princesas cajuns.
        -  assim que sou tratada, Paul.
        - Sim, mas... - Os olhos fixaram-se nos meus atravs do espelho. - Como tem sido para ti? Quero dizer... s realmente feliz, Ruby?
        - Sim, Paul. Sou.
        Esboou um aceno de cabea e depois trocou uma expresso profunda e meditativa por um sorriso terno e suave.
        - De qualquer forma, agradeo-te teres aceite as minhas irms to rapidamente no teu corao, tornando-as tua famlia tambm. Elas adoram-te e a minha me... 
Bom, ela aprendeu a fazer mais do que simplesmente aceitar. Sei que agora te respeita.
        
        Interroguei-me sobre como podia atrever-se a uma tal afirmao. Estaria cego em relao  expresso fria e sombria dos olhos da me sempre que os pousava 
em mim, ou to decidido a ser feliz que ignorava o facto e ele prprio vivia na iluso?
        - Assim espero, Paul - retorqui sem muita convico.
        -  verdade - insistiu. - Bem. Boa noite.
        Avanou e beijou-me ao de leve no pescoo. Ainda nunca me beijara assim, desde que casramos. O calor dos seus lbios emitiu ondas de calor para os meus 
ombros e ao longo dos seios. Fechei os olhos e, quando voltei a abri-los, vi-o de p com os lbios a escassos centmetros do meu rosto.
        - Boa noite - pronunciei num murmrio rouco.
        - Boa noite. - Voltou-se rapidamente e saiu do meu quarto.
        Durante um momento, no desviei o olhar. Depois, respirei fundo e preparei-me para me deitar.
Nessa noite, dei voltas e mais voltas na cama durante horas a fio, antes de ceder finalmente ao cansao e adormecer.
        
        Trs dias mais tarde, a felicidade que pairava sobre Cypress Woods foi destruida pela chegada de Gisselle. Ela e dois dos seus amigos da sua elegante escola 
preparatria apareceram no acesso da casa, buzinando furiosamente, num Cadillac descapotvel. Fez com que todos os criados e eu acorrssemos  janela da frente. 
Julgmos tratar-se de qualquer emergncia. James fitou-me surPreendido.
        - a minha irm gmea - informei. - No se preocupe, James. Eu vou cumpriment-la e receb-la.
        - Muito bem, madame - anuiu, feliz por ser dispensado. Sa para a varanda, a fim de os receber.
        Passara algum tempo desde que eu e Gisselle nos tinhamos visto pela ltima vez. Os dois rapazes que a acompanhavam eram bonitos e elegantes, um deles de 
cabelo castanho-escuro e o outro louro de olhos azuis e tez muito clara. Era ele quem viera a conduzir.
        Os dois vestiam blazers azul-escuros com os emblemas da instituio gravados a ouro nos bolsos do peito. O jovem moreno foi o primeiro a sair e segurou a 
porta para dar passagem a Gisselle, esboando uma vnia  europeia, como se ela fosse um membro da realeza. O riso dos lbios sugeria que tinham estado a beber ou 
talvez a fumar erva. No havia nenhum motivo para esperar que Gisselle tivesse mudado ou amadurecido desde que nos vramos pela ltima vez, mas aguardara qualquer 
milagrosa metamorfose.
        - Aqui est ela - exclamou, mal me ps a vista em cima.
-        A minha querida e adorada gmea, a dona de Cypress Woods. Tenho de confessar, querida irm - acrescentou com um aceno de cabea enquanto olhava em volta 
-, que no te saste nada mal para uma cajun.
        Os dois homens riram e o motorista saiu e juntou-se-lhes.
        - Ento? No me cumprimentas? - impacientou-se Gisselle, de mos nas ancas. - H muito tempo que no nos vemos. Podias pelo menos fingir que ests satisfeita.
        - Ol, Gisselle - saudei num tom seco.
        -
         O qu? Nem um beijo e abrao fraterno? - Avanou ao meu encontro. Abanei a cabea e beijei-a. - Assim  melhor. Devias ficar impressionada. Percorremos 
toda esta distncia para te visitar e  uma viagem terrivelmente montona. Nada para ver,
 excepo destas cabanas apoiadas em estacas, velhos barcos de pesca ao camaro a apodrecerem nos canais e crianas pobres e sujas brincando com ferramentas velhas 
e enferrujadas nos srdidos ptios da frente. No  verdade, Darby? - indagou, voltando-se para o jovem moreno. Ele concordou com um aceno e sem me desfitar.
        - Porque  que no fazes as devidas apresentaes, Gisselle? - incitei.
        Ela esboou um esgar.
        - Claro. Tal como nos ensinaram em Greenwood, hem? - e imitou a nossa professora de etiqueta em Greenwood, falando pelo nariz. - Este  o Darby Hennessey, 
dos corruptos e ricos Hennessey do Banco de Nova Orlees. - Darby soltou uma gargalhada e curvou-se numa vnia. - E este timido e louro jovem  minha esquerda  
o Henry Howard. O pai  um dos mais famosos e importantes arquitectos da Luisiana. Nenhum destes jovens hesitaria em gastar a sua herana comigo, pois no, cavalheiros?
        - Pelo meu lado, guardaria um pouco para me manter com champanhe - gracejou Darby, e todos riram.
        - Esta casa... Devo confessar, Ruby - comentou Gisselle, recuando. - No fazia ideia. s rica antes mesmo de herdares a tua parte. Consegues imaginar como 
a minha irm gmea vai ser rica?
        O interpelado esboou um aceno, olhando em volta.
        - Rica mesmo - admitiu.
        - Brilhante. O Henry vai formar-se em neurocirurgia - redarguiu, e Darby riu. - Ento? Vais levar-nos a dar uma volta ou deixar-nos aqui de p o dia inteiro 
sob este calor dos pntanos? - inquiriu.
        - Claro que vou mostrar-vos a casa.
        - No faz mal que o carro fique aqui? - perguntou-me Henry.
        - Porque havia de fazer? - ripostou Gisselle, sem me dar tempo a responder. - Achas que ela tem um criado para o estacionar? - Riu e enfiou o brao no de 
Darby. - A visita, madame - insistiu.
        - No mudaste em nada, Gisselle - comentei, abanando a cabea.
        - Para qu? Sempre fui perfeita. Certo, Darby?
        - Certo - respondeu ele, obediente.
        Abri a porta e introduzi-os na casa.
        - A Daphne teria um fanico se visse como te saiste bem, querida irm - garantiu Gisselle, enquanto observava o enorme trio de entrada, os meus quadros e 
estatuetas, o cho de mrmore e a escadaria.
        Soltou um assobio frente ao elegante mobilirio da sala de estar e do escritrio, mas a atitude sarcstica deu lugar a uma expresso de respeito quando os 
levei a visitar o resto do andar de baixo e depararam com os enormes quadros, os luxuosos candeeiros e lustres, a imensa cozinha e a sala de jantar com uma mesa 
que podia acomodar facilmente vinte pessoas.
        - Isto supera tudo o que vi no Garden District - confessou Henry.
        - No viste tudo no Garden District - cuspiu Gisselle, e ele calou-se. - E os quartos? - perguntou.
        - Por aqui.
        
        Mostrei-lhes primeiro os quartos de hspedes e depois o quarto de Paul e o meu, furtando-me apenas ao quarto de Pearl, pois esta encontrava-se a dormir a 
sesta.
        - Quartos separados com porta de comunicao - observou Gisselle com um sorriso lascivo. - Quantas vezes se usa esta porta? - sussurrou. Embora tivesse empalidecido, 
no respondi. Ela riu e olhou em volta. - J no tens um estdio - replicou, satisfeita.
        -  no sto - expliquei, despreocupada.
        -O sto?
        - Vou mostrar-vos - propus, levando-os at l acima.
        -  inacreditvel - exclamou Darby, genuinamente impressionado. - Esta casa  um palcio. Olha s a vista desta janela - convidou, virando-se para Gisselle, 
que esboou um trejeito de amuo.
        -  apenas uma vista dos pntanos - retorquiu.
        - Sim, mas...  uma beleza. H um lago enorme e aquelas flores.
        - De acordo - anuiu Gisselle num tom de frustrao. - Tens alguma coisa que se beba? Estou ressequida.
        - Claro. Vamos at ao jardim e a Molly traz-nos limonadas.
        - Limonadas? - troou ela. - No tens nada mais forte? - perguntou asperamente.
        - O que quiseres, Gisselle. Basta dizeres  minha criada.
        - A criada dela. Esto a ver como a minha irm cajun fala? "Basta dizeres  minha criada."
        Samos com os rapazes atrs de ns e Gisselle agarrou-me pelo brao.
        - Onde est a filha do Beau? - inquiriu.
        - A Pearl est a dormir e aqui ningum a conhece como filha do Beau - respondi.
        - Claro. - Sorriu, satisfeita. - E o nosso irmo, o teu marido? - sussurrou.
        - Neste momento est a trabalhar nos campos petrolferos - disse, enquanto o corao me batia com mais fora. - Se vieste para nos causares problemas...
        - Por que razo o faria? No me interessa o que fizeste, embora saiba que o fizeste apenas para te vingares do Beau.
        - No  verdade, Gisselle.
        - No queres saber notcias dele? - espicaou e eu mantive-me em silncio. - Rompeu com a noiva na Europa. Portanto, se no te apressasses a encetar esta 
ligao pecaminosa, ainda podias conquist-lo - prosseguiu com um enorme contentamento.
        O sangue afluiu-me ao rosto e senti-me como se ficasse sem fora nas pernas e fosse cair pelas escadas. Depois, ela soltou uma gargalhada e enfiou o brao 
no meu.
        - Mas no falemos de velhos romances. Falemos primeiro de outras notcias. Tenho muito para te contar, boas notcias e... ms notcias - informou com um 
sorriso cruel.
        Descemos as escadas com a respeitosa corte atrs, pronta a obedecer-lhe ao mnimo gesto.
        -
         O casamento da Daphne - comeou Gisselle, depois de ter um usque com menta na mo - foi algo inesquecvel. Ela e o Bruce no se pouparam a despesas. Houve 
centenas de convidados. A igreja estava a rebentar pelas costuras. A maioria das pessoas apareceu por uma questo de curiosidade e por quererem participar no evento 
social da poca. Na verdade, ela nunca teve amigos. Tinha apenas os conhecimentos de negcios, mas nunca lhe interessaram, nem lhe interessam.
        - So felizes juntos?
        - Felizes? Dificilmente - respondeu com uma gargalhada.
        - O que pretendes dizer?
        - O Bruce continua a ser o empregado dela. Lembras-te de como costumava meter-me com ele? "Bruce vai buscar isto, Bruce vai buscar aquilo." Sabes o que descobri 
uma noite ao ouvir as conversas de negcios deles? Ela obrigou-o a assinar um acordo pr-nupcial. Ele nada herda se ela sofrer algum acidente. Nada. E no pode divorciar-se 
para depois lhe exigir qualquer bem.
        - Porque  que ela se casou com ele?
        - Porqu? - Gisselle ergueu os olhos para o cu e depois esboou um trejeito. - O que te parece?... Para o calar. Andavam a desviar o dinheiro do pobre e 
querido pap. Mas a Daphne foi esperta. Manteve o controlo de tudo e tornou o
Bruce dependente dela. Precisava de uma companhia,  tudo. No dormem juntos, como no vosso caso - prosseguiu, com um aceno de cabea na direco das janelas do 
andar superior -, quartos separados. S que no tm porta de comunicao. - Riu e fitou depois Darby e Henry que se mantinham sentados, bebendo devagar, fitando-a 
e sorrindo-lhe estupidamente como dois periquitos enfatuados. - Porque  que vocs no vo at aos poos de petrleo ou algo do gnero? A Ruby e eu temos de conversar 
- afirmou.
        Os dois levantaram-se, obedientes, e afastaram-se.
        - Eles adoram-me - replicou Gisselle, seguindo-os com o olhar -, mas falta-lhes imaginao e so aborrecidos.
        - Ento porque deixas que te acompanhem?
        - S para me divertir - respondeu, aproximando-se mais. - Portanto, o Bruce apareceu um dia na minha casa de banho
quando eu estava a tomar banho.
        - O que aconteceu? - perguntei, boquiaberta.
        - O que achas?
        Ignorava se havia ou no de acreditar nela, mas lembrei-me da forma como Bruce costumava fixar-me, despindo-me com o olhar e recordei o modo como me encolhia 
ante o toque dele.
        Ergueu a cabea e endireitou os ombros, vangloriando-se com um ar petulante:
        - Estive com muitos homens mais velhos. Cheguei a ir para a cama com um dos meus professores.
        - Gisselle!
        - E da? H algo pior do que o que tu fazes... dormindo com o teu meio-irmo? - ripostou.
        - No  verdade. No dormimos juntos. Casmos, mas no somos marido e mulher dessa maneira. Ambos concordmos.
        - Porqu? - inquiriu, com um trejeito. - Porqu, ento, o casamento?
        - O Paul sempre me amou e, antes de sabermos qual era a nossa verdadeira relao, gostava muito dele. Ele ama tanto a Pearl como o faria se fosse sua prpria 
filha. Agora, temos uma relao muito especial - esclareci.
        -
          mesmo especial. E aborrecida. Suponho, ento, que tens um amante, qualquer homem dos pntanos, um homem cajun atraente, alto, moreno, que se esgueira 
at ao teu quarto durante a noite?
        - No, claro que no.
        - Claro que no, tu... menina bem-comportada! - Recostou-se com um dos braos pendentes da cadeira. - Escrevi ao Beau a contar-lhe o teu casamento e como 
s rica - disse.
        - Aposto que no podias esperar.
        - Bom. Tu fgiste. Devias ter feito o aborto e ficado em Nova Orlees. Mesmo com tudo isto, ainda vives nos pntanos.
        - Os pntanos so belos. A natureza por vezes pode ser feia - repliquei.
        Gisselle sorveu um gole enorme da sua bebida.
        - Falei-te do tio Jean? - indagou subitamente.
        - O tio Jean? No. O que h com ele?
        - No sabes mesmo nada?
        - O que , Gisselle?
        - Matou-se - respondeu, despreocupada.
        - O qu? - ofeguei, sentindo o sangue a fgir-me do rosto e os ps pregados ao cho.
        - Um dia, roubou uma dessas facas que usam para cortar o barro na sala de recreio deles e cortou os pulsos. Sangrou at  morte, antes que algum descobrisse 
o que ele fizera. A Daphne fez obviamente uma grande cena, ameaando processar a instituio. Tanto quanto sei, conseguiu qualquer acordo. Se h uma forma de fazer 
dinheiro com qualquer coisa, seja o que for, ela descobre-a.
        - O tio Jean... matou-se? Quando?
        - H meses - respondeu com um encolher de ombros.
        Recostei-me, boquiaberta. A ltima vez que o vira fora aquando da visita que fizera com Beau para lhe falar da morte do meu pai.
        - Porque  que ningum escreveu a dizer-me? Porque no o fizeste?
        - A Daphne insistiu no facto de que romperas os laos com a famlia quando fugiste - replicou. - E sabes bem como detesto escrever cartas, sobretudo quando 
se trata de ms notcias. Excepto quando so ms notcias de outras pessoas - acrescentou com uma leve gargalhada.
        - Pobre tio Jean. Nunca devia ter-lhe falado da morte do nosso pai. Devia deix-lo pensar que ele no o visitava.
        - Talvez a culpa seja tua - redarguiu Gisselle, satisfeita com o meu desgosto. Depois encolheu os ombros e sorveu mais um gole da bebida. - Ou talvez mereas 
ser felicitada. Afinal, est melhor.
        - Como podes dizer uma coisa dessas? Ningum que morra est melhor, nem mesmo o tio Jean - retorqui num tom chocado.
        - S sei que preferia estar morta do que viver para sempre naquela instituio abafada - proclamou.
        Os meus olhos encheram-se de lgrimas quando pensei no tio Jean, perdido e sozinho.
        - Ora, quem  que temos aqui? - ouvimos uma voz dizer; virmo-nos, deparando com Paul a sair de casa.
        - Ser que  o meu irmo abastado ou... ser cunhado? - troou Gisselle.
        Paul ficou rubro e fixou-me.
        - O que se passa, Ruby? - perguntou de imediato.
        - Acabei de saber que o meu tio Jean se suicidou na clnica psiquitrica.
        - Oh, lamento!
        -
         No h nenhum beijo de saudao? - perguntou Gisselle.
        - Claro.
        Paul inclinou-se para a beijar na face, s que ela virou o rosto to rapidamente que os lbios se encontraram. Surpreendido, ele recuou. Gisselle riu.
        - Quando aconteceu esse suicdio? - indagou Paul.
        - Esquece isso. No quero deter-me em ms notcias ripostou Gisselle. - A Ruby estava mesmo agora a explicar-me o vosso acordo especial de casamento. - O 
seu ar trocista e o sorriso lascivo fez com que Paul e eu nos sentssemos culpados.
        - Pra, Gisselle.
        - Oh, no sejas to sensvel. Alm disso, o que me interessa o que vocs fazem? - Olhou l para fora. - Viste dois jovens e ricos crioulos a passearem junto 
aos teus poos de petrleo?
        - Quem?
        - Os namorados da Gisselle - esclareci secamente.
        -No...
        - Talvez tivessem cado nalgum pntano - sugeriu com uma gargalhada. Depois, levantou-se e enfiou o brao no de Paul. - Por que  que no me mostras os teus 
terrenos e os teus campos petrolferos? - perguntou.
        - Claro.
        - Ficas para jantar, Gisselle? - inquiri.
        - Como hei-de saber? Se estiver aborrecida, vou-me embora. Se no, fico - replicou, piscando o olho. - Vamos l, senhor baro do petrleo.
        - Sei do que irias realmente gostar, Gisselle. De um passeio pelos pntanos - pronunciou-se Paul, fitando-me, atrapalhado. - Assim, podes ter uma ideia melhor 
das coisas, no achas, Ruby?
        - O qu? Oh, sim - anui num tom inexpressivo, pois ainda no deixara de pensar no pobre tio Jean.
        - No contes comigo. No vou at aos pntanos. Onde esto esses idiotas? - indagou, vagueando o olhar pelos terrenos. Avistmo-los a regressar do lago. - 
Darby, Henry - gritou. - Venham c.
        Os dois aproximaram-se rapidamente, como se ela os mantivesse presos a uma trela comprida e invisvel. Quando chegaram, Gisselle apresentou-os a Paul, e 
os trs comearam a falar dos poos de petrleo. Gisselle aborreceu-se rapidamente com as explicaes de Paul.
        - No h aqui lugares onde se possa ir... danar ou coisa assim, sabes?
        - H um bar perto que tem uma grande banda de msica afro-americana - indicou Paul. - Vou l muitas vezes com a Ruby.
        - No me parece que seja o nosso estilo - queixou-se Gisselle. - Que tal um bom restaurante?
        - Temos uma cozinheira maravilhosa. So todos bem-vindos para jantar - convidou Paul.
        - No me importo - aceitou Henry.
        - Nem eu - retorquiu Darby.
        - Pois eu, sim. Quero regressar a Nova Orlees para podermos ir a umas discotecas - decidiu Gisselle. - Por aqui  demasiado calmo e no consigo tirar este 
cheiro azedo do nariz.
        -
         Cheiro azedo? - repetiu Paul, fitando-me; limitei-me a fechar e a abrir os olhos.
        - O cheiro dos pntanos - esclareceu Gisselle.
        - No o sinto - declarou Darby
        - Tu serias incapaz de dar por uma doninha, nem que ela se metesse contigo na cama - ripostou ela. Henry comeou arir.
        - Oh, dava sim. J dormiu com algumas - declarou ele.
        Foi a vez de Gisselle rir, ao mesmo tempo que largava o brao de Paul para agarrar no de Henry.
        - Para o carro, James. J visitei a minha irm e tomei conhecimento da sua riqueza. No te preocupes - garantiu. - Vou duplicar tudo quando descrever a tua 
propriedade  Daphne.
        - Pouco me importa o que lhe disseres, Gisselle. Ela deixou de me interessar - redargui.
        Desapontada, Gisselle conduziu os rapazes de volta  casa, comigo e Paul no encalo.  porta, Gisselle virou-se subitamente para mim.
        - Gostaria de ver a... Como  que lhe chamas? A Pearl... antes de me ir embora.
        - Podemos dar uma espreitadela. Ela est a fazer a sesta - respondi.
        Levei Gisselle l acima, ao quarto de Pearl. Mrs. Flemming passava pelas brasas na cadeira de balouo, junto ao bero. Abriu os olhos, surpreendida, ao deparar 
com as nossas caras em duplicado.
        -  a minha irm gmea, a Gisselle - sussurrei. - Gisselle, Mistress Flemming.
        - Como est, querida? - cumprimentou Mrs. Flemming, levantando-se. - Meu Deus. As duas parecem a mesma imagem de um espelho. Aposto que j vos confndiram 
muitas vezes.
        - No tantas como possa pensar - retorquiu Gisselle asperamente.
        Mrs. Flemming limitou-se a esboar um aceno de cabea e depois saiu para ir  casa de banho. Gisselle aproximou-se do bero e baixou os olhos para Pearl, 
que dormia com a mozinha debaixo do queixo.
        - Tem o nariz e a boca do Beau - comentou. - E, obviamente, o cabelo do Beau. Estou a pensar passar o resto do Vero na Europa, sabes? Vou ver o Beau e estar 
algum tempo com ele. Agora, j posso descrever-lhe a filha - acrescentou com uma risada maldosa.
        O seu enorme sorriso de contentamento despedaou-me o corao. Engoli a tristeza e virei-lhe as costas quando ela saiu do quarto. Por momentos, deixei-me 
ficar ali a olhar para Pearl, pensando em Beau e sentindo o corao como um tambor esvaziado. Cada pancada ecoava na minha mente.
        Pouco depois, foi como se uma fria brisa de alivio tivesse soprado vinda do bayou, quando Gisselle e os dois amigos voltaram a meter-se no carro e se afastaram 
a toda a velocidade. Ainda lhe ouvi o riso agudo por um momento, ao descreverem uma curva.
        
        Subi as escadas rapidamente, entrei no quarto e atirei-me para cima da cama, onde solucei durante uns momentos sem conseguir controlar-me. Sentia-me to 
deprimida com as notcias da trgica morte de Jean e sobre Beau, que no consegui impedir que as lgrimas me corressem pelas faces, ensopando a almofada. Paul bateu 
ao de leve na porta e entrou apressadamente quando me viu a chorar. Senti a mo dele no meu ombro.
        - Ruby - chamou num tom terno. Virei-me, acolhendo-me nos seus braos.
        Desde o dia em que nos casramos que tnhamos receio de nos tocarmos, receio daquilo que qualquer beijo, qualquer abrao, o mero agarrar da mo, significariam 
 luz de quem ramos e do que ramos; porm, quando trocmos promessas, esquecemo-nos de que, de vez em quando, necessitaramos do contacto ntimo um do outro.
        Precisava de sentir os braos dele a rodear-me; precisava de senti-lo prximo, que me agarrasse e consolasse, acariciando-me o cabelo, beijando-me a testa 
e as faces, limpando as lgrimas e sussurrando palavras de consolo. Solucei ainda mais, e os ombros tremiam-me, enquanto ele me fazia festas na cabea e me embalava 
suavemente nos braos.
        - Est tudo bem - tranquilizou-me. - Tudo bem.
        - Oh, Paul. Porque  que ela tinha de aparecer e trazer-me todas estas ms notcias? Odeio-a. De verdade. Odeio-a - asseverei.
        - Ela tem tantos cimes de ti. Por mais que desdenhe o bayou e o mundo cajun, continua verde de inveja. Ali est uma mulher que nunca conhecer a felicidade 
- replicou Paul. - No devias odi-la, mas ter pena dela.
        Sentei-me e engoli algumas lgrimas.
        - Tens razo, Paul. Ela  digna de pena e nunca ser feliz. Independentemente do que tem. Senti-me, porm, to mal relativamente ao tio Jean. Fazia teno 
de ir v-lo em breve, levar a Pearl e talvez... talvez descobrir maneira de o tirar daquela clnica e traz-lo para aqui.
        - Lamento. Teria sido ptimo, mas no podes culpar-te. O destino foi resolvido mediante acontecimentos e escolhas feitas antes do teu tempo, Ruby. - Estendeu 
a mo do outro lado da cama e tocou-me na face. - Odeio ver-te infeliz, por uns minutos que seja. No consigo evitar a forma como te amo.
        Fechei os olhos e mantive-os fechados, sabendo, pressentindo o que ele se dispunha a fazer. Quando os lbios tocaram os meus, no fiquei surpreendida. Deixei 
que me beijasse, sentindo o meu corpo deslizar para cima da almofada.
        - Estou exausta - sussurrei com o corao ameaando saltar-me do peito.
        - Descansa um pouco e deixa que pense em formas de te alegrar - props. Senti-o levantar-se da cama e ouvi-o afastar-se. Depois, virei-me e abracei a almofada.
        Beau quebrara o noivado. Gisselle ia visit-lo e contar-lhe tudo a meu respeito. O que  que ele pensaria? Como se sentiria? Muito longe, do outro lado do 
oceano, fixaria o olhar na direco dos Estados Unidos e da oportunidade de um grande e duradouro amor que tinha perdido... que eu tinha perdido.
        O meu corao assemelhava-se a um elstico torcido, prestes a rebentar. Engoli a tristeza como uma colher de leo de ricino. "Sou uma mulher", pensei, "uma 
mulher jovem e palpitante de vida, e as minhas necessidades excedem o que previ."
        
        Pela primeira vez desde que trocara juras com Paul, lamentei o que fizera, interrogando-me sobre se no me teria limitado a amontoar vrias decises trgicas 
umas sobre as outras. Apesar da beleza e esplendor da nossa manso e propriedades, sentia as paredes a fecharem-se  minha volta, afastando o sol e envolvendo-me 
num profundo lenol de desgosto, escuro e deprimente, de onde receava jamais conseguir escapar.
        

6

FANTASIA
               
               Depois de Paul ter sado, fiquei deitada na cama, cheia de autopiedade. O Sol do fim de tarde comeara a descer por detrs dos pltanos e ciprestes 
e as sombras do quarto tornaram-se mais escuras e densas. Ao olhar l para fora atravs das janelas, vi que o cu adquirira o tom de um escuro azul-turquesa e as 
nuvens dispersas tinham a cor de moedas de prata antigas.
               Na casa reinava uma grande calma. Fora to bem construda que os sons do andar de baixo ou mesmo dos quartos do outro lado do corredor ficavam isolados 
quando as portas se fechavam. Como era diferente de viver na cabana da minha grandmre Catherine no bayou, onde mesmo dos nossos quartos, no andar de cima, ouvamos 
as patas de um rato-do-campo no cho da sala de estar.
               No entanto, ouvi subitamente o som inconfundvel de botas percorrendo o corredor do lado de fora das portas do meu quarto. Ouvi tambm o que me pareceu 
o tilintar de um sabre. Tornaram-se mais distintos e mais prximos. Curiosa, sentei-me na cama, no preciso momento em que a porta se abriu para dar passagem a Paul, 
vestido com o uniforme de um oficial da Confederao, de espada  cinta. Pusera igualmente uma barba falsa e ruiva tipo Vandyke e trazia um embrulho sob o brao 
direito. O uniforme e a barba assentavam-lhe to bem que, por instantes, no soube de quem se tratava. Depois, sorri.
               - Paul! Onde arranjaste tudo isso?
               - Perdo, madame - respondeu, tirando o chapu e fazendo uma elegante e graciosa vnia. - Coronel William Henry Tate ao seu servio. - Esboou um 
esgar - Acabaram de me informar que uns ianques tinham invadido a sua privacidade e provocado alguma perturbao. Precisarei de um relatrio completo antes de mandar 
as minhas tropas atrs dos patifes que, garanto-lhe, estaro pendurados ao vento, sob o velho carvalho, antes do nascer do Sol.
        "Agora - prosseguiu, assumindo uma postura militar formal e alisando o bigode com o indicador esquerdo -, se quiser ter a bondade de fazer a sua descrio 
ao meu adjunto...
        Bati palmas e soltei uma gargalhada.
        - Oh, Paul. Mas que divertido.
        Avanou na minha direco, sem se desmanchar.
        - Madame, sou William Henry Tate e encontro-me ao seu servio. No h tarefa mais honrosa para um cavalheiro sulista do que aquela que executa em prol de 
uma senhora, uma verdadeira filha do Sul, bonita e elegante.
        Com estas palavras, pegou-me na mo e beijou-a suavemente.
        - Bom, sulista - pronunciei, acentuando o meu sotaque e entrando naquela fantasia -, sinto-me lisonjeada. Nunca houve um oficial mais elegante que tivesse 
acorrido to rapidamente em meu auxlio.
        -
         Madame, considere-me o seu dedicado servo. - Voltou a beijar-me a mo. - Poderei permitir-me a ousadia de convid-la para jantar esta noite na minha tenda? 
O servio e a comida no estaro obviamente  altura de uma mulher da sua classe, mas encontramo-nos a meio de uma luta desesperada para no abdicar da nossa forma 
de vida e estou certo de que compreender.
        - O sacrificio ser o meu contributo para esse esforo. Tem, contudo, guardanapos de linho, no? - retorqui, com um bater de pestanas.
        - Claro. No era minha inteno dar a entender que jantaria como qualquer sujo mercador ianque. E, falando nisso, importa-se que lhe oferea este vestido 
para a ocasio? Pertencia  minha querida e falecida me.
        Estendeu-me o embrulho que trazia debaixo do brao. Pousei-o no regao e abri-o. L dentro, havia um vestido de tafet de um rosa-acastanhado. Peguei-lhe. 
Tinha mangas tufadas nos punhos e bordados maravilhosos. Das mesmas, pendiam outras mangas, interiores, de tule e tambm bordadas. O motivo da gola era igual.
        - Mas que vestido maravilhoso! Sentir-me-ia honrada em usar esta pea de vesturio.
        - A honra  toda minha, madame - declarou, recuando com uma outra vnia. - Posso passar... digamos, dentro de vinte minutos e acompanh-la  rea do jantar?
        - Vinte e cinco minutos, sulista. Quero fazer preparativos especiais.
        - Por si, o relgio pra, madame. - Levantou-se e tirou
do bolso das calas um belo e antigo relgio de ouro, abrindo a tampa. Ouviu-se de imediato uma suave melodia. - Voltarei 
hora que exigiu.
        - Paul! - exclamei. - Onde arranjaste tudo isto?
        - Paul? Madame, o meu nome  William Henry Tate - retorquiu, aps o que girou sobre os calcanhares e saiu. Fiquei a segui-lo com o olhar, de sorriso nos 
lbios. Depois, fixei novamente o vestido e interroguei-me sobre como me assentaria.
        O vestido ficava-me como uma luva. Ajustei-o um pouco na cintura com alfinetes, mas o corpete e mangas estavam perfeitos. Depois de me vestir, a magia da 
iluso tomou as rdeas e pensei no meu cabelo. Escovei-o e prendi-o, apartando-o ao meio, tal como as mulheres sulistas que vira em retratos histricos o usavam. 
Fiquei ali, mirando-me no espelho de corpo inteiro, desejando que aquela nossa fantasia correspondesse  realidade e eu fosse um membro da aristocracia sulista prestes 
a jantar com um oficial.
        Soou uma pancada leve na minha porta. Quando a abri, Paul, de uniforme, recuou com um largo sorriso estampado no rosto e um brilho de prazer nos olhos. Trazia 
um pequeno bouquet de rosas brancas nas mos.
        - Supera as minhas ambiciosas esperanas, madame. A beleza no pode escolher melhor lugar do que no seu rosto e elegante figura.
        - Onde foste buscar essas palavras? - perguntei eu a rir.
        - Por favor, madame. Estas so as palavras de um cavalheiro sulista, e as palavras de um cavalheiro sulista nunca so suprfluas.
        - Desculpe, sulista - pedi.
        - Permite-me? - perguntou, aproximando-se com o bouquet. No me mexi, enquanto o pregava no meu corpete. Quando lhe observei o rosto e ele fixou o meu, era 
como se olhasse para o rosto de um belo estranho. Sorriu, depois recuou e ofereceu-me o brao. - Madame.
        
        Aceitei-o. Acompanhou-me pelo corredor e descemos as escadas como os donos de um solar. Paul preparara os nossos criados para esta fantasia, pois nem Molly 
ou James pareciam surpreendidos. Molly sorriu e mordeu o lbio inferior, mas todos reagiram como se esta fosse uma noite perfeitamente normal.
        Paul apagara as luzes da sala de jantar, e velas ardiam nos candelabros de prata. Pusera uma msica suave. Depois de me acompanhar ao meu lugar, ocupou o 
dele e ofereceu-me uma taa de vinho.
        - Ps uma bela mesa de jantar no campo, sulista - observei.
        - Fazemos o que podemos, madame. Vivemos uma poca que testa os espritos dos homens e mulheres galantes. Longe de mim menosprezar o sacrificio feito pelas 
mulheres sulistas. No entanto, a classe social tem os seus privilgios e consegui arranjar este belo chablis francs. - Inclinou-se, fingindo no querer que os criados 
ouvissem. - Comprei-o a uns contrabandistas - disse.
        - Oh, cus! Bom, sulista, dizem que quanto mais alta a latada, mais doce  o vinho.
        - Palavras certas, madame. Brindamos? - perguntou, erguendo o copo na minha direco. - Ao regresso de melhores tempos, em que a coisa mais importante para 
um homem ser conseguir a felicidade da mulher eleita.
        Brindmos e bebemos de olhos abertos e fixos um no outro, depois de o fazermos. Em seguida, Paul passou o guardanapo pelos lbios, tendo o cuidado de no 
estragar a sua falsa barba  Vandyke e esboou um aceno de cabea a Molly e James para que comeassem a servir-nos o jantar.
        Esperara ter pouco ou nenhum apetite nessa noite, mas o elaborado plano de Paul para criar estas iluses e agradveis divertimentos era to delicioso e romntico 
que deitei para trs das costas os meus obscuros e depressivos pensamentos. Parecia-me que ele esquematizara tudo isto antes e tinha tudo pronto para qualquer eventualidade.
        Letty cozinhara pato selvagem como primeiro prato. E para sobremesa, a acompanhar o nosso belo caf cajun, havia morangos com natas. Durante o jantar, Paul 
mostrou-se encantador e divertido. Dava a sensao de que estudara as batalhas da guerra civil, em que o seu antepassado William Henry Tate combatera. Semelhante 
a um actor que ensaiara o papel durante meses a fio, mantinha-se fiel  personagem. Cantou pequenos poemas da guerra civil, falou da ocupao de Nova Orlees pelo 
Exrcito ianque e o odiado general Butler de quem havia um retrato no interior de bacios de quarto que ficaram conhecidos pelo nome de bacios Butler.
        Conseguiu manter-me to divertida que pouco tempo me restou para recordar a visita de Gisselle e as coisas horrveis que me contara. Quando Paul e eu acabmos 
de jantar, sentia-me risonha, feliz e muito satisfeita. Ofereceu-me o brao e acompanhou-me ao ptio onde iramos tomar um digestivo e contemplar as estrelas.
        
        "H mais de uma centena de anos", pensei, "um oficial do Exrcito da Confederao e a sua companheira olharam este mesmo cu nocturno enfeitado pelas mesmas 
estrelas. Cem anos no  muito tempo para as estrelas, at menos do que um segundo o  para ns. Como somos pequenos e insignificantes sob o firmamento. Todos os 
nossos grandes problemas so mnimos."
        - Um dixie pelos seus pensamentos - disse Paul.
        - Os meus pensamentos so assim to valiosos?
        - To valiosos, que  insensato fazer qualquer oferta financeira. Por isso, propus simbolicamente os dixie.
        - Estava apenas a pensar como somos pequenos sob as estrelas.
        - Permita-me que a contrarie, madame. Est a ver aquela estrela l no alto, a que cintila mais do que as outras?
        -Sim.
        - Bom. Cintila assim porque tem cimes do esplendor que o seu rosto emana esta noite. Algures, num outro planeta como o nosso, duas pessoas contemplam o 
cu nocturno, observam o
brilho dos seus olhos, o fulgor dos seus lbios e pensam como o mundo deles  pequeno.
        - Oh, Paul! - exclamei, comovida pelas suas palavras.
        - William Henry Tate - corrigiu, inclinando-se para me roar os lbios com um beijo. Foi to suave e rpido que podia ter sido beijada pela brisa vinda do 
golfo e julgar que fora o beijo de Paul, mas, quando abri os olhos, o rosto dele continuava junto ao meu.
        - No posso sentir-me feliz quando ests infeliz, Ruby - sussurrou. - Ests agora um pouco mais satisfeita?
        - Estou, sim - respondi.
        Ouvi a forma como soaram as minhas palavras; senti o tremor no corpo. O licor, o vinho, a maravilhosa refeio, tinham-me enchido de um quente arrebatamento. 
A noite, as estrelas, o prprio ar que respirvamos, tudo conspirava contra aquela parte de mim que se esforava por me recordar quo perto estava de me render.
        - ptimo - congratulou-se Paul, pousando os lbios na minha testa.
        Beijou-me os olhos fechados e o nariz e colou os lbios quentes aos meus. O formigueiro desperto no meu peito estendeu-se ao pescoo, por onde os lbios 
dele continuaram. Soltei um gemido e depois afastei-me.
        - Estou cansada - declarei. - Acho que vou subir.
        - Claro. - Levantou-se, quando o fiz.
        - Obrigada, sulista, por esta noite maravilhosa - agradeci com um sorriso.
        - Talvez voltemos a repeti-la quando a guerra acabar - replicou-, num cenrio mais adequado  sua beleza e porte.
        - Foi ptimo, maravilhoso - redargui.
        Ele esboou um aceno de cabea e eu dirigi-me para casa, com a pulsao acelerada. Era como se estivesse, de facto, a despedir-me de um cavalheiro que estivera 
a cortejar-me e por quem me apaixonara perdidamente.
        Molly tinha apagado todas as luzes da casa. Mrs. Flemming dera de comer a Pearl e deitara-a. Subi apressadamente as escadas at ao meu quarto, ofegante e 
encostando-me depois  porta fechada para tomar flego, de olhos cerrados e com o sangue a ferver-me loucamente nas veias.
        Decorridos uns momentos, afastei-me da porta e dirigi-me ao toucador. Despi o vestido antigo com gestos lentos, mas mantive-me de p, contemplando a minha 
imagem em soutien e cuecas. Soltei o cabelo e deixei-o tombar sobre o meu pescoo ainda afogueado e sobre os ombros.
        
        No conseguia impedir que o meu corpo tremesse de um desejo que achara ingenuamente ser capaz de dominar  minha vontade. A respirao acelerou-se, enquanto 
continuei a despir-me, tirando as cuecas e desapertando o soutien. Nua, fitei-me no espelho, imaginando um galante oficial da Confederao aparecendo por' detrs 
de mim e pousando a mo no meu ombro, at que me voltasse para erguer os lbios ao encontro dos dele.
        Por fim, apaguei as luzes e enfiei-me por baixo da colcha, deleitando-me com o toque frio do linho na minha pele quente. As palavras romnticas de Paul continuavam 
a soar-me ao ouvido. Mantive-me deitada, pensando nas estrelas e sonhando. No ouvi a porta de comunicao a abrir-se, nem to-pouco quando ele se aproximou da cama. 
S me apercebi de que estava ao meu lado, quando o colcho acusou o peso do seu corpo e senti depois o calor dos lbios no meu pescoo.
        -Paul.
        -  o William - sussurrou com voz terna.
        - Por favor, no... - comecei, mas as palavras morreram na garganta.
        - Madame, a guerra torna o tempo um luxo. Se nos tivssemos conhecido e apaixonado antes ou depois, passaria semanas e meses a cortej-la, mas, de manh, 
vou liderar as minhas tropas para uma batalha desesperada, de onde muitos no regressaro.
        Virei-me e ao faz-lo as mos dele agarraram-me os ombros, aproximando os lbios dos meus. Foi um beijo quente e prolongado. O peito premiu-se de encontro 
aos meus seios nus e as pernas moveram-se entre as minhas at sentir a sua virilidade num suave explorar.
        Ia a abanar a cabea, mas os lbios afloraram-me o pescoo e aquele toque afastou a minha resistncia. Recostei a cabea na almofada, enquanto os lbios 
desciam pelo pescoo e tocavam nos bicos dos meus seios j erectos. Do lado de fora da janela, pareceu-me ouvir o resfolegar de cavalos, batendo impacientemente 
com os cascos na pedra.
        - Tambm eu posso no regressar, madame. Mas se a morte est  espera de me reclamar, ficar desapontada, pois nos meus lbios estar o seu nome e nos meus 
olhos o seu rosto.
        - No - recusei debilmente e depois pronunciei: - William...
        Quando me penetrou, arquejei, e o grito prestes a soltar-se foi afogado pelos seus lbios de novo premidos contra os meus. Movemo-nos a um ritmo suave que 
aumentou de intensidade at entrarmos num galopar rumo a uma exploso de xtase, concluda em gemidos de gozo.
        Ficmos deitados lado a lado,  espera que a respirao abrandasse. Depois, Paul levantou-se da cama, virando-se para dizer: "Deus a abenoe, madame", antes 
de se esgueirar pela escurido at  porta e desaparecer.
        Fechei os olhos. Havia uma parte de mim muito agitada, histrica, clamando sobre o pecado e o mal, esbravejando contra os pecados e castigos que cairiam 
sobre mim com a fora de um vendaval. Repeli, contudo, essas vozes e limitei-me a escutar o bater acelerado do corao. Adormeci ao som do sangue a bombear no meu 
corpo e s acordei quando a luz ilusria do alvorecer desenhou sombras nas paredes.
        
        Julguei ouvir o som de canhes  distncia e sentei-me na cama. Parecia-me que o tropel de cavalos atravessava o ptio. Levantei-me da cama e dirigi-me  
janela. Afastei a cortina e olhei l para fora. O gs dos pntanos a rolar pela superfcie dos canais assemelhava-se ao disparo de canhes.  distncia, a silhueta 
dos pltanos parecia engolir um esquadro de homens a cavalo. E depois o Sol ergueu mesmo os seus primeiros raios acima da linha do escuro e os sonhos regressaram 
ao embarcadouro na espera de uma outra noite.
Voltei para a cama e fiquei acordada at ouvir os primeiros gritos de Pearl e o som dos passos de Mrs. Flemming, dirigindo-se apressada ao bero. Depois, levantei-me 
e vesti-me para enfrentar a realidade de outro dia.
        
        Paul estava sentado  mesa a tomar caf e a ler o jornal quando desci com Mrs. Flemming e Pearl. Dobrou rapidamente o jornal e sorriu.
        - Bom dia. Dormiram bem?
        - A menina dormiu a noite toda - respondeu Mrs. Flemming. - Nunca vi uma criana to satisfeita. Sinto-me como se estivesse a roubar-lhes dinheiro, tomando 
conta de um beb to perfeito.
        Paul riu e fitou-me. Parecia fresco e desperto e absolutamente cheio de energia. A expresso no denotava o mnimo indcio de remorso.
        - Julguei que na noite passada iria chover. Ouviste a tempestade aproximando-se do golfo? - perguntou-me.
        - Sim - disse.
        Pela forma como sorria e falava, era como se eu tivesse sonhado o nosso encontro. "Teria?", pensei.
        - Dormi como uma pedra - garantiu a Mrs. Flemming. - Julgo que foi do vinho. Mas sinto-me repousado. Ento,
quais so os teus planos para hoje, Ruby? - perguntou-me.
        - A tua irm vai aparecer mais tarde para me mostrar fotografias de vestidos de casamento e de noivas. Vou passar a maior parte do dia a trabalhar no meu 
estdio.
        - ptimo. Tenho de ir a Baton Rouge e s voltarei  hora do jantar. Ah! - exclamou, quando Molly trouxe os ovos e cereais. - Esta manh estou a morrer de 
fome - acrescentou com um sorriso, e tommos o pequeno-almoo.
        Depois, subi ao meu estdio e, pouco antes de se ir embora, Paul veio despedir-se.
        - Desculpa ter de me ausentar durante a maior parte do dia - disse -, mas trata-se de negcios inadiveis relativos ao petrleo. Fazes alguma ideia de quanto 
dinheiro depositei nas nossas vrias contas?
        Abanei a cabea e fixei o cavalete, em vez de o olhar.
        - Somos multimilionrios, Ruby. No h nada que no possas ter ou para a Pearl e...
        - Paul - interrompi, virando-me bruscamente. - O dinheiro, por mais que seja, no me acalma a conscincia. Sei o que ests a tentar fazer e dizer, mas a 
verdade  que na noite passada violmos as nossas promessas. Trocmos juras, recordas-te?
        - O que queres dizer? - inquiriu, sorrindo. - Fui deitar-me e dormi a noite toda como descrevi. Se sonhaste...
        - Oh, Paul...
        -
         No - interrompeu. Lanou-me um olhar suplicante e compreendi que, enquanto aderisse  fantasia, ele poderia viver com o que acontecera. Depois, sorriu: 
- Quem sabe o que  real e o que no ? Na noite passada, algum cavalgou pela nossa propriedade, mesmo por cima do relvado recentemente plantado. Vai ver com os 
teus prprios olhos, se quiseres. Ainda se divisam as marcas - replicou, inclinando-se e beijando-me na face. - Pinta algo... do teu sonho - sugeriu; em seguida, 
saiu.
        Poderia fazer o que ele me pedia... imaginar que tudo no passara de um sonho? Se assim no fosse, seria incapaz de viver com a minha conscincia e Pearl 
e eu teramos de ir embora... Paul tornara-se to chegado a ela, e o contrrio tambm... Independentemente dos pecados que pudesse ter cometido e pudesse cometer, 
dera um pai afectuoso e atento a Pearl.
        Abafei as vozes que me perseguiam e dediquei-me a fazer exactamente o que Paul sugerira... pintar com base no que havia no meu intimo. Trabalhei com frenesim, 
construindo e criando uma etrea paisagem da regio pantanosa. Dos ciprestes cobertos de musgo surgiam as sombras e fantasmagricas figuras do calvrio dos confederados, 
de cabeas baixas. Regressavam de uma qualquer batalha, com as fileiras destroadas. O nevoeiro adensava-se em redor das patas dos cavalos e, nos ramos das rvores 
prximas, as corujas piavam tristemente. Ao fundo, pairava o brilho de fogueiras ainda acesas que coloriam o cu nocturno de um vermelho incandescente.
        Cheia de inspirao, decidi que criaria uma srie de quadros  volta desse tema. No meu prximo quadro, pintaria a dama do oficial,  espera na varanda da 
casa da plantao, procurando-o desesperadamente com o olhar, enquanto os homens emergiam da noite de morte e destruio. Estava to embrenhada no meu trabalho que 
no ouvi Jeanne a subir as escadas e fui incapaz de dominar a contrariedade por ser interrompida.
        No entanto, ela mostrava-se to excitada com o casamento iminente que me senti terrivelmente incomodada por a desapontar.
        - No ligues - disse ante a sua expresso de tristeza pela minha reaco ao v-la. - Deixo-me envolver a tal ponto pela pintura que me esqueo do tempo e 
do lugar. Esta casa podia pegar fogo que no me aperceberia.
        Jeanne riu.
        - Mostra-me, ento, os desenhos dos vestidos - incitei, e passmos toda a tarde a falar de modelos e cores.
        Ela tinha meia dzia de amigas para damas de companhia. Discutimos os pequenos presentes que escolheria para cada uma delas e seus acompanhantes, aps o 
que me ps a par dos planos da me quanto  recepo.
        Enquanto conversvamos e a ouvia, intensificou-se o meu desgosto por no ter tido um maravilhoso casamento a srio. A prpria Jeanne observou como toda a 
gente lamentava que Paul e eu nos tivssemos escapado, sem lhes dar a mesma oportunidade de planear um acontecimento em grande.
        - Vocs deviam voltar a casar - sugeriu, excitada. - J ouvi falar de casais que o fizeram. Organizam uma cerimnia privada e depois uma mais elaborada para 
todos os amigos e parentes. No seria divertido?
        - Sim, mas de momento j chega uma festa elaborada - retorqui.
        
        Os planos prosseguiram, como se se tratasse de uma campanha importante. Houve jantares em casa, depois dos quais a famlia se reunia na sala de estar para 
debater as ementas, a lista de convidados, os arranjos de flores e o lugar de todas as partes da cerimnia e da recepo. Verificaram-se discusses acaloradas sobre 
a msica, querendo as raparigas uma banda mais moderna e Gladys e Octavious uma orquestra imponente. Sempre que no se chegava a uma concluso, Paul forava-me a 
dar a minha opinio.
        - No vejo razo para no ter as duas - sugeri. - Podemos optar pela orquestra para a recepo do jantar e depois contratar uma banda de msica afro-americana 
ou um desses grupos de rock e deixar que tambm os mais jovens se divirtam.
        -  um desperdcio ridculo de dinheiro - retorquiu Gladys.
        - O dinheiro  a menor das nossas preocupaes, me - lembrou Paul num tom suave. Ela fixou-me por momentos com um olhar chispante e percorreu-a um leve 
arrepio de desdm.
        - Se tu e o teu pai se importam de atirar dinheiro para o pntano, problema vosso - proferiu ela em tom amuado.
        - No custar muito mais - redarguiu Octavious sem erguer a voz, mas Gladys premiu ainda mais os lbios e fitou-me, enraivecida. Fiquei satisfeita quando 
estas reunies chegaram finalmente a um termo.
        O tempo passava mais depressa, agora que me encontrava muito ocupada com a minha srie de quadros. Mal conseguia
esperar que o dia comeasse; havia alturas em que me embrenhava a tal ponto no trabalho que o Sol comeava a pr-se, antes de tomar conscincia de que no tinha 
almoado e j chegara a hora de me preparar para o jantar. Lamentava negligenciar Pearl, mas Mrs. Flemming era uma belssima ama. Na verdade, fazia parte da famlia 
e tomava conta dela de uma forma maravilhosa e atenta.
        Quanto a Paul, nunca mais voltou ao meu quarto  noite e nenhum de ns mencionou a noite que tivera. Em breve, comeou a parecer algo que eu apenas sonhara. 
Com os planos da cerimnia do casamento e o meu contentamento em pintar, a vida em Cypress Woods continuou a ser compensadora e excitante. Dava a sensao de que 
no passava um nico dia sem que Paul anunciasse qualquer importante e nova aquisio ou desenvolvimento.
        Uma noite, depois de um dos nossos jantares de famlia, vi-me a ss no ptio com Gladys a beber um licor. Paul e o pai continuavam dentro de casa a falar, 
e as irms dele tinham ido sair com umas amigas. Ao jantar, Octavious revelou que ele e Gladys nutriam ambies polticas para Paul. Quando levantei objeces, Gladys 
arregalou os olhos de surpresa.
        - As pessoas das esferas mais elevadas tm de ouvir falar dos Tate - replicou. - Os legisladores j comeam a andar  volta do Paul. Tem todas as qualidades 
que podem torn-lo governador, se um dia o quiser.
        - Acha que ele quer? - indaguei, admirada.
        - Porque no? - ripostou Glayds. - Claro que no far nada, se no quiseres que o faa - expressou-se, desdenhosa.
        - Nunca levantaria obstculos ao Paul se ele realmente desejasse algo - redargui. - Apenas me interrogo se  o que ele quer ou o que vocs querem.
        -
         Claro que  o que ele quer - arguiu e esboou um sorriso frio. - O que se passa? No te vs como primeira dama da Luisiana? No temos motivo para nos sentirmos 
inferiores a quem quer que seja. Nunca te esqueas - acrescentou.
        Antes de poder responder, Paul e o pai saram para o jardim e Gladys queixou-se de dor de cabea, pedindo a Octavious que a levasse para casa. No consegui, 
todavia, reprimir um sorriso ao imaginar como a minha irm reagiria a tal possibilidade: eu, primeira dama da Luisiana? Gisselle rebentaria de inveja.
Passara algum tempo desde a visita de Gisselle e nunca deixei de sentir que um segundo golpe estava prestes a abater-se. Chegou sob a forma de um postal que me enviou 
de Frana. Tinha uma fotografia da Torre Eiffel na parte da frente. Ainda no o sabia nessa altura, mas iria receber um, mesmo dois, por semana, da minha querida 
irm gmea, cada um semelhante a uma agulha espetada numa boneca de vudu, cada um descrevendo como se divertia com Beau, em Paris. "Chre Ruby", comeava o primeiro...
               
               "Cheguei finalmente aqui e adivinha quem estava  minha espera no aeroporto... O Beau! No o reconhecerias. Tem um fino bigode e parece o Rhett Butler 
em E Tudo o Vento Levou. Fala um francs fluente. Ficou to feliz ao ver-me. At me levou flores! Vai mostrar-me Paris, e a primeira visita comea pelo seu apartamento 
nos Campos Elisios.
D saudades e um beijo por mim ao Paul. Estou quase a contar tudo ao Beau sobre a Pearl.

mour,
Gisselle"
        
        As lgrimas que me inundavam os olhos depois de ter lido um dos postais de Gisselle proveniente de Frana mantinham-se durante horas, ensombrando-me a vista 
e dificultando, se no impossibilitando, o desenho e a pintura. Ficava to desgostosa quando, ao examinar o correio, descobria um desses postais. Descrevia as discotecas 
que frequentavam, os cafs, os belos restaurantes. A cada postal, a implicao de que havia algo mais entre ela e Beau do que o mero encontro de amigos de estudos 
tornava-se cada vez mais forte.
        "Hoje, o Beau disse-me que amadureci realmente", escrevia. "Afirmou que quaisquer diferenas que pudessem ter havido entre ns diminuram. No  uma ternura?"
        Descrevia a jia que ele lhe comprara e a forma como passeavam de mos dadas e conversavam amenamente nas margens do Sena  noite, depois de um dos maravilhosos 
jantares em qualquer caf romntico. Havia sempre outros enamorados que passavam perto e os contemplavam, invejosos.
        "Sei que o Beau pensa que pode ter-te tendo-me e devia ficar aborrecida, mas depois penso: porque no usar o seu amor por ti para o reconquistar?  divertido."
        Contudo, no postal seguinte, escrevia:
        "Julgo que agora posso afirmar com alguma certeza que o Beau est a apaixonar-se por mim, no s porque me pareo contigo, mas porque... sou eu! No  fantstico?"
        Uma semana mais tarde escreveu especificamente para me comunicar que Beau deixara de fazer perguntas a meu respeito.
               
"Aceitou finalmente que ests casada e desapareceste da sua vida. Mas claro que isso nada significa agora. Tem muito mais por que ansiar comigo novamente ao lado 
dele.
               
Toujours amour, A tua irm Gisselle"
        
        Nunca mostrei nenhum destes postais a Paul. Depois de os ler, apesar da minha relutncia em l-los, rasgava-os e deitava-os fora. Levava sempre horas a recompor-me.
        No entanto,  medida que a data do casamento de Jeanne se aproximava, tinha mais com que ocupar o esprito. Trezentas pessoas tinham sido convidadas. Vinham 
de to longe como Nova Iorque e Califrnia. Obviamente, todos os que eram importantes para a fbrica e o negcio do petrleo bem como amigos e parentes tinham recebido 
convite.
        Fomos presenteados com um belo dia para o casamento. Estava calor com um grau de humidade suportvel e um cu muito azul e limpo de nuvens. Desde o amanhecer 
que Cypress Woods fervilhava de actividade. Sentia-me a rainha do formigueiro; havia um exrcito de gente ocupado com milhares de coisas.
        O padre Rush e o coro chegaram cedo. A maioria das pessoas ainda no conhecia Cypress Woods e ficaram muito impressionadas. Paul impava de orgulho e felicidade. 
Vestimo-nos todos e comemos a receber os convidados, muitos dos quais chegaram em limusinas.
        Passado pouco tempo, o nosso longo acesso  casa estava a abarrotar de automveis e motoristas. Os homens vinham de smoking e as mulheres ostentavam vestidos 
de todos os estilistas em voga. Pensei que poderiamos cegar com o brilho dos diamantes e ouro sob o sol do meio-dia.
        Propus a Jeanrie que se servisse do meu quarto de dormir e Paul ofereceu o dele a James. A tradio foi evidentemente seguida, e James s viu a noiva quando 
ela surgiu atravs das portas envidraadas que davam para o jardim ao som da marcha nupcial. Antes da cerimnia, o padre Rush celebrou um servio religioso, e o 
coro entoou hinos. Jeanne e James trocaram votos sob um palanque todo florido.
        "Como a cerimnia  diferente da minha", pensei. Eles podiam trocar votos  luz do dia diante de centenas de pessoas sem vergonha, sem medo, sem culpa. Quando 
se viraram e foram atingidos por uma chuva de arroz, os rostos denotavam sorrisos de expectativa, felicidade e satisfao. Se existiam medos no corao, estavam 
submersos, enterrados sob o peso de um grande amor.
        Senti-me inundada por uma enorme tristeza e baixei os olhos. Seria que essa parte maravilhosa da vida de uma mulher me fora negada ou negara-a eu a mim prpria? 
Que tramas diablicas se haviam entrelaado no bayou, influenciando o meu destino?
        No era, porm, esta a altura para estar melanclica. A msica comeou, os criados e criadas circulavam com as suas travessas de aperitivos e deu-se incio 
ao baile. Tivemos de nos reunir para retratos de familia e impunha-se que o meu rosto sorrisse. S Paul, que possua um segundo sentido no que me dizia respeito, 
se apercebeu, ao fitar-me, da onda de tristeza que existia sob o meu riso e sorrisos. Mais tarde, quando a festa comeou e a msica continuou, danmos os dois e 
ele encostou os lbios ao meu ouvido e sussurrou:
        - Sei no que ests a pensar - replicou. - Desejavas ter tido um casamento como este. Desculpa.
        -
         A culpa no  tua. No tens que te desculpar.
        - Faremos um belo casamento para a Pearl - prometeu.
        Beijou-me na face, depois a msica tornou-se mais animada e todos nos pusemos a danar o two-step cajun.
        Os festejos e celebraes prolongaram-se noite fora, muito depois de Jeanne e James terem partido em lua-de-mel. Pouco antes de se dirigirem ao carro, coberto 
de cartazes de RECM-CASADOS e com latas atadas ao pra-choques traseiro, Jeanne puxou-me de lado.
        - No sei cOmo te agradecer tudo o que fizeste, Ruby. As tuas sugestes e trabalho tornaram o meu casamento maravilhoso. Mas mais importantes ainda foram 
os teus conselhos e preocupao. Agora, s realmente minha irm - declarou, abraando-me.
        - S feliz - retorqui, sorrindo por entre as lgrimas de alegria, e ela apressou-se a ir juntar-se ao seu marido, jovem e impaciente.
        Por fim, s primeiras horas da manh, os ltimos convidados foram-se embora, e as equipas de trabalhadores completaram a limpeza. Exausta, subi  minha sute 
e despi-me, caindo na cama. Pouco depois de ter apagado as luzes, ouvi Paul abrir a porta de comunicao. Abri os olhos o suficiente para o ver ali de p, com a 
silhueta recortada  luz do candeeiro.
        - Ruby? - sussurrou. - Ests a dormir?
        Ante o meu silncio, suspirou fundo.
        - Desejava que tambm tivssemos tido uma lua-de-mel observou. - Desejava poder amar-te livre e totalmente.
Ficou ali de p mais um momento e depois fechou a porta suavemente. Cerrei os olhos, antes que uma lgrima encontrasse caminho at s plpebras. O sono, o melhor 
consolador de todos, surgiu rpida e piedosamente, afastando as vozes e as penas.
        
        Dois dias mais tarde, recebi o que seria o ltimo postal ilustrado de Gisselle. Chegara, de facto, depois de ela e de Beau terem regressado de Paris. Falou-me 
nos planos de ambos. Beau voltaria a Nova Iorque para frequentar a faculdade de Medicina e ela iria para a universidade. Embora tivesse tido notas horrveis, Daphne 
dera um jeito. Prometeu ou, diria antes, ameaou, visitar-me de novo. Talvez... com Beau.
        A mera ideia dessa visita fazia-me tremer. No conseguia imaginar que palavras lhe dirigiria se ele alguma vez aparecesse em Cypress Woods. Claro que lhe 
apresentaria Pearl de imediato. Ela comeara a dar os primeiros passos e dizia algumas palavras. Adorava sentar-se ao piano ao colo de Mrs. Flemming e tocar nas 
teclas. Todos os que a ouviam afirmavam que tinha tendncia para a msica.
        Acabara quatro dos quadros da minha srie intitulada Romance do Confederado. Paul queria que os expusesse numa galeria de Nova Orlees, mas ainda no estava 
preparada para me separar deles e receava, na verdade, que algum os comprasse. Continuei, entretanto, a pintar paisagens do bayou, que eram enviadas com regularidade 
para a galeria de Dominique, a primeira galeria que exibira e vendera as minhas obras iniciais.
        
Soubemos que se vendiam rapidamente. Mal acabava uma, era, de imediato, adquirida. Paul estava satisfeitissimo e encarregara-se de que um crtico de arte me visitasse 
para discutir o meu trabalho e tirar fotografias do estdio e de mim. Uns meses depois, a fotografia apareceu publicada numa revista de arte e depois no New Orleans 
Times. Essa publicidade valeu-me uma nova carta de Gisselle.
               
               "...A Daphne quase deixou cair a chvena de caf no colo quando abriu o jornal e viu a tua fotografia. O Bruce ficou muito impressionado. Ignoro o 
que o Beau pensou. No lhe fiz referncia e ele tambm nada me disse. Vemo-nos quase todos os dias. Acho que est prestes a oferecer-me um anel. Sers a primeira 
a saber. Pode acontecer dentro de uma semana, pois vamos todos ao rancho e a Daphne tambm convidou o Beau.
        De qualquer maneira, s faltam seis meses para herdarmos as nossas fortunas. No significa muito para ti agora que ficaste podre de rica com o casamento, 
eu sei, mas, para mim, controlar o meu prprio dinheiro ser muito importante. E para o Beau.
               Mesmo assim, acho que devo felicitar-te. Portanto... parabns. Porque  que nasceste com talento e eu no, se somos gmeas?
Gisselle"
        
        No lhe respondi, pois no tinha resposta. Nascera sem talento, mas tambm nenhuma maldio pairava sobre ela. Seria por acaso que ela nascera primeiro e 
fora entregue aos Dumas, enquanto eu ficara para trs, sendo a que soubera tudo sobre o nosso tumultuoso passado? Apetecia-me lanar-lhe isso em rosto, mas depois 
pensei na grandmre Catherine e no valor que ela representara para mim. E se tivesse sido eu a primeira a nascer? Nunca a conheceria.
        "Tudo o que  bom tem necessariamente de se interligar a algo mau?", interroguei-me. "O mundo  o equilbrio entre o bem e o mal? Porque no h mais anjos 
do que demnios?" Nina Jackson costumava dizer-me que havia muito mais demnios; por isso, necessitvamos de todos os ps e feitios, ossos e amuletos. A prpria 
grandmre Catherine fitava a escurido com a crena de que o mal se escondia em todas as sombras e tinha de estar vigilante e preparada para o combater. Seria tambm 
esse o meu destino... batalhar sempre?
        Detestava entregar-me a esta disposio melanclica, mas era o que as cartas e postais de Gisselle sempre me provocavam. Todavia, nada do que ela escrevera 
ou escreveria poderia comparar-se ao telefonema que dela recebi uma semana mais tarde.
        Paul e eu estvamos a acabar de jantar. Mrs. Flemming tinha dado de comer a Pearl e levara-a para brincarem. Molly serviu-nos caf e foi  cozinha buscar 
o bolo de morangos que Letty preparara. Ambos nos queixvamos do peso que ganhramos desde que nos tnhamos mudado para Cypress Woods; era Letty quem preparava as 
refeies, mas nenhum dos dois se dispunha a pr-lhe restries quanto aos cozinhados. Riamos frente  nossa auto-indulgncia.
        Paul comeou a falar-me de alguns legisladores que estavam a tentar que ele se candidatasse e nos fariam uma visita dali a cerca de uma semana, quando James 
apareceu subitamente e anunciou que havia um telefonema para mim. Nem Paul nem eu ouvramos o telefone tocar.
        -
         Eu estava mesmo ao lado e levantei logo o auscultador - explicou James.
        -Quem ?
        - A sua irm. Parece muito excitada e exigiu que a chamasse imediatamente ao telefone - respondeu.
        Esbocei um trejeito. Tinha a certeza que ia comunicar-me que ela e Beau tinham ficado oficialmente noivos. Tratava-se do tipo de notcia que queria dar pessoalmente 
para poder ouvir a minha reaco.
        - Desculpa-me - pedi a Paul e levantei-me.
        - Atende no meu escritrio - sugeriu.
        Dirigi-me rapidamente at l, preparando-me para a notcia.
        - Ol, Gisselle - disse. - O que  assim to urgente?
        Manteve-se silenciosa durante um momento.
        - Gisselle?
        - Houve um acidente - respondeu, ofegante.
        "Oh, no", pensei. "Beau."
        - O qu? Quem?
        - A Daphne - arquejou. - Caiu do cavalo ao fim da tarde e bateu com a cabea numa pedra.
        - O que aconteceu? - inquiri, com o corao batendo, acelerado.
        -Morreu... h pouco - respondeu Gisselle. - No tenho pai... no tenho me. S te tenho a ti.
        

7

OS ELOS QUE UNEM
        
        Paul ergueu os olhos da chvena de caf quando voltei  casa de jantar. Um olhar para o meu rosto indicou-lhe que eu recebera ms notcias.
        - O que aconteceu? - perguntou.
        - A Daphne... caiu do cavalo e bateu com a cabea. Morreu - relatei num tom inexpressivo. As notcias haviam-me deixado atordoada.
        - Mon Dieu. Quem telefonou?
        - A Gisselle.
        - Como est a reagir?
        - Pelo tom de voz e as coisas que disse ao telefone, no muito bem, mas acho que est sobretudo assustada. Terei de ir a Nova Orlees - declarei.
        - Claro. Vou cancelar as minhas reunies em Baton Rouge e acompanho-te - props.
        - No, no  preciso ires j. O funeral s se realiza na quarta-feira. No faz sentido esperares naquela casa horrvel durante o dia inteiro.
        - Tens a certeza? - retorquiu, e esbocei um aceno de cabea. - De acordo. Encontro-me l contigo - disse. - E a Pearl?
        - Penso que  melhor para mim deix-la aqui com Mistress Flemming.
        - Est bem. Que coisa trgica! - exclamou Paul com um aceno lento de cabea.
        - Sim. No consigo deixar de pensar como o meu pai ficaria destrudo se estivesse vivo quando isto lhe aconteceu. Idolatrava-a. Percebi logo no primeiro 
momento em que os vi.
        - Pobre Ruby! - lamentou Paul, levantando-se para me abraar. - Construi este Shangri-La longe de todos e mesmo assim a tristeza descobre maneira de se infiltrar 
pela nossa porta.
        - No h esse paraso na Terra, Paul. Podes fingir e ignorar as coisas, mas as nuvens escuras no desaparecem. Acho que  algo que devemos entender - avisei 
eu, e ele concordou com mais um aceno de cabea.
        - Quando partes?
        - De manh - respondi, confsa enquanto pela minha mente desfilava todo o tipo de pensamentos sombrios.
        - Detesto ver a tristeza no teu rosto, Ruby. - Beijou-me na testa e apertou-me de encontro ao peito, premindo os lbios nos meus cabelos.
        - Vou tratar da mala - sussurrei e afastei-me com a sensao de um tal aperto no corao que s o deixava palpitar um pouco.
        Na manh seguinte, depois de dar um beijo de despedida a Pearl e garantir a Mrs. Flemming que telefonaria frequentemente, dirigi-me ao meu carro. Paul levara 
as minhas coisas l para fora e arrumara-as no porta-bagagens. Esperava-me junto ao carro com uma expresso abatida e preocupada. Nenhum de ns dormira bem na noite 
anterior. Ouvi-o e vi-o chegar-se  minha porta por vrias vezes, mas no lhe dei a entender que estava acordada. Temia que os seus beijos e abraos de conforto 
levassem novamente a algo mais.
        -
         Odeio deixar-te ir sozinha - declarou. - Devia acompanhar-te.
        - E depois fazeres o qu? Agarrares-me na mo? Andar de um lado para o outro a pensares em tudo o que podias e devias estar a fazer? S me porias nervosa 
- garanti-lhe, e ele sorriu.
-  mesmo teu pensares sempre nos sentimentos dos outros.
        mesmo em alturas como estas. - Beijou-me na face, abraou-me, e entrei no carro. - Guia com cuidado - pediu. Telefono-te esta noite.
        - Adeus.
        Tomei o rumo de Nova Orlees.
        Descera a capota e pusera na cabea um leno de seda branca. Quantas coisas haviam mudado, pensei. Todas as dificuldades e preocupaes do ano anterior tinham-me 
amadurecido e endurecido em aspectos que comeava a entender. H um ano, o facto de conduzir um carro at Nova Orlees ter-me-ia parecido viajar at  Lua. Algures 
ao longo desta breve mas difcil viagem por que passara, deixara a rapariguinha para trs de mim. Tinha uma tarefa pela frente e herdara a firmeza, a fora e a confiana 
da grandmre Catherine para a realizar.
        Apesar de todos os meus receios de que isso pudesse acontecer, no me perdi pelas ruas de Nova Orlees. Quando estacionei no relvado circular e avistei o 
velho Rolls-Royce do meu pai estacionado junto  garagem, fitei a porta da frente e hesitei. Tinham passado muitos anos desde que entrara naquela casa. Respirei 
fundo e sai do carro. O novo mordomo apareceu rapidamente  porta. Quando me avistou, pestanejou, confuso.
        - Oh! - exclamou. - Deve ser a irm gmea de mademoiselle.
        - Exacto. Sou a Ruby.
        - Chamo-me Stevens, madame - apresentou-se com um leve inclinar de cabea. - Lamento o sucedido.
        - Obrigada, Stevens.
        - Posso levar-lhe a bagagem? - props.
        - Obrigada - agradeci. Esperava ver muitos carros no acesso quando estacionei e dzias de amigos de Daphne reunidos para consolar Gisselle e Bruce; a casa, 
porm, apresentava-se calma, vazia. - Onde est a minha irm?
        - Mademoiselle est l em cima, na sute dela - respondeu, recuando.
        Entrei no enorme salo e, por um momento, foi como se nunca me tivesse ido embora, como se tudo o que acontecera desde ento no passasse de um sonho. Quase 
esperei ver Daphne a sair do escritrio, esboando um trejeito  guisa de cumprimento e questionando a minha roupa ou perguntando-me onde estivera. Todas as luzes 
estavam diminudas ou apagadas. Os lustres pendiam como gotas de gelo. A escadaria apresentava-se envolta em sombras, como se a prpria morte tivesse vagueado pela 
casa e deixado marcas nas carpetes e soalhos.
        - Ficarei no quarto, junto ao da minha irm, Stevens - indiquei ao mordomo.
        - Muito bem, madame.
        
        Apressou-se a ir buscar as minhas coisas e comecei a subir as escadas. Antes de chegar ao patamar, ouvi gargalhadas vindas do quarto de Gisselle, que deixara 
a porta aberta. Estava ao telefone. Quando se virou e me viu ali de p, o sorriso desapareceu de imediato e assumiu a expresso triste de uma filha rf.
        - No posso falar mais, Pauline. A minha irm acabou de chegar e temos de discutir os preparativos do funeral e outras coisas. Sim,  horrvel - replicou 
com um fundo suspiro. - Obrigada por seres to compreensiva. Adeus. - Pousou o auscultador vagarosamente e depois levantou-se para me saudar. - Sinto-me to contente 
por teres vindo, Ruby - disse e abraou-me, beijando-me nas duas faces. - Foi terrvel. Fiquei emocionalmente esgotada. Ignoro o que ainda me mantm de p.
        - Ol, Gisselle - correspondi secamente e percorri o quarto com o olhar. Havia roupas espalhadas por todo o lado e uma bandeja de pratos vazios do pequeno-almoo 
em cima de uma mesa-de-cabeceira e com uma revista de cinema ao lado.
        - No consegui ver ningum nem fazer nada - queixou-se de imediato. - O mundo desabou-me em cima.
        - E o Bruce? - indaguei.
        - O Bruce? - Atirou a cabea para trs com uma breve risada. - Revelou-se um idiota chapado. E ser que conheo o motivo? - acrescentou com um olhar mau 
e arguto. - Ainda no fez mais do que examinar documentos  espera de encontrar uma sada, mas j lhe disse que esquecesse.
        - Mas era marido dela.
        - S de nome e apenas como criado. A Daphne excluiu-o de tudo. Vai sair daqui com pouco mais do que entrou. Veremos. O Beau falou com os nossos advogados 
e...
        -O Beau?
        Sim, o Beau. Tem sido a nica coisa capaz de me dar alento. Mostrou-se um verdadeiro super-homem. Logo desde o incio. No te passa pela cabea o horror 
de tudo isto. No estavas aqui - ripostou, como se a culpa me coubesse por esse facto. - Ela foi andar a cavalo com o Bruce e o animal estacou de repente e atirou-a 
ao cho. O Bruce regressou logo a casa, a gritar. O Beau e eu ainda estvamos deitados - intercalou com um sorriso malicioso. - Ouvimos o Bruce aos gritos e vestimos 
uma roupa. Encontrmo-la estiraada no cho, com uma ferida na fonte. O Beau, que tem alguns conhecimentos mdicos, ordenou ao Bruce que no lhe tocasse e mandasse 
chamar uma ambulncia. Examinou-lhe os olhos, tomou-lhe o pulso, olhou para mim e abanou a cabea. "Parece grave", informou-me.
        "Voltei a casa para vestir uma roupa mais quente. A ambulncia chegou, puseram-na na maca e levaram-na para o hospital, mas foi uma perda de tempo. Estava 
morta quando l chegaram.
        "O Bruce ficou frentico, culpando-se por se ter deixado convencer por ela a montar o cavalo mais manso. Pelo menos, foi o que disse. Na minha opinio, nunca 
se deve ter oferecido para montar o Fury. No era homem bastante para isso. - Esboou uma careta.
        - Onde est o Bruce agora?
        - L em baixo no escritrio, a apanhar uma bebedeira, suponho. Disse-lhe que podia ficar at depois do funeral.
        - Mas ele no tem qualquer direito  casa?
        -
         No.  tudo muito complicado relativamente ao que  agora a nossa herana. Segundo o Beau, os nossos advogados acham que podem acelerar o nosso controlo 
mais directo. Foi essa a palavra que ele usou: "acelerar". H muito dinheiro em jogo, sabes? Lembras-te de como a Daphne era avarenta connosco, depois de o pap 
morrer? Bom, agora j no pode s-lo, no  verdade? Reparaste como o meu cabelo cresceu? - perguntou, mudando de assunto sem uma pausa para tomar flego. - O Beau 
gosta dele assim. - Estava quase do mesmo comprimento que o meu.
        - Como est... o Beau?
        -Maravilhoso... e feliz - apressou-se a acrescentar. - Portanto, no digas nem faas nada que arruine as coisas para ns ou... ou o mundo pode vir a saber 
a pecadora que s - declarou, brindando-me com um olhar hostil.
        - Como podes ameaar-me num momento destes? - inquiri, surpreendida.
        - No estou a fazer ameaas. Estou somente a avisar-te
que no estragues a minha felicidade. Tomaste as tuas decises
e s feliz com as tuas escolhas. ptimo. Agora, tambm tenho o direito de ser feliz. E o Beau tambm.
        - No vim aqui estragar a felicidade de ningum.
        -  ptimo ouvir isso. - Sorriu, inclinando a cabea na direco da porta. - O Paul no veio contigo?
        - Estar aqui para o funeral.
        - E a criana... Como  que ela se chama?
        - Pearl - respondi em tom spero, certa de que ela sabia o nome perfeitamente. - Achei melhor deix-la em casa com Mistress Flemming.
        - Muito bem. Nesse caso, tu e eu podemos ir direitas ao negcio.
        - Onde est...
        - O corpo da Daphne? Na casa morturia. No achas por acaso que iria quer-lo c? J foi mau termos tido o do pap. A nica coisa que faremos aqui ser o 
velrio e um belo velrio. J chamei o pessoal de fornecimento de comida. Teremos, obviamente, toneladas de flores. Esto a mand-las aos montes, mas vou envi-las 
directamente para a casa morturia. E preparei uma lista de pessoas a quem convidar.
        - De que ests a falar? Uma lista de pessoas? Isto no  uma festa - observei.
        - Claro que  - contraps. -  uma festa para nos ajudar a esquecer a tragdia. Agora, no andes por a com um ar pendurado, fingindo que ests destroada. 
Odiava-la e ela tambm o sabia. No posso afirmar que gostava dela, mas tenho
provavelmente mais motivos para estar triste do que tu. Foi minha madrasta durante muito mais tempo do que tua.
        Fitei-a um momento. Talvez Daphne merecesse uma filha daquelas. Lanara decerto as sementes  terra e ensinara com o seu exemplo Gisselle a ser to egocntrica. 
Suspirei, ansiosa por que o funeral terminasse, outras disposies se resolvessem e pudesse voltar a Cypress Woods onde a vida, pelo menos para mim, era muito menos 
complicada.
        Stevens trouxe-me a bagagem para o quarto.
        - Oh, que simptico - exclamou Gisselle, quando o viu a transportar a minha mala. - Voltaremos a ficar uma ao lado da outra.  em alturas como estas que 
aprecio, na verdade, ter uma irm - afirmou num tom de voz suficientemente elevado para que Stevens ouvisse.
        - Mistress Gidot pediu-me que a informasse que preparou algo para o almoo, mademoiselle. Quer que traga ou...
        -
         Oh, no. Diga-lhe que a minha irm chegou e comeremos na sala de jantar, tout de suite - retorquiu Gisselle, depois do que me esboou um sorriso de orgulho. 
- Aprendi um pouco de francs, enquanto estive em Paris com o Beau - acrescentou.
        - Trs bien mademoiseile - redarguiu Stevens e saiu.
        - O que  que ele disse?
        - Muito bem. Quem  Mistress Gidot?
        - A francesa que a Daphne contratou para substituir a Nina Jackson.
        - Onde est a Nina?
        - Como hei-de saber onde est algum como ela? Por favor, Ruby. De qualquer maneira, espero que tenhas fome. Mistress Gidot cozinha muito bem e tenho a certeza 
que vai preparar-nos algo delicioso.
        - Vou refrescar-me - repliquei.
        - Tambm eu. Tenho chorado e j andei tanto por a que devo estar com um aspecto horroroso. E o Beau no tardar a chegar - acrescentou.
        O corao ameaou saltar-me do peito. A mera ideia de me encontrar frente a frente com Beau fazia-me tremer. Tentei que Gisselle no se desse conta da minha 
apreenso.
        - ptimo - comentei com um sorriso.
Sa apressadamente do quarto que outrora havia considerado to novo e maravilhoso, um quarto em que Beau me beijara pela primeira vez e em que me abraara e confortara 
durante o velrio do meu pai. Sorri ao deparar com o retrato da rapariguinha e do cachorro ainda na parede e depois fui at  janela e contemplei os courtis de tnis 
e as flores, recordando-me do facto de me ter sentido uma princesa na primeira vez que ali dormira. Tudo se me afigurara to mgico e fantstico que jamais imaginaria 
a tristeza e os problemas que pairavam sobre a grande casa, prestes a atingir-nos.
        
        Parei a fim de dar uma espreitadela ao escritrio antes de me ir juntar a Gisselle na sala de jantar. Tal como ela me dissera, Bruce estava l a folhear 
uma pilha de papis com uma garrafa de usque aberta ao lado. Vestia casaco e gravata, mas com o n da gravata alargado. Tinha o cabelo emaranhado e dava a sensao 
de que no se barbeava h uma semana. Quando ergueu o rosto para mim, julgou tratar-se de Gisselle. Depois de um segundo olhar, verificou que era eu.
        - Ruby! - exclamou, levantando-se rapidamente. Embateu na esquina da secretria, tal a nsia de me abraar. O cheiro a uisque chegou-me antes dele. Deu-me 
um abrao rpido e recuou. -  horrvel, horrvel. No consigo acreditar que aconteceu.
        - Porqu? - ripostei num tom spero. - Aconteceu ao meu pai; aconteceu ao meu tio Jean.
        Pestanejou e depois abanou a cabea.
        - Claro que tambm foram tragdias horrveis, mas a Daphne... A Daphne estava no apogeu da vida. Estava mais bonita do que nunca. Ela...
        - Sei como a achava maravilhosa, Bruce. Lamento que isto tenha acontecido. No o desejaria a ningum. J h tristeza bastante no mundo, sem que prestemos 
o nosso contributo.
        - Sabia que pensarias assim - redarguiu, sorrindo. - A tua irm... - abanou a cabea - est completamente tresloucada...  com aquele seu namorado... Andam 
a conspirar contra mim. Preciso da tua ajuda, Ruby.
        -
         Da minha ajuda? - repeti, quase soltando uma gargalhada.
        - Sempre foste a mais sensata - arguiu. - E agora que ests bem na vida, compreenders. A Daphne e eu tnhamos alguns acordos - prosseguiu. - Oh, nunca os 
passmos ao papel, mas tnhamos. Discutamos o que faramos se algo sucedesse a um de ns e concordmos que ao outro seria concedida procurao. Se fizeres com que 
os advogados estatais redijam os documentos...
        - Durante anos, foram vocs dois os conspiradores, Bruce - repliquei num tom gelado. - Ambos conspiraram contra o meu pai. Fizeram desfalques e armaram embustes. 
S que aparentemente foram scios no crime, mas uma das metades era
muito mais esperta, levando-o a si ao estado em que se encontra: sem nada - acrescentei, fitando a pilha de documentos. Tenho pena de si, mas no levantarei um dedo 
para o ajudar - garanti. - Leve o que conseguiu roubar e v-se embora - aconselhei, e ele abriu a boca de espanto.
        -Mas... La Ruby, sabes que sempre simpatizei contigo e me pus do teu lado, quando a Daphne era demasiado severa.
        - Quando? - redargui. - Nunca teve coragem para lhe fazer frente, mesmo quando a viu ser mesquinha contra mim, contra o meu tio Jean e mesmo contra a Gisselle. 
No me pea favores, Bruce.
        - Vocs as duas no vo safar-se - ameaou, semicerrando os olhos. - Tambm tenho advogados, sabes, advogados bem pagos e importantes e scios de negcios.
        - Sinceramente, -me indiferente, Bruce. Vou deixar essas batalhas para a Gisselle.
        - Ela roubou-te o namorado, sabes? - retorquiu com um sorriso astuto.
        Senti o sangue afluir-me ao rosto e apercebi-me de que ficara vermelha.
        - Sou casada, Bruce.
        Esboou um sorriso ainda maior.
        - Veremos quem ri por ltimo - ameaou, voltando a concentrar-se nos papis da secretria.
        Dirigi-me  sala de jantar e coloquei Gisselle a par daquela conversa. Ela encolheu os ombros.
        - Vou deixar todo esse assunto para o Beau e para os nossos advogados - declarou. - Contudo, estava a pensar comprar-te a tua parte desta casa e das propriedades 
de Nova Orlees. Tens tanto, porque havias de importar-te? - acrescentou, antes que eu pudesse oferecer qualquer resistncia.
        - Por mim, est tudo bem - acedi.
        - Sabia que nos entenderamos durante esta altura difcil. Temos de fazer o que pudermos para nos consolarmos uma  outra, no ? O que vais usar no funeral? 
Trouxeste algo apropriado? Tenho um armrio cheio de roupa nova. Podes tirar o que quiseres. Procura nos meus armrios. s um pouco mais larga de anca que eu desde 
que deste  luz, mas a maioria serve-te - disse.
        - Trouxe roupa comigo, obrigada - agradeci.
        Virmo-nos as duas quando Bruce apareceu na ombreira da porta. Trazia um mao de papis nos braos.
        - Vou sair por um bocado - anunciou. - At aos escritrios dos meus advogados.
        -
         No vale a pena pensares em destruir documentos, Bruce - avisou Gisselle. - Sei que a me mantinha cpias de tudo com a Simons & Beauregard, que so agora 
os nossos advogados.
        Ele girou, irritado, sobre os calcanhares e, ao faz-lo, deixou cair alguns documentos. Gisselle riu enquanto Bruce se atrapalhava e punha de joelhos para 
os reunir. Depois, percorreu furioso o corredor com passo pesado e saiu.
        - Boa viagem! - gritou Gisselle atrs dele e sorriu-me. - Estava a pensar fechar a casa durante um ms e viajar.
Talvez a Londres. Ah... Estas ostras e alcachofras so deliciosas, no achas? Esta enorme empada chama-se vol-au-vent - declarou, pedante.
        A comida era boa, mas no me encontrava com disposio para apreciar o que quer que fosse. Depois do almoo, Gisselle foi visitar uns amigos e eu vagueei 
pela casa. Pouco tinha sido mudado ou acrescentado. Suspirei fundo e continuei a andar at chegar ao que fora outrora o meu estdio. Nada havia sido retirado de 
l, mas a diviso mantivera-se fechada desde ento. Notavam-se camadas e camadas de p em tudo e at mesmo teias de aranha nas janelas e nos cantos. As tintas estavam 
secas e os pincis endurecidos. Observei vrios dos meus desenhos no acabados e parei junto ao cavalete.
        Voltou a recordao daquele dia com Beau, o dia em que me provocara, incitando-me a desenh-lo nu. Olhei para o sof e imaginei-o de novo ali, com aquele 
terno e travesso sorriso nos lbios e nos olhos. O meu corao batia loucamente mas conseguira embrenhar-me na arte e desenhar um retrato to parecido e realista 
que, mais tarde, quando Daphne o descobrira, no tivera dificuldade em perceber quem era e o que acontecera.
        Fora nesse mesmo dia, depois de ter trabalhado no seu retrato, que Beau e eu fizramos amor pela primeira vez. A recordao do seu beijo, do seu toque, dos 
nossos abraos apaixonados, invadiram-me e tiraram-me o flego. Arrebatada pelas minhas recordaes, aproximei-me devagar do sof e fitei-o, como se pudesse ver-nos 
de novo juntos, um rememorar daqueles momentos de xtase, os dois unidos num acto de paixo to completo, em que nos perdamos um no outro, jurando um amor eterno.
        Sentei-me rapidamente, sentindo que as pernas enfraqueciam e ameaavam ceder sob o meu corpo. Durante algum tempo, permaneci ali, de olhos fechados e com 
o corao ameaando saltar-me do peito. Depois, respirei fundo e virei-me a fim de olhar l para fora atravs da janela na direco dos carvalhos e jardins, recordando 
a excitao que experimentara ao comear a desenhar e a pintar no meu prprio estdio.
        - Uma moeda pelos teus pensamentos - ouvi uma voz suave nas minhas costas; ao voltar-me, deparei com Beau na ombreira da porta.
        O cabelo louro e brilhante continuava a tombar despenteado sobre a testa, e a tez morena ressaltava ainda mais o brilho dos olhos azuis. Vestia um blazer 
azul-escuro e calas de caqui com a camisa aberta no colarinho. O rosto bonito era-me to familiar: a boca perfeita e sensual, o nariz romano aquilino e o queixo 
firme e bem delineado.
        
        Fiquei momentaneamente sem fala, incapaz de me mexer sob o esplendor do seu caloroso e atraente sorriso, o qual se transformou rapidamente numa ligeira gargalhada.
        - Parece que ests a olhar para um fantasma - comentou. Aproximou-se rapidamente de mim e agarrou-me nas mos, pondo-me de p. Abramo-nos e depois ele 
recuou e mirou-me sem me largar as mos.
        - No mudaste nada... excepto que pareces mais bonita - replicou. - Ento? Diz alguma coisa.
        - Ol, Beau.
        Rimos e depois ele comps uma atitude mais sria, endireitando os ombros e premindo os lbios.
        - Ainda bem que te encontrei sozinha. Queria explicar o que aconteceu, porque  que parti to rapidamente, quando se descobriu a tua gravidez - comeou.
        - No exijo explicaes - redargui, virando as costas.
        - No foi um acto digno de um cavalheiro do Sul... abandonar a mulher que amava, estando ela em apuros. Fui pura e simplesmente um cobarde. Os meus pais 
estavam devastados. A minha me ficou  beira de um ataque de nervos. Pensava que todos em Nova Orlees iriam saber do escndalo e que as suas vidas seriam arruinadas. 
Nunca vi o meu pai naquele estado.
        "Depois, avistaram-se com a Daphne e ela garantiu-lhes que trataria do problema se me mandassem embora imediatamente. Tentei telefonar-te antes de partir, 
mas no consegui. Quase me levaram acorrentado. No espao de horas, arranjaram os bilhetes de avio, a escola, o meu apartamento em Paris.
        "Nessa altura, nada tinha de meu. Dependia por completo dos meus pais. Se os tivesse desafiado, deserdar-me-iam sem dvida... e o que podia fazer por ti, 
por ns e um beb?
        "Confesso que tive medo. Antes de ter conscincia do que estava a fazer e do que me acontecia, sobrevoava j o oceano Atlntico. Os meus pais proibiram-me 
de ter o que quer que fosse a ver contigo, mas de incio escrevi-te cartas. Recebeste algumas?
        - No - respondi, brindando-o com um breve olhar. - J no estava aqui e a Daphne no fez decerto qualquer esforo para as guardar ou mandar-mas.
        - Nunca havia fugido s minhas responsabilidades at ento - prosseguiu. - Todos, os meus pais, a Daphne, todos me garantiram que tudo correria bem para 
ti.
        Fitei-o.
        -Tudo... correria bem? - Quase me ri, ao recordar.
        A dor reflectiu-se-lhe no olhar.
        - O que aconteceu? - inquiriu num sussurro.
        - A Daphne mandou-me fazer um aborto numa qualquer clnica de segunda. Mal vi o lugar, apercebi-me do que estava a fazer e fugi, regressando ao bayou.
        - Onde deste  luz...
        - A Pearl.  uma bonita criana, Beau.
        - E onde te casaste?
        - Sim.
        Baixou os olhos.
        -
         Quando ouvi dizer que tinhas casado, resolvi continuar na Europa. A verdade era que no queria regressar nunca mais. Mas - acrescentou com um suspiro - 
no era realista. Depois, apareceu a Gisselle. Mudou, no achas? - perguntou, esperando que concordasse. - Acho que est finalmente a crescer, a amadurecer. Acontecimentos 
terrveis como este arrancam-nos com gritos e pontaps  infncia. Agora, sabe que tem de ser responsvel. Tem de orientar uma fortuna, interesses de negcios...
        - Consta que tens sido uma grande ajuda - comentei.
        - Fao o que posso. Viste o Bruce? - indagou.
        - Sim. O que quer que lhe acontea  pura justia - retorqui.
        - No te preocupes. Zelarei para que no receba um cntimo a mais do que lhe  devido - prometeu.
        - O dinheiro deixou de ser assim to importante para mim, Beau. Na verdade, nunca foi to importante como para a Gisselle.
        - Eu sei. Li as notcias a teu respeito no jornal. Tens um estdio como este?
        - Sim, mas com uma vista maravilhosa dos canais.  no sto da nossa casa - respondi.
        - Parece maravilhoso. A Gisselle tem-me mantido ao corrente de tudo e pela forma como ela descreve... como lhe chamas, Cypress Woods? - Esbocei um aceno 
de concordncia.
-        Pela forma como o descreve, parece pura utopia.
        - Sempre fui mais feliz no bayou, rodeada pela Natureza. Tudo aquilo fazia demasiado parte de mim, de quem eu era, para que pudesse desistir.
        - Mesmo por mim? - inquiriu ternamente. Os olhos brilhavam com lgrimas, pouco vulgares nele.
        -Beau...
        - De acordo. Estou a ser injusto. No tenho o direito de pedir ou exigir nada de ti, Tu  que tens o direito de me desprezar por te ter abandonado. Nada 
do que me aconteceu ou acon tecer  imerecido - redarguiu
        - Ambos estvamos em falta, Beau, e ambos fomos viti mas de um destino cruel - comentei num tom suave. Fitamo-nos bem nos olhos e aproximamo -nos.
        - Ruby - sussurrou ia a estender me os braos quando Gisselle irrompeu pelo estdio.
        - Ah, aqui esto vocs - exclamou num tom agudo. - Devia ter calculado que a descobririas. O Stevens disse-me que tinhas chegado e, quando no te encontrei 
no escritrio nem na sala de estar, perguntei a mim prpria para onde irias.
        - Ol, Gisselle - saudou.
        Ela atirou-se-lhe para os braos e beijou-o na boca, de olhos abertos e virados para mim quando o fez.
        - Tive tantas saudades tuas esta manh - afirmou, ao descolar os lbios dos dele. - Quando saste?
        Beau corou.
        - Cedo. Sabias que tinha um encontro com os teus advogados...
        - Oh, claro. Hoje, tenho a cabea em gua. Bom. Podes contar-nos o que discutiram e o que temos de fazer - props.
-        Vamos todos at ao escritrio falar. - Pegou na mo de Beau e sorriu-me, muito segura de si. - De acordo, Ruby?
        - Claro - anui, seguindo-os.
        De volta ao escritrio, ficmos a ouvir Beau passar em revista o que os nossos advogados consideravam em relao ao assunto. A maneira como Daphne levara 
Bruce, antes de se casarem, a assinar documentos que o excluiam da sua fortuna e da nossa, era um mistrio, mas ele assinara-os de facto e os advogados sentiam-se 
protegidos.
        -
         Qualquer manobra legal que ele tente ser intil - garantiu Beau. - Agora, falta pouco tempo para que vocs assumam o controlo total de tudo, mas com os 
advogados no papel de executores testamentrios esse controlo ser imediato.
        - Ento, podemos gastar o que quisermos? Comprar o que nos apetecer? - indagou Gisselle, excitada.
        - Sim.
        - Acabaram as restries! A primeira coisa que quero  um carro desportivo. A Daphne no me deixava t-lo - lamentou-se virando-se depois para mim. - Deves 
dar uma volta  casa e resolver o que queres levar para os pntanos contigo.  possvel que mande chamar algum e faa um leilo - anunciou. - E h ainda a questo 
do rancho, dos prdios de apartamentos...
        - Temos de discutir isso agora, Gisselle?
        - Pouco me interessa que o discutamos agora ou nunca. Se quiseres, manda o teu advogado um destes dias para falar com os nossos. No achas, Beau?
        Beau fitou-me.
        - Se for essa a vontade dela - ripostou.
        - Deixemos isso de lado por agora - declarei. O peso emocional de regressar quela casa, o reavivar de lembranas e o facto de voltar a encontrar Beau aturdiam-me. 
Tinha a sensao de que poderia dormir uma semana inteira. - Gostaria de descansar um pouco - acrescentei. - Acho que vou subir at ao meu quarto. Tenho de telefonar 
para casa e saber como est a Pearl.
        Beau desviou os olhos de mim para Gisselle, baixando-os depois para os documentos.
        - Vai ento descansar - anuiu ela. - Eu no estou minimamente cansada. Na verdade, quero mesmo afastar-me daqui por umas horas. Sinto-me asfixiar sob toda 
esta trristeza. Beau, leva-me a Jackson Square para tomar um caf e comer uns beignets - ordenou.
- Se  o que queres - replicou ele.
        -  mesmo. Obrigada, Beau. - Dirigiu-me um enorme sorriso de satisfao.
        Beau parecia relutante em sair dali, mas f-lo. Telefonei a Mrs. Flemming e ela informou-me que tudo estava em ordem. Subi depois ao que outrora fora o meu 
quarto e deitei-me na cama onde muitas vezes sonhara com Beau e comigo juntos e felizes. Fechei os olhos e, dali a momentos, adormeci.
        Acordei ao som de risos que me chegavam do fundo da escada e escutei.
        - Aparece dentro de uma hora para nos levares ao velrio - ouvi dizer Gisselle; em seguida subiu a escada. Parou na ombreira da minha porta, e eu sentei-me 
na cama, esfregando os olhos.
        - Ol - saudou. - Divertimo-nos imenso. Corria uma brisa fantstica junto ao rio e sentmo-nos a observar os turistas e os artistas. Devias ter vindo. Repousaste 
bem? Temos de ir at  capela morturia para o velrio. As pessoas s viro depois do funeral - informou.
        -Sim...
        - Ento, veste-te - incitou. - O Beau vem buscar-nos dentro de uma hora.
        
        Saiu apressadamente e perguntei a mim prpria como conseguia ela estar de to bom humor numa ocasio to horrvel. Contudo, no velrio portou-se  altura, 
derramando algumas lgrimas sempre que o desejava. Apesar do papel que desempenhara nas pequenas conspiraes contra o meu pai, no pude evitar uma certa pena de 
Bruce, o qual se manteve a um canto a maior parte do tempo. Aparentemente, a verdade sobre a sua relao com Daphne no era segredo e, agora que Daphne morrera, 
todos se apercebiam de que Bruce possua pouco poder e relativamente poucos bens.
        Todos os amigos das relaes sociais de Daphne e muitos dos seus associados de negcios apareceram para nos dar os psames. Os nossos advogados estavam presentes 
para os apresentar. Pressenti que Gisselle se impacientava e comeava a ficar cansada do ambiente lgubre. Decorrida cerca de uma hora, disps-se a ir embora. Beau, 
contudo, mantinha-se ao lado dela, implorando-lhe que se aguentasse um pouco mais. Continuava a chegar gente. Quando ela acedeu, tomei conscincia de como Beau representava 
uma forte e boa influncia sobre ela e sorri intimamente.
        De vez em quando, desviava o olhar na direco dele. Fitvamo-nos e sentia como o meu corao se punha a bater aceleradamente. Receava que algum mais me 
detectasse no rosto as quentes emoes que ainda dominavam o meu corpo, sempre que ele estava prximo de mim ou me falava; por isso tentei evit-lo. Era, todavia, 
como se tentasse fugir a um copo de gua fresca depois de passar dias no deserto. Sentia-me incapaz de deixar de olhar para ele e, sempre que lhe ouvia a voz, parava 
de falar e de escutar as outras pessoas. A voz dele continuava a soar como msica aos meus ouvidos, mas era difcil passarmos algum tempo sozinhos.
        Na manh seguinte, Paul chegou cedo a fim de me acompanhar ao funeral. Sabamos que representvamos um motivo de grande curiosidade para muitas pessoas que 
tinham ouvido falar do meu casamento e da nova vida no bayou.
Quando o caixo de Daphne foi empurrado para o jazigo da famlia Dumas, pensei no meu pai. No intimo, achava que ele preferia ter descansado ao lado da minha verdadeira 
me. Esperava que, espiritualmente, onde quer que as almas passassem a eternidade, voltassem a encontrar-se e Daphne fosse mandada para um outro lugar.
        Depois do funeral, a maioria dos velhos amigos de Gisselle regressou connosco at casa. A primeira hora foi calma, mas notei que Bruce bebia descontroladamente 
e murmurava irritado para os poucos amigos, enquanto fixava Gisselle e eu com uma fria crescente. Expliquei o motivo a Paul.
        De sbito, Bruce deixou cair o copo que tinha na mo, o qual se estilhaou no soalho. Os presentes pararam de falar, e ele sorriu e avanou a cambalear.
        - Para o que esto todos a olhar? - inquiriu. - J no precisam de sussurrar atrs das minhas costas. Sei no que esto a pensar. Cumpri os meus objectivos 
e agora sou dispensvel, no ?
        - Bruce - exclamei, dando um passo em frente. - No  o momento apropriado.
        -
         No, La Ruby, no  o momento. Mas se tu e a tua irm levarem a vossa avante, nunca ser o momento, pois no? Bom, de acordo. Gozem o que tm agora, pois 
no o tero eternamente. Possuo os meus direitos. Sei-o, independentemente das afirmaes dos vossos advogados bem pagos - gritou.
        Todos ficaram sem fala. Depois, sorriu e esboou uma vnia.
        - Vou despedir-me desta reunio das altas esferas sociais, pois fui informado de que sou pessoa non grata. Numa palavra, a minha presena no  apreciada. 
Se  que alguma vez o foi... Portanto,  tudo por agora - declarou.
        Girou to bruscamente sobre os calcanhares que quase caiu; depois, dirigiu-se  porta, seguido por dois dos associados, que lhe agarraram nos braos.
        As conversas retomaram o seu curso. Fitei Gisselle.
        - Ainda bem que nos livrmos dele! - disparou, com o rosto corado e furiosa. - Ignoro do que se queixa. Tem mais do que merece. Beau - chamou subitamente 
num tom fraco e ele acorreu de imediato. - No foi horrvel?
        - Sim - concordou. - Ele est embriagado.
        - Agora, ainda isto por cima de tudo o resto. No aguento nem mais um instante. Por favor, Beau. Ajuda-me a ir at ao meu quarto - suplicou e ele guiou-a, 
enquanto Gisselle apoiava a cabea no seu ombro e murmurava desculpas s pessoas que tinham aparecido. Depois, todos comearam a dispersar.
        - Quero ir esta noite para casa, Paul - disse num impulso.
        - A srio? Mas pensei...
        - No quero saber das disposies financeiras para nada. S quero ir para casa.
        Paul esboou um aceno de concordncia. Apanhara o avio de Baton Rouge para Nova Orlees, a fim de que pudssemos voltar no meu carro. Subi ao meu quarto 
para fazer as malas. Foi ento que ouvi uma leve pancada na porta parcialmente aberta.
        - Sim?
        Beau entrou.
        - Vais esta noite para casa?
        - Sim, Beau. No posso ficar mais. Nunca passei tanto tempo longe da Pearl - acrescentei.
        - Lamento no te ter perguntado mais sobre ela. Senti que... no tinha o direito de perguntar - salientou.
        - Ela  tua filha - recordei-lhe.
        - Eu sei - ripostou com um aceno de cabea. - O Paul parece ter aceite tudo sem problemas. Pelo menos, a julgar pela breve conversa que tivemos, assim o 
acho.
        - Ele ama a Pearl,  verdade.
        - E a ti - rematou Beau.
        Baixei os olhos para a minha mala, conservando-me silenciosa um momento.
        - A Gisselle tenta ser diferente quando est contigo. Tenho visto - repliquei. - Talvez sejas bom para ela.
        - Ruby! - exclamou, aproximando-se mais. - O nico motivo que me levou a recomear com ela foi porque ao olh-la podia fingir, imaginar que estava a olhar 
para ti. Tenho este sonho de que, serei capaz de transform-la em ti, mas  um sonho idiota.  impossvel substituir-te e no consigo suportar a ideia de que te 
perdi, nem a ideia da vida que poderamos ter tido juntos.
        Os olhos encheram-se-me de lgrimas, mas no me virei de forma a que as visse. Engoli-as e continuei a fazer a mala.
        - No, Beau. Por favor - murmurei.
        -
         No consigo evit-lo, Ruby. Jamais deixarei de te amar e, mesmo que signifique viver eternamente com uma iluso,  o que farei.
        - As iluses morrem rapidamente, Beau, e deixam-nos muito pior do que se tivssemos enfrentado a realidade - avisei.
        - Sou incapaz de enfrentar a realidade sem ti, Ruby. Sei isso agora.
        Ouvimos passos na escada. Fechei a mala no preciso instante em que Paul apareceu  porta.
        - O carro est pronto - anunciou, desviando os olhos, desconfiado, de Beau para mim.
        - ptimo. Adeus, Beau. Tenta aparecer em breve no bayou.
         -Assim farei.
        - Vou s despedir-me da Gisselle, Paul.
        - ptimo - concordou, pegando na minha mala.
        - Tambm vou descer, Paul - disse Beau.
        Quando os dois se dirigiram  escada, fui at ao quarto de Gisselle. Ela estava deitada na cama com uma toalha hmida em cima da testa.
        - Vou-me embora agora, Gisselle - disse.
        Bateu as plpebras, como se no tivesse bem a certeza de estar a ouvir uma voz real.
        -O qu? s tu, Ruby?
        - Sim. Parto esta noite para Cypress Woods.
        - Porqu? - inquiriu, sentando-se e repentinamente desperta. - Teremos um lauto pequeno-almoo amanh e depois talvez os quatro possamos fazer algo divertido 
para variar.
        - Preciso de voltar para junto da Pearl, e o Paul tem muitos negcios a tratar - repliquei.
        - Oh, deixa-te de idiotices. Apenas queres fugir de toda esta tristeza e problemas com o Bruce - acusou.
        - Sim, tambm - admiti.
        A expresso suavizou-se e depois os lbios tremeram-lhe.
        - O que ser de mim? - lamentou-se.
        - Agora tens o Beau - afirmei. - Ficars lindamente.
        - Sim - anuiu com um enorme e alegre sorriso. - Acho que sim.
        Virei-me e afastei-me rapidamente com a pulsao acelerada. Como lhe agradava deixar bem claro que eu voltara a perder Beau.
        

8

DE MAL A PIOR
        
        Durante a viagem de regresso, Paul tentou falar de banalidades e depois entusiasmar-me com algumas novidades que estavam a acontecer, no s a nvel de negcios, 
mas igualmente na poltica. Ouvi por alto, preenchendo todo o silncio entre ns com o som da voz de Beau e ocupando cada quilmetro escuro do caminho com as imagens 
de Beau sorrindo, conversando, fitando-me com aquele olhar de angstia nos olhos e... sim, aquele olhar de amor.
        Tentei manter-me ocupada e no pensar nele durante os dias que se seguiram imediatamente  nossa viagem a Nova Orlees, mas nesse espao de tempo foi-me 
impossvel desenhar uma linha. Limitava-me a olhar para o papel em branco, a pensar no meu estdio em Nova Orlees e em Beau. Tentei fazer esboos e pintar animais, 
flores, rvores, tudo menos pessoas, pois sabia que qualquer homem que imaginasse teria o cabelo de Beau, os olhos de Beau, a boca de Beau.
        O pior de tudo era observar Pearl que adquirira traos mais marcados e comeara a parecer-se cada vez mais com o pai. Talvez eu andasse a v-lo por todo 
o lado desde o funeral; porm, quando Pearl ria e sorria, ouvia o riso de Beau e via-o sorrir.
        Numa tarde, algumas semanas depois de termos voltado do funeral de Daphne, estava sentada no jardim a tentar ler um livro enquanto Mrs. Flemming brincava 
com Pearl na relva.
Estava um desses raros dias no bayou, em que mal corria uma brisa e as nuvens pareciam coladas ao cu azul. Um tempo que fazia com que todos se sentissem preguiosos. 
Os prprios pssaros mal esvoaavam de rvore em rvore. Deixavam-se ficar tranquilamente pousados nos ramos, idnticos a animais empalhados.  distncia, ouvia 
o barulho montono de uma das nossas sondas petrolferas e de vez em quando as vozes dos homens que gritavam entre eles. Para alm disso. tudo se mantinha to calmo 
que o riso de Pearl saltitava pela relva at aos canais, um riso cristalino que me fazia sentir como se estivssemos todos num mundo de fantasia.
        James apareceu subitamente vindo da casa com um enorme sobrescrito.
        - Acabaram de fazer esta entrega especial para si, madame -        anunciou, excitado, e estendeu-mo.
        - Obrigada, James.
        Ele esboou um aceno de cabea e retirou-se enquanto eu abria o sobrescrito, de onde tirei um jornal. Mrs. Flemming fitou-me com curiosidade e encolhi os 
ombros.
        -  apenas um jornal de Nova Orlees de h dois dias - elucidei. Fitei-o, interrogando-me sobre a razo por que fora enviado como entrega especial, quando 
notei que uma das pginas interiores estava assinalada com uma marca vermelha. Abri-o nesse stio e deparei com uma notcia envolta num crculo. Era um anncio de 
boda nupcial, descrevendo o casamento de Beau Andreas com Gisselle Dumas. Tinham fugido para casar.
        
        Reli a histria para confirmar que as palavras correspondiam, de facto, ao que estava a pensar e, por momentos, senti como se o ar  minha volta tivesse 
sido sugado. No conseguia respirar; no conseguia engolir e receava que, se me esforasse demasiado, sufocaria e ficaria roxa. Pareceu-me que o corao se afundava 
no peito, tornando-me oca e fria por dentro.
        - Nada de desagradvel, espero - desejou Miss. Flemming.
        Fitei-a por momentos e depois consegui recuperar a fala.
        - A minha irm... fugiu para casar - retorqui.
        - Oh! Com um bonito e elegante jovem?
        - Sim. Muito bonito e elegante - afirmei. - Preciso de ir um pouco at l acima - acrescentei e levantei-me rapidamente antes que as lgrimas comeassem 
a correr-me pelas faces.
        Atravessei a casa como uma seta, subi as escadas e atirei-me para cima da cama, onde enterrei o rosto na almofada. Sabia, evidentemente, que uma coisa daquelas 
poderia acontecer, mas vivera com o desejo de que Beau se mantivesse firme e no cedesse. Agora, lembrava-me de algumas das palavras que me dirigira, palavras que 
haviam sugerido o contrrio.
        No consigo evit-lo, Ruby. Jamais deixarei de te amar e, mesmo que signifique viver eternamente com uma iluso,  o que farei.
        Segundo parecia, decidira faz-lo. Poderia ele sentir-se feliz, sabendo que, de todas as vezes que beijava a minha irm, fechava os olhos e convencia-se 
de que me beijava? Que sempre que acordava de manh e lhe fitava o rosto, imaginava que me fitava? Estava apaixonado por mim; estaria sempre apaixonado por mim. 
Sabia que Gisselle pensava que atingira uma vitria recuperando-o novamente e levando-o a casar-se com ela, embora, no ntimo, devesse saber que era uma fraca vitria 
e que ele a usava como qualquer espelho mgico, onde podia mirar a imagem da mulher que amava.
        Todavia, Gisselle no se importava. Apenas lhe interessava tornar-me infeliz, mesmo que tal significasse casar-se com algum que no amava realmente. Para 
alm de que ela no amava ningum seno ela prpria, pensei. Tentei sentir-me mais rritada do que triste, mas o meu corao devastado no o permitia. Chorei tanto 
que me ficou a doer o peito, e as minhas lgrimas ensoparam a almofada. Quando ouvi um ligeiro bater na porta, reprimi os soluos e, ao virar-me, deparei com Paul, 
de p, com uma expresso triste e preocupada.
        - O que se passa? - inquiriu.
        - Nada. Ficarei bem - respondi, apressando-me a limpar as lgrimas com as costas da mo. Ele manteve-se parado, observando-me.
        - Foi isto, no foi? - indagou, exibindo o jornal que tinha atrs das costas. - Encontrei-o onde o deixaste cair, no vestbulo. No s obrigada a responder-me 
- acrescentou de imediato, com o rosto vermelho de frustrao e raiva. - Sei quanto ainda o amas.
        -Paul...
        -
         No. Tenho conscincia de que no  algo que possa fazer desaparecer com o meu dinheiro. Posso construir-te uma casa com o dobro do tamanho desta, com o 
dobro dos acres e ench-la de coisas dez vezes mais caras, e... continuars abatida, sonhando com o Beau Andreas. - Suspirou, erguendo e baixando os ombros. - Julguei 
que poderia fazer com que a dedicao e segurana ocupassem o lugar de um amor romntico, mas fui um idiota em pens-lo. Afinal, a minha me tinha razo - gemeu.
        - Superei o problema, Paul - afirmei, determinada. - Ele casou com a minha irm e ponto final.
        O rosto iluminou-se-lhe.
        - Era isso o que devias sentir - redarguiu, com um aceno de cabea. - No veio buscar-te, nem a ti nem  criana quando estavas a viver aqui na cabana da 
tua grandmre, pois no?
        - No - anui tristemente.
        - E depois nunca se interessou pelo teu bem-estar.  to egoista como a tua irm. Esto certos um para o outro. Tenho razo, no?
        Concordei com um relutante aceno de cabea.
        Paul esboou um trejeito.
        - Mas isso no significa que deixes de o amar, no  verdade? - concluiu com um tom cansado e derrotado.
        - O amor  qualquer coisa... que s vezes no podes dominar - contrapus.
        - Eu sei - replicou. - Ainda bem que tambm s dessa opinio.
        Entreolhmo-nos por um momento. Depois, ele pousou o jornal em cima do toucador e foi-se embora.
        Sentei-me junto  janela, chegando  concluso de que Paul e eu tnhamos agora mais em comum do que anteriormente. Os dois estvamos apaixonados por pessoas 
que no podamos amar como desejvamos, como devamos amar. Soltei um suspiro to fundo como o dele e depois peguei no jornal e atirei-o para o cesto dos papis 
mais prximo.
        Nos dias seguintes, pairou uma nuvem sobre Cypress Woods, apesar das tentativas de Paul e das minhas para nos alegrarmos mutuamente. As sombras pareciam 
mais escuras e duradouras e a chuva mais persistente, mais pesada, mais sombria do que nunca. Refugiei-me no trabalho. Queria deixar o mundo real e viver no mundo 
que estava a criar com a minha arte.
        Continuei a pintar a srie de quadros sobre o tema do soldado do Exrcito da confederao e da amante, mas o meu trabalho seguinte revelou-se muito melanclico. 
Nele retratei o soldado a ser transportado numa maca para fora do campo de batalha. Parecia-se, obviamente, com Beau e nos lbios quase se podia ler um apelo por 
mim... Ruby. Tinha aquele olhar distante e sonhador, o olhar de um homem que se fixara na mulher amada com todas as foras, sabendo que dali a momentos a luz iria 
desaparecer e ele lhe perderia o rosto, a voz, o cheiro do cabelo e o toque dos lbios numas trevas eternas.
        Na verdade, soluava enquanto pintava, as lgrimas escorriam-me pelas faces e, quando acabei, sentei-me no assento da janela com o olhar perdido nos canais, 
abraando-me e chorando como uma criana.
        O meu prximo quadro mostrava a amante a receber a terrvel notcia. O rosto dela era um esgar de agonia, com as mos torcendo um leno e, pendendo dos dedos, 
um relgio de bolso que ele lhe dera. O mensageiro tinha um ar to triste como o dela, de cabea baixa e ombros descados.
        Pintei os dois quadros com tons ainda mais sombrios e
sempre com o cipreste coberto de musgo em fundo ou de lado. Resolvi pintar os contornos da morte na teia entrelaada de canais.
        
        Quando Paul observou os quadros pela primeira vez, manteve-se silencioso. Estreitou os olhos e depois aproximou-se da janela. Observava os nossos belos jardins 
e sebes na direco dos canais, aqueles por onde passeramos outrora de piroga, falando do tipo de homem e de mulher que queriamos ser quando fssemos adultos a 
viver por conta prpria.
        - Encerrei-te num outro tipo de priso - comentou tristemente. - Fiz uma coisa horrvel.
        - No, no fizeste, Paul. Apenas tentaste fazer o melhor para a Pearl e para mim. No te culpabilizes. No quero ouvir falar disso.
        Ele virou-se com a expresso mais sombria e desalentada que alguma vez lhe vira.
        - S queria que fosses feliz, Ruby.
        - Eu sei - redargu, sorrindo.
        - Sinto-me, porm, como o homem que capturou o belo tordo e o meteu numa gaiola em casa, dando-lhe a melhor comida e toda a ateno possvel. Mesmo assim, 
ao acordar uma manh encontrou-o morto de tristeza, com os olhos virados para a janela,, na direco da liberdade que conhecera e de que precisava.  verdade.  
possvel amar-se de mais.
        - No me importo de ser amada de mais - retorqui. - Por favor, Paul. No quero que estejas triste por nada que eu diga ou faa. Vou deitar fora estes quadros.
        - Oh, no. So bons... dos teus melhores trabalhos. No te atrevas! - exclamou. - Vais tornar-te famosa por causa desta srie.
        -  quase mais importante para ti do que para mim o facto de me tornar uma artista conhecida, no ? - indaguei.
        - Claro. "Rebelde artista cajun capta as mentes e fantasias do sofisticado mundo da arte", - anunciou, traando ttulos no ar.
        Ri.
        - Esta noite podemos oferecer-nos um belo jantar, um jantar especial e depois ir ouvir um pouco de msica afro-americana. H uns tempos que no o fazemos 
- sugeriu.
        - ptimo.
        - Oh. No te contei? - exclamou quando ia a sair. - Comprei mais terreno esta manh.
        - Que terreno?
        - Toda a terra a sul at aos canais. Somos agora os maiores proprietrios de Terrebone Prish. Nada mau para dois ratos oriundos dos pntanos, hem? - retorquiu, 
orgulhoso.
        Riu e desceu para dizer a Letty que nos preparasse algo de especial para o jantar. Contudo, antes de descer, recebi um telefonema de Gisselle.
        - Tenho estado  espera que me telefones para me felicitares pelo meu casamento! - Foi assim que iniciou a conversa.
        - Parabns - disse.
        - Que tom amargo!
        - No . Se o Beau quis casar contigo e tu quiseste casar com ele, desejo-vos bem-estar e felicidade.
        -
         Voltmos a ser o par mais animado de Nova Orlees, sabes? Toda a gente nos convida para recepes e, sempre que entramos nos restaurantes, todos param de 
comer e ficam a ver-nos ocupar o lugar. Somos um casal muito elegante e bastante famoso. Os nossos nomes e retratos aparecem sempre nas pginas sociais. O Beau acha 
que devemos assistir ao mximo de festas de beneficncia. Parece bem e sente-se a fazer algo importante. No me importo, s que nem dos nomes das obras me lembro, 
portanto no me perguntes.
        - O que faz o Beau? - inquiri, o mais despreocupadamente possvel.
        - Faz? O que queres dizer?
        - Com a vida dele. Antigamente queria ser mdico, lembras-te?
        - Oh, agora anda demasiado ocupado a tratar dos meus assuntos.  um homem de negcios e, de qualquer maneira, ganhar mais dinheiro do que se fosse mdico. 
E no me digas que  demasiado novo. V como o Paul se saiu bem - apressou-se a concluir.
        - Ele costumava falar sobre ajudar pessoas, curar pessoas e de como achava que isso poderia ser compensador - observei tristemente.
        - E da? Agora, est a ajudar-me a mim e a curar-me, o que tambm  compensador para ele - ripostou Gisselle. Bom. Vou desligar. Temos tantos stios onde 
ir que comeo a ficar sem roupa. Marquei um encontro com um estilista. Acho que devo usar modelos originais, no? Tu tens muita sorte, sabes? Os nicos stios que 
frequentas so bares e restaurantes vulgares e no precisas de preocupar-te com a imagem. D saudades ao Paul. Adeus. - Despediu-se e desligou.
        Apetecia-me atirar o auscultador contra a parede, mas engoli em seco o n de frustrao na garganta e pousei-o devagar. Depois, respirei fundo e fui juntar-me 
a Paul, enterrando a voz e as palavras de Gisselle no mais recndito dos meus pensamentos.
        Contudo, uma semana mais tarde, Paul subiu ao meu estdio para me informar que Beau acabara de telefonar.
        - Diz que os vossos advogados completaram o trabalho na propriedade e gostaria de se encontrar connosco para examinarmos tudo. Achei que seria conveniente 
que viessem aqui.
        - Aqui? Convidaste-os para Cypress Woods?
        - Sim. Porqu? Ficaste irritada?
        - No, no estou irritada. Eu... Espera at ele falar com a Gisselle - retorqui. - Voltar a telefonar - garanti-lhe.
Todavia, Beau no voltou a telefonar. Ele e Gisselle estavam a caminho e Beau veria finalmente a sua prpria filha.
        
        Apareceram no Rolls-Royce do pap. Estava a podar o jardim das roseiras, fazendo tudo o que podia para me manter ocupada e no pensar. Mrs. Flemming encontrava-se 
do outro lado da casa com Pearl. Certificara-me de que Pearl vestira um dos seus mais bonitos conjuntos e tinha o cabelo escovado e preso com uma fitinha rosa. Mrs. 
Flemming ignorava, obviamente, quem era de facto Beau, mas pela minha excitao e nervosismo percebeu que se tratava de um visitante especial.
        Paul deslocara-se  fbrica para o que prometera ser apenas uma curta ausncia, mas ainda no tinha voltado quando ouvi a buzina do carro e, ao virar-me, 
deparei com o luxuoso e familiar automvel a subir o longo acesso  nossa manso. Descalcei as luvas e fui cumpriment-los.
        - Onde esto os teus criados? - perguntou Gisselle, arrogante. - Deviam estar presentes quando chegam convidados.
        -
         As coisas no so assim to formais aqui no bayou, Gisselle - contrapus, virando-me para Beau: - Ol, Beau. Como ests?
        - ptimo - respondeu. - Isto ... magnfico. As descries da Gisselle no lhe fizeram justia - acrescentou, olhando em volta e esboando um aceno de cabea. 
-  um daqueles lugares que tem de se ver pessoalmente para de facto o apreciar. Percebo porque s feliz aqui, Ruby - acrescentou.
        - Claro que  feliz. Tem uma casa moderna e vive, contudo, no seu adorado pntano - ripostou Gisselle. James apareceu na ombreira da porta. -  o teu mordomo, 
no ? Como se chama?
        - James - elucidei.
        James - chamou de imediato. - Pode tirar as nossas malas da bagageira? Preciso refrescar-me assim que possvel. A longa viagem e o calor do pntano transformou-me 
o cabelo em palha de ao.
        James fitou-me e esbocei um aceno de concordncia.
        - Muito bem, madame - respondeu. J lhe indicara qual seria o quarto de hspedes que lhes estava destinado.
        - Estou ansioso por dar uma volta - pronunciou-se Beau, de olhos fixos em mim.
        - Eu j conheo - redarguiu Gisselle. - Portanto, vou j para a nossa sute. Temos uma sute, no  verdade?
        - Claro - repliquei. - Por aqui.
        - S vamos ficar uma noite. O Beau trouxe toda a papelada e documentos para assinares, no , Beau?
        - Sim - respondeu, sem desviar os olhos de mim.
        - Quero finalizar o assunto o mais depressa possvel para no ter de fazer mais viagens at aos pntanos - prosseguiu Gisselle, censurando Beau com um olhar 
severo.
        - Tenho a certeza de que faremos tudo para resolver a questo a contento de todos - comentei.
        - Pareces mesmo a Daphne. No parece, Beau? No te transformes numa mulher rica e snobe, querida irm - avisou, atirando a cabea para trs com uma gargalhada. 
Fitei Beau, que se limitou a esboar um leve sorriso e a abanar a cabea.
        - Muito bem, James. Indique o caminho - ordenou Gisselle, e entrmos todos em casa.
        Beau mostrou-se agradavelmente surpreendido ante o tamanho do trio da entrada, o trabalho em madeira e os lustres. Quanto mais elogios me tecia sobre a 
casa, maior se tomava a irritao de Gisselle.
        - J estiveste em casas mais bonitas no Garden District, Beau. No sei porque finges estar to impressionado.
        - No estou a fingir, chrie - protestou num tom meigo. - H que dar o merecido crdito  Ruby e ao Paul por terem
construdo uma casa to imponente junto ao canal.
        - No adoras quando ele fala francs? - inquiriu Gisselle num tom agudo. - De acordo. Admito que  realmente um... barraco - gracejou com uma risada. - 
James? Onde est ele?
        -  tua espera com a bagagem no cimo da escada, Gisselle - retorqui com um aceno de cabea nessa direco.
        - Oh! No tens tambm uma criada?
        - Todo o meu pessoal estar  tua disposio - garanti-lhe. Ela esboou um trejeito e comeou a subir a escada.
        -  uma bela casa num belo lugar - declarou Beau.
        
        Fitmo-nos durante um momento, com um silncio mais denso do que nevoeiro tomando forma entre ns.
        - Vou levar-te at junto da... Pearl - proferi suavemente.
        Os olhos dele brilharam de expectativa. Conduzi-o at ao jardim onde Mrs. Flemming pusera Pearl a brincar dentro do parque.
        - Mistress Flemming, este  o meu cunhado Beau Andreas
-        apresentei.
        - Como est? - Beau estendeu a mo, de olhos fixos em Pearl.
        - Prazer em conhec-lo - respondeu Mrs. Flemming.
        - E esta  a Pearl - murmurei.
        Beau j avanara at junto dela. Ajoelhou-se ao lado do parque e ela deixou de andar s voltas com o brinquedo para o observar. Ser que algum to pequeno 
e novinho conseguiria reconhecer o verdadeiro pai? Veria algo nos olhos dele, algo de si prpria? Contrariamente  anlise curiosa de outras pessoas e que logo terminava, 
estudou Beau, e um pequeno sorriso desenhou-se-lhe nos pequenos lbios. Quando ele estendeu os braos para a tirar de dentro do parque, no chorou. Beau beijou-lhe 
a face e o cabelo, e Pearl estendeu a mo para lhe tocar no rosto, como se quisesse certificar-se de que ele no era um sonho.
        No consegui impedir que as lgrimas me subissem aos olhos, mas retive-as, antes que cassem. Beau virou-se para mim com uma expresso radiante.
        - Ela  bonita - sussurrou. Mordi o lbio inferior e esbocei um aceno de concordncia~
        Fitei depois Mrs. Flemming que observava a cena com grande interesse e um leve sorriso no rosto. Tive a certeza de que a idade e experincia lhe davam indcios 
que a confundiam e intrigavam.
        - Ela gosta muito de si, monsieur - comentou Mrs. Flemming.
        - Sou perito a lidar com jovens - gracejou Beau, voltando a colocar Pearl no parque. A menina comeou imediatamente a chorar, o que provocou uma expresso 
surpreendida em Miss Flemming.
        - Ento, Pearl - ralhei suavemente. - Quero mostrar a casa ao tio Beau.
        Sem mais uma palavra, conduzi-o na direco da piscina.
        - Ruby - exclamou, quando estvamos a uma distncia suficiente. - Fizeste uma coisa maravilhosa. Ela  mais bonita do que alguma vez imaginei. No admira 
que o Paul goste tanto dela. Parece-se mesmo contigo.
        - No. Tem os teus traos - insisti. - Aqui  a nossa piscina. No prximo ms, o Paul quer construir um court de tnis. Temos um cais junto ao canal, ali 
- indiquei, apontando. Estava consciente de que apenas conseguiria .reprimir as lgrimas, falando e concentrando-me noutras coisas. Beau, porm, no me escutava.
        - Por que razo no batalhei com os meus pais? Porque no fugi tambm? Devia ter fugido para o bayou contigo e iniciado uma nova vida.
        - No digas disparates, Beau. O que irias fazer? Sentar-te  beira da estrada a vender artesanato comigo?
        -
         Teria arranjado um trabalho honesto. Talvez acabasse por trabalhar para a famlia de Paul ou como pescador de camaro ou...
        - Quando existe um beb, uma criana a sustentar,  impossvel viver num mundo de fantasia - interrompi, talvez num tom excessivamente duro e cruel. Beau 
engoliu as palavras sonhadoras e esboou um aceno de concordncia.
        - Sim, tens razo. Claro.
        - Queres ver o meu estdio? - apressei-me a perguntar.
        - Claro que quero. Por favor.
        Levei-o at  escada. Enquanto subamos, tagarelei sobre o negcio de Paul, a forma como alguns polticos tinham andado a cortej-lo, no s a nvel de contributos, 
mas para um cargo oficial um dia.
        - Tens muito orgulho no Paul, no  verdade? - inquiriu Beau junto  entrada do meu estdio.
        - Sim, Beau. Ele sempre foi um jovem muito sensato, com um avano de anos em relao aos outros da sua idade, e  um homem de negcios perspicaz. Mais importante 
ainda,  dedicado  Pearl e a mim e faria tudo para nos tornar felizes - retorqui, abrindo a porta para o meu estdio.
        - Tenho comprado alguns dos teus quadros, sabes? Pu-los no que  agora o meu escritrio - declarou. - Comeo todos os dias a olhar algo que  teu.
        - Como podes ver - disse, ignorando as palavras dele -, daqui tenho uma vista maravilhosa dos canais e da propriedade.
        Beau olhou atravs da janela e esboou um aceno de cabea.
        - Agora que vejo para onde olhas diariamente, serei capaz de te imaginar com mais nitidez todas as manhs.
        - Esta  a minha srie de quadros mais recente - indiquei, fingindo que tambm no ouvira aquelas palavras. A minha srie do soldado da Confederao.
        Beau observou os quadros.
        - So magnficos - elogiou. - Preciso de t-los comigo. Toda a srie. Quanto?
        - Ainda no acabei, Beau - disse a rir -, e no fao ideia de quanto vo valer. Talvez bastante menos do que imaginamos.
        - Talvez bastante mais. Quando vais lev-los a Nova Orlees?
        - Dentro de um ms - respondi.
        - Ruby! - exclamou, com tal fora e emoo que dessa vez tive de me virar e fix-lo. Agarrou-me nas mos, que conservou entre as dele. - Preciso de explicar-te 
porque me casei com a Gisselle. Tinha de encontrar uma forma de ficar prximo de ti, embora te tivesse perdido. Apesar da forma como se comporta, h momentos calmos, 
e ntimos em que se parece contigo mais do que imaginas.  uma jovem muito assustada e s, que tenta disfarar tudo isso com snobismo e egosmo. No entanto, apenas 
 egosta por ter medo de ficar sem nada, sem ningum que a ame.
        "Quando se mostra assim, penso em ti. Sinto que te agarro nos meus braos, confortando-te, aparando as lgrimas que te correm pelas faces, beijando as tuas 
plpebras fechadas. Convenci-a mesmo a usar os teus perfumes favoritos para que, quando fecho os olhos, te veja somente a ti no meu esprito.
        - Isso no est certo, Beau.
        -
         Eu sei. Agora sei - concordou. - Ela no  estpida. Tambm o pressente, mas tem-se mostrado disposta a entrar no jogo. At h pouco, quer dizer. Est a... 
voltar rapidamente ao seu antigo eu, desprendendo-se das coisas boas que aprendeu e dos hbitos e comportamentos em que melhorara, como se se tratasse de lastro 
de um navio. Comeou novamente a beber de mais, convidando os amigos antigos e devassos para festas pela noite fora..., - Abanou a cabea. - No  o que eu pensava 
que seria.  impossvel transform-la em ti - confessou, erguendo em seguida os olhos na minha direco. - Porm, talvez j no tenha de o fazer.
        - O que pretendes dizer, Beau?
        - Adquiri um apartamento na Dumaine Street, no French Quarter. A Gisselle desconhece a sua existncia. Quero que te encontres comigo l, quando fores a Nova 
Orlees.
        - Beau! - exclamei, desprendendo as mos das dele e recuando, surpreendida.
        - No estou a sugerir nada de terrvel, nem sequer de peCaminoso, Ruby. Amamo-nos. Sei que  verdade e de uma forma total. Sei o tipo de acordo que mantns 
com o Paul.  um meio-casamento e estou a contar-te a verdade sobre a minha vida com a Gisselle. No podemos deixar esta parte da nossa existncia to vazia. No 
podemos viver com esta ansiedade insatisfeita. Por favor, Ruby, por favor, vem para mim - suplicou.
        Fiquei silenciosa por momentos. As imagens que a proposta acordavam na minha imaginao aturdiam-me. Ir at ele e lanar-me nos seus braos, encostar-me 
ao seu corpo e sentir os lbios sobre os meus, ouvir as ternas palavras de amor e escutar o bater do corao, atingir novamente o xtase que tnhamos conhecido... 
parecia-me para l de todas as possibilidades, mesmo para l do sonho.
        - No posso - sussurrei. - O Paul ficaria...
        - Ele no precisa de saber. Tomaremos as medidas perfeitas. Ningum sar magoado, Ruby. H dias que ando a planear tudo. Tem-me ocupado o pensamento. Ontem, 
quando fiquei com o apartamento no French Quarter, sabia que podamos, sabia que tnhamos de o fazer. Virs? Virs?
        - No - recusei, avanando para a porta. - No podemos. - Sacudi a cabea. - Vamos descer. O Paul j deve ter chegado - salientei.
        -Ruby!
        Sa do estdio e comecei a descer as escadas, fugindo das minhas prprias tentaes. Por fim, Beau seguiu-me. Esperei por ele ao fundo da escada.
        - Ruby! - voltou a pronunciar num tom calmo e sensato.
-        Se...
        - Ora, aqui esto! - ouvimos dizer, ao mesmo tempo que avistvamos Paul e Gisselle, vindos do ptio.
        - Fui mostrar o meu estdio ao Beau - apressei-me a justificar.
        - Oh! - retorquiu Paul, semicerrando os olhos ao fitar Beau. Beijou-me na face. - Viste a nova srie dela? - quis saber, observando-me com uma expresso 
sombria.
        -  fantstica! - admitiu Beau. - J me ofereci para comprar tudo, mas ela respondeu astutamente que ainda  demasiado cedo para indicar um preo - acrescentou 
com uma gargalhada.
        - Pagaste demasiado pelos que tens - censurou Gisselle.
-        
Ela no  uma artista famosa.
        - Oh, mas ser - garantiu-lhe Paul. - E vais ficar muito orgulhosa dela, tanto como eu estou - acrescentou, fitando-me.
        - Passemos ao negcio - impacientou-se Gisselle. - Longe de mim querer mais uma volta pelos pntanos.
        - Ah! Mas nunca deste verdadeiramente uma volta pelos
pntanos, Gisselle - contraps Paul. - Por favor, deixa que te leve no barco a motor e te mostre a beleza dos canais.
        - O qu? Referes-te a ir para ali? - retorquiu com um aceno de cabea na direco do pntano. - Seria comida viva.
        - Temos uma coisa para pr no rosto e braos que afastar todos os insectos - prometeu Paul. - Tens de ser uma turista, apenas por algum tempo. Insisto em 
impressionar-te.
        - Gostaria realmente de o fazer - pronunciou-se Beau.
        - Ento, est combinado. Logo a seguir ao almoo, iremos dar uma volta pelos canais. Entretanto, vamos at ao meu escritrio para resolver os assuntos legais.
        - ptimo - concordou Beau, avanando e dando o brao a Gisselle. Agradada, ela ps-se a andar para casa e Paul fitou-me.
        - Ests bem? - perguntou num tom terno.
        - Sim. Est tudo bem - respondi.
        - Perfeito. - Deu-me o brao, e seguimo-los.
        Gisselle iniciou a reunio declarando que achava que tudo o que estava em Nova Orlees devia ficar para ela.
        - O Beau e eu estamos dispostos a negociar outras propriedades e bens que so de... qual  a palavra, Beau?
        - Valor comparvel - ajudou.
        - Sim, valor comparvel.
        - Ruby? - inquiriu Paul.
        - Para mim no  problema. Neste momento, no tenho interesse de ser proprietria de nada em Nova Orlees.
        - A Daphne, ou melhor, o pap tinha comprado blocos de apartamentos noutros stios. Somos grandes proprietrios, no  verdade, Beau?
        - O conjunto  bastante imponente - concordou, apresentando as primeiras pginas dos documentos. - Esto a citados todos os bens com os valores calculados. 
Esta terra do lago Pontchatrain  verdadeiro ouro.
        Paul inclinou-se e estudou a lista. A conversa no tardou a processar-se apenas entre os dois. Gisselle tirou uma lima da mala e comeou a tratar das unhas, 
enquanto falvamos. No tinha o mnimo interesse em tornar-me proprietria e estava totalmente disposta a vender as aces.
        - E o Bruce? - indaguei, passado algum tempo.
        - No tivemos notcias dele nem do advogado, desde que este falou com os nossos. Acho que ele percebeu que somente desperdiaria o que quer que tenha conseguido 
se se metesse em processos legais.
        - Continua em Nova Orlees?
        - Sim. Tem um bloco de apartamentos e mais uns bens, mas nada que se assemelhe  fortuna que podia ter herdado, se a Daphne no tivesse previsto essa possibilidade, 
que anulou por intermdio dos advogados.
        - Mas porqu? - interroguei-me em voz alta. - Ela no queria certamente que o dinheiro e as propriedades fossem parar-nos s mos - retorqui, olhando para 
Gisselle num pedido de concordncia.
        -
         Disso no duvido - redarguiu.
        - Talvez... tivesse medo do Bruce - sugeriu Beau.
        - Medo? De qu? - interferiu Paul.
        - Medo de que, se ele pudesse lucrar com a morte dela, pudesse... como direi, acelerar-lhe a morte?
        Todos ficaram silenciosos por momentos, at mesmo Gisselle, enquanto pondervamos as palavras de Beau.
        - Ela sabia com que tipo de homem casara e as coisas que ele era capaz de fazer - prosseguiu Beau. - Descobrimos algumas das trapaas deles antes da morte 
do Pierre. Havia documentos forjados, papis falsos... uma srie de embustes...
        - Portanto, o Bruce no tem nada que no merea - rematou Paul.
        Beau e ele continuaram a examinar os pormenores dos bens. Gisselle, que exigira que a reunio se efectuasse de imediato, comeou a ficar mais nervosa. Por 
fim, decidimos fazer uma pausa para almoo.
        Comemos no ptio. Paul manteve Beau interessado com a sua conversa relativa a poltica e petrleo, e Gisselle tagarelou sobre vrias das antigas amizades, 
as coisas que compravam, os lugares onde tinham ido. Quando Mrs. Flemming trouxe Pearl  nossa presena, sustive a respirao, esperando que Gisselle fizesse algum 
comentrio embaraoso; no entanto, controlou-se e foi perfeita no seu papel de tia, deliciando-se com a sobrinha.
        - Vou esperar para ter filhos - declarou. - Sei o que pode fazer-nos ao corpo e ainda no estou preparada. O Beau e eu estamos completamente de acordo a 
esse respeito, no estamos, Beau?
        - O qu? Oh, claro, chrie.
        - Diz qualquer frase romntica em francs, Beau. Como costumavas fazer, quando passevamos junto s margens do Sena. Por favor.
        Ele fitou-me e em seguida obedeceu.
        - Sempre que entravas numa sala, mon couer battait la chamade.
        - Oh, que maravilha! Oque significa isso, Beau?
        Os olhos dele voltaram afixar-me por um instante e depois sorriu a Gisselle e traduziu:
        - Sempre que entravas numa sala, o meu corao comeava a bater loucamente.
        - Vocs, os Cajuns, tm algumas expresses francesas de amor? - indagou ela.
        - Algumas - retorquiu Paul. - Mas o nosso sotaque  to diferente que provavelmente no compreenderias. Bom. E quanto  nossa volta pelo pntano? Pronta?
        - Nunca estarei pronta para uma coisa dessas - queixou-se Gisselle.
        - Vais ficar fascinada, mesmo que no queiras - garantiu Paul.
        - No tenho nada que vestir. No quero ficar com as minhas roupas manchadas de lama e lodo dos pntanos.
        - Tenho umas calas velhas que te servem, Gisselle - ofereci. - E umas velhas camisas. Anda. Vamos aprontar-nos.
        Lamentou-se durante todo o tempo em que subimos a escada, mudmos de roupa no quarto e voltmos a descer. Paul tinha um repelente de insectos para que ela 
espalhasse no rosto e nas partes expostas dos braos e pescoo.
        -
         E se ficar com uma alergia por causa disto? - choramingou.
        - Nem pensar.  uma velha receita cajun.
- O que contm? - exigiu saber.
        -  melhor ignorares - retorquiu Paul sabiamente.
        - Este cheiro  horrvel!
        - Por isso afastar os insectos - replicou Beau.
        - E os demais.
        Rimos e, depois de Gisselle se ter besuntado devidamente, fomos at ao barco. Beau sentou-se entre mim e Gisselle.
        - Laissez les bons temps rouler! - disse Paul. - Deixai rolar os bons tempos!
        Gisselle gritou quando nos afastmos do cais; porm, minutos depois, mostrou-se calma e interessada. Paul chamou a ateno para as cobras-verdes, o movimento 
dos aligatores, as lontras, as aves e as belas madressilvas que cobriam as margens dos canais. Era um guia maravilhoso e a voz revelava o amor que sentia pela vida 
que habitava o bayou. Desligou o motor e passmos sobre guas salobres, observando os ratos-almiscarados a construir as suas casas de erva seca. Apontou para uma 
cobra-boca-de-algodo que apanhava sol numa rocha, com a cabea triangular da cor de uma moeda antiga.
        O esvoaar dos patos selvagens  tona de gua prendeu-nos a ateno e, momentos depois, um grande e velho aligtor levantou a cabea e observou-nos, liblulas 
esvoaando em crculo por cima dele. Flutumos atravs de ilhas de nenfares e sob os ciprestes. Beau interrogava permanentemente Paul sobre a vegetao, os animais, 
a forma de interpretar os canais e saber o que esperar.
        Gisselle viu-se forada a admitir que apreciara o passeio.
        - Foi como andar de barco atravs de um jardim zoolgico ou coisa assim - retorquiu. - Mas, de qualquer maneira, anseio por tomar banho e livrar-me deste 
cheiro estranho.
        Depois, vestimo-nos para jantar. Bebemos cocktails na biblioteca, onde Paul e Beau discutiram a poltica de Nova Orlees e Gisselle descreveu as novas modas 
e os modelos originais que encomendara para si. Letty preparou uma das suas refeies especiais e Beau expressou o seu apreo. Todos bebemos bastante vinho e falmos 
sem cessar, Paul, Beau e eu prpria preenchendo todos os silncios mais por nervosismo do que outra coisa, segundo me apercebi. Apenas Gisselle parecia descontrada 
e  vontade.
        Depois do jantar, tommos licores na sala de estar. O vinho, a boa comida, o interminvel fluxo de conversa e a tenso emocional esgotaram-nos. At mesmo 
Gisselle comeou a bocejar.
        - Devamos ir dormir e levantarmo-nos cedo - sugeriu.
        - Cedo? - surpreendeu-se Beau. - Tu?
        - Bom, o mais cedo possvel para podermos terminar a papelada e voltar a Nova Orlees. Temos esse baile de beneficncia amanh  noite. De smoking - acentuou. 
- Vais alguma vez a recepes de smoking, Paul?
        Paul corou.
        - Bom, s em Baton Rouge, na manso do governador - respondeu.
        - Oh! - exclamou Gisselle com uma expresso sombria. - Sinto-me cansada, Beau. Comi de mais.
        -
         Vamos subir j. Obrigado por um dia maravilhoso e uma noite inesquecvel - agradeceu, dando o brao a Gisselle, que cambaleou um pouco.
        - Boa noite - entoou, deixando que Beau a guiasse at  escada. Paul abanou a cabea e riu. Depois voltou a sentar-se.
        - Concordas com estas decises? No quis interferir nos teus assuntos - retorquiu.
        - Os meus assuntos so os teus, Paul. Dependo por completo de ti neste tipo de coisas. Tenho a certeza de que fizeste as opes certas.
        Sorriu.
        - Se o Beau pensava que viria aqui para lidar com um estpido cajun, teve uma grande surpresa. Acredita-me que nos samos melhor do que eles - acrescentou 
com uma invulgar arrogncia. - Esperava que ele fosse um... um... - sorriu - um desafio maior! Portanto - concluiu, recostando-se -, como esto as coisas para vocs 
os dois, agora?
        - Paul, por favor.
        - Um acidente de nascimento - murmurou. - Uma praga. Se o meu pai no tivesse vagueado pelo pntano, se no tivesse atraioado a minha me...
        -Paul...
        - Eu sei. Desculpa, s que me parece to injusto. Devamos ter uma palavra em tudo isto, no? Como espritos, antes de nascermos, devamos ter tido uma palavra. 
E no rias, Ruby - avisou. - A tua grandmre Catherine acreditava que o esprito estava aqui antes do corpo.
        - No estou a rir, Paul. S que no quero ver-te nessa agonia. Estou bem. Bebemos de mais. Vamos dormir tambm.
        Ele concordou com um aceno de cabea.
        - Vai subindo - disse. - Quero acabar umas coisas no escritrio.
        -Paul...
        - Vou daqui a pouco. Prometo. - Beijou-me na face e agarrou-me durante um longo momento. Depois, suspirou, virou costas e afastou-se rapidamente.
        Subi com um peso no corao. Fui ver como estava Pearl e depois dirigi-me para o meu quarto com o intuito de dormir, sabendo que nos quartos ao meu lado 
havia dois homens que ansiavam por estar ao meu lado. Sentia-me qual fruto proibido, interditado pela lei tica, religiosa e escrita. H anos atrs, os meus pais 
apenas tinham escutado os ditames do corao. Apesar das proibies e do peso dos pecados que cometeriam, avanaram ao encontro um do outro, pensando no mtuo toque 
dos dedos e suavidade dos lbios.
        Seria feita de uma fibra moral mais forte? E, mais importante, quereria eu que assim fosse? Ou desejaria lanar-me nos braos do meu amante e embriagar-me 
a tal ponto de amor que nada teria importncia, nem a manh seguinte, os dias seguintes e as noites cheias de vozes fantasmagricas?
        A culpa no era nossa; no podia ser nossa a culpa de estarmos apaixonados e de os acontecimentos terem tomado esse amor pecaminoso. "Os acontecimentos  
que foram pecaminosos", disse de mim para mim. S que esse pensamento no facilitava o alvorecer do dia nem a angstia que inevitavelmente se seguiria.
        

9

FRUTO PROIBIDO
        
        Embora Gisselle tivesse expressado o desejo de acordar cedo para concluir os nossos negcios e regressar a Nova Orlees, Paul, Beau e eu j estvamos sentados 
 mesa a tomar caf quando ela apareceu finalmente, gemendo e lamentando-se sobre a noite agitada.
        - Passei a noite com pesadelos em que essas criaturas que vimos nos pntanos entravam na nossa casa e se esgueiravam pelas escadas at ao meu quarto e  
minha cama! Sabia que no devia ter ido nessa viagem de barco pelos canais. Agora, levarei meses a tirar essas imagens da minha cabea. Ui! - exclamou, ao mesmo 
tempo que um calafrio lhe percorria o corpo.
        Paul riu.
        - Francamente, Gisselle! Julguei que seria mais preocupante para ti viveres numa cidade com toda essa criminalidade nas ruas. Pelo menos, as nossas criaturas 
so previsveis. Se tentares domesticar uma boca-de-algodo, ela d-te a resposta imediata.
        Beau tambm riu.
        - Pode ser divertido para vocs, homens, mas as mulheres so mais delicadas, mais frgeis. Pelo menos as mulheres de Nova Orlees - redarguiu, olhando-me 
ao ver que no acorria em sua defesa. Em seguida declarou que estava demasiado cansada para comer muito. - Vou s beber caf - disse.
        Pela nossa parte, comemos um belo pequeno-almoo, depois do que nos dirigimos ao escritrio e acabmos o trabalho da papelada. Assinei os documentos que 
tinham de ser assinados e Beau prometeu que nos manteria a par de todos os procedimentos.
        Beau quis ver Pearl antes de se ir embora e levei-o at ao quarto dela. Mrs. Flemming acabara de a mudar, escovara-lhe o cabelo e prendera-o com uma fitinha 
cor-de-rosa. Sem uma palavra, Beau pegou em Pearl e beijou-lhe os caracis. A menina mostrou-se intrigada com o cabelo dele e quis passar-lhe os dedos por cima.
        - Ela  muito inteligente - declarou Beau, sem deixar de a fitar enquanto falava. - Pode ver-se pela forma como observa as coisas... como lhe prendem a ateno.
        - Concordo - replicou Mrs. Flemming.
        - Leva-a connosco para baixo, Beau. Ela vai despedir-se com o Paul e comigo - indiquei. Ele esboou um aceno de concordncia; samos do quarto e descemos 
as escadas. Gisselle j atravessara a porta da frente e avisava James que tivesse cuidado com a mala dela.
        No terrao, Beau estendeu-me Pearl e apertou a mo a Paul.
        - Obrigado por nos convidarem. Foi um dia muito interessante. Devo confessar que aprendi muito sobre os canais e passei a respeit-los ainda mais.
        - So sempre bem-vindos - redarguiu Paul, com um rpido olhar na minha direco e um leve sorriso nos lbios.
        - Beau! Vamos ficar eternamente aqui a despedir-nos? Est a ficar nevoeiro e calor, e os insectos voam do pntano para a casa - gritou Gisselle do carro.
        -
          melhor ir andando - afirmou.
        Paul esboou um aceno de cabea e baixou-se para dar um beijo de despedida a Gisselle.
        - Obrigado por uma visita maravilhosa - agradeceu-me Beau.
        Agarrou-me na mo e inclinou-se para me beijar na face, mas em vez disso roou os lbios pelos meus. Quando retirou a mo, deixara um pequeno pedao de papel 
na minha. Ia a perguntar-lhe do que se tratava quando os olhos dele me transmitiram a mensagem. Por momentos, senti-me como se tivesse um fsforo aceso na mo. Olhei 
de relance para Paul e Gisselle e depois enfiei o pedacinho de papel no bolso da blusa. Beau beijou Pearl na face, desceu apressadamente as escadas e meteu-se no 
carro.
        - Mais uma vez obrigado - agradeceu.
        - Adeus. Venham fazer-nos uma visita  civilizao quando tiverem oportunidade - disse Gisselle. - Para casa, James - acrescentou com um aceno para a auto-estrada 
e riu. Beau abanou a cabea, sorriu-nos de novo e ligou o motor.
- A tua irm  terrvel... - declarou Paul. - No invejo nada o Beau pelo facto de viver com ela. Noutras coisas, invejo-o mais do que alguma vez vir a saber. - 
Fitou-me um momento, mas desviei os olhos com uma expresso culpada.  - Bom. Tenho de ir trabalhar - disse. Beijou-me, a mim e a Pearl. e depois dirigiu-se ao seu 
carro com passo rpido.
        Mrs. Flemming retirou Pearl dos meus braos quando entrei em casa. No me apetecia muito pintar, mas a calma solido que encontrava no estdio acenava-me 
simpaticamente. Subi as escadas com passo lesto e fechei a porta. Fiquei um momento encostada  porta, de olhos fechados, relembrando o instante l em baixo em que 
Beau encostara os lbios aos meus para um rpido beijo de despedida. Observara-lhe os olhos e vislumbrara o amor.
        O corao batia-me com fora no peito quando retirei o bilhete do bolso e o desdobrei. Havia simplesmente uma morada, uma data e uma hora. O dia era tera-feira 
da semana seguinte. Amarrotei o bilhete e ia lan-lo no cesto dos papis por baixo do cavalete; tal como se tivesse cola, sentia-o grudado na minha mo.
        Devolvi-o ao bolso da minha blusa e tentei esquec-lo quando comecei a trabalhar, porm, decorridos alguns minutos, era como se o papel aquecesse e emitisse 
um frmito de antecipao para um seio e depois para o outro. Como se os dedos de Beau e os seus lbios se encontrassem ali. A pulsao acelerou e fiquei sem flego. 
Sentia-me incapaz de trabalhar; no conseguia concentrar-me noutra coisa.
        Por fim, desisti e fui at ao assento junto  janela. Deixei-me ficar perto de uma hora de olhar perdido nos canais, observando o voo das garas. Com dedos 
trmulos, voltei a tirar do bolso o bilhete de Beau e examinei a morada, memorizando-a juntamente com a data. Depois meti o papel numa gaveta do meu armrio de material. 
Fui incapaz de o deitar fora.
        Paul no veio almoar a casa. Trabalhei um pouco, mas, na maior parte do tempo ouvi vozes contraditrias na minha mente. Uma delas era mais suave, suplicante, 
tentadora, procurando convencer-me de que merecia o afecto de Beau e que o nosso amor era demasiado bom e puro para poder ser sujo ou culposo.
        
        No entanto, a segunda voz era mais dura, amarga, cortante, lembrando-me a dor que poderia causar a Paul, que nutria uma inabalvel e total dedicao por 
Pearl e por mim. "Pensa nos sacrificios que tem feito pela tua felicidade", dizia a voz.
        "Mas isso  mais um motivo para manter secreto o meu encontro com Beau", retorquia a minha voz mais suave.
        Enganar!
        "No, no  enganar, quando se trata de proteger algum que nos ama e impedir que sofra."
        "Ests, contudo, a ser ardilosa, a mentir e a esconder. O Paul seria capaz de fazer o mesmo?"
        "No, mas tu e o Paul concordaram que nenhum se interporia no caminho do outro, se um de vocs encontrasse algum a quem amar. O Paul est perturbado e frustrado, 
mas  compreensivo e no quer fazer nada que te torne infeliz ou te impea de seres feliz."
        "Mas..."
        "Oh! Pra com os "mas" e os "ses"", disse de mim para mim.
        Pus o pincel de lado e sa do estdio, onde a solido apenas encorajava a luta entre os dois "eu". Dei uma volta pela casa e terrenos e depois, impulsivamente, 
entrei de novo, fui  procura de Pearl e Mrs. Flemming, comunicando a esta que ia levar Pearl a dar um passeio.
        Coloquei-a na cadeirinha no assento do carro ao meu lado e conduzi at  velha cabana da grandmre Catherine. Estava um dia bastante encoberto e a brisa 
do Sudoeste ameaava trazer nuvens de chuva.
        - Lembras-te deste stio, Pearl? - perguntei, tirando-a para fora e levando-a na direco da varanda.
        As ervas daninhas haviam crescido e a minha banca  beira da estrada estava cheia de teias de aranha. Ouvi ratos-do-campo a correrem pela casa  procura 
de esconderijos quando pressentiram a minha aproximao e se aperceberam dos meus passos nas tbuas da varanda. A porta rangeu nos gonzos quando a abri e entrei 
no que agora me parecia uma diviso muito pequena. "Curioso", pensei. "Quando cresci aqui, era este o meu mundo e aos meus olhos parecia-me imenso. Agora, tenho 
roupeiros maiores do que a sala de estar e a Letty tem uma copa maior do que esta cozinha."
        Percorri a casa, esperando que o meu regresso chamasse o esprito da grandmre Catherine e recebesse algum conselho dela. "Se, ao menos, me chegasse um sinal, 
um pressgio", pensei. Mas a cabana estava vazia e deserta e os meus passos ecoavam. Era um Stio de onde os corpos h muito se tinham ausentado. As minhas prprias 
memrias pareciam desenquadradas, pois deixara de haver calor, msica, o cheiro a gumbo e vozes; reinava o vazio  excepo do som do vento que fazia embater as 
tbuas soltas umas nas outras e soprava no telhado de zinco, dando a sensao de que era percorrido por um bando de tordos ou gaios nervosos.
        Sa pelas traseiras e observei o canal.
        A mam costumava brincar aqui, Pearl. A mam costumava passear ao longo dessa margem e olhar os animais e os peixes, at mesmo os aligatores e tartarugas. 
s vezes, os veados vinham comer a relva aqui nas traseiras, levantavam a cabea e fitavam-me com olhos tristes.
        
        Pearl observava tudo com uma expresso maravilhada. Parecia dar-se conta dos meus sentimentos meditativos e estava mais sossegada que o habitual. Depois 
e como se tivesse ouvido as minhas palavras, uma pequena cora surgiu de trs de uns arbustos e ergueu a cabea para nos fitar. Pearl arregalou os olhos, interessadssima. 
A bonita cora mantinha-se quieta como uma esttua e s as longas orelhas se agitavam de vez em quando. Mesmo quando Pearl soltou uma expresso entusiasmada, limitou-se 
a observar-nos com mais curiosidade e sem medo. Decorridos uns momentos e to casualmente como tinha surgido, virou-se e desapareceu, qual apario.
        Era um mundo que continha coisas puras e inocentes e assim permaneceriam se as deixassem em paz, reflecti. No entanto, raramente as deixavam em paz. Ainda 
andei um bocado pela cabana, mas fui-me embora, concluindo que havia um nico lugar onde procurar a resposta para o meu dilema e esse lugar era o meu prprio corao.
        Uns dias mais tarde, ao jantar, Paul disse-me que precisava de deslocar-se a Dalas, no Texas.
        - Terei de ausentar-me durante trs dias - explicou.
Gostaria que a Pearl e tu viessem comigo. Tambm podes obviamente trazer mistress Flemming. Excepto se tiveres outros planos, claro - acrescentou.
        - Bom. Estava a planear levar esta ultima srie de quadros, a do soldado, a Nova Orlees. J falei com o Dominique sobre ela e os meus outros trabalhos e 
ele acha que chegou a altura de organizar uma exposio. Quer convidar alguns dos seus melhores clientes e fazer montes de publicidade.
        - Isso  maravilhoso, Ruby.
        - No me parece que esteja preparada para uma exposio do gnero, mas...
        - Nunca vais considerar-te preparada, mas se o Dominique considera, por que no?
        Esbocei um aceno de concordncia e brinquei por momentos com o guardanapo.
        - Portanto, acho que irei a Nova Orlees enquanto ests em Dalas - repliquei. - Fico apenas uma noite.
        - Ficas com a Giselle? - inquiriu.
        - Prefiro no o fazer - redargui. - Provavelmente decido-me pelo Fairmont.
        - ptimo.
        Entreolhmo-nos. Paul saberia o que me ia no corao? Sempre fora difcil ocultar-lhe os meus verdadeiros sentimentos e pensamentos. Se sabia, optou por 
nada dizer. Sorriu e virou-se para Pearl. Odiava fazer algo que considerava uma traio, mas a minha voz mais suave ganhara ao dizer que estava a impedir que Paul 
fosse magoado.
        Teve de partir cedo no dia em que viajou at Dalas. Depois de me levantar, fiz as malas e desci para tomar o pequeno-almoo. James ajudou-me a arrumar os 
quadros cuidadosamente na mala do carro e depois Mrs. Flemming trouxe Pearl at c fora para ficar a dizer-me adeus, quando me afastei.
        
        Olhei pelo retrovisor e vi-as ali de p... Mrs. Flemming e a minha bela filha. Um amor que a havia gerado no podia de forma alguma ser mau, reflecti, e 
esse pensamento deu-me coragem. Momentos depois, tomei pela auto-estrada e acelerei, tirei a fita do cabelo e deixei que o vento agitasse as madeixas, fazendo-me 
sentir livre, viva e cheia de entusiasmo.
- Vou a caminho, Beau - sussurrei. - Que se dane tudo o mais. Vou ter contigo.
        
        Estava um dia maravilhoso em Nova Orlees. As nuvens e a chuva que haviam varrido a noite anterior h muito que tinham desaparecido para dar lugar a um enorme 
cu azul-claro semeado de pequenos farrapos macios de grande brancura.
        Mal estacionei em frente do hotel e o porteiro saiu apressadamente ao meu encontro, senti o aumento de ritmo, o que sempre me acontecia na cidade. Tal facto, 
juntamente com o meu nervosismo acrescido, tornava-me sensivel a todos os sons e a todos os novos cheiros.
        Quando entrei no hotel, pareceu-me que todos me olhavam e que os saltos dos meus sapatos soavam demasiado alto no cho de mrmore. Dera ordens para que me 
levassem tudo para o quarto e depois sentei-me diante do toucador e escovei o cabelo. Acentuei o bton dos lbios e resolvi escovar os dentes.
        Vi-me forada a rir de mim prpria. Comportava-me como uma adolescente prestes a ir ao seu primeiro encontro, mas O ritmo do meu corao no minorou e o 
rubor das faces manteve-se. Detectei a expresso frentica e assustada dos meus olhos e interroguei-me sobre se mais algum me fitara e adivinhara que eu era uma 
mulher a caminhar sobre uma corda bamba de emoes, uma mulher casada prestes a encontrar-se com o ex-amante.
        Consultava incessantemente o relgio. Mudei trs vezes de fato, antes de decidir que a roupa que escolhera primeiro era a melhor. Chegou por fim a hora de 
sair. Os meus dedos tremeram ao rodar a maaneta da porta. Respirei fundo e depois caminhei a toda a pressa na direco do elevador.
        Resolvera que faria a p o percurso at ao lugar do nosso encontro. Canal Street apresentava a agitao e o bulcio de sempre, mas o facto de me dissolver 
no meio da multido que a atravessava e caminhar rapidamente para o French Quarter ajudava-me. Era como se me mantivessem em movimento, me mantivessem de p. Virei 
na Burbom Street e avancei para Dumaine.
        Os pregoeiros j se encontravam em plena actividade e anunciavam as mercadorias, incitando os turistas a entrar nos seus restaurantes ou bares. Chegaram-me 
cheiros a lagostins cozidos, po cozido de fresco e caf forte. Os vendedores exibiam os frutos e legumes nos passeios. Numa esquina em que o restaurante dava para 
a rua, entrou-me pelas narinas o cheiro a camaro salteado e o meu estmago deu sinal. No comera um lauto pequeno-almoo e sentira-me demasiado nervosa para almoar. 
De um caf vinha o som de uma banda de jazz e, ao olhar atravs da porta aberto de outro, avistei quatro homens de chapu de palha que tocavam guitarra, bandolim, 
violino e acordeo.
        
        Pairava sempre ali um clima de excitao. Era como se se realizasse uma grande e permanente festa. As pessoas tinham uma sensao de lassido. Comiam demasiado, 
bebiam demasiado, danavam e cantavam demasiado e at demasiado tarde. Era como se tivesse passado de um mundo de responsabilidade e obrigaes para um mundo sem 
restries, leis ou normas. Tudo se processava desde que fosse agradvel. "No admira que o Beau tivesse escolhido o French Quarter", pensei.
        Cheguei finalmente  morada que ele escrevera no bilhete. O apartamento situava-se num prdio de estuque de dois andares com um ptio empedrado. Todos os 
apartamentos tinham pequenas varandas de ferro forjado com vista para a rua. Senti o aroma da hortel que crescia pelas paredes. Era um prdio tranquilo, distante 
das outras ruas e, contudo, apenas a alguns passos, caso os locatrios quisessem participar na agitao citadina. Hesitei.
        Talvez ele no estivesse. Talvez tambm tivesse pensado duas vezes sobre o assunto. No vi indcios de ningum nas janelas. As cortinas no se mexiam. Respirei 
fundo e olhei para trs. Se me fosse embora, seria mais feliz ou ficaria a interrogar-me para sempre sobre o que teria acontecido se entrasse no prdio de apartamentos 
e me encontrasse com Beau? Talvez apenas conversssemos, pensei. Talvez fssemos ambos sensatos.
        Fechei os olhos,  semelhana de algum prestes a mergulhar numa piscina, e entrei no ptio. Depois abri-os e transpus a porta da frente. Verifiquei os nmeros 
na entrada e subi as pequenas escadas at um estreito patamar. Quando encontrei a porta fiz uma pausa, respirei fundo outra vez e bati.
        Durante uns momentos no ouvi nada e comecei a pensar que ele no estava. Mudara talvez de opinio. Senti um misto de alvio e de desiluso. Aquela parte 
de mim que tentara afastar-me incitava-me a virar costas e fugir, a regressar a correr ao hotel; mas a outra parte de mim, a parte que ansiava por um amor total, 
enchia-me de um tal desalento que julguei que o corao ia transformar-se em pedra e desfazer-se no meu peito.
        Dispunha-me a virar as costas quando a porta se abriu e avistei Beau ali, de p. Vestia uma macia camisa de algodo branco e calas azul-escuras da mais 
fina l. Pestanejou como que a tentar focar o olhar e convencer-se de que eu me encontrava de facto ali.
        - Ruby! - exclamou ternamente. - Desculpa. Devo ter adormecido na cadeira, a sonhar contigo. Julguei que no vinhas.
        - E quase no vim, mesmo depois de ter descoberto a morada - retorqui.
        - Mas ests aqui. Vieste. Entra, por favor.
        Recuou e entrei no pequeno apartamento. Tinha um nico quarto, uma cozinha mnima e uma sala de estar com portas que davam para a varanda. O mobilirio e 
a decorao eram muito simples e modernos, com aquele ar pouco usado que se v nos hotis. As paredes estavam praticamente nuas,  excepo de pequenas gravuras 
com frutos e flores a espaos.
        - No  muita coisa - observou, acompanhando o meu olhar. - Apenas um refgio tranquilo.
        -  diferente. S precisa de um pouco de calor.
        Beau nu.
- Sabia que o verias de imediato com os teus olhos de artista. Senta-te - convidou, indicando o pequeno sof. - Fizeste boa viagem at  cidade?
        - Sim. Estou a tornar-me uma viajante sofisticada - redargui.
        
        Estvamos curiosamente a portar-nos como se aquele fosse o nosso primeiro encontro; no entanto, ele... ele era o pai da minha filha. Todavia, o tempo, a 
distncia e os acontecimentos tinham-nos tornado estranhos um para o outro.
        - Ests s? - inquiriu, cauteloso.
        - Sim. Instalei-me no Fairmont. Vou levar a minha nova srie de quadros ao Dominique. Ele tem andado a falar na exposio que quer fazer com as minhas obras.
        - ptimo. Mas aviso-te que no vou permitir que outra pessoa compre esses quadros. Tenciono adquiri-los, independentemente do preo - jurou, e eu ri-me. 
- Queres beber alguma coisa fresca? Tenho vinho branco gelado.
        - Por favor - acedi, e ele dirigiu-se  cozinha.
        - O Paul sabe, portanto, que vieste a Nova Orlees? - perguntou, enquanto servia o vinho.
        - Oh, claro. Foi a Dalas por causa de umas reunies de negcios.
        - E o beb? - quis saber Beau, quando voltou.
        - Ficou com Mistress Flemmiing. Ela  fantstica para a Pearl.
        - Eu vi. Tiveste sorte em arranjar algum como ela hoje em dia. - Estendeu-me o meu copo de vinho e sorvi um gole enquanto ele tambm bebia e nos fitvamos 
por cima da borda dos copos. - Nunca estiveste to bonita, Ruby - elogiou meigamente. - A maternidade fez-te desabrochar.
        - Tive sorte, Beau. Podia ter-me tornado uma mulher a lutar por uma magra sobrevivncia no bayou... at a minha herana chegar, quer dizer.
        - Eu sei - redarguiu ele. - Ruby, h alguma forma de compor as coisas aos teus olhos? Alguma desculpa que te parea aceitvel?
        - J te disse antes, Beau. No te censuro por nada.
        - Bom, mas devias. Quase destrui as nossas vidas - redarguiu, bebendo mais um gole de vinho e sentando-se depois ao meu lado.
        - Onde est a Gisselle? - perguntei.
        - Em qualquer festa com os velhos amigos, tenho a certeza. Mostrou-se diferente por uns tempos, sobretudo quando foi para Frana. Convenceu-me que amadurecera 
devido a todos os problemas e dificuldades familiares. Era vulnervel, meiga e, quer acredites ou no, atenta. Na verdade, enganou-me, ou talvez eu... eu o tivesse 
permitido. Fiquei muito s e deprimido depois de te casares. Apercebi-me de que deixara escapar por entre os dedos o amor da nica pessoa que me podia fazer sentir 
completo. Sentia-me como um rapazinho que
deixara fugir o fio do papagaio de papel e debalde o perseguia. via-o pairar, s que era o teu rosto a afastar-se de mim, levado pelo vento.
        "Bebi muito, andei em mais farras, tentei esquecer. E depois a Gisselle apareceu em cena, e havia o teu bonito rosto na minha frente... o teu cabelo, os 
teus olhos, o teu nariz, embora ainda hoje a Gisselle ache que tem o nariz mais pequeno e os olhos mais brilhantes.
        
        "Na verdade - acrescentou, baixando os olhos para o copo-, um amigo meu na Universidade em Paris, que andava a estudar psicologia, disse-me que a maioria 
dos homens se apaixona por algum que lhes recorda o seu verdadeiro amor, o seu primeiro amor, algum que os impressionou na adolescnia, algum que no podiam 
ter, mas algum que passaram uma vida a tentar conquistar. Fazia sentido que me aproximasse novamente da Gisselle.
        "Esta  a minha histria - concluiu, sorrindo. - Qual  atua?
        - A minha  mais simples, Beau. Estava sozinha com uma criana, receosa. O Paul estava sempre presente, ajudando. Todos nas redondezas sabiam que outrora 
gostramos muito um do outro. Todos pensavam que a Pearl era filha dele. O Paul -me dedicado e, apesar dos meus protestos, est disposto a sacrificar-se por mim. 
No quero mago-lo, se puder evitar.
        - Claro - concordou Beau. -  um homem muito simptico. Gostei de estar com ele. Apenas o invejo.
        Sorri.
        -O que ?
        - Ele disse o mesmo de ti.
        -Porqu?
        Fitei-o bem nos olhos e recuei no tempo.
        - Porque sabe o quanto te amo, o quanto te amei e o quanto sempre te amarei - redargui.
        Foi o bastante para destruir o muro de nervosismo e tenso que nos separava. Os olhos brilharam-lhe e pousou o copo, a fim de poder beijar-me. O nosso primeiro 
beijo apaixonado depois de tanto tempo assemelhou-se a um primeiro beijo, pleno de nova excitao.
        - Oh, Ruby, minha Ruby. Julguei que te tinha perdido para sempre. - Pousou os lbios no meu cabelo, nos olhos, no nariz. Beijou-me o pescoo e a ponta do 
queixo, com beijos que se sucediam como se estivesse sedento de amor, to sedento quanto eu, e como se receasse que eu fosse uma iluso e lhe desaparecesse da mente 
a qualquer instante.
        - Beau - sussurrei.
        O nome dele era tudo o que me apetecia dizer. O som pronunciado pelos meus lbios reanimava-me, enchia-me de prazer, garantindo-me tambm que estava de facto 
ali nos braos dele.
        Levantou-se, agarrando-me na mo; levantei-me tambm, seguindo-o at ao quarto, pequeno e confortvel. O sol da tarde infiltrava-se atravs das finas cortinas 
de algodo, enchendo o quarto de brilho e calor. Conservei os olhos fechados enquanto me despia. Momentos depois, estvamos um ao lado do outro na cama, num atrair 
de corpos magntico. Gemamos, sussurrvamos palavras de amor e promessas que se estendiam desde agora,  eternidade.
        De incio, as nossas carcias processaram-se num frenesim mas, a pouco e pouco, tornaram-se mais calmas e suaves. Premiu os lbios de encontro aos meus seios, 
traando em seguida um percurso de beijos at ao ventre. Deixei cair a cabea na almofada e senti o corpo afundar-se no macio colcho, enquanto Beau me cobria com 
o peito, oferecendo-me a sua virilidade. Gritei quando me penetrou e acalmou-me com palavras meigas e sussurradas.
        Depois, os nossos corpos iniciaram uma dana ritmada, extraindo amor um ao outro, subindo aos pncaros do prazer at explodirmos num crescendo de xtase 
que fez com que tudo o mais desaparecesse  excepo dos lbios, das vozes e dos corpos. Sentia-me como se flutussemos no espao.
        - Ruby - chamou. - Ruby. Ests bem?
        
        Onde quer que o nosso acto de amor nos levara, no queria abandonar o local. Agarrava-me a ele como algum num sonho maravilhoso e que nega voltar  realidade. 
No entanto, aquele meu estado assustou-o, fazendo-o erguer a voz:
        -Ruby!
        Abri os olhos e fitei o seu rosto preocupado.
        - Estou bem. Beau. Apenas sonhava.
        Ele sorriu.
        - Amo-te - declarou. - E no vou deixar de te amar.
        - Eu sei, Beau. Tambm no deixarei.
        - Este ser o nosso ninho de amor, o nosso paraso - retorquiu, virando-se e ficando estendido ao meu lado. Agarrou-me na mo e fitmos o tecto. - Podes 
decor-lo como quiseres. Hoje vamos s compras  procura de coisas, est bem? E vou comprar alguns dos teus quadros para as paredes. Precisamos de roupa de cama 
nova, de uma carpete e...
        Fui incapaz de conter o riso.
        - O qu? - indignou-se. - Achas-me louco?
        - No, querido. Rio-me da tua exuberncia. Ests a arrastar-me a uma tal velocidade para os teus sonhos que mal consigo tomar flego.
        - E da? No me interessa. No me interessa mais nada. - Virou-se, apoiando-se num dos cotovelos para me fixar. Talvez da prxima vez tambm possas trazer 
a Pearl at Nova Orlees para nos divertirmos os trs.
        - Talvez - concordei sem muita certeza.
        - O que se passa?
        - No quero gerar-lhe contuso no esprito. Neste momento, ela acredita que o Paul  o pai.
        O alegre sorriso de Beau desapareceu e o rosto adquiriu uma expresso sombria. Esboou um aceno de concordncia e deixou-se cair para trs, na almofada. 
Manteve-se silencioso durante um minuto.
        - Tens razo - anuiu por fim. - Avancemos devagar. Preciso de aprender a refrear o entusiasmo.
        - Desculpa, Beau. No pretendi...
        - No. Ests certa. Tudo bem. No devia ser ambicioso. No tenho direito de pedir mais. - Virou-se para me beijar ternamente e entreolhmo-nos de novo com 
um sorriso. - E tens fome?
        - De lobo. Esqueci-me de almoar.
        - ptimo. Conheo um cafezinho fantstico aqui prximo onde fazem as melhores sanduches de Nova Orlees.
        - Depois, tenho de ir falar com o Dominique - lembrei-me.
        - Claro. Acompanho-te, se quiseres.
        - Acho que prefiro ir s. O Dominique conheceu o Paul e...
        - Compreendo - apressou-se Beau a interromper. - Vamos vestir-nos e comer qualquer coisa.
        
        Beau tinha razo quanto s sanduches. Comi uma de camaro, queijo, ostras fritas, fatias de tomate e cebola. Sentmo-nos num ptio onde comemos e observmos 
os turistas a Vaguear, de mquinas fotogrficas a tiracolo, e admirando a arquitectura, lojas de novidades e restaurantes. Depois, fomos dar um passeio e regressei 
ao hotel a fim de telefonar para casa e saber como estava Pearl. Mrs. Flemming informou-me que tudo corria bem. Pedi que me trouxessem o carro e levei a srie de 
quadros sobre o soldado a Dominique, que os achou maravilhosos.
        - No h dvida de que ests preparada para seres formalmente apresentada ao mundo artstico de Nova Orlees - asseverou, e comemos a planear a minha exposio 
de arte.
        Depois voltei ao hotel para tomar um duche, mudar de roupa e encontrar-me com Beau para jantar. Tinha  espera uma mensagem de Paul, indicando como contact-lo.
        - Que tal correu? - inquiriu quando telefonei.
        - Optimamente. Tinhas razo. O Dominique acha que devo fazer uma exposio. Estamos a mont-la - declarei, como se fosse apenas essa a minha ocupao em 
Nova Orlees.
        - Que fantstico!
        - E as tuas reunies?
        - Esto a correr melhor do que esperava, mas lamento no estar contigo - respondeu.
        - No te preocupes. Vou para casa amanh ao fim da manh. Tomo o pequeno-almoo com o Dominique-afirmei... e a mentira quase me mordeu a lngua.
        - ptimo - redarguiu Paul aps um breve silncio. - Faz uma boa viagem de volta.
        - Tambm tu, Paul.
        - At breve. Adeus.
        - Adeus.
        O auscultador assemelhava-se a uma pedra na minha mo. Tinha os olhos marejados de lgrimas e doa-me o peito. A grandmre Catherine costumava dizer que 
o embuste era um jardim onde somente cresciam as ervas mais daninhas, e os que nele semeavam recolheriam desgraa. Esperava que no fosse algo que tivesse plantado 
no futuro de Paul. No havia ningum a quem quisesse poupar mais na vida.
        Beau conhecia um agradvel restaurantezinho francs prximo de Jackson Square. Apanhei um txi para o nosso ninho de amor e de l fomos a p. A refeio 
foi maravilhosa e acompanhada de um ptimo vinho, seguida de caf e pudim. Depois, insisti para que dssemos um longo passeio.
        - Estou cheissima - queixei-me.
        Demos as mos e caminhmos devagar pelo French Quarter, que borbulhava de vida nocturna. Havia um tipo diferente de agitao no bairro depois do pr do Sol. 
As mulheres que se encontravam nas ombreiras das portas e nos becos apresentavam-se com roupas mais berrantes e uma pesada maquilhagem. A msica era mais profunda, 
e as vozes dos cantores tinham um som mais melanclico.
        Noutros lugares onde pululavam jovens turistas, ouvia-se um jazz de batida mais forte e os guinchos, gritos e risos de pessoas que soltavam o cabelo e procuravam 
o auge da excitao, qualquer que ele pudesse ser. Todas as lojas de novidades e recordaes estavam iluminadas. Vagabundos e msicos pobres enchiam os passeios. 
Havia sempre algum a cada esquina a pedir, mas eram aceites, como se fizessem parte do local, no que tornava o bairro nico. Artistas de segunda pairavam  procura 
de presas fceis.
        - Desculpe, sr, mas aposto que sei exactamente de onde vem. Se no acertar, dou-lhe dez dlares; se acertar, d-me vinte. Aqui esto os meus dez. Ento?
        - No, obrigado. Sabemos perfeitamente de onde vimos - replicou Beau com um sorriso.
        
        Era excitante passear por ali com ele e... sim, podia ter uma outra vida secreta ao lado dele, reflecti. Tornaramos o nosso ninho de amor confortvel e 
gozaramos a cidade, a comida, os habitantes e... enganaramos o destino.
        Andmos em crculo at regressarmos ao pequeno apartamento, onde decidi impulsivamente passar a noite com ele. Voltmos a fazer amor, desta vez enlaando-nos 
um ao outro mal fechmos a porta atrs de ns. Antes de chegarmos ao quarto, estvamos ambos despidos. Ele ergueu-me nos braos e pousou-me suavemente na cama; depois, 
ajoelhou-se ao lado e comeou a beijar-me desde a ponta dos ps. Fechei os olhos e esperei que chegasse aos lbios que, nessa altura, ardiam de desejo.
        Enquanto fazamos amor, ouvamos a msica e os murmrios das pessoas que falavam l fora, na rua, um constante fluxo de vozes e risos. Era inebriante; apertei 
Beau de encontro ao meu corpo, sussurrando o seu nome, sussurrando o meu amor eterno, chegando mesmo s lgrimas quando atingimos o climax e ficmos um ao lado do 
outro, agradavelmente exaustos.
        De manh, levantmo-nos cedo e fomos ao Caf du Monde. Depois, ele acompanhou-me de volta ao meu hotel. Tnhamos planeado encontrar-nos de novo dali a uma 
semana, quando eu voltasse para findar os preparativos da exposio e trazer mais algum do meu trabalho a Dominique. Dei-lhe um beijo de despedida e apressei-me 
a entrar no hotel para ir buscar as minhas coisas.
        Receava encontrar uma mensagem a indicar que Paul tentara contactar-me na noite anterior, mas no havia nada. Entrei e sa rapidamente do hotel e, minutos 
depois, encontrava-me na estrada que me levaria a casa. Sentia-me cheia de vida, renovada, desabrochada, como Beau dissera. No entanto, a minha alegria seria breve. 
Findou no momento em que subi o acesso  casa.
        A expresso sombria no rosto de James quando desceu os degraus da frente para me ajudar a levar a bagagem indicou-me que algo de terrvel se passara. O meu 
primeiro pensamento foi para Pearl.
        - O que , James! O que aconteceu?
        - Oh,  Mistress Flemming, madame. Recebeu ms notcias.
        - Onde est ela?
        - L em cima,  sua espera, no quarto da Pearl.
        Apressei-me a entrar em casa, subi as escadas a correr e fui encontrar Mrs. Flemming sentada na cadeira de balouo, com o rosto muito plido e os lbios 
brancos. Pearl dormia no bero.
        - O que aconteceu, Mistress Flemming?
        Ela ergueu as mos, parecendo afastar invisveis teias de aranha e premiu os lbios. Depois, esboou um aceno de cabea na direco de Pearl e levantou-se 
devagar para se me juntar no corredor.
        - A minha filha que est em Inglaterra - balbuciou, quando conseguiu falar - teve um acidente de automvel e est gravemente ferida. Tenho de ir.
        - Claro - anui. - Que coisa horrvel. Ajudo-a a preparar as coisas.
        - J tratei da maior parte, madame. S estava  espera que voltasse.
        - Oh, Mistress Flemming. Lamento tanto! - exclamei.
        - Obrigada, querida. Detesto ir-me embora, sabe? Fez-me

sentir como se fosse um membro da famlia. Sei que est muito
entusiasmada com a sua carreira artstica e precisa de mim para a ajudar com a Pearl.
        - Que disparate! Tem de ir. Rezarei por si e pela sua filha - redargui.
        Ela premiu os lbios e esboou um aceno de cabea, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces.
        -  triste que sejam as coisas ms a aproximar os que nos so queridos - observou.
        Abracei-a e beijei-a na face.
        Quando James trouxe as minhas coisas para cima, levou as dela para baixo. Mandara chamar um txi.
        - D um beijo  pequenina por mim todas as manhs - pediu.
        - Sei que ela vai sentir imenso a sua falta. Por favor, mantenha-nos ao corrente de tudo e do que podemos fazer por si, Mistress Flemming.
        Ela prometeu e depois foi-se embora. Era como se um furaco tivesse desabado sobre o meu feliz lar, destruindo-o. No conseguia deixar de me interrogar sobre 
se o caprichoso destino resolvera castigar os que me eram chegados por quaisquer pecados que pudesse cometer.
        Nina Jackson, a cozinheira da casa Dumas, costumava dizer-me que era provvel que h muito tempo algum tivesse queimado uma vela preta contra ns. A grandmre 
Catherine, sendo uma traiteur, mantinha o mal  distncia; todavia, depois de ela morrer, o mal, Papa La Bas, comeara a rondar de novo, vigiando a minha vida,  
espera de uma oportunidade.
        Ter-lhe-ia eu dado essa oportunidade?
        

10

QUADRO PERFEITO
        
        Nessa noite, Paul telefonou de Baton Rouge e contei-lhe o que se passara com Mrs. Flemming.
        - Vou j para casa - decidiu.
        - No  preciso, Paul. Estamos bem. Apenas me sinto muito triste por ela e pela filha
        - Gosto de estar ao teu lado quando te sentes triste, Ruby. No me agrada que estejas sozinha nessas ocasies - declarou.
        - No podes proteger-me de todas as pequenas tempestades que me atingem, Paul. Alm de que no tinha ama quando vivia na cabana e as coisas eram duramente 
dificeis, lembras-te? - ripostei num tom mais duro do que pretendera.
        - Desculpa. Longe de mim insinuar que tu prpria no poderias fazer tudo pela Pearl - replicou num fio de voz.
        - No tens de pedir desculpa, Paul. No estou irritada. Apenas me sinto desgostosa por causa de Mistress Flemming.
        - Pelo que eu deveria estar em casa - insistiu.
        - Faz o que tens a fazer e depois volta para casa, Paul. Ficarei bem. A srio - repliquei.
        - Est bem. De qualquer maneira, devo conseguir sair daqui amanh, antes do almoo - garantiu. Seguiu-se uma breve pausa e depois perguntou como tinham corrido 
as coisas em Nova Orlees.
        - Muito bem. O Dominique e eu fizemos todos os preparativos, mas acho que vou adiar at tudo ficar mais calmo por aqui.
        - Comearemos a procurar outra ama, mal chegue a casa - prometeu. - No h necessidade de adiares a tua exposio Ruby.
        - No falemos agora desse assunto, Paul. Subitamente. deixou de ser importante para mim. E neste momento no quero ir arranjar uma nova ama. Esperemos para 
ver o que acontece com Mistress Flemming e a filha.
        - Como quiseres.
        - Acho, alm disso, que posso ser uma me e tambm uma artista a tempo inteiro.
        - Tudo bem - concordou. - Estarei em casa, mal me seja possvel.
        - No te apresses, Paul - avisei. - No precisamos de mais um acidente de carro.
        - Prometido. At breve. Adeus.
        - Adeus, Paul.
        A viagem daquele dia numa espcie de montanha-russa emocional esgotara-me. Depois de ter deitado Pearl, meti-me na cama. Deixei-me ficar assim algum tempo, 
de olhos abertos, questionando-me sobre se deveria telefonar a Beau. Temia, por que Gisselle descobrisse que o fazia e resolvi abster-me. Esperaria que ele me telefonasse.
        
        Fechei os olhos, mas, apesar do cansao, dei voltas e mais voltas, entrando e saindo de pesadelos, alguns dos quais me mostravam coisas horrveis desabando 
sobre Paul e outros sobre Beau. "Como as nossas vidas so frgeis", pensei. Em segundos, tudo o que tnhamos, tudo o que aprendamos, tudo o que construamos, podia 
ficar reduzido a p. Acabei por me interrogar sobre quais eram, de facto, as coisas mais importantes e as que no eram.
        Sabia que Paul devia ter conduzido depressa, apesar das promessas feitas, pois chegou a Cypress Woods ao comeo da tarde do dia seguinte. Quando o acusei 
disso, jurou que conseguira terminar as reunies mais cedo do que o previsto. Eu acabara de almoar e tomava caf no ptio.
        Pearl encontrava-se ao meu lado no parque, sentada confortavelmente e entretida com os lpis de cor. No conseguia manter-se dentro dos riscos, mas contentava-se 
em espalhar as cores pelos rostos e figuras, fingindo estar a fazer o mesmo que a me. De vez em quando parava e erguia os olhos para se certificar de que eu observava 
e apreciava o seu trabalho.
        - Mais uma artista na famlia - comentou Paul quando se Sentou.
        - Ela assim o acha. As tuas reunies correram bem, ento?
        - Assinei outro contrato. Nem vou falar-te de nmeros. Irias observar que so obscenos, como o fizeste da ultima vez.
        - E so. Sou incapaz de deixar de me sentir culpada quanto a ganhar tanto dinheiro, havendo tantas pessoas a precisar de Coisas simples e bsicas.
        -  verdade, mas o nosso trabalho industrial e as medidas perspicazes vo criar centenas de novos postos e providenciar emprego, oportunidades e dinheiro 
para muitas pessoas, Ruby.
        - Comeas a falar como um importante homem de negcios, no h dvida - comentei, e ele riu.
        - Suponho que, no ntimo, sempre o fui. Lembras-te de quando apenas com dez anos tinha a minha banca na estrada e vendia os meus amendoins cajuns e o camaro 
seco do negcio do meu pai?
        - Sim. Ficavas to engraado, impecavelmente vestido de camisa e gravata e com os trocos dentro da caixa de charutos.
        Ele sorriu ante aquelas recordaes.
        - Nunca queria levar-te dinheiro a ti e  tua grandmre Catherine quando passavam por l e paravam, mas ela no aceitava. "No podes ser assim no negcio", 
dizia-me.
        Esbocei um aceno de cabea, lembrando-me.
        Paul fitou Pearl durante uns momentos e depois virou-se para mim. Havia uma sombra profunda nos olhos azuis. E detectei tambm hesitao.
        -O que , Paul?
        - No quero que penses que estava a vigiar-te. S telefonei para saberes como estavas.
        - Telefonaste? Quando? Onde?
 - Anteontem, quando estavas no hotel em Nova Orlees - respondeu.
        O corao ameaou saltar-me do peito e sustive a respirao.
        - A que horas? - murmurei.
        - Depois das onze. No queria telefonar demasiado tarde com receio de te acordar, mas...
        Virei as costas
        - Como te disse - prosseguiu -, no penses que estava a vigiar-te. No me deves explicaes, Ruby - apressou-se a acrescentar.
        
        Sobre os ciprestes que rodeavam os pntanos avistei um falco que levantou voo e em seguida desceu, provavelmente para apanhar uma presa desprevenida. Fez 
com que meia dzia de pssaros dispersasse. Para l das rvores, um tecto de nuvens prosseguia a sua vagarosa mas firme caminhada na nossa direco, anunciando torrentes 
de chuva antes do final do dia. Senti que uma nuvem explodia no meu intimo, soltando gotas de gelo no meu corao. Percorreram-me todo o corpo, enchendo-me de um 
frio torpor.
        - No estava no hotel, Paul - declarei, pronunciando bem as palavras. - Estava com o Beau.
        Virei-me rapidamente para lhe detectar no rosto os efeitos da confirmao. Ele viu-se preso numa luta de emoes. Soubera, mas sabia que no queria saber; 
e, no entanto, sabia.
Queria enfrentar a realidade, mas esperava que no fosse a realidade que temia. Os olhos reflectiam um brilho de dor. Encolhi-me como se fosse uma bola.
        - Como pudeste faz-lo? Como pudeste estar com esse homem depois da forma como ele te abandonou?
        -Paul...
        - No. Gostaria de saber. No tens auto-estima? Ele deixou-te grvida, enquanto se ia embora e apreciava Paris e sabe-se l quantas francesas. Depois, casou 
com a tua irm e herdou metade da tua fortuna. Agora, corres de volta para ele, esgueirando-te a coberto da noite.
        - Paul. No pretendi enganar-te. Na verdade...
        - Era esse o verdadeiro objectivo da tua ida a Nova Orlees, no era? - retorquiu, virando-se para mim. - No se tratava dos quadros, nem da tua carreira 
artstica. Tratava-se de fugires de novo para os braos dele. Planeaste outro encontro furtivo?
        - Ia contar-te - ripostei. - Fazia tenes de o fazer...
        - Claro - redarguiu, sentando-se e endireitando os ombros. - O que  que vocs decidiram fazer?
        - Decidimos fazer?
        - Ele vai divorciar-se da Gisselle?
        - Essa hiptese no foi discutida - repliquei. - A excepo de que ambos sabemos quais so as nossas crenas religiosas e que o divrcio no  uma escolha 
aceitvel, sobretudo para a famlia dele. Alm de que no imagino qualquer colaborao por parte da Gisselle. E tu?
        - Dificilmente - respondeu Paul.
        - Aconteceria exactamente o oposto. Ela regalar-se-ia com o escndalo. Ajudaria a compor os cabealhos: "Gmea Rouba o Marido da Outra". Podes imaginar as 
consequncias para o
Beau e para a famlia, em Nova Orlees e... seria injusto para
ti, Paul. As pessoas daqui...
        - A srio? - ironizou.
        - Por favor, Paul. Sinto-me terrivelmente. s tu a ltima pessoa do mundo a quem desejo provocar sofrimento.
        Desviou os olhos para disfarar as lgrimas e a raiva que lhe marcavam o rosto.
        - No  nada que no tenha causado a mim prprio - murmurou. - A minha me avisou que algum dia aconteceria. -        Ficou silencioso.
        - No fiques para a sentado, Paul. Grita comigo. Pe-me fora.
        LeVantou-se devagar, e a dor que tinha estampada no rosto assemelhava-se a uma espada que me enterravam no corao.
        -
         Sabes que no o farei, Ruby. No consigo deixar de te amar.
        - Eu sei - redargui num tom triste. - Desejava que pudesses repudiar-me - disse.
        -  como se desejasses que a Terra deixasse de girar, e o Sol deixasse de nascer de manh e pr-se  noite.
        Fitmo-nos; pensei como era cruel o Destino, ditando-lhe aquela paixo no correspondida por mim. O destino transformara-o num homem eternamente sedento, 
pairando sobre a gua lmpida e fria, mas sem poder beber. Se ao menos houvesse uma forma de fazer com que me odiasse, reflecti com ironia. Seria doloroso para mim, 
mas muito melhor para ele. Entre ns, qual ferida em carne viva que recusava cicatrizar, existiam as nossas penas e tristezas.
        - Bom - pronunciou por fim. - No falemos, agora, de coisas tristes. Temos outros problemas mais preocupantes de momento. Tens a certeza de que no queres 
que procuremos outra ama?
        - Por agora, tenho.
        - Est bem. No entanto, detesto ver-te protelar a tua carreira. Segundo parece, estou casado com uma famosa artista cajun. Vangloriei-me sem cessar em Baton 
Rouge. H pelo menos uma dzia de ricos industriais do petrleo ansiosos por comprar um dos teus quadros.
        - Oh, Paul. No devias ter feito isso. No tenho tanta qualidade assim.
        - Tens sim - insistiu e levantou-se. - Preciso de passar pela fbrica e falar com o meu pai, mas estarei cedo em casa.
        - ptimo, porque convidei a Jeanne e o James para jantar. Ela telefonou e pareceu-me com muita vontade de nos ver repliquei.
        - Ah, ? Muito bem.
        Inclinou-se para me beijar, mas f-lo de uma forma muito mais mecnica do que habitualmente: um breve roar dos lbios na minha face, tal como beijaria a 
irm ou a me. Um novo muro se erguera entre ns, e era impossvel prever quo denso se tornaria nos prximos dias e meses.
        Depois de ele sair, permaneci sentada,  beira das lgrimas. Embora tivesse a certeza de que no era essa a inteno dele, quanto mais demonstrava o seu 
amor por mim, mais culpada me sentia por amar e estar com Beau.
        Dizia de mim para mim que avisara Paul e que nunca fizera o mesmo tipo de promessas que ele, casando-me com a ideia pura e religiosa de uma ligao idntica 
ao casamento de um
padre ou de uma freira com a igreja. Dizia ainda intimamente que era uma mulher com a paixo a correr-me nas veias, com a mesma intensidade da de qualquer outra 
mulher, no podendo acalm-la e muito menos neg-la.
        E alm disso no o desejava. At mesmo naquele momento, ansiava por me ver novamente nos braos de Beau, ansiava pelos seus lbios colados aos meus. Frustrada, 
respirei fundo, engolindo as lgrimas. No era a melhor altura para fraquejar e pr-me a soluar nas almofadas. Era a altura de me mostrar forte e enfrentar quaisquer 
desafios que o malicioso destino colocasse no meu caminho.
        
        "Bem me conviriam alguns amuletos", pensei. Podia usar os ps de felicidade de Nina Jackson ou os paus de incenso. H algum tempo, ela dera-me uma pequena 
moeda para colocar no tornozelo e dar-me sorte. Tirara-a e pusera-a de lado, mas lembrava-me de onde estava; quando levei Pearl para fazer a sesta, descobri-a e 
voltei a prend-la  volta do tornozelo.
Conhecia muita gente que se riria de mim; porm, nunca tinham visto a grandmre Catherine colocar as mos numa criana febril e fazer com que a febre descesse. Nunca 
haviam sentido um esprito maligno a voar na noite, escapando s palavras e elixires da grandmre Catherine. E nunca tinham escutado um mumbo jumbo de uma praticante 
de vudu e assistido aos resultados. Era um mundo pleno de mistrios, povoado por muitos espritos, bons e maus; fosse qual fosse o ritual que se fizesse para conseguir 
sade e felicidade, tinha o meu aval, independentemente de quem risse ou troasse. A maioria das pessoas era como a minha irm, que s acreditava na sua prpria 
felicidade. E eu, melhor do que a maior parte da gente da minha vida, sabia quo vulnervel e passageira pode ser a felicidade.
        
        Nessa noite, verifiquei como Paul estava ansioso para que tivssemos um jantar agradvel com a irm e o marido dela. Queria fazer tudo o que pudesse para 
afastar as sombras que se tinham instalado entre ns e pairavam nos cantos secretos dos nossos coraes. Parou na cozinha, pediu a Letty que fizesse algo especial 
e serviu os nossos melhores vinhos, tendo bebido bastante na companhia de James.
        Ao jantar a nossa conversa foi superficial e assinalada por muitos momentos de alegria, mas apercebi-me de que Jeanne estava preocupada e queria falar-me 
a ss. Portanto, mal o jantar terminou e Paul sugeriu que fssemos todos para a sala de estar, declarei que queria mostrar a Jeanne um vestido novo que comprara 
em Nova Orlees.
        - Descemos daqui a pouco - prometi.
        - Querem furtar-se  nossa conversa poltica,  s - acusou Paul num tom de brincadeira. Mas quando me olhou mais atentamente, percebeu porque  que eu queria 
levar a Jeanne l para cima e ps o brao  volta dos ombros de James, afastando-o.
        Jeanne rompeu em lgrimas, assim que ficmos ss.
        - O que se passa? - quis saber, abraando-a. Levei-a at ao sof e estendi-lhe um leno.
        - Oh, Ruby! Sinto-me to infeliz. Julguei que teria um casamento to maravilhoso como o teu, mas foi uma desiluso. No nas duas primeiras semanas, claro 
- acrescentou por entre soluos -, mas quando nos instalmos, pareceu que o romance morreu. Ele apenas se interessa pela carreira e o trabalho. As vezes s regressa 
a casa s dez ou onze horas e tenho de jantar sozinha. E quando chega, vem habitualmente to exausto que quer ir dormir logo.
        - J o puseste a par do que sentes? - inquiri, sentando-me ao lado dela.
        - J. - Respirou fundo e deixou de soluar. - Contudo. respondeu que est a comear a carreira e que eu tenho de ser compreensiva. Uma noite, virou-se contra 
mim e disse: "No tenho a sorte do teu irmo. No nasci com uma colher de prata na boca para poder herdar terra rica em petrleo. Tenho de trabalhar para ganhar 
a vida."
        Fiquei surpreendida. Ela prosseguiu:
        -
         Respondi-lhe que o Paul trabalha para ganhar a vida. No conheo ningum que trabalhe mais. Ele no toma nada como certo, no  verdade, Ruby?
        - O Paul acha que o dia tem vinte e cinco e no vinte e quatro horas - comentei, sorrindo.
        - E, no entanto, consegue manter o romance no vosso casamento, no ? Basta olhar para vocs os dois para ver como so dedicados um ao outro e quanta importncia 
do ao que sentem. Por mais que o Paul trabalhe tem sempre tempo para ti, no ? E no te importas que ele tenha de se ausentar tanto, pois no?
        Desviei rapidamente os olhos para que ela no lesse a verdade que eles reflectiam; depois, cruzei os braos no peito  maneira da grandmre Catherine e fiz 
uma expresso de quem est imersa em profundos pensamentos. Esperava, ansiosa pela minha resposta, torcendo as mos no regao.
        - No - respondi finalmente. - Mas talvez se deva a estar to absorta pela minha arte.
        Jeanne esboou um aceno de concordncia e suspirou.
        - Foi o que o James disse. Declarou que eu devia descobrir algo que fazer para no me debruar tanto sobre ele, mas eu quero debruar-me sobre ele e o nosso 
casamento. Foi por isso que me casei! -exclamou. - A verdade - continuou, limpando as faces com o leno -, a verdade  que a paixo desapareceu.
        - Oh, Jeanne! Estou certa que no.
        - H duas semanas que no fazemos amor - revelou. -  muito tempo para marido e mulher, no te parece? - perguntou, fixando-me,  espera da minha reaco.
        ....... Baixei os olhos e alisei a saia para que no me visse de novo a expresso. A grandmre Catherine costumava dizer que os meus pensamentos eram to 
bvios como um segredo escrito num livro com uma capa de vidro.
- No me parece que haja um tempo ou escala determinada para fazer amor mesmo para as pessoas casadas - respondi, pensando agora em Beau. -  algo que ambos tm 
de fazer espontaneamente e por impulso.
        - O James - confessou, de olhos pousados nos dedos entrelaados - acredita no chamado mtodo do ritmo, por ser um catlico de alma e corao. Tenho de medir 
a temperatura, antes de fazermos amor. No fazes isso, pois no?
        Abanei a cabea. Sabia que a temperatura do corpo de uma mulher indicava supostamente quando ela estava mais apta a engravidar, o que era considerado um 
mtodo aceitvel de contracepo, mas tinha de confessar que medir a temperatura antes de dormir com algum diminua o aspecto romntico.
        - Percebes, ento, porque me sinto to infeliz? - rematou.
        - Ele sabe o quanto te sentes profundamente infeliz?
- inquiri, e ela encolheu os ombros. - Devias falar-lhe mais desse assunto, Jeanne. Ningum mais pode ajudar-vos do que vocs mesmos.
        - Mas se no h paixo...
        -
         Sim, concordo. Tem de haver paixo, mas tem de haver compromisso tambm.  isso o casamento - prossegui, consciente de como tal facto era verdade para Paul 
e para mim. - Um compromisso... duas pessoas sacrificando-se voluntariamente para o bem uma da outra. Cada um tem de se importar tanto com o outro como consigo prprio. 
Todavia, s funciona se ambos o fizerem - rematei, pensando no meu pai e na sua dedicao a Daphne.
        - No me parece que o James queira ser assim - comentou Jeanne.
        - Tenho a certeza que sim, mas isso no acontece de um dia para o outro. leva tempo a cimentar uma relao.
        Jeanne esboou um aceno, pouco entusiasmada.
        - O Paul e tu passaram muito tempo juntos.  por isso que o vosso casamento  to perfeito? - indagou.
        Senti uma estranha dor no corao. Detestava a forma como uma mentira levava a outra, acumulando-se at nos vermos soterrados sob uma montanha de falsidades.
        - Nada  perfeito, Jeanne.
        -. O Paul e tu esto o mais prximo um do outro que  possvel. lembra-te como vocs se comportaram a partir do dia
em que se conheceram. Na verdade - prosseguiu num tom
triste -, esperava que o James me adorasse tanto quanto o Paul te adora. Suponho que no devo compar-lo ao meu irmo.
        - Ningum deve adorar ningum        - contrapus num tom
suave, mas a forma como ela me encarava a mim e a Paul, e como todos os outros nos viam, fazia como que me sentisse culpada por amar Beau na clandestinidade. Que 
choque teriam se a verdade viesse a ser conhecida e como seria devastador para Paul, reflecti.
        Falar assim com Jeanne levou-me a tomar conscincia de que a minha relao com Beau a nada conduziria. Poderia mesmo destruir gradualmente Paul. Fizera a 
minha escolha, aceitara a sua bondade e dedicao e agora tinha de viver com essa opo. No podia ter a atitude egosta de seguir outro caminho.
        - Talvez tenha outra longa conversa com o James - decidiu Jeanne. - Talvez tenhas razo... Talvez leve o seu tempo.
        - Tudo o que vale a pena, leva - redargui calmamente. Estava to absorta nos seus problemas que lhe escapou a ansiedade que os meus olhos reflectiam. Agarrou-me 
nas mos.
        - Obrigada, Ruby. Obrigada por escutares e te preocupares. - Abramo-nos e ela sorriu. Por que razo era to fcil ajudar os outros a sentirem-se felizes, 
mas to difcil ajudar-me a mim prpria, interroguei-me.
        - H, de facto, um novo vestido para te mostrar - retorqui e levei-a at ao meu roupeiro.
        Depois, fomos juntar-nos a Paul e James na sala de estar e tommos licor. Jeanne sorriu-me quando James lhe ps o brao  volta dos ombros, beijando-a na 
face. Sussurrou-lhe algo ao ouvido que a fez corar. Depois, anunciaram que estavam cansados e tinham de ir para casa.  porta, Jeanne encostou-se a mim para me agradecer 
novamente. Pela expresso dos olhos vi que estava excitada e feliz. Paul e eu ficmos na varanda a observ-los a caminhar at ao carro e afastarem-se.
        Estava uma noite bastante clara, o que nos permitia contemplar o cu carregado de estrelas e avistar as constelaes de um extremo ao outro do horizonte. 
Paul agarrou-me na mo.
        - Queres sentar-te c fora um bocado? - inquiriu.
        Esbocei um aceno de cabea e dirigimo-nos ao banco. A noite estava cheia da sinfonia montona das cigarras, interrompida pelo pio ocasional de um mocho.
        - Esta noite, a Jeanne queria um conselho de irm mais velha, no queria? - interessou-se ele.
        -
         Sim, mas no estou certa se era a mim que devia t-lo pedido.
        - Claro que sim. - Depois de uma pausa, acrescentou: - O James tambm me pediu conselhos. Fez com que me sentisse mais velho. - Virou-se para mim no escuro 
com o rosto mergulhado na sombra. - Eles acham que somos o casal perfeito.
        -Eu sei.
        - Quem me dera que fosse verdade. - Agarrou-me de novo na mo. - Portanto, o que vamos fazer?
        - No tentemos encontrar todas as respostas esta noite, Paul. Eu prpria sinto-me cansada e confusa.
        - Como quiseres. - Inclinou-se para me beijar na face. - No me odeies por te amar tanto - sussurrou.
        Queria apert-lo de encontro ao corpo, beij-lo, acalmar-lhe a alma perturbada, mas apenas consegui derramar umas lgrimas e fitar a noite com o corao 
apertado.
        Por fim, subimos ambos aos nossos quartos separados. Depois de apagar a luz, deixei-me ficar junto  janela, contemplando o cu nocturno. Pensei em Jeanne 
e James, apressando-se a regressar a casa depois de uma refeio maravilhosa, vinho e conversa, excitados e ansiosos por se agarrarem e terminarem a noite a fazer 
amor.
No seu quarto, Paul agarrava-se a uma almofada e, no meu, agarrava-me s minhas recordaes de Beau.
        
        Pouco depois de Paul ter sado para o trabalho na manh seguinte, Beau telefonou. Estava to excitado com o nosso prximo encontro que mal tomava flego 
enquanto descrevia os planos para o nosso dia e noite e, de incio, quase no percebia uma palavra.
        - No podes saber como isto mudou a minha vida - disse. - Deste-me algo que desejar, algo para me alegrar durante os dias e as noites mais terrveis.
        - Beau. Tenho ms notcias... - Consegui, por fim, interromper o seu discurso e falei-lhe da filha de Mrs. Flemming. - Receio ver-me obrigada a adiar as 
coisas.
        - Porqu? Vem com a Pearl - suplicou.
        - No. No posso - recusei.
        - H mais alguma coisa, no ? - perguntou, depois de uma pausa.
        - Sim - admiti, contando-lhe o que se passara com Paul.
        - Ento, ele sabe de ns?
        - Sim, Beau.
        - A Gisselle tambm tem andado muito desconfiada - confessou. - Tem at pronunciado algumas ameaas veladas e outras no to veladas assim.
        - Ento, talvez seja melhor deixarmos arrefecer as coisas - sugeri. - Temos de pensar em todas as pessoas que podamos ferir, Beau.
        - Sim - admitiu num tom rouco.
        Se as palavras tivessem peso, as linhas telefnicas entre Nova Orlees e Cypress Woods teriam cado em pedaos, reflecti.
        - Lamento, Beau.
        Ouvi-o emitir um fundo suspiro.
        -
         Bom. A Gisselle pede insistentemente para irmos passar uns dias ao rancho. Acho que vou lev-la para a semana. A verdade  que odeio viver nesta casa sem 
ti, Ruby. H demasiadas recordaes do tempo em que estivemos juntos. Sempre que passo junto ao teu quarto, paro, olho para a porta e lembro-me.
        - Fala  Gisselle em vender a casa, Beau. Comea de novo num outro lugar - sugeri.
        - Ela no quer saber. Nada lhe interessa. O que fizemos um ao outro, Ruby? - indagou.
        Engoli em seco, mas algumas lgrimas furtivas correram-me pelas faces. Durante um momento, fui incapaz de falar.
        - Apaixonmo-nos, Beau.  tudo. Apaixonmo-nos.
        - Ruby...
        - Tenho de ir, Beau. Por favor.
        - No te despeas. Desliga apenas - pediu.
        Obedeci, mas permaneci sentada junto ao telefone e solucei at ouvir Pearl, que acordara da sesta, a chamar-me. Enxuguei os olhos, respirei fundo e dispus-me 
a preencher os meus dias e as minhas noites com o mximo de trabalho que pudesse, a fim de no pensar nem lamentar nada.
        Invadiu-me uma calma resignao. Comecei a sentir-me uma freira e passava muito tempo numa tranquila meditao, pintando, lendo e ouvindo msica. Tratar 
de Pearl era agora uma ocupao a tempo inteiro. Ela era uma criana muito activa e curiosa sobre tudo. Tive de tornar a casa mais segura,
colocando os objectos valiosos fora do seu alcance e certificando-me de que no conseguiria chegar a nada perigoso. De vez em quando, Molly tomava conta dela umas 
horas, enquanto eu ia s compras ou ficava com algum tempo tranquilo a ss.
        Paul andava mais ocupado do que nunca; deliberadamente, segundo achava. levantava-se ao alvorecer e desaparecia antes de eu descer para tomar o pequeno-almoo. 
Algumas vezes, no regressava a tempo do jantar. Disse-me que o pai trabalhava cada vez menos e falava em reformar-se.
        - Ento, talvez devesses contratar um gerente - sugeri. -        No podes encarregar-te de tudo.
        - Verei - prometeu.
        No entanto, apercebia-me de que gostava de andar ocupado. Tal como eu, odiava os tempos livres, vendo-se forado nessas alturas a reflectir naquilo em que 
a sua vida consistia na realidade.
        Cheguei a pensar que seria assim para sempre, at ficarmos ambos grisalhos e velhos, balouando-nos lado a lado no terrao e contemplando o bayou, interrogando-nos 
sobre como teria sido a vida, caso no tivssemos tomado alguma das decises que tomramos quando ramos jovens e impulsivos.
        Contudo, uma noite, por volta do final do ms, o telefone tocou. Paul instalara-se no seu sof favorito e tinha o jornal aberto na pgina de economia. Pearl 
estava a dormir e eu lia um romance. James apareceu na ombreira da porta.
        -  para a madame - anunciou.
        Paul ergueu os olhos, curioso. Encolhi os ombros e levantei-me.
        - Talvez seja a Jeanne - sugeri. Ele esboou um aceno de cabea. Era, todavia, Beau, que parecia uma voz sem corpo... um farrapo de si prprio, to apagado 
que me interroguei sobre se seria ele realmente.
        -Beau? O que se passa?
        -  a Gisselle. Estamos no rancho. H mais de uma semana que c estamos.
        - Oh! - exclamei. - Ela sabe de ns, ento?
        -
         No, no  isso - contraps.
        Sustive a respirao.
        - O que , afinal, Beau?
        - Foi mordida por mosquitos. No atribumos importncia. Ela queixou-se imenso, claro, mas esfreguei-a com lcool e esqueci o assunto. Depois...
        - Sim? - Sentia as pernas como se pudessem transformar-se em ar e evaporar-se debaixo de mim.
        - Comeou a ter enormes dores de cabea. Nada do que lhe dei a acalmava. Tomou praticamente um frasco de aspirinas e teve febre tambm. Na noite passada, 
a febre subiu e ps-se a delirar. Tive de chamar o mdico da aldeia. Quando chegou, ela estava paralisada.
        - Paralisada!
        - E balbuciava sem nexo. No conseguia lembrar-se de nada, nem mesmo de quem eu era - acrescentou, confuso.
        - O que disse o mdico?
        - Fez imediatamente o diagnstico. A Gisselle contraiu a chamada encefalite de St. Louis, uma inflamao cerebral provocada por um vrus que os mosquitos 
transmitem s pessoas.
        - Mon Dieu! - exclamei com o corao a bater-me com fora no peito. - Est no hospital?
        - No - respondeu.
        - No? Porque no, Beau?
        - O mdico afirma que as previses no so famosas. No se conhece tratamento para a doena quando  transmitida por outras infeces virais que no o vrus 
do herpes simplex. So estas as palavras exactas.
        - O que  que isso significa? O que vai acontecer-lhe?
        - Pode permanecer nestas condies por algum tempo - elucidou numa voz vazia de emoo, uma voz perdida. E depois acrescentou: - Mas ningum em Nova Orlees 
sabe o que aconteceu. Na verdade, apenas este mdico e alguns criados daqui esto a par da situao e podem ser persuadidos a calarem-se.
        - O que ests a sugerir, Beau? - indaguei, sustendo a respirao.
        - Ocorreu-me h pouco, quando estava  cabeceira da cama a v-la dormir. Quando est a dormir parece-se tanto contigo, Ruby. Ningum duvidaria.
        O meu corao parou e depois iniciou uma corrida to acelerada que julguei que perderia os sentidos. Mudei o auscultador para o outro ouvido e respirei fundo. 
Sabia o que ele estava a sugerir.
        -Beau... Queres que assuma a identidade dela?
        - E te tornes minha mulher agora e para sempre - respondeu. - No tens conscincia desta oportunidade? - perguntou. - Nenhum dos segredos do passado precisa 
de ser revelado e ningum tem de ser magoado.
        -  excepo do Paul - ripostei.
        - E de que servir se formos todos infelizes?
        Poderamos fazer tal coisa?, interroguei-me com um entusiasmo crescente. Seria errado?
        - O que acontecer  Gisselle?
        - Teremos de a internar secretamente num estabelecimento, claro. Mas ser fcil consegui-lo.
        - Isso  terrvel. lembra-te quando a Daphne tentou fazer-me o mesmo - observei.
        -
         Era diferente, Ruby. Estavas viva e de boa sade e tinhas toda a vida pela frente. Que importncia ter para a Gisselle? Ela fez-nos acidentalmente uma 
ddiva, reparou tanto erros que cometeu. O destino no nos daria esta oportunidade, se no quisesse igualmente reparar os danos. Vem ter comigo - suplicou. - Ao 
teu lado poderei acalmar o meu esprito perturbado e tornar-me algum que consiga voltar a respeitar. Por favor, Ruby. No podemos desperdiar um nico momento desta 
oportunidade.
        - No sei. Tenho de pensar. - Virei-me e olhei na direco do escritrio. - Preciso de discutir o assunto com o Paul.
        - Claro. Mas f-lo de imediato e telefona-me depois - pediu, dando-me o nmero. - Amo-te, Ruby, tu amas-me e devamos estar juntos. O destino tambm acabou 
por compreender que assim . Quem sabe? Talvez a tua grandmre Catherine esteja a trabalhar para ns no outro mundo ou talvez a Nina Jackson tenha feito qualquer 
feitio a nosso favor.
        - No sei, Beau. Est tudo a acontecer to depressa.  complicado.
        - Conversa com o Paul. Est certo e , afinal, o que estava predestinado - insistiu.
        Depois de desligarmos, mantive-me de p com o corao ameaando saltar-me do peito. Na minha frente, desfiavam as possibilidades juntamente com os perigos. 
Teria de assumir a personalidade da minha irm, tornar-me Gisselle, mas ns ramos, de facto, to diferentes. Conseguiria faz-lo com perfeio bastante para enganar 
as pessoas e ficar com Beau eternamente? Se o amor tiver fora bastante, reflecti, pode dar poder para fazer coisas para l do que se imagina. Talvez este princpio 
se nos aplicasse.
        Respirei fundo e depois regressei ao escritrio e contei a Paul o que acontecera e o que Beau havia proposto. Ele deixou-se ficar sentado com uma calma surpreendente 
e escutou, enquanto eu despejava a histria e a fantstica sugesto. Em seguida, levantou-se e dirigiu-se  janela, mantendo-se ali durante um espao de tempo prolongado.
        - Nunca deixars de o amar - murmurou amargamente. Fui um idiota em pensar que poderia no ser assim. Se ao
menos tivesse dado ouvidos  minha me... - Suspirou fundo e virou-se.
        - No consigo controlar o que sinto por ele, Paul.
        Esboou um aceno de cabea e ficou muito pensativo por momentos.
        - Talvez tenhas de viver com ele para perceberes que tipo de homem  na verdade. Talvez depois compreendas as diferenas que h entre mim e ele.
        - Paul, amo-te pelo que fizeste pela Pearl e por mim e pela tua dedicao, mas apenas vivemos meio casamento. Alm disso, concordmos que se algum de ns 
pudesse ter outra pessoa, algum que amasse e com quem fosse possvel uma relao em pleno, o outro no o impediria.
        Paul acenou com a cabea.
        -
         Que sonhador fui quando fiz essas promessas ao teu lado na varanda da grandmre Catherine. Bom - prosseguiu, com um sorriso seco -, conseguirei por fim 
fazer algo que te tornar realmente feliz. - Os olhos brilharam-lhe de sbito com mais um pensamento. - Mesmo mais do que tu e o Beau esperavam. - Deteve-se com 
uma expresso determinada no rosto.
        - O qu? - inquiri, ofegante.
        - Quando telefonares ao Beau, diz-lhe que traremos a Gisselle para aqui - explicou.
        -O qu?
        - Ele tem razo. O que pode interessar-lhe agora? Tu e eu iremos ao rancho amanh depois do almoo. Tenho de tratar de um negcio importante. Fingiremos 
que vamos passar umas curtas frias e depois regressarei com a Gisselle e farei constar que foste tu quem sofreu a encefalite. Preparo-lhe acomodaes confortveis 
l em cima e teremos enfermeiras vinte e quatro horas por dia. Dado ela ter lapsos de memria e passar a maior parte do tempo confusa e semi-inconsciente, no ser 
difcil.
        - Farias isso por mim? - perguntei, incrdula.
        - Amo-te a esse ponto, Ruby. - Sorriu. - Talvez agora compreendas realmente.
        - Mas no posso permitir, Paul. Seria demasiado cruel e injusto.
        - No  nada. Nesta casa to grande, nem darei pelos aposentos dela - replicou.
        - No me refiro apenas a isso. Tambm tens uma vida pela frente - insisti.
        - E tenciono viv-la.  minha maneira. V l, telefona ao Beau.
        Tinha um reflexo to estranho no olhar. Pressenti que imaginava que aquela atitude acabaria um dia por me trazer de volta para ele. Quaisquer que fossem 
os motivos, facilitavam a nossa troca de identidade.
        Dei meia-volta para telefonar a Beau e depois estaquei, tomando conscincia do maior problema de todos.
        - No podemos faz-lo, Paul.  impossvel.
        - Porqu?
        - A Pearl! - exclamei. - Se eu for a Gisselle, o que lhe acontece?
        Paul pensou uns momentos e depois pronunciou-se:
        - Contigo gravemente doente e a ausncia da ama para ir tratar da famlia dela, lev-la-ei para viver com a tia e o tio at se desvanecer o sofrimento em 
Cypress Woods. De momento, ser um bom disfarce.
        Fiquei aturdida com a sua rapidez de raciocnio.
        - Oh, Paul. No mereo esta bondade e sacrifcio. A srio que no - redargui.
        Paul esboou um sorriso frio.
        - Virs visitar a tua irm doente de vez em quando, no? - perguntou e apercebi-me de que, mediante este estranho comportamento, esperava manter-me ligada 
a ele.
        - Claro, embora a Gisselle pouco se importasse com isso.
        - Cuidado - avisou com outro sorriso. - No te mostres demasiado simptica ou as pessoas diro: "O que lhe deu? No parece dela."
        - Sim - concordei, tomando conscincia do desafio que tinha pela frente.
        No confiava muito em mim. De momento, teria de me contentar apenas com o desejo, o desejo de estar ao lado do Beau como sua mulher para sempre. Talvez fosse 
suficiente. Pelo bem de Pearl e pelo meu, rezei para que assim acontecesse.
        

11

NADA AO ACASO
               
               Beau ficou muito excitado e contente com a proposta de Paul, mas eu sentia-me perturbada ante a sua disponibilidade de participar em tudo aquilo. 
O que lhe iria no pensamento? O que esperava que acontecesse? Dei voltas e mais voltas na cama durante toda a noite, atormentada pelas coisas que podiam correr mal 
e pr a nu o nosso embuste.
               Se isso acontecesse, as pessoas quereriam saber mais e, nesse caso, a verdade sobre Paul e mim com todos os pecados do passado seria revelada. Tal 
significaria no s a minha runa e a de Paul, como a destruio da famlia Tate. Os riscos eram enormes. Tinha a certeza que Paul os conhecia to bem como eu, mas 
estava decidido a manter-se ligado a mim, mesmo desta forma bizarra.
               Quando acordei de manh, pensei que tudo no passara de um sonho, at Paul bater  porta do quarto e enfiar a cabea para me informar que partiriamos 
para a casa de campo dos Dumas um pouco depois das duas. Calculava que a viagem at ao rancho nos levaria umas trs horas. Um calafrio de apreenso percorreu-me 
a espinha. Todo o corpo me tremia, enquanto andava de um lado para o outro, a pensar no que levaria ou no.
               Dado eu e Gisselle termos gostos diferentes na maneira de vestir, apercebi-me de que teria de deixar ficar a maior parte das coisas; no entanto, resolvi 
levar as jias e as recordaes que me eram mais preciosas. Empacotei o maior nmero das coisas de Pearl que podia sem levantar suspeitas. Supostamente, s iramos 
ausentar-nos uns dias.
               Enquanto metia os pertences de Pearl na sua mala, pensei em como teria dificuldade em fingir que era apenas tia dela e no me. Por sorte, Pearl ainda 
era muito pequenina e, assim, quando me chamasse me, as pessoas julgariam que estava Confusa. Diria que era mais fcil para ela deixar que o fizesse de momento. 
Os meus temores reportavam-se a mais tarde quando atingisse a idade suficiente para compreender tudo; nessa altura, teria de contar-lhe a verdade quanto aos motivos 
por que o pai e eu agramos desta forma e porque assumira o nome da minha irm. Era incapaz de deixar de pensar em como isso poderia mudar a sua opinio a nosso 
respeito.
        Passei a manh a vaguear por Cypress Woods com Pearl, absorvendo tudo como se nunca mais voltasse a pousar os olhos nesse lugar. Sabia que sempre que voltasse, 
tudo me pareceria diferente, pois teria de deixar de pensar naquela propriedade como a minha casa, mas como a casa da minha irm, um stio de visita e que supostamente 
me desagradava. Teria de comportar-me como se o bayou me fosse to estranho como a China, pois era assim que Gisselle reagia.
        Pensei que seria isso o mais difcil: fingir que odiava o bayou. Por mais que me exercitasse, tinha a certeza que nunca seria muito convincente. O meu corao 
decerto no me permitiria que troasse e me queixasse do mundo onde crescera e que amara durante toda a minha vida.
        
        Enquanto Pearl dormia a sesta, subi ao meu estdio para arrumar as coisas que desejava proteger do tempo e descuido. Na pele da minha irm Gisselle, teria 
de desenhar e pintar em segredo. Mal se espalhasse a notcia de que Ruby estava invlida, semconsciente e mentalmente perturbada, os novos quadros no poderiam 
continuar a chegar  galeria de arte, mas consolava-me a realidade de que pintava mais para minha satisfao pessoal do que por uma questo de fama e dinheiro.
        Paul veio almoar a casa, o que foi difcil para os dois. Nenhum de ns o expressou directamente, mas sabamos que era a ultima refeio em que nos sentaramos 
como marido e mulher. Era importante que no agssemos de forma muito diferente diante do pessoal. No entanto, parecia que, a cada momento, nos olhvamos, um em 
frente do outro, como se tivssemos acabado de nos conhecer e no soubssemos como estabelecer conversa. A tenso provocava um excesso de delicadeza. Por duas vezes, 
comemos a falar ao mesmo tempo.
        - Continua - incitou ele.
        - No. Fala tu desta vez - insisti.
        - Queria garantir-te que zelarei para que o estdio esteja em ordem. Talvez tu e o Beau venham passar frias e possas esgueirar-te at l e trabalhares um 
pouco, se te apetecer. Direi que a obra estava acabada antes de a Ruby ficar assim to doente.
        Esbocei um aceno de concordncia, embora no me parecesse que tal pudesse acontecer. Embora tivesse sido Gisselle que contrara encefalite e no eu, provocava-me 
uma sensao estranha falar de mim como se estivesse gravemente doente.
        Imaginei as primeiras reaces de todos, reaces a que no assistiria, porque j me teria ido embora. Esperava que as irms de Paul ficassem muito tristes. 
A me dele sentir-se-ia com toda a probabilidade contentissma, mas achava que o pai ficaria triste, pois tnhamo-nos dado bastante bem, apesar da posio de Gladys 
Tate contra mim. Reinaria o desgosto entre a criadagem e por certo haveria algumas lgrimas.
        Mal se espalhasse a notcia pelo bayou, todas as pessoas que me conheciam ficariam tristes. Muitas das amigas da grandmre Catherine iriam  igreja acender 
uma vela por mim. Enquanto imaginava esta sequncia de cenas, invadia-me uma sensao de culpa por causar todo esse desgosto baseado numa grande falsidade; comecei 
a mexer-me, incomodada, na cadeira.
        - Ests bem? - perguntou Paul, depois de terem levado Os pratos.
        - Sim - respondi, mas as lgrimas ardiam-me sob as plpebras e ondas de calor afluiam-me ao rosto. A sala pareceu-me subitamente um forno. - Volto j - anunciei, 
levantando-me bruscamente.
        -Ruby!
        Sa a correr da sala de jantar e dirigi-me a uma das casas de banho para refrescar as faces e a testa com gua fria. Quando me contemplei ao espelho, vi 
como o sangue me desaparecera do rosto, dando lugar a uma enorme palidez.
        - Vais ser punida por fazeres isto - avisei a minha imagem. - Talvez um dia venhas a ficar tambm gravemente doente.
        Sentia a cabea desfeita. Deveria colocar um ponto final no assunto, antes que fosse demasiado tarde?
        Ouviu-se uma leve pancada na porta.
        - Ruby.  o Beau ao telefone - anunciou Paul. - Sentes-te bem?
        - Sim. Vou j, Paul. Obrigada.
        
        Salpiquei a cara com mais gua fria, sequei-a rapidamente e dirigi-me depois ao escritrio para ter uma maior privacidade.
        - Est?
        - O Paul disse que no te sentes bem.  verdade?
-.
        - Mas queres ir por diante com o plano, no? - indagou num tom de voz hesitante, com medo de ficar desapontado. Respirei fundo. - Est tudo em ordem - acrescentou, 
antes de me dar tempo a responder. - Tenho a furgoneta preparada como se fosse uma ambulncia, de forma a podermos lev-la de volta a Cypress Woods, fingindo seres 
tu. Seguirei o carro do Paul e ajud-la-ei a entrar em casa. Ele ainda continua a querer cooperar, no?
        - Sim, mas... Beau... e se eu no conseguir?
        - Vais e deves conseguir. Amo-te, Ruby, e tu amas-me e temos uma filha para criar juntos. Era assim que estava destinado. Temos uma oportunidade de vencer 
o destino. No a desperdicemos. Prometo que estarei constantemente ao teu lado. Zelarei para que tudo d certo.
        Encorajada pelas palavras dele, voltei a ganhar coragem. O sangue regressou-me s faces, e o corao deixou de bater com tanta fora.
        - De acordo, Beau. Iremos.
        - ptimo. Amo-te - disse e desligou.
        Ouvi outro estalido e percebi que Paul estivera a escutar a nossa conversa, mas no tencionava embara-lo, dando-lhe a entender que sabia. Saiu para completar 
qualquer coisa de ultima hora e, quando Pearl terminou a sesta, dei-lhe o almoo. Depois, levei-a para o meu quarto e pus-me  espera. A minha pequena mala e a agenda 
pareciam patticas ao lado do toucador. levava to pouco comigo; porm, quando regressara pela primeira vez ao bayou, ainda trouxera menos, recordei.
        Comecei a ficar muito nervosa. Os minutos mais pareciam horas. Quando olhei atravs da janela, avistei nuvens avanando do sudoeste. Tornavam-se mais densas 
e alongadas. O vento soprava agora com mais fora e apercebi-me do incio de uma tempestade.
        "Um mau pressgio", pensei. Tremia e envolvia o corpo com os braos. Estaria a Natureza, o bayou, a conspirar a fim de me impedir que fizesse aquilo? Sabia 
que a grandmre Catherine poderia dizer qualquer coisa do gnero, se se encontrasse ao meu lado nesse momento. Os relmpagos riscaram o cu e ouviram-se troves 
que deram a sensao de abalar a casa.
        Um pouco depois das duas, Paul apareceu  porta do meu quarto e espreitou.
        - Pronta?
        Olhei  minha volta pela ultima vez e esbocei um aceno de cabea. Os meus joelhos batiam um de encontro ao outro e sentia uma espcie de buraco no estmago; 
agarrei em Pearl ao colo e inclinei-me para pegar no saco.
        - Eu levo - ofereceu-se Paul, agarrando-o antes que eu

pudesse faz-lo. Fitou-me em busca das minhas mais fundas e reais emoes, mas apressei-me a desviar os olhos. - Vais sentir a falta de tudo isto, Ruby - declarou, 
perscrutando-me com o seu olhar, semelhante, em luminosidade e dureza, ao diamante. - Por mais que digas a ti prpria que no, sentirs. Esta regio do bayou constitui 
uma parte to importante de ti como de mim. Esse o motivo por que voltaste quando te surgiram problemas - rematou.
        - Poderei sempre voltar, Paul...
        - Depois de fazermos a troca e procedermos aos trmites necessrios, ser-te- impossvel voltares como Ruby - recordou-me asperamente.
        - Eu sei - retorqui.
        - Deves realmente am-lo muito para fazeres tudo isto s para estar com ele - redarguiu com uma voz que denotava inveja.
        Ao ver que no respondia, suspirou e olhou atravs da janela, fixando momentaneamente os canais. "Pobre Paul", pensei. Uma parte dele ansiava por despejar 
fria e raiva sobre Beau e sobre mim, mas outra parte impedia-o e deixava-o totalmente frustrado.
        - Esquece o que acabei de dizer - murmurou. - No entanto, se ele te maltratar ou atraioar ou se algo de inesperado acontecer, encontrarei uma forma de voltares 
- prometeu e virou-se, olhando-me bem de frente. - Seria capaz de virar o mundo de pernas para o ar para conseguir ter-te de novo ao meu lado - acrescentou.
        Seria por isso que se mostrava to cooperante?, interroguei-me. Porque queria estar ali para me ajudar, se algo corresse mal? No mais fundo da minha alma, 
sabia que, independentemente do que dissesse ou fizesse, Paul jamais desistiria de mim.
        Dirigiu-se ao quarto de Pearl para ir buscar a mala com as coisas que eu preparara para ela e, em seguida, descemos as escadas rapidamente.
        Comeara a chover; teramos de fazer toda a viagem ao som montono dos limpa-pra-brisas a trabalhar. Ao sairmos do enorme acesso, virei-me uma vez para 
olhar a enorme casa.
        nossas vidas esto cheias de vrios tipos de despedidas", pensei. Podemos dizer adeus s pessoas que amamos, ou s Pessoas que conhecemos durante a maior 
parte da vida, mas tambm podemos despedir-nos de lugares, sobretudo os lugares que se tornam uma parte daquilo que somos.
        J antes dissera adeus ao bayou, pensando que nunca voltaria, mas sempre acreditei que, se o fizesse, ele continuaria a ser o que sempre fora para mim. Desta 
vez, tinha uma estranha sensao de estar a atraio-lo, e interroguei-me sobre se um lugar poderia mostrar-se to relutante em perdoar quanto as pessoas.
        A chuva abateu-se como um pesado lenol. Apesar do calor e da humidade, sentia-me penetrada por um frio invernoso e estremeci. Observei Pearl, mas ela parecia 
bastante confortvel e satisfeita.
        - No  curioso at que ponto somos capazes de ir para estarmos com algum que julgamos amar? - pronunciou Paul subitamente, quase num sussurro. - Um adulto 
comportar-se- como um miudo, um miudo far o impossvel para parecer adulto. Arriscaremos as reputaes, sacrificaremos os bens materiais, desafiaremos os pais, 
at mesmo as nossas crenas religiosas. Faremos coisas ilgicas e disparatadas, coisas impraticveis e inteis apenas por um momento do que pensamos ser o paraso 
na Terra.
        -
          verdade - concordei. - Tudo o que afirmas  verdade, mas a conscincia dessa verdade no nos impede de fazermos essas coisas.
        - Eu sei - redarguiu com amargura. - Percebo melhor do que julgas. Sei que nunca conseguiste compreender-me totalmente... nunca soubeste por que razo queria 
tanto estar contigo... Agora, tenho a impresso de que comeas a entender o que sinto por ti.
        - Entendo, sim - anui.
        - ptimo. Sabes uma coisa, Ruby? - Fitou-me com um olhar gelado. - Um dia, vais voltar. - Pronunciou a frase com uma tal segurana que senti um aperto no 
corao. Depois virmos para a auto-estrada e acelermos, disparando para o meu novo destino, a uma tal velocidade que me cortou a respirao.
        Pearl adormeceu durante a viagem. Costumava dormir no carro. Duas horas depois de termos partido, a chuva comeou a desaparecer e alguns raios de sol atravessaram 
a camada de nuvens mais leves. Paul estudou as directrizes que Beau lhe tinha dado e, menos de uma hora depois, descobrimos a estrada para o rancho.
        O edificio principal daquilo a que Daphne costumava referir-se como o seu rancho assemelhava-se a um castelo. Tinha um telhado ingreme com espiras, pinculo, 
torrees, empenas e duas chamins. Os ornamentos metlicos ao longo dos beirais do telhado eram elaborados. As janelas e a ombreira da porta eram em arco.
         direita, havia duas pequenas casas para os criados e cageiros e,  direita das mesmas, a cerca de mil metros, erguiam-se estbulos com cavalos e um celeiro. 
A propriedade tinha campos abertos polvilhados de reas bosqueadas e um rio atravessando o extremo norte.
        Semelhante a um qualquer chteau da paisagem campestre francesa, possuia belos jardins e dois terraos no relvado da frente, bem como bancos, cadeiras e 
fontes de pedra. Quando chegmos, os caseiros andavam muito ocupados a aparar sebes e a arrancar ervas daninhas. Era um casal idoso e ergueram os olhos por um mero 
minuto de curiosidade antes de regressarem ao trabalho, to rapidamente como se algum tivesse feito estalar um chicote.
        Beau estava na ombreira, ainda antes de termos estacionado o carro. Acenou-nos para que entrssemos depressa. Pearl ainda estava a dormir e mal pestanejou 
quando lhe peguei ao colo para seguir Paul at  casa. Beau recuou e sorriu-me meigamente.
        - Ests bem? - perguntou.
        - Sim - respondi, embora me sentisse invadida por um torpor paralisante.
        Paul e Beau entreolharam-se por um momento e depois Beau ficou muito srio e os olhos estreitaram-se e escureceram.
        -  melhor apressarmo-nos - ordenou.
        - Mostra o caminho - retorquiu Paul num tom spero.
        Entrmos no chteau. Tinha um pequeno trio, decorado com reposteiros e grandes quadros paisagisticos. O mobilirio era um misto de moderno com alguns elementos 
em estilo rstico, semelhantes aos que existiam na casa de Nova Orlees. As luzes eram discretas e as janelas cobertas pelos reposteiros. As sombras dominavam tudo, 
especialmente as escadas. Subimos apressadamente.
        -
         Instalemos primeiro a Pearl - sugeriu Beau e levou-nos de imediato a um quarto de criana. - Era o antigo bero da Gisselle - disse. - Parece que a Daphne 
recebia ocasionalmente visitas com filhos. Adorava ser a anfitri perfeita - declarou.
        Pearl gemeu quando a deitei no bero. Esperei um momento para ver se acordava, mas ela limitou-se a suspirar e ps-se de lado. Depois Beau virou-se para 
Paul.
        - Consegui arranjar uma cama de rodas articulada. Ningum sabe nem suspeita de nada - tranquilizou-me. - O dinheiro elimina a curiosidade.
        - Mas no resolve todos os problemas - salientou Paul, desviando o rosto na minha direco.
        Baixei os olhos, e Beau acenou com a cabea sem dar resposta, conduzindo-nos para fora do quarto. Seguimo-lo at ao quarto principal. Gisselle parecia minscula 
na enorme cama de dossel com a manta puxada at ao queixo. Tinha o cabelo espalhado pela almofada e estava plida de morte.
        - Agora, ela entra e sai de coma - explicou Beau.
        - Oh, Beau. Ela devia estar num hospital - gemi.
        - O Paul pode intern-la, se o mdico dele for dessa opinio. O meu achou que no faria muita diferena, desde que recebesse os devidos cuidados.
        - Encarrego-me do assunto - prometeu Paul, de olhos fixos em Gisselle. - Receber a mxima ateno.
        - Ento, comecemos - replicou Beau, obviamente ansioso por dar incio ao processo, antes que um de ns mudasse de ideias.
        Paul deu a volta  cama, a fim de ajudar a passar Gisselle para a cama articulada que a esperava. Beau inclinou-se e colocou as mos por baixo dos braos 
dela. Gisselle pestanejou mas no abriu os olhos, enquanto ele a erguia e a fazia deslizar para a beira da cama. Esboou depois um aceno de cabea a Paul, que lhe 
agarrou nas pernas. Colocaram-na na cama articulada. Ela estava vestida com uma camisa de noite de algodo branco e mangas tufadas, com um padro de flores azuis 
na parte de cima. Tive a certeza de que Beau a escolhera, sabendo que se tratava de algo que eu usaria.
        Tapou-a com um lenol e depois fitou-me.
        - Temos de trocar as alianas - declarou. - J tirei a dela.
        Estendeu-ma. Queimava-me os dedos. Fixei Paul, que observava a cena com uma expresso de curiosidade. Era como se estivesse a estudar todos os meus movimentos 
para se inteirar do que eu faria e de como me sentia em relao s minhas atitudes. Dei meia-volta e rodei a aliana. Tinha o dedo um pouco inchado e no saiu logo.
        - Deita-lhe um pouco de gua fria - aconselhou Beau com um aceno de cabea na direco da casa de banho.
        Voltei a fixar Paul, que parecia feliz com a dificuldade que simbolicamente eu tinha em separar-me dele.
        A gua deu uma ajuda e a aliana saiu. Beau apressou-se a enfi-la no dedo de Gisselle.
        - Mais alguns anis? - perguntou-me.
        - No. Nenhum que use sempre.
        - Ela mudava de jias to frequentemente que ningum se lembrar de nada do que usava,  excepo da aliana de casamento. - Comeou a empurrar a cama articulada 
na direco da porta e depois parou.
        -
         Vou trazer a carrinha para diante da casa. Recuarei at aos degraus da frente. Esperem aqui. - Saiu rapidamente e desceu a escada.
        Paul observou Gisselle durante um momento; em seguida, emitiu um fundo suspiro e olhou para mim.
        - Bom, c estamos metidos em tudo isto - comentou.
        O meu corao batia com tanta fora que nem conseguia tomar flego.
        - Faz o que o mdico te indicar, Paul - pedi.
        - No precisas de mo dizer. Claro que farei tudo. - Hesitou um momento e depois acrescentou: - J falei com um mdico sobre o estado dela.
        - Falaste?
        - Sim. Esta manh. Com algum de Baton Rouge.
        -E?
        - H hiptese de que ela recupere - respondeu, de olhos fixos em mim. Era, ento, esta a sua esperana: que Gisselle recuperasse a sade, forando-me a regressar 
a Cypress Woods.
        Estive quase a decidir-me a pr cobro  nossa troca de identidades.
        - Fica um momento com ela - sugeriu Paul, sem me dar tempo a qualquer observao; depois, desceu para falar com Beau.
        A ss com a minha irm gmea, aproximei-me da cama articulada e agarrei-lhe na mo fria.
        - Gisselle - sussurrei. - No sei se consegues ouvir-me, se so apenas os teus olhos que se encontram fechados e no a tua mente, mas quero que saibas que 
nunca fiz nada para te magoar e que, agora, tambm no estou a fazer nada contra ti. At mesmo tu, na doena, deves entender que o destino tomou as rdeas e resolveu 
a nossa sorte. Lamento que estejas to doente. Nada fiz para te provocar esse mal, excepto se quiseres dizer que o meu amor pelo Beau  to grande que devo ter levado 
os espritos a decidirem que fomos feitos um para o outro. No mais recndito do teu corao, sei que tambm acreditas que pertencemos um ao outro.
        Inclinei-me e beijei-a na testa. Um momento depois ouvi Biau e Paul a subirem as escadas.
        - Empurra-a at ao cimo dos degraus - instruiu Beau. - Depois, dobro as pernas da cama articulada e transportamo-la para baixo.
        - Vo com cuidado - avisei.
        Os dois tiveram algumas dificuldades nos degraus, mas conseguiram lev-la rapidamente. Beau voltou a soltar as pernas e as rodas da cama articulada e empurraram-na 
at  ombreira da porta. Segui-os at l fora e fiquei a v-los colocar a cama nas traseiras da carrinha. Beau fechou a porta e os dois viraram-se para trs e fitaram-me. 
Decorrido um momento, Paul subiu a escada.
        - Acho que chegou a hora da despedida... por agora - disse, inclinando-se para me beijar. Fiquei a v-lo percorrer o caminho de regresso  carrinha.
        - Voltarei assim que puder - prometeu Beau.
        - Beau. - Agarrei-lhe na mo. - Ele acha que um dia a Gisselle vai recuperar e teremos de voltar s nossas verdadeiras identidades.
        Beau abanou a cabea.
        - O mdico garantiu-me que isso no acontecer.
        -
        Mas...
        -  demasiado tarde para retroceder, Ruby - interrompeu. - Mas no te preocupes.  assim que devia ser. - Tambm me beijou e depois dirigiu-se ao carro de 
Paul. No entanto regressou apressadamente at junto de mim, o que me levou a suster a respirao, esperando que tivesse decidido no prosseguir com o plano; no entanto, 
no era isso.
        - Quase me esquecia. S para saberes - declarou. - Os caseiros chamam-se Gerhart e Anna lenggenhager. Ambos tm um sotaque alemo to pronunciado que no 
percebers metade do que dizem, mas no te preocupes. A Gisselle nunca lhes falava, excepto para gritar qualquer ordem. No tinha pacincia quando se tratava de 
os compreender. Mas so pessoas muito simpticas. O nome da criada  Jill e o da cozinheira Dorothea. Deixei instrues para que te levassem o jantar  sute. Ningum 
achar estranho. A Gisselle comia muitas vezes no quarto.
        - E a Pearl?
        - Limita-te a indicar  Jill o que queres que lhe arranjem. Eles sabem que a nossa sobrinha viria. E no te preocupes. Ningum far perguntas. Foi tudo pensado 
ao pormenor - garantiu-me, depois do que voltou a beijar-me e regressou  carrinha.
        Deixei-me ficar a observ-los afastarem-se. Quando olhei para a esquerda, dei-me conta de que Gerhart e Anna me observavam. Viraram costas rapidamente e 
dirigiram-se  casa deles. Entrei novamente no edificio com o corao a bater descontroladamente. Pensei em explorar o local, mas resolvi em vez disso subir at 
junto de Pearl e verificar se ela acordara e no tinha estranhado o sitio. Sabia que poderia assust-la. A minha inquietao aumentava,  medida que ia tomando plena 
conscincia do stio onde me encontrava.
        A expresso dos olhos de Jill quando veio receber ordens, um pouco mais tarde, indicou-me que temia Gisselle. Pearl acordara e tinha-a comigo na sute. Jill 
bateu to ao de leve  porta que da primeira vez no a ouvi.
        - Sim? - disse. Ela abriu a porta devagar e avanou somente uns centmetros. Era uma rapariga alta e magra com rosto de pssaro, a boca pequena, o nariz 
afilado e os olhos pretos afitodados. Usava o cabelo castanho-escuro muito curto.
        - A Dorothea quer saber se a madame deseja alguma coisa especial esta noite.
        Hesitei um momento, consciente de que esta seria a primeira vez em que falaria com algum na pele da minha irm, Gisselle. Primeiro, imaginei-a, lembrando-me 
da forma como sempre esboava um trejeito aborrecido quando um criado formulava uma pergunta ou um pedido.
        - Apetece-me uma refeio ligeira. Apenas um pouco de frango e arroz com salada e gua gelada - respondi no tom mais indiferente que consegui e desviando 
os olhos rapidamente.
        - E a menina?
        Dei-lhe instrues para a refeio de Pearl com a mesma
firmeza, e ela esboou um aceno de cabea, retirando-se a toda
a pressa e aparentemente feliz por no ouvir mais nenhum recado.        "A Gisselle era uma megera", pensei. Seria incapaz de agir exactamente como ela.
        
        Mais tarde, quando nos trouxe a comida e ps a mesa, Jill arriscou um sorriso em direco a Pearl, que a mirava com muito interesse. Contudo e logo a seguir, 
deitou-me um olhar receoso, esperando ser repreendida por levar demasiado tempo ou distrair-se. Optei pelo silncio em vez de tentar mostrar-me arrogante.
        - Mais alguma coisa, madame? - perguntou.
        - De momento, no. - Ia a agradecer, mas dominei-me, lembrando-me que era uma expresso que Gisselle raramente usava, excepto de forma sarcstica. Jill tambm 
no estava  espera que o fizesse. J se virara, encaminhando-se para a sada.
        No pensei que tivesse muito apetite, mas estava to nervosa que era como se um pssaro se tivesse alojado no meu estmago e batesse as asas. Achei que seria 
melhor comer qualquer CoIsa. Embora tudo estivesse delicioso, comi mecanicamente, incapaz de fazer algo excepto interrogar-me sobre o que estava a acontecer, como 
Paul e Beau se encarregariam de Gisselle.
        Pensei no choque estampado no rosto de todos quando Paul informasse que algo sucedera e que tinham decidido trazer-me rapidamente de volta. Fiquei em nsias 
at ouvir passos na escada muitas horas mais tarde e abri a porta, avistando Beau, que subia os degraus a dois e dois. Sorriu ao ver-me.
        - Correu tudo bem - informou-me logo, tomando flego. - Os teus criados engoliram o isco e o anzol. - Agarrou-me
nas mos. - Bem-vinda  sua nova vida, Mistress Andreas,  vida que lhe estava destinada.
        Fitei-o e pensei: "Sim... Sou Mistress Andreas, Mistress Beau Andreas."
Abraou-me e apertou-me com fora por um momento, antes de me beijar na testa, para depois percorrer o rosto e premir firmemente os lbios contra os meus.
        
        A nossa primeira noite juntos como marido e mulher no foi to romntica como ambos tnhamos previsto. Apesar do rasgo de coragem, Beau estava to emocionalmente 
esgotado pela provao quanto eu. Depois de nos mantermos deitados na cama algum tempo, abraando-nos e beijando-nos, revelou como se sentira tenso e nervoso com 
a mudana.
        - No sabia muito bem o que o Paul iria fazer - declarou. - Para ser honesto, quase esperava que ele fosse sabotar tudo deliberadamente. Sobretudo depois 
do que me disseras na escada da frente. Comecei a aperceber-me do quanto ele detestava a ideia de perder-te - rematou.
        - Antes de levares a Gisselle para o carro, ele foi at l abaixo falar contigo. O que te disse? - inquiri.
        - Foi mais do gnero de me avisar e ameaar.
        - Porqu? O que te disse?
        - Disse que s acedia porque estava convencido de que era o que desejavas e o que pensavas que te faria feliz, mas se ouvisse uma nica coisa negativa sobre 
a nossa relao, se fizesse algo que te tornasse infeliz, revelaria a troca e poria a nu o nosso embuste. Garantiu-me que no lhe importava a sua reputao nem as 
consequncias que isso pudesse acarretar-lhe. Acredito nele, por isso, nunca lhe contes nada de mau - retorquiu Beau com um semi-sorriso.
        - No haver nada de mau para lhe contar, Beau.
        -
         No. No haver - prometeu. Beijou-me de novo e comeou a acariciar-me, mas eu estava exausta e ainda demasiado nervosa.
        - Guardemos as nossas noites de lua-de-mel para Nova Orlees - decidiu.
        Esbocei um aceno de concordncia e adormecemos nos braos um do outro.
        O nosso plano era o de regressarmos imediatamente a Nova Orlees, explicando que algo de terrvel acontecera  minha irm Ruby, tendo ns de cuidar da filha 
dela entretanto. Ningum pareceu especialmente perturbado por deixarmos o chteau to depressa. Julguei, pelo contrrio, detectar uma expresso de alvio nos rostos 
de Gerhart e de Anna e uma genuna felicidade no de Jill.
        No caminho de regresso a Nova Orlees, Beau revelou que se libertara de toda a criadagem da casa dos Dumas.
        - Oh, no! - exclamei, sentindo pena de todos eles.
        - No te preocupes - tranquilizou-me. - No morriam propriamente de amores por servirem a Gisselle e dei seis meses de salrio como compensao a todos. 
 melhor comearmos com outras pessoas. Ser muito mais fcil para ti - retorquiu, e vi-me forada a concordar.
        Para mim, o facto de voltar  casa dos Dumas foi talvez a parte mais difcil do nosso embuste. Estava um dia bastante nublado em Nova Orlees, com o Sol 
apenas brindando ocasionalmente o mundo com uns raios de luz. As sombras lanadas pelas pesadas nuvens tornavam mais escuras as longas leas ladeadas de carvalhos, 
e o prprio Garden District, com as suas ricas e bonitas casas e os luxuriantes jardins, parecia-me triste e deprimente.
        Todas as janelas tinham as persianas corridas naquela manso de mrmore que havia sido outrora o lar feliz do meu pai. Privada de actividade no interior 
e nas redondezas, a propriedade parecia to deserta e solitria que o corao me pesava dentro do peito como um bocado de chumbo.
        Quando avanmos at  varanda da frente, quase esperei que a minha madrasta, Daphne, surgisse na ombreira da porta e exigisse saber o que estvamos a fazer 
ali. Contudo, ningum apareceu; nada se mexeu,  excepo de um ocasional esquilo cinzento cuja curiosidade fora desperta pela nossa chegada.
        - Chegmos a casa - declarou Beau.
        Esbocei um aceno de cabea, de olhos fixos na escada de mosaico e na porta da frente.
- Descontrai-te - pediu, agarrando-me na mo e sacudindo-a como se pudesse assim afastar o nervosismo do meu corPo. - Vai correr tudo bem.
        Obriguei-me a sorrir e fitei esperanada os seus olhos azuis, brilhantes de excitao. Como estvamos longe daquele primeiro dia em que eu chegara em segredo 
do bayou e ele me conhecera diante da manso, boquiaberta e cheia de expectativa por ante ver-me pela primeira vez em frente do meu verdadeiro pai. Agora, parecia 
ainda mais irnico e talvez mais proftico que, nessa altura, Beau me tivesse confundido com Gisselle, julgando que ela se disfarara de rapariga pobre para o baile 
de mscaras de tera-feira de Carnaval.
        Beau encarregou-se da bagagem e peguei em Pearl ao colo. Ela observava tudo curiosamente. Dei-lhe um beijo na face.
        - Esta vai ser a tua nova casa, querida. Espero que te traga melhor sorte do que a mim.
        - Trar - prometeu Beau.
        
        Caminhou na nossa frente at  porta principal e destrancou-a. Acendeu de imediato os lustres, pois o cu sombrio tornava o trio frio e escuro. As luzes 
fizeram com que o cho de mrmore cor de pssego brilhasse, indo iluminar o mural do tecto, os quadros e a enorme tapearia, onde se desenhava um grande palcio 
francs com jardins. Pearl tinha os olhos arregalados de espanto. Apreendeu tudo rapidamente com o olhar, mas abraou-me com fora.
        - Por aqui, madame - chamou Beau, e a voz ecoou pela manso vazia.
        Enquanto avanava na nossa frente, acendia todas as luzes que podia. Segui-o rapidamente at  bonita escadaria em caracol, com os degraus forrados de uma 
macia alcatifa e a balaustrada de mogno reluzente.
        Apesar do mobilirio antigo, dos quadros luxuosos e das amplas divises, aquela grande casa nunca havia sido um lar para mim. Eu era uma estranha de uma 
terra estranha quando aqui viera viver e, nesse momento, ainda me sentia mais distante.
        Quando pousara os olhos pela primeira vez no interior da manso, parecera-me mais um museu do que uma casa. Agora, com as amargas e tristes recordaes ainda 
bem presentes na memria, sabia que seria um esforo enorme torn-la confortvel e calorosa, bem como sentir-me bem-vinda e segura ali
        - Pensei que talvez quisesses que a Pearl ficasse no teu antigo quarto - sugeriu Beau.
        Abriu a porta do que havia sido o meu quarto e recuou, sorrindo, como um gato satisfeito.
        -O que ?
        Espreitei para o interior. Havia um bero semelhante ao que Pearl tinha em Cypress Woods, com um armrio a condizer e ainda uma pequena secretria e cadeira. 
Abri a boca de espanto.
        - Mas como...
        - Regressei a Nova Orlees logo depois da nossa conversa e paguei a um negociante de mveis o dobro do preo para arranjar tudo para ela - explicou. - Depois, 
voltei rapidamente para o rancho.
Abanei a cabea, surpreendida.
        - Quero que resulte - declarou num tom suave mas determinado. - Para todos.
        - Oh, Beau. - Os olhos encheram-se-me de lgrimas. Pearl parecia feliz e estava ansiosa por explorar o seu novo mundo.
        - Vou fazer uns telefonemas e pr a bola a rolar para conseguirmos novos criados. A agncia enviar candidatos para mordomo, criada e cozinheira.
        - O que vo dizer as pessoas quando ouvirem falar no despedimento da criadagem? - perguntei.
        - Nada. No ser uma surpresa. De qualquer maneira, tenho a certeza de que todos se queixavam da Gisselle. Depois da morte da Daphne e do afastamento do 
Bruce desta casa, tornou-se to tirana e exigente que tive pena deles. Na verdade, vi-me at obrigado a suplicar-lhes que no se fossem embora. - Fez uma pausa. 
- A Gisselle e eu ficmos com a sute da Daphne e do Pierre - disse. - Podes pr-te  vontade - sugeriu.
        
        Peguei novamente em Pearl e segui-o ao longo do corredor. Muito pouco mudara na sute. Continuava a ter a grande cama de dossel e elaborados reposteiros 
de veludo nas janelas. Contudo, o toucador encontrava-se em grande desordem e havia alguma roupa atirada para o sof.
        - A Gisselle no era um exemplo de arrumao. No respeitava os seus bens porque estava constantemente a substitui-los. Passvamos o tempo a discutir por 
causa disso - replicou Beau.
        A porta do roupeiro estava aberta, revelando-me uma ampla exposio de saias, blusas e vestidos, alguns precariamente penduradas dos cabides e outros cados 
no cho do roupeiro.
        - A Gisselle vai sofrer algumas notrias mudanas de personalidade - comentei.
        Beau riu-se.
        - No com demasiada rapidez - avisou.
        O telefone tocou e ambos olhmos para ele.
        - No temos de responder - disse Beau.
        - Talvez seja o Paul. Temos de comear algum dia e podemos faz-lo de imediato, Beau. Se no conseguir enganar desta vez, ficaremos logo a saber.
        Ele esboou um aceno de cabea e pareceu apreensivo quando me dirigi ao telefone.
        - Espera - chamou. - Se for uma das amigas dela, saberei qual. - Pegou, no auscultador. - Est? - Escutou. - Sim. Ela est aqui.  a Pauline - indicou e 
estendeu-me o auscultador. - Pode ser perversa - sussurrou.
        Agarrei no auscultador com mos trmulas.
        - Sim?
        - Gisselle? Telefonei para o rancho e disseram-me que tinhas viajado para Nova Orlees. Julguei que ias ficar mais uma semana. Convenci o Peter a ir at 
l. Pensei que teramos uma festa, afinal...  uma sorte ter decidido telefonar antes. Poderia ter feito toda a viagem para nada. O que aconteceu? Porque no me 
telefonaste? - acrescentou, irritada.
        Respirei fundo, lembrei-me de como a minha irm falava ao telefone e respondi:
        - O que aconteceu? - disse. - Ora, foi s uma desgraa.
        - O qu? - exclamou Pauline.
        - A minha irm apareceu de visita e foi mordida por mosquitos - expliquei, como se a culpa fosse da minha irm.
        - Isso  uma desgraa?
        -Apanhou... Beau, como  que se chama aquela estpida doena?
        Ele sorriu-me.
        -Encefa... qualquer coisa - proferi, depois de ter fingido escutar. - Est em coma e tive de trazer a criana comigo.
        - A criana?
        - A filha da minha irm.
        - Ests a tomar conta de uma criana? - indagou, surpreendida.
        - At contratar algum - redargui, petulante. - Porqu?
        - Nada. Como sei o que pensas das crianas...
        - No sabes nada sobre mim, Pauline - ripostei na minha melhor imitao da voz de Gisselle.
        - Desculpa!
        - Ests desculpada.
        - S queria dizer...
        -
         Sei o que querias dizer. Olha, neste momento no tenho tempo para perder ao telefone com conversas estpidas. Tenho responsabilidades mais importantes.
- Desculpa. No te incomodarei.
- ptimo. Adeus - despedi-me e pousei o auscultador.
        - Incrvel! - exclamou Beau. - Por um momento, julguei que eras a Gisselle e que tinha realmente levado a Ruby de volta a Cypress Woods.
A prpria Pearl fitava-me com uma expresso admirada.
        Respirei aliviada. Talvez no fosse to difcil como imaginara, pensei. Na verdade, Beau ficou to impressionado com a minha actuao que decidiu que devamos 
ir a um dos luxuosos restaurantes frequentados por ele e Gisselle e deixar que a sociedade de Nova Orlees ficasse o mais depressa possvel ao corrente da histria.
        Senti um aperto de pnico no estmago.
        - Achas, Beau? Talvez seja demasiado cedo.
        - Que disparate! - ripostou, confiante. - Instala-te, escolhe qualquer roupa, algo do gnero da Gisselle - salientou -, e eu vou tratar de uns negcios. 
Bem-vinda a casa, querida - disse, beijando-me ternamente nos lbios.
        Sentia-me receosa quando ele saiu apressadamente e me voltei para examinar o roupeiro da minha irm.
        

12

DUPLA IDENTIDADE
        
        A nossa primeira noite como Beau e Gisselle Andreas foi um grande sucesso. Pus um dos vestidos sem alas de Gisselle com um corpete justo. Beau riu ante 
a forma como reagi  minha imagem no espelho. Quase todos os vestidos dela tinham decotes cavados que revelavam mais dos seios do que eu desejaria.
        - A tua irm ia sempre at aos limites quando se tratava do que era ou no aceite pela sociedade - declarou Beau. - Julgo que lhe agradava irritar a alta 
sociedade.
        - Bom, no  o meu caso.
        - Mesmo assim, ests encantadora - elogiou, recuando com um sorriso sensual estampado no rosto. Riu. - Nada havia que a Gisselle mais gostasse do que entrar 
num elegante e luxuoso restaurante e fazer com que as cabeas se virassem  sua passagem.
        - Corarei tanto que todos vo saber quem sou realmente!
        - Pensaro que  uma forma de seduo por parte da Gisselle - comentou Beau.
        Cabeas viraram-se quando entrmos no restaurante. Beau levava ao colo Pearl, que parecia adorvel com o conjunto de marinheiro que lhe tnhamos comprado. 
Tentei imaginar a arrogncia e insolncia de Gisselle, mas, quando as pessoas me fitavam, os rostos transformavam-se numa mancha gigantesca e baixava instintivamente 
os olhos.
        Todavia, nenhum dos conhecidos de Beau e Gisselle deu mostras de qualquer suspeita. Atribuam  actual situao trgica qualquer nervosismo ou comportamento 
invulgar detectados. Gisselle nunca perdia uma oportunidade de exibir o seu sofrimento perante os outros. Reparei, porm, que a maioria das pessoas denotava mais 
compaixo por Beau do que por mim e apercebi-me rapidamente de que aquelas amizades de Beau e Gisselle se deviam sobretudo a ele.
        Ao cumprimentar, Beau anunciava argutamente o nome das pessoas, antes que eu tivesse de dizer algo.
        - Marcus, Lorraine, como esto? - perguntou, quando eles se aproximaram da mesa.
        - De quem  esta encantadora criana? - inquiriam quase todos.
        - Da minha irm - respondia com um trejeito. - Mas por agora e talvez para sempre encontra-se  minha responsabilidade.
        -Oh!
        A surpresa dava o mote para que Beau explicasse. Sempre que algum denotava simpatia por mim, tal devia-se apenas ao fardo que tinha de suportar.
        - Como podes ver - comentou Beau no regresso a casa -, na sua maioria, as amizades da Gisselle so artificiais. Costumava reparar que nem sequer se ouviam 
ou se interessavam muito pelo que diziam entre si.
        - As cobras da mesma cor atraem-se, costumava dizer a Grandmre - respondi-lhe.

        
        Ficmos ambos to encorajados pelas minhas primeiras actuaes no papel da minha irm, que o corao nos batia leve e alegremente quando voltmos a casa. 
Beau marcara entrevistas para o dia seguinte, esperando contratar novos criados assim que possvel.
Deitei Pearl no seu novo bero no meu antigo quarto, pensando como era maravilhoso que tal acontecesse. O meu pai orgulhara-se tanto das minhas reaces perante 
a casa, os jardins da propriedade. Para mim, fora uma porta para o Pas das Magias. Quem me dera que tambm o fosse para Pearl.
        Beau veio por trs de mim e pousou as mos nos meus ombros e os lbios no pescoo.
        - Sentes-te melhor? - inquiriu meigamente.
        - Sim.
        - Um bocadinho feliz?
        - Um bocadinho - anui.
        Riu-se e virou-me para ele, beijando-me longa e apaixonadamente. Em seguida, um pequeno sorriso desenhou-se-lhe nos lbios bem modelados.
        - Sabes que esta noite estavas muito sexy?
        - Em frente da Pearl, no - repreendi suavemente quando Os dedos comearam a baixar a parte da frente do vestido. Riu e pegou-me ao colo para me levar para 
a nossa sute. Depois de me ter pousado cuidadosamente na cama, recuou e esboou um estranho sorriso.
        - O que foi? - indaguei.
        - Vamos fingir que  esta realmente a nossa primeira noite juntos como marido e mulher, a nossa noite de lua-de-mel. Nunca fizemos amor um com o outro. Acaricimo-nos, 
beijmo-nos longamente, mas sempre te respeitei quando te fiz a corte e sempre me disseste que esperasse. Bom. Agora somos casados; agora, chegou a altura - declarou.
        - Oh, Beau...
        Ajoelhou-se e ps-me os dedos nos lbios.
        - No fales - pediu. - As palavras so despropositadas agora.
        Sentei-me calmamente, enquanto ele me fazia deslizar o vestido pelos braos. Beijou-me os ombros, agora reluzentes  luz suave do luar que entrava pela janela 
do nosso quarto. Desapertou-me o soutien e tirou-mo.
        Por momentos, limitou-se a contemplar-me. O corao batia-me com tanta fora que julguei que ele pudesse ver o palpitar. Comeou a acariciar-me devagar. 
Gemi e deitei-me para trs nas macias e fofas almofadas. Fechei os olhos e fiquei a ouvir o som da roupa dele a cair. Permaneci muito quieta, enquanto ele acabava 
de me despir e, momentos depois, fazia deslizar o corpo nu sobre o meu.
        "Curioso o poder que a iluso tem sobre ns", pensei, porque fizemos amor como se fosse a primeira vez. Cada beijo era um beijo novo, cada caricia uma caricia 
nova. Fizemos descobertas mtuas, escutmos os gemidos e respirao ofegante de ambos, como se se tratasse de coisas nunca ouvidas. A nossa paixo era to grande 
e to profunda que me provocou lgrimas de prazer. Se dantes declarramos o nosso amor, declarmo-lo, agora, centenas de vezes enquanto acaricivamos repetidamente 
o mais fundo de ns.
        
        Foi exaustivo mas levou-nos ao xtase, deixando-nos cansados mas satisfeitos. Todos os problemas e dificuldades que tnhamos pela frente perderam significado. 
O amor ofereceu-nos uma sensao de invulnerabilidade, pois uma paixo como a nossa decerto seria abenoada e protegida. Era imortal, indestrutvel, invencvel. 
Adormecemos nos braos um do outro, cheios de confiana, e os meus sonhos ganharam as asas da fantasia.
        O toque do telefone de manh cedo, ainda antes de Pearl acordar, sobressaltou-nos. Beau resmungou. Por uns momentos esqueci-me onde estava. Pestanejei, confusa, 
e esperei que a minha memria acertasse o passo com os sentidos. Beau pegou no auscultador e sentou-se na cama com esforo.
        - Est? - perguntou num tom rouco. Escutou durante tanto tempo sem falar que fiquei curiosa; afastei o sono dos olhos e sentei-me ao lado dele.
        - Quem ? - sussurrei.
        Tapou o auscultador com a mo.
        - O Paul - respondeu e voltou a escutar. - ptimo. Fizeste o que devias. Mantm-nos ao corrente. No. Ela ainda est a dormir - acrescentou, fazendo-me sinal 
com os olhos.
-        Eu digo-lhe. Certo. Obrigado. - Desligou o telefone.
        -O que foi?
        - Disse que o mdico aconselhou a que se internasse a Gisselle num hospital para fazer testes. O mdico fez um diagnstico inicial semelhante ao do meu, 
mas no se mostrou to pessimista quanto ao resultado.
        - Como  que ela passou a noite? - inquiri.
        - O Paul disse que teve alguns perodos de conscincia, mas balbuciava coisas to incoerentes que ningum suspeitou de nada.
        - O que vai acontecer, Beau?
        - No sei. O meu mdico mostrou-se to peremptrio a respeito da sua condio. - Pensou um momento e abanou a cabea. - No me parece que algo se modifique.
        - No quero ver-me a desejar que ela fique doente e morra, Beau. Seria infelicissima, sabendo que a minha felicidade se baseava nesse desejo.
        - Eu sei. No interessa o que desejares, acredita - declarou num tom seguro. - Tudo isto se situa para l do que qualquer de ns deseja, at mesmo o Paul 
- acrescentou. - Bem. Podes sair da cama e comear o dia. - levantou-se, mas eu deixei-me ficar sentada.
        As manhs tinham sempre uma forma de nos acordar para a realidade, reflecti. A realidade cavalgava na cauda do sol, apagando a magia que experimentvamos 
sob as estrelas e ao luar. Ouvi o choro de Pearl e levantei-me, ao mesmo tempo que a sensao de recomear se instalava.
        H algum tempo que no entrava numa cozinha, mas cozinhar para mim assemelhava-se a andar de bicicleta. Mal deitei mos ao trabalho, lembrei-me de tudo e 
no s preparei o nosso pequeno-almoo, como comecei igualmente a fazer gumbo para a nossa refeio posterior. Beau ignorava se conseguiria regressar para o almoo.
        - Desde que o Bruce se foi embora que tenho dirigido as empresas da famlia Dumas - explicou. - A Gisselle pouco mais fazia, obviamente, do que levantar 
cheques e gastar dinheiro. Os negcios aborreciam-na.
        - Era o Paul quem se encarregava sempre dos nossos assuntos - repliquei -, mas no me importaria de participar e tornar-me uma verdadeira mulher de negcios.
        Ele abanou a cabea.
        - Porque no? - inquiri.
        -
         Todos os que trabalham para ns sabem como  a Gisselle.
        - Diz-lhes que sofri uma sbita mudana de temperamento devido ao que aconteceu  minha irm. Diz-lhes que... me tornei religiosa.
        - Religiosa? A Gisselle? Ningum acreditaria nisso, mon chre.
        - Bom. Ento, diz-lhes que me lanaram um feitio vudu - sugeri meio a srio.
        - De acordo - anuiu, a rir. - Arranjaremos maneira de explicar os teus novos interesses. Teremos de avanar com cautela, a fim de no levantar suspeitas. 
Farei o que tem de ser feito. Tenho trs entrevistas marcadas com incio s duas da tarde: candidatos a mordomo, criada e cozinheira.
        - Podia encarregar-me da cozinha - sugeri.
        - A Gisselle era incapaz de ferver gua sem a deixar queimar - lembrou-me.
        Sentia-me uma graciosa bailarina que se via repentinamente obrigada a parecer desajeitada. Todos os meus talentos tinham de permanecer ocultos. Beau beijou-me 
na face, beijou Pearl e saiu apressadamente para o escritrio.
        Depois de se ter ido embora, levei Pearl a conhecer a nossa nova casa. Ela adorou os nossos terraos, repuxos e jardins, mas mostrou-se especialmente entusiasmada 
quando entrou no meu antigo estdio. Soltou uma gargalhada ante a descoberta familiar de cavaletes, molduras, tintas, leos e argila. Bateu palmas, pousei-a no cho 
e dei-lhe lpis de cor e algum papel para se entreter, enquanto eu comeava a reorganizar o meu estdio.
        Embrenhei-me a tal ponto no trabalho e na recordao do quadro que pintara ali que s ouvi as pancadas no caixilho da janela momentos depois de terem comeado. 
Tornaram-se mais intensas e, ao virar-me, avistei um homem jovem, de cabelo encaracolado, que me sorria. Estava vestido com uma camisa azul de manga curta e calas 
de ganga; a camisa aberta no peito revelava uma corrente de ouro com um medalho. Era um homem elegante, com mais de um metro e oitenta, rosto moreno. olhos castanho-claros, 
cabelo muito claro e no me parecia ter mais de vinte e quatro ou vinte e cinco anos.
- Abre a janela - gritou.
Caminhei devagar na sua direco e abri o fecho.
        - A Pauline disse-me que tinhas voltado. Porque no telefonaste? - perguntou, ao mesmo tempo que se punha a trepar pela janela.
        Recuei, surpreendida, mas demasiado chocada e confusa para falar. Mal se viu l dentro, estendeu as mos para me agarrar pelos ombros, beijando-me apaixonadamente 
nos lbios, rodando a cabea e enfiando a lngua na minha boca. Soltei uma exclamao abafada e furtei-me ao abrao.
        - O que h? - retorquiu, com um trejeito. - A Pauline contou-te alguma coisa? Se assim foi, no  verdade. A Helaine Delmarco s esteve aqui uns dias e os 
pais dela e os meus so como famlia. Penso nela como tu pensarias na tua irm.
        - A Pauline no me contou nada - garanti.
        - Oh! - Ouviu Pearl com o seu balbuciar de criana e, ao espreitar pelo canto do sof, avistou-a sentada no cho. - Quem ?
        -
         A filha da minha irm.  esse o motivo por que regressmos to depressa. A minha irm ficou muito doente. Est no hospital e eu estou a cuidar da criana.
        - A srio? Tu? Ofereceste-te como voluntria?
        - No propriamente.
        - Calculo - comentou, a rir. - Acho que no o farias. Nesse caso, tudo bem. Perdoo-te. - Avanou novamente na minha direco. - O que se passa? - indagou 
quando recuei um passo e depois sorriu. - Estive  espreita at ter a certeza de que o Beau se demoraria um bocado. Onde foi ele? Ao escritrio?
        - No. Volta daqui a pouco - repliquei.
        - Oh! Que pena - murmurou, desapontado. - Julguei que iramos recuperar o tempo perdido. Sobretudo aqui. Vivemos uns bons bocados aqui, no? - replicou, 
com um sorriso lascivo estampado no rosto. - Neste mesmo sof - acrescentou. - Continuo sem saber porque  que era to importante que o fizssemos aqui - continuou. 
- Na verdade, tanto quanto me lembro, era um pouco desconfortvel. No que esteja a queixar-me - rematou.
        Aquela revelao surpreendeu-me tanto que a expresso do meu rosto o intrigou.
        - O que se passa? No te recordas? Fazes amor tantas veZes e em tantos lugares que te esqueceste?
        - No me esqueci de nada - retorqui, com ar enfatuado.
        Esboou um aceno de cabea e voltou a fitar Pearl.
        - Ento, quando  que te vejo? Podes ir ao meu apartamento mais tarde?
        - No - recusei, talvez com demasiada rapidez. Ele semicerrou os olhos e continuou a examinar-me, curioso. O bater acelerado do corao ruborizou-me as faces. 
Sabia que estava coradssima.
        - Por qualquer motivo, no s tu...
        - E serias, se a tua irm gmea tivesse apanhado uma doena fatal e te deixassem a cuidar da filha dela porque o marido estava demasiado perturbado?
        - Fatal? Lamento. No tinha percebido que era assim to srio.
        - Mas  - ripostei.
        - Porque  que no contratas algum para tratar dela por ti? - indagou, passado um momento.
        - Tenciono faz-lo, mas no j. Pelo menos, tenho de fingir que me importo - redargui.
        - Ela  uma bonita rapariguinha - observou, fitando novamente Pearl. - Mas todas as crianas so assim. - Avanou novamente na minha direco, com um olhar 
meigo e suplicante e os lbios rasgados num sorriso lascivo. - Senti a tua falta. No sentiste a minha?
        - Sinto a falta da minha liberdade - ripostei.
        Pareceu no apreciar a resposta e fez um trejeito.
        - No te mostraste to indiferente na noite antes de te ires embora. Gemeste to alto que julguei que teria problemas com os vizinhos.
        - Ah, sim? - redargui, indignada. - Pois no ters mais problemas com os vizinhos. Soltarei os meus gemidos em casa - acrescentei, com as mos nas ancas, 
bem  maneira de Gisselle, e meneando a cabea.
        -O qu?
        -
         Foi isso o que ouviste. - A minha voz adquirira o tom cortante da navalha. - Agora, vai-te embora antes que o Beau regresse e tenhas de justificar as mossas 
 famlia.
        Abanou a cabea.
        - At parece que s tu quem tem a doena fatal e no a tua irm.
        - Queres sair daqui? - protestei, impaciente, apontando para a janela.
        - Mudars de opinio - garantiu. - Vais aborrecer-te e telefonar. Sei que o fars.
        - No contes muito com isso.
        A minha reaco confundiu-o. Percebi que se esforava por compreender e construiu uma teoria.
        - Encontraste outra pessoa, ? - acusou. - Quem? O Kurt Peters? No, no irias para a cama com o Kurt. No tem pedalada para ti. Ah, j sei. O Henry Martin, 
no ?
        -No.
        -  o Henry, no ? - Esboou um aceno de cabea a convencer-se. - Devia ter percebido que viria a acontecer quando me disseste que o achavas giro. Como 
 ele? To excitante na cama como eu?
        - S ando a dormir com o Beau - respondi; ele atirou a cabea para trs, soltando uma gargalhada.
        - Tu? A dormires com um nico homem? No me faas rir. Ora - rematou, encolhendo os ombros com um ar indiferente. - Passmos uns bons bocados. O Carey Littlefield 
avisou-me que no esperasse demasiado por muito tempo. Portanto, como vs, querida Giselle, a tua reputao precede-te. O nico que parece distrado  o teu querido 
Beau Andreas. Ou talvez... no seja to distrado como pensas. Talvez tambm ele tenha encontrado outras diverses.
        - Fora! - gritei e apontei para a janela.
        - Eu vou. No te preocupes. - Fitou novamente Pearl que observava a cena, surpreendida e um tanto receosa, pois eu levantara a voz. -  melhor que arranjes 
rapidamente algum para cuidar dessa criana, antes que ds cabo dela - acrescentou, dirigindo-se  janela. - Au revoir, Gisselle. Nunca me esquecerei da maneira 
como gritaste quando te beijei esse pequeno sinalinho por baixo do teu seio - acrescentou, enquanto ria e se iava para fora da janela.
        Acenou e desapareceu to rapidamente como aparecera. S ento deixei sair o ar que tinha preso nos pulmes. Estendi a mo para trs em busca do sof, onde 
me afundei.
        A minha irm mantivera ligaes com outros homens depois de ter casado com Beau. Aparentemente ele ignorava, pois no me dissera nada. Quantos mais homens 
iriam surgir furtivamente na casa ou telefonariam? Desta vez tivera sorte, mas o prximo poderia ser mais perspicaz.
        Devia ter calculado que Gisselle estaria envolvida com outros homens, reflecti. Ela s se casara com ele para me espicaar e para o exibir. J quando andava 
com ela no liceu, tinha sempre outros rapazes... Fosse quem fosse o homem que estivera ali, tinha razo. Um nico homem nunca chegara para Gisselle. Sempre a pensar 
no que estaria a perder...
"Eu jamais poderia ser assim", conclui. As amigas no tardariam a passar palavra de como se tornara subitamente diferente, mas esperava que no tivessem a esperteza 
suficiente de imaginar porqu.
        
        Recompus-me e continuei a trabalhar no meu estdio. Uma hora e pouco depois, Beau telefonou a dizer que, afinal, viria almoar.
        - ptimo - repliquei, e ele apercebeu-se da tenso na minha voz.
        - Algo de errado?
        - Tive uma visita.
        - Oh? Quem?
        - Um dos amantes secretos da Gisselle - revelei, e ele ficou silencioso uns momentos.
        - Devia ter-te preparado para isso - redarguiu.
        - Sabias?
        - Digamos que tinha fortes suspeitas.
        - Ento, porque no me contaste, porque no me preparaste? - ripostei. O silncio dele confirmou a minha teoria. - Receavas que no me dispusesse a passar 
por tudo isto, no '?
        - Sim, um pouco.
        - Devias ter-me contado, Beau. Poderia ter sido um grave problema.
        - Eu sei e lamento. O que fizeste? Como correu? No...
        - Claro que no. Mostrei-me irritada com tudo e corri com ele. Acusou-me de dormir com outro. Nem sequer me lembro do nome.
        - Como era ele?
        Descrevi-o rapidamente, e Beau soltou uma gargalhada.
        - O George Denning. No admira que se mostrasse sempre to simptico comigo. - Soltou mais uma gargalhada. - Julguei que pudesse ter escolhido algum mais 
bem-parecido.
        - No te importas de saber isto agora e confirmar as tuas suspeitas, Beau?
        - No - respondeu. - Agora que te tenho, deixou de haver passado. S existe o presente e o futuro - rematou.
        - Beau - interrompi, antes de permitir que ele acabasse a conversa. - Tambm te encontravas com outras mulheres?
        - Tambm - confessou. - Contigo. Recordas-te?
        - Refiro-me a... outras mulheres.
        - No. A minha mente, os meus olhos, a minha alma estavam somente presos a ti, Ruby.
        - Vem para casa, Beau. Sinto-me um pouco abalada.
        - Est bem. Vou despachar-me - prometeu e desligou.
        At agora, conseguramos resistir a todos os desafios e testes. Tinha, porm, a certeza de que eles continuariam numa sequncia dura e difcil. Voltei a 
atirar-me ao trabalho e mantive-me ocupada para no me preocupar; no entanto, ao almoo, Beau revelou que tnhamos de nos preparar para o maior desafio de todos.
        - Os meus pais - anunciou. - Regressam das frias na Europa dentro de dois dias. Teremos de ir jantar l a casa.
        - Oh, Beau. No tardaro a perceber as diferenas... e lembra-te de como me detestavam, graas a Daphne - recordei-lhe.
        -
         No sero mais perspicazes do que os outros - garantiu-me. - A verdade  que no nos viram com muita frequncia depois de casarmos. A Gisselle no gostava 
muito da minha me, e o meu pai era demasiado srio e impecvel para o gosto dela. Podia contar pelos dedos as vezes que estivemos juntos. Sempre que isso aconteceu 
a Gisselle mostrava-se, por regra, sossegada e calma. E no teremos de conviver muito - acrescentou; de qualquer maneira, sentia-me nervosa pelo facto de ir encontr-los 
na pele de Gisselle.
        Nessa tarde, entrevistmos os candidatos a mordomo, criada e cozinheira. O mordomo era um altivo ingls, com cerca de um metro e oitenta, cabelo grisalho 
e olhos cor de avel. Usava culos de aros grossos, que passavam o tempo a descair at  ponta do nariz, mas era um homem simptico que trabalhara, sem dvida, para 
ptimas famlias. Chamava-se Aubrey Renner e tinha um sorriso amvel e caloroso.
        A criada chamava-se Sally Petersen. Era uma mulher alta e magra, na casa dos quarenta e tal, com um rosto comprido, olhos grandes e um nariz afilado pendente 
sobre a boca de lbios muito finos. Percebi que para ela ser criada era uma profisso e no um emprego. Pareceu-me uma pessoa muito responsvel, um pouco dura, mas 
eficiente.
        A nossa cozinheira era uma mestia de pele clara que dizia ter sessenta, mas avaliei mais prxima dos setenta. Intitulava-se Mrs. Swann e acrescentou que 
nos tempos que corriam raramente se incomodava a dizer o seu nome prprio s pessoas, Delphinia, pois a faria parecer demasiado rica.
        Era uma mulher baixa, que no teria mais do que um metro e cinquenta e cinco, braos rolios e um rosto gorducho. No entanto, devia ter sido uma jovem bonita 
nos seus tempos. Possuia olhos pretos, lbios de coral e dentes cor de prola. Trabalhara durante a maior parte da sua vida na casa de duas abastadas famlias crioulas. 
Fiquei com a sensao de que se tinha reformado e depois se aborrecera.
        Aps o pessoal ter sido contratado, Beau achou que deviamos procurar a ama para Pearl. Mostrei-me, contudo, relutante em colocar to depressa outra pessoa 
a cuidar da nossa filha.
        -  algo que a Gisselle faria imediatamente - recordou-me Beau.
        Como se a sorte decidisse tomar as rdeas, um amigo dele conhecia uma francesa que tinha trabalhado como preceptora e ama e estava actualmente desempregada. 
Chamava-se Edith Ferrier. Beau mandou-a apresentar-se no dia seguinte. Durante a entrevista, descobri que fora casada mas apenas por pouco tempo. O marido morrera 
num desastre de comboio e o trauma deixara-a aterrorizada quanto a firmar outra ligao amorosa.
        Era uma mulher suave de cinquenta e quatro anos, com cabelo curto e preto permeado de fios brancos, uma boca de trao agradvel e caloroso, uns olhos quase 
tristes e castanhos que se iluminaram ao ver Pearl. Tratar e cuidar dos filhos dos outros tornara-se toda a sua vida, todos eles substituindo os filhos que nunca 
tivera. De inicio, Pearl mostrou-se um pouco desconfiada, mas a voz calma e amistosa de Mrs. Ferrier suscitou-lhe o interesse, e dentro em breve deixava que Mrs. 
Ferrier lhe mostrasse como fazer um novo puzzle.
        Beau entrevistara todos os candidatos antes de mim e explicara-lhes a situao: que estvamos a ocupar-nos da filha da minha irm. Poucas perguntas foram 
feitas e, como nenhum deles conhecera a minha irm, no tinha de fingir. Beau vincou que o secretismo sobre a famlia e assuntos privados era de primeira importncia. 
Quem fosse indiscreto, seria imediatamente despedido.
        
        Estvamos os dois felizes com as pessoas que havamos contratado. A reconstruo das nossas vidas parecia estar no bom caminho; porm, antes de conseguir 
tomar flego e descontrair, Beau recordou-me que os pais dele j se encontravam em Nova Orlees e o nosso jantar estava combinado para a noite seguinte.
        Nunca chegara, de facto, a conhecer bem os pais de Beau quando vivera ali, na cidade. Logo de incio, e por causa da minha madrasta, Daphne, tratavam-me 
como um pedao de lixo. Eram pessoas que adoravam o seu lugar na alta sociedade, que viam o nome mencionado repetidamente nas colunas sociais e a fotografia nos 
jornais por frequentarem ou apadrinharem bailes de caridade e acontecimentos do gnero.
        - Podes vestir algo que esteja mais de acordo com a tua personalidade, se quiseres - sugeriu Beau. - A Gisselle sabia como eram os meus pais e, pelo menos, 
fazia um esforo para no os antagonizar pondo um dos seus conjuntos provocantes. Costumava usar tambm algumas das jias da Daphne. E a maquilhagem era igualmente 
um pouco menos pesada.
        - Prefiro usar as minhas jias. Os teus pais no notaro a diferena. - No queria tocar em nada que tivesse pertencido  minha terrivel madrasta, embora 
as coisas dela fossem caras e bastante requintadas.
        Resolvemos que seria mais fcil para ns se deixssemos pearl em casa. Os meus joelhos batiam um de encontro ao outro quando subimos o acesso  manso dos 
Andreas na Chcstnut Street, que era uma das famosas casas antigas datando de 1850. Tratava-se de um exemplo clssico da arquitectura revivalista grega com varandas 
da frente duplas, colunas jnicas por baixo e corintias por cima. Beau vincou quanto o pai se orgulhava da casa, nunca perdendo uma oportunidade de descrever o seu 
significado histrico para o Garden District.
        - A Gisselle mostrava-se pouco interessada nas preleces dele e houve uma vez em que chegou a bocejar quando ele falou sobre as janelas dep da casa.
        - E como so? Se no me recordar...
        - Se fosse a ti, no me preocupava. A Gisselle pouca ateno prestava s nossas conversas e os meus pais sabiam. As janelas dep servem de portas, quando 
se abre um painel de madeira por baixo delas. No ligues. O meu pai no vai fazer uma visita guiada. Tentou uma vez com a Gisselle e ficou desapontado com as reaces 
dela.
        - Ento no gostaram mais da Gisselle do que de mim?
        - No muito - acedeu, sorrindo.
        Parecia divertido, mas tudo aquilo ainda me enervava mais. Como devia comportar-me, sabendo que os pais no se sentiam felizes por ele ter casado comigo?
        O mordomo abriu-nos a porta e percorremos o longo corredor at  sala de estar onde os pais dele esperavam. O pai, com quem Beau tinha mais parecenas, embranquecera 
consideravelmente nas tmporas desde a ultima vez que o vira. Beau herdara o nariz aquilino do pai e o maxilar vincado. Era apenas alguns centmetros mais alto que 
o pai, que mantinha uma figura bastante elegante para um homem da sua idade. Naquela noite, vestira um smoking branco com um lao preto. O rosto tinha cor, acentuando 
os olhos muito azuis.
        
        A me de Beau, uma mulher quase to alta como o pai dele, ganhara algum peso desde o nosso ultimo encontro. O cabelo mantinha o tom castanho-claro e usava-o 
muito penteado e com laca. Nunca se bronzeava, pois pertencia quela gerao da classe alta que achava que o bronzeado fazia com que uma pessoa parecesse vulgar, 
como um trabalhador de rua que passa a maior parte do tempo exposto ao sol. O trao mais agradvel das feies residia nos olhos cor de esmeralda, que emprestavam 
algum brilho ao rosto grave e firme.
        - Vm atrasados - observou o pai, dobrando o jornal e levantando-se.
        - Desculpa. Ol, me - cumprimentou Beau e foi beij-la. Ela virou o rosto, oferecendo-lhe a face. - Pai - disse e apertou-lhe a mo.
        - Foi o beb - repliquei subitamente. - Seno teramos chegado a tempo.
        - No disseste que tinhas contratado uma ama? - dirigiu-se a me a Beau.
        - Sim, mas...
        - Ela  uma menina mimada e tive de ajudar a acalm-la - interferi.
        Tratava-se de uma desculpa mal arquitectada, mas era algo que se esperaria que Gisselle dissesse.
        - Ah, sim? - replicou o pai de Beau, erguendo as sobrancelhas. - Bom. Talvez agora vocs os dois comecem a pensar em ter filhos brevemente. Estou  espera 
de um neto.
        - Se todas as crianas forem como a da minha irm, acho que vou procurar num convento - repliquei.
        Era quase como se Gisselle se tivesse metido no meu corpo fazendo aquele tipo de comentrio. Beau sorriu, e os seus olhos brilharam, deliciados.
        - Acho que podemos passar  sala de jantar. O jantar est pronto - declarou o pai.
        - O que aconteceu exactamente a essa rapariga cajun? - perguntou a me de Beau, enquanto nos dirigamos  sala de jantar. Beau forneceu as explicaes possveis.
        - E no esperam que recupere? - interessou-se o pai
        Beau deitou-me um rpido olhar antes de responder.
        - No parece muito vivel - disse.
        - Bom. O que tencionas fazer com a criana? Porque  que no a mandas para o pai? - sugeriu a me. - J foi uma experincia bastante m quando a Daphne e 
o Pierre tentaram manter aquela rapariga cajun l em casa.
        - Ele est emocionalmente muito em baixo, me.
        - No h nenhuma famlia cajun que possa cuidar dela? A verdade, Beau,  que tu e a Gisselle tero um dia a vossa famlia e...
        - De momento, est tudo em ordem. No est, Gisselle.?
        - De momento - anui, o que pareceu agradar  me de Beau.
        - Contem-nos a vossa viagem  Europa - pediu Beau, e a
maior parte da noite foi preenchida com as descries da visita. Antes do fim do sero, Beau e o pai embrenharam-se numa discusso de negcios e a me perguntou 
se me interessaria ver algumas das coisas que comprara na Europa.
        - Est bem - acedi, pouco entusiasmada.
        Se no fossem coisas compradas para Gisselle, ela no se interessaria. Segui a me at  sute principal, onde ela me mostrou os novos e elegantes vestidos 
que comprara em Paris, bem como os chapus e os sapatos. Contou-me, orgulhosa, que comprara coisas que apenas estariam na moda em Nova Orlees no prximo ano e depois 
deu-me um presente.
        -
         Pareceu-me que irias gostar - disse. - Comprmos-te isto em Amesterdo.  o melhor lugar para compras deste gnero
        Havia uma pulseira de diamantes na caixa. Era original e sabia que devia ter sido cara, mas lembrei-me que Gisselle nunca ligava ao preo e aceitava tudo 
com indiferena.
        -  gira - comentei, pondo-a no pulso.
        - Gira?
        - Quero dizer... bonita. Obrigada, me - agradeci; ela arregalou os olhos. Segundo parecia, Gisselle nunca a tratara por me. Fitou-me com uma expresso 
curiosa. Engoli em seco, com os nervos  flor da pele.
        - Ainda bem que aprovas - pronunciou, finalmente.
        - Vamos mostr-la ao Beau - repliquei, ansiosa por no estar tempo de mais ao lado dela. Estava a ficar com pele de galinha;
        -  muito bonita! - exclamou Beau com o entusiasmo que se impunha. O pai esboou um aceno de cabea e a me pareceu mais satisfeita.
        Senti-me aliviada quando a noite chegou ao fim e samos para regressar a casa.
        - Acho que dei um passo em falso l em cima - comuniquei de imediato a Beau. - Tratei a tua me por "me", depois de ela me ter dado a pulseira.
        -Sim... A Gisselle s lhe chamava Madame Andreas ou Edith. A minha me no  o tipo de mulher que se aproxime facilmente das outras mulheres, e a Gisselle 
nunca fez qualquer esforo para ser uma verdadeira nora. Mas acho que te saste muito bem.
        - Mal disse uma palavra ao jantar.
        - Tal como a Gisselle se comportava. O meu pai  muito antiquado. No lhe desagradam as mulheres calmas... s abria excepo com a Daphne, porque era uma 
mulher muito astuta no negcio. Na verdade, gostava bastante dela e acho que a minha me tinha mesmo alguns ciumes.
        No queria diz-lo, mas achava que Daphne e o pai de Beau teriam feito um bom par.
        - De qualquer maneira - prosseguiu Beau -, mais um teste passado. - Apertou-me a mo, com um brilho feliz no olhar.
        Ele tinha razo: estvamos a sair-nos bem. Todavia, quando chegmos a casa, tnhamos uma mensagem para telefonar a Paul.
        - Ele disse que era urgente, madame - indicou Aubrey.
        - Obrigada, Aubrey. Primeiro, deixa-me ver como est a Pearl, Beau. - Subi as escadas rapidamente e encontrei-a quase a dormir. Mrs. Ferrier apareceu do 
quarto contguo e informou-me que tudo estava em ordem. Desci em seguida ao escritrio e telefonei a Paul, enquanto Beau se conservava sentado no sof.
        -  pior do que julgvamos - anunciou num tom de voz to baixo e desalentado que julguei estar a ouvir um estranho. As palavras tambm me chegavam um tanto 
distorcidas, sugerindo que estivera a beber. - O meu mdico afirma que  o caso mais grave que alguma vez diagnosticou. Teve graves convulses epilpticas e agora 
est num coma profundo.
        - Oh, no, Paul. O que  que o mdico diz, agora?
        - Disse-me que, se ela vivesse, estava quase certo de que ficaria com distrbios cerebrais permanentes e muito provavelmente epilepsia.
        - Que horror! O que queres fazer?
        -
         O que posso fazer? O que podemos fazer?  o que tu e o Beau esperavam, no? - retorquiu com um invulgar tom de amargura.
        - No - protestei num sussurro.
        - O que significa esse "no"? No me contaste que um dia foste a uma me vudu para que lhe lanasse um feitio? - retorquiu. "Porque havia de me lembrar 
aquele facto?"
        - Foi h muito tempo, Paul, e arrependi-me logo a seguir.
        - Bom, aparentemente o feitio continua a dar resultado. Sinto-me feliz por vocs os dois - redarguiu.
        -Paul...
        - Preciso de desligar. Tenho coisas a fazer - disse e desligou, sem me dar tempo a pronunciar nem mais uma palavra.
        - O que se passa? - perguntou Beau, ao ver-me agarrada ao auscultador, sem afastar os olhos. O corao ameaava saltar-me do peito e todo o sangue parecia 
ter-me fugido do rosto.
        Contei-lhe o que Paul me dissera sobre o estado de Gisselle.
        - No compreendo.  em tudo semelhante ao que comecei por lhe descrever.
        - Ele no acreditou. Sei que esperava conseguir cur-la e dessa forma recuperar-me - retorqui.
        - O que tenciona fazer? - indagou.
        - No sei. Pareceu-me to estranho, Beau. To diferente do Paul que conheo. Acho que tinha estado a beber.
        - Ele estabeleceu um acordo connosco - declarou Beau num tom firme. - Zelarei para que o cumpra.
        levantou-se rapidamente para me abraar e pousei a cabea no seu ombro. Beijou-me o cabelo e acariciou-o ao de leve, enquanto voltava a beijar-me, sussurrando-me 
palavras ao ouvido para me acalmar.
        - No te preocupes. Tudo correr bem.  o destino - insistiu; no entanto, as palavras de Paul tinham-me gelado o sangue nas veias.
        - No consigo livrar-me desta sensao de n no estmago, Beau. Amo-te, quero estar ao teu lado e quero que a Pearl esteja contigo, mas  como se uma nuvem 
escura pairasse constantemente sobre ns por mais azul que o cu esteja.
        - Essa sensao vai passar - prometeu. - Basta que concedas uma oportunidade a ti prpria.
        - Acho que ser melhor fazermos uma visita ao Paul na prxima semana, Beau. De qualquer maneira, tencionvamos levar a Pearl para o ver, no?
        - Suponho que sim - concordou, mas percebi que a ideia lhe desagradava.
        Durante os dias seguintes, telefonei sempre a Paul para me inteirar da evoluo dos acontecimentos. Na maior parte das vezes no estava em casa. Os criados 
informaram-me que se encontrava no hospital, de viglia. De inicio, no correspondeu a nenhum dos meus telefonemas e depois, quando o fez, pareceu-me cada vez mais 
estranho. Na ultima vez em que falmos, quase no lhe reconheci a voz.
        - Ela permanece em coma profundo. Fala-se de a colocarem ligada a uma mquina para que possa respirar - informou numa voz que parecia isenta de sentimento, 
a voz de algum a quem haviam arrancado todas as emoes, at ter restado apenas o invlucro do seu antigo eu.
        -
         Ests a dar cabo de ti, Paul. O James informou-me que raramente vais a casa. Passas o dia e a noite no hospital.
        - Em momentos como este, um marido tem de estar ao lado da mulher, no achas? - retorquiu, soltando uma pequena risada. - Deve estar  cabeceira dela, agarrando-lhe 
na mo, falando-lhe com ternura, implorando, suplicando, encorajando-a a sair do coma, se no por ele, ento pela filha de ambos. Toda a gente no hospital compreende. 
Sentem tanta pena de mim... Hoje, a enfermeira at chorou. Vi-a a limpar as lgrimas - acrescentou.
        Por um momento, foi como se no conseguisse respirar. Senti o peito a transformar-se em pedra e o corao a gelar por dentro. Tentei engolir em seco e falar, 
mas sem resultado. Ouvi-o suspirar.
        - Nunca compreendeste, pois no? A srio, quero dizer. s casada, mas o que significa o casamento para ti? Uma unio de convenincia para satisfazer os teus 
propsitos egostas? - replicou, e a voz chegava-me semelhante ao silvo de uma serpente.
        - Paul, por favor.
        - Devias ver como ela est a ficar pequena, Gisselle. Murcha como uma flor naquela cama, e a sua beleza fenece diante dos meus olhos.
        - O qu? O que me chamaste?
        - Sabes o que digo a toda a gente? Digo-lhes que os anjos tiveram ciumes. Olharam para baixo e viram como o nosso amor era perfeito. Nem mesmo o cu era 
to perfeito, e assim conspiraram por inveja e provocaram esta tragdia. Romntico de mais para ti, Gisselle? Nunca foste muito romntica, pois no? O que era um 
homem para ti... um parceiro na cama, algum para espicaares e atormentares. Tinhas ciumes da tua irm porque ela tinha a capacidade de amar e tu no, no  verdade?
        "Oh, que coisa terrvel  o ciume. Apodrece-te por dentro. Vers, Gisselle. Vers. Sinto pena de ti e de todas as mulheres do mundo que no tm a mesma capacidade 
de amar que tinha a Ruby.
        Um estranho torpor no meu peito fazia com que me sentisse irreal.
        - Porque ests a falar dessa maneira, Paul? H algum junto de ti? Porque dizes essas coisas?
        - Porqu? Porque... estou farto de que os bons sofram e os maus gozem todo o prazer e felicidade deste mundo.  esse o motivo. De qualquer maneira, obrigado 
por telefonares. Fizeste o teu dever. Podes acalmar a conscincia e dedicar-te  tua busca do prazer.
        -Paul!
        - Estou cansado. Preciso de tomar uma bebida e depois tentar dormir um pouco. Boa noite, Gisselle. Oh, os meus cumprimentos ao teu elegante e jovial marido. 
Estou certo de que se sente feliz por no ser a mulher dele quem est s portas da morte.
        - Paul! - gritei no momento em que a linha ficou silenciosa.
        Deixei-me ficar pregada ao cho, sem largar o auscultador, como se ele fosse uma ave morta. Depois, precipitei-me  procura de Beau. Estava no escritrio 
a examinar uns documentos e ergueu os olhos, surpreendido.
        - O que se passa? - inquiriu logo.
        
        Contei-lhe o que Paul andara a fazer toda a semana.
        Beau reflectiu um momento e depois encolheu os ombros.
        - Parece que assumiu a responsabilidade do seu papel em tudo isto seriamente e est a fazer uma boa actuao. Devamos estar gratos.
        - No, Beau. No compreendes. No conheces o Paul. Ele jamais diria o que me disse. No est bem. Quero ir a Cypress Woods amanh. Temos de ir, Beau. E no 
tentes dissuadir-me!
        - De acordo. Iremos - concordou. - Acalma-te. Tens a certeza de que ele no est apenas a jogar com os teus sentimentos, aproveitando-se deles?
        - No me parece. Nem sabes como me pareceu estranho, Beau - retorqui, erguendo o rosto com os olhos muito abertos e espelhando ansiedade. - Chamou-me Gisselle 
e falou dela como sendo a Ruby.
        - E da? Era essa a ideia.
        - Mas no acho que algum estivesse a ouvir. No tinha nenhum motivo para me chamar Gisselle.
        Beau reflectiu um momento.
        - Talvez estivesse apenas embriagado - sugeriu. - Confuso.
        - Causou-me arrepios - confessei, rodeando o corpo com as mos. - O que fizemos? Beau, o que fizemos?
        - Pra com isso - ordenou Beau, levantando-se de um salto. Agarrou-me pelos ombros com as mos, e os dedos assemelhavam-se a ao atravs do tecido fino da 
blusa. - Deixa-te dessas coisas, Ruby. Vais ficar arrasada por nada. Ele sente-se Perturbado por estares comigo e no aceita bem. Acabar por se habituar  ideia 
e tudo terminar como espermos. No somos culpados pela tragdia da Gisselle. Aconteceu, e apenas aproveitmos a oportunidade. O Paul concordou e ajudou a realizar 
a ideia. Agora, invadiu-o um sentimento de autopiedade. Bom, lamento, mas  tarde de mais para voltar atrs e ele vai ter de perceber isso e controlar-se. Tal como 
tu - acrescentou num tom firme.
        Sustive as lgrimas e esbocei um aceno de concordncia.
        - Sim, Beau. Tenho a certeza de que ests certo. Desculpa ter ficado um pouco histrica.
        - Ei! Tens-te portado de uma forma fantstica. Compreendo a presso a que tens estado sujeita e dou-te o devido valor. mas agora no podes ir abaixo.
Voltei a acenar.
        - De acordo, Beau. Estou bem.
        - De certeza?
        - Sim.
        Beijou-me na testa e abraou-me com fora, afagando o meu cabelo. Quando me fitou, os olhos meigos acariciavam-me.
        - No deixarei que acontea nada e de certeza que nunca mais te perderei, Ruby. Amo-te mais do que tudo no mundo. -        Beijmo-nos e depois rodeou-me 
os ombros com o brao e acompanhou-me at  sada do escritrio. Voltmos a beijar-nos ao fundo da escada. Comecei a subi-la, fazendo uma pausa para
o olhar. Dirigiu-me um largo sorriso. Respirei fundo e disse para mim prpria que ele estava certo. No dia seguinte, iramos visitar Paul e tambm o tranquilizaramos.
        - Assim estava escrito - murmurei, continuando a subir as escadas. - Assim estava escrito.
        

13

QUASE APANHADA
        
        No final da manh seguinte e depois de Beau ter voltado do escritrio, partimos rumo a Cypress Woods. Mantive-me imersa em profundos pensamentos e silenciosa 
durante a maior parte da viagem. Beau tentou distrair-me, falando sobre alguns negcios das empresas da famlia Dumas e, depois, pouco antes de chegarmos, revelou 
que Bruce Bristow telefonara e fizera novas ameaas relativas ao que diria sobre certas transaces obscenas que Daphne fizera no passado, caso no conseguisse um 
melhor acordo.
        - O que lhe respondeste? - quis saber.
        - Disse-lhe que fizesse o que quisesse. Consta por a que ele no est muito bem. Tem andado a jogar e perdeu quase tudo o que conseguira ganhar. Agora, 
o banco ameaa penhorar-lhe o prdio de apartamentos - esclareceu Beau.
        - Ele vai arranjar-nos sarilhos, Beau, como se fosse uma pedra no sapato. Pensa-se que se deitou fora, mas quando se volta a andar ela ainda l est.
        Beau riu-se.
        - No te preocupes que eu livro-me dele - garantiu. -  um fraco desafio.
        Fiquei um pouco surpreendida frente  arrogncia de Beau. Receava que tivesse permanecido tempo de mais ao lado de Gisselle.
        O cu escurecera por completo quando chegmos a Cypress Woods. A horrvel sensao que me provocou foi adensada pela falta de actividade na grande casa. 
Onde estavam os jardineiros, os operrios? Cypress Woods parecia sempre uma colmeia, barulhenta e afadigada. Paul orgulhava-se tanto da nossa propriedade que no 
tolerava uma nica erva daninha no jardim. Tanto Beau como eu reparmos que alguns dos poos de petrleo no estavam a funcionar de forma eficiente. A atmosfera 
opressiva que se abatera sobre a manso do bayou e os seus deslumbrantes arredores era to pesada como a humidade e quase to sufocante.
        - Parece deserta - murmurou Beau.
        O meu corao ameaou parar e depois comeou a bater em ritmo acelerado quando chegmos diante da casa. Pearl adormecera no assento.
        - Eu levo-a - ofereceu-se Beau.
        O medo que eu tivera de regressar a Cypress Woods como Gisselle revelou-se justificado. Era subitamente uma estranha no que tinha sido a minha preciosa casa. 
Teria de tocar  campainha e aguardar, e os que me recebessem f-lo-iam como a uma forasteira. O meu corao estalaria de desejo de gritar a verdade. Beau pressentiu 
a minha ansiedade e, com Pearl adormecida no seu ombro, apertou-me a mo e dirigiu-me um sorriso confiante.
        - Calma. Vais sair-te bem - garantiu, mas a inquietao apoderara-se de todo o meu ser.
        Avanmos at  porta da frente e tocmos. Momentos mais tarde, James cumprimentou-nos.
        
        Percebi pela expresso do rosto, pela forma como os olhos haviam escurecido e as rugas se tinham acentuado, que estava muito desanimado e triste. Os nossos 
criados estavam sempre to prximos de ns e to envolvidos em tudo que os nossos humores os afectavam.
        - Ol, James - saudei, incapaz de usar o tom condescendente com que Gisselle habitualmente se dirigia aos criados, quer fossem dela ou de outra pessoa.
        James fitou-me com olhos inexpressivos e vazios. No pareceu aperceber-se do meu verdadeiro eu na minha voz, dado no ter motivo para pensar que eu era outra 
que no a minha irm Gisselle, com quem no simpatizava especialmente.
        - Boa tarde, madame. Alonsieur - cumprimentou com um leve aceno de cabea. Depois, avistou Pearl e os olhos brilharam um pouco. - E como est a pequenina?
        - ptima - respondi.
        - Monsieur Tate est em casa? - inquiriu Beau.
        - Voltou do hospital ainda h pouco - replicou James, recuando. - Mademoiselle Tate e Madame Pitot esto com ele no escritrio - acrescentou.
        Fitei Beau. Seria a primeira vez que as irms de Paul me veriam como Gisselle.
        James conduziu-nos ao longo do corredor. Como me parecia estranho caminhar agora pela casa e observar as coisas que me tinham pertencido. Olhei para o cimo 
das escadas na direco do que fora a minha sute. Beau e eu trocmos mais um olhar e percebi que, agora que eu estava, de facto, na casa, ele se sentia profundamente 
preocupado comigo. Sentia o sangue a afluir-me ao rosto. O corao batia acelerado, mas respirei fundo e esbocei um aceno de cabea.
        - Estou bem - sussurrei.
        James fez uma pausa na ombreira do escritrio.
        - Monsieur e Madame Andreas - anunciou e recuou.
        Paul estava no sof, afundado a um canto, com um copo de usque na mo. Tinha o cabelo desgrenhado e parecia ter dormido com a roupa que trazia vestida. 
Jeanne sentava-se na frente dele, com os olhos injectados devido ao choro e Toby ocupava o outro canto do sof, com um ar triste e as mos cruzadas no regao.
        Contudo, os olhos de Jeanne brilharam ao avistar-nos e, por um momento, senti um aperto no corao. Saberia que era eu e no a minha irm? Quase desejei 
que sim. No era, porm, esse o motivo que lhe afastara a melancolia do olhar, mas sim Pearl.
        - O beb!        - gritou, levantando-se.        - Como est?
        - Bem - respondeu Beau.
        Pearl, apercebendo-se de que tnhamos deixado de caminhar, ergueu a cabea, piscou os olhos e torceu o nariz como um coelho.
        - Oh, minha querida e doce Pearl! - exclamou Jeanne. - Deixe-me pegar-lhe.
        Beau estendeu-a a Jeanne, que Pearl reconheceu de imediato. Sorriu e Jeanne inundou-lhe a cara de beijos, apertando-a com carinho.
        - Bom, mas que honra inesperada! - pronunciou Paul. - Monsieur e Madame Andreas em carne e osso. - Os lbios esboaram um sorriso trocista.
        - Alguma novidade, Paul? - apressei-me a perguntar, ignorando o sarcasmo.
        -
         Novidade? - Fitou Toby, fingindo que havamos feito a mais simples e despreocupada das perguntas. - Alguma novidade, Toby?
        - Nenhuma mudana para melhor - elucidou Toby tristemente. - Na verdade, esta manh decidiram lig-la a um ventilador.
        - Queres uma bebida, Beau? - ofereceu Paul, erguendo o copo.
        - No, obrigado.
        - Demasiado cedo para vocs, crioulos? - troou.
        - Paul. Porque  que no beijas a tua filha? ralhou Jeanne.
        Paul fitou Pearl por um momento e depois esboou um aceno de cabea.
        Tr-la at aqui - pediu, e Jeanne obedeceu.
        Paul no a tirou dos braos de Jeanne, mas soergueu-se e acariciou o cabelo de Pearl, antes de a beijar na face. Depois voltou a sentar-se e emitiu um suspiro 
to fundo que julguei que o corao se lhe despedaara no peito.
        - Vou levar a menina para um pequeno passeio e dar-lhe alguma coisa de comer - interveio Jeanne rapidamente.
        - Boa ideia - aprovou Toby. - Falarei com a letty para que tambm vos prepare qualquer coisa de comer.
        - No incomode ningum - disse Beau.
        - Incomodar? - ironizou Paul, erguendo os olhos. - Algum aqui se sente incomodado?
        Toby parou na nossa frente e esboou um trejeito.
        - Ele tem andado a beber exageradamente, desde que levaram a Ruby para o hospital - explicou. - Deixou de tratar dos negcios e limita-se a ficar sentado 
por a, cheio de pena de si prprio. Os meus pais esto completamente desnorteados, sobretudo a minha me. No come e no dorme, de to preocupada com ele. Vejam 
se conseguem fazer qualquer coisa pelo Paul - sussurrou. - Lamento.
        - Tudo bem - redarguiu Beau.
        - O que ? - exclamou Paul. - Algum disse que est tudo bem?
        Depois de Toby sair, atravessei a sala, fiquei diante de Paul e cruzei os braos, olhando-o com uma expresso severa.
        - O que ests a tentar provar, Paul? O que ests a fazer a ti prprio?
        - Nada. No estou a provar nada. - Ergueu os braos e encolheu os ombros. - Apenas a aceitar o que o destino decidiu que ser a minha sorte. Desde o incio 
que corri atrs de um sonho. Sempre que pensava que o transformara em realidade, o destino interferia e destruia o sonho sobre o bayou como se fosse lama pantanosa. 
- Fez uma pausa para me perscrutar e semicerrou os olhos de uma forma estranha e sombria. Depois prosseguiu: - No a conheceste, mas a grandmre Catherine da Ruby 
costumava dizer que se se nadar contra a mar nos afogamos - declarou. Senti-me como se tivesse enfiado uma estaca no meu peito.
        - Deixa-te disso, Paul. Deixa de representar. Os trs sabemos a verdade. No h necessidade de fingires assim na nossa frente.
        - Verdade? Mencionaste a verdade? Palavra curiosa vinda

dos teus lbios ou, de facto, dos lbios de algum - acrescentou e voltou a erguer os olhos. - O que  a verdade? Ser que o amor no passa de uma espada cruel que 
viramos contra ns prprios, um bizarro tormento? Ou ser que apenas os eleitos, os poucos afortunados - prosseguiu, fitando Beau - esto destinados a serem felizes 
na terra? Sob que estrela nasceu para que pudesse realizar uma tal felicidade, Monsieur Beau Andreas?
        - Ignoro a resposta a essa pergunta, Paul - respondeu Beau em voz baixa. - Sei, contudo, que o que prometeste  Ruby tem de ser cumprido.
        - Oh, cumpro sempre as minhas promessas - vincou, agora de olhos pregados em mim. - No sou daqueles que se esquecem.
        - Paul, por favor...
        - Est bem - murmurou. Acabou a bebida de um s gole. - Tenho de me deitar um pouco. - Esforou-se para se pr
de p, voltou a cair e depois conseguiu. - Vocs os dois sintam-se em casa. A minha irm tratar de tudo.
        Olhei desesperada para Beau.
        - Ouve, Paul. Escuta - pediu Beau num tom sensato. - Deixa-nos ajudar-te com este fardo. Temos conscincia de que  de mais para ti. Mudemos a Gisselle para 
um hospital de Nova Orlees e...
        - Mud-la para um hospital em Nova Orlees s para me aliviar o fardo? - Agitou o polegar direito em frente do rosto de Beau. - Ests a falar da mulher que 
amo - declarou Paul, cambaleando. Sorriu. - Jurei estar ao lado dela na doena e na sade, at que a morte nos separe.
        -Paul...
Empurrou-me.
        - Tenho de me deitar - disse e saiu aos tropees.
        - Deixa-o dormir um pouco - aconselhou Beau. - Depois, ficar mais sbrio e mais sensvel.
        Acenei com a cabea, mas um momento depois ouvimos Paul a cair nas escadas. Fomos a correr e verificmos que rolara alguns degraus e se estatelara no fundo. 
James j estava ao lado dele, tentando levant-lo.
        -Paul! - gritei.
        Beau ajudou James a ergu-lo. Puseram-lhe os braos  volta dos ombros dos dois e levaram-no pela escada, de cabea pendente. Sentei-me num banco do corredor 
e escondi o rosto nas mos.
        - Ele est bem - anunciou Beau quando regressou. - O James e eu metemo-lo na cama.
        - Isto  uma coisa horrvel, Beau. Nunca devamos ter permitido que se tornasse uma parte to intrincada do problema. Nem sei no que estava a pensar.
        - Ele quis faz-lo; tornava tudo mais fcil. No podemos censurar-nos pelo comportamento dele. De qualquer maneira, poderia perfeitamente ficar assim, depois 
de o deixares, Ruby. Daqui a um tempo, cair em si. Vers.
        - No sei, Beau - gemi, prestes a erguer os braos e a revelar o nosso elaborado embuste.
        - Agora, s nos resta ir at ao final. S forte - incitou Beau num tom firme.
        Depois endireitou-se e sorriu ao ver Jeanne e Pearl que se aproximavam.
        - Ela tem estado a chamar pela me.  to triste que no aguento - disse Jeanne.
        Deixe-me pegar-lhe - pedi.
        -
         Sabe - disse Jeanne, enquanto me entregava Pearl de volta -, acho que ela pensa que  a Ruby. No consigo imaginar porqu ou como uma criana faria uma 
tal confuso.
        Beau e eu fitmo-nos por um momento e depois Beau sorriu.
        - Ela est apenas confusa devido  rpida evoluo dos acontecimentos, da viagem, da casa nova - esclareceu.
        -  esse o motivo por que ia sugerir que a deixassem comigo. Sei que fardo  um beb, mas...
        - Oh, no - interrompi, bruscamente. - Ela no  um fardo. J contratmos uma ama para ajudar.
-        A srio? - retorquiu ela com um arremedo de sorriso. - A Toby disse que o fariam.
-        Bom. Porqu? No devamos? - intrometeu-se Beau.
- Oh! No queria dizer que no deviam. Provavelmente
tambm o faria, se...
        - Est tudo pronto. Podemos comer l fora no terrao, se estiverem de acordo - props Toby, aparecendo por detrs de Jeanne.
        - ptimo! - aprovou Beau. - Gisselle? Fitou-me e emiti um suspiro. A tenso e o peso emocional de ver Paul naquele estado eram o verdadeiro motivo para tal, 
mas as irms de Paul julgaram que eu estava apenas a ser petulante, como o seria Gisselle. Entreolharam-se e tentaram dissimular um trejeito.
        - Est bem - respondi com um grande esforo. - No que me apetea muito. As grandes viagens tiram-me sempre o apetite - queixei-me.
        Ironicamente, foi um alvio voltar a meter-me na pele de Gisselle. Ficava sem o peso da conscincia no corao.
        Ocorreu-me pela primeira vez que era esse o motivo que levava Gisselle a ser como era; e, pelo menos de momento, compreendi e cheguei a invej-la por ser 
to egosta. Nunca se compadecia com a tristeza de ningum. Para Gisselle, o mundo fora um enorme ptio de recreio, uma terra de magia e prazer e todo o que ameaasse 
esse mundo era ignorado ou evitado. Afinal, talvez ela no fosse assim to estpida.
        S que me lembrei de algo que ouvira uma vez  grandmre Catherine: "As pessoas mais solitrias eram as que possuam um egosmo tal que no tinham ningum 
para as acompanhar no Outono da vida."
Interroguei-me sobre se Gisselle, ao cair naquele tnel escuro da inconscincia, vogando para longe, percebia isso, agora, se percebia alguma coisa.
        
        Depois do almoo, pusemos Pearl a dormir a sesta. Beau e eu sentmo-nos l fora com as irms de Paul a beber caf com leite e ouvindo-as queixarem-se do 
comportamento dele. Acrescentam que esse facto desnorteara de tal modo a me que j no visitava ningum, nem saa de casa.
-        Ela foi ao hospital ver a Ruby? - perguntei, curiosa.
- A me odeia hospitais - respondeu Toby. - Teve o
Paul em casa, porque odiava ver-se rodeada de gente doente e foi um parto difcil. O pap teve de suplicar-lhe que fosse para o hospital para nos dar  luz.
        Beau e eu trocmos olhares cmplices, cientes de que esta era uma parte da fantasia que os pais de Paul tinham inventado para disfarar a identidade da verdadeira 
me de Paul.
        - Vo ao hospital visitar a Ruby? - indagou Jeanne.
        Antes de responder, pensei em como Gisselle reagiria a esta pergunta.
- Para qu? Ela est sempre a dormir, no est?

Toby e Jeanne entreolharam-se.
        - Mesmo assim,  sua irm... e est a morrer - redarguiu Jeanne, aps o que rompeu em lgrimas. - Desculpe. No consigo dominar-me. Gostava mesmo da Ruby.
        Toby rodeou-a com os braos, embalando-a e confortando-a, ao mesmo tempo que lanava olhares de censura na minha direco.
        - Talvez devssemos ir ao hospital, Beau - retorqui, levantando-me da cadeira. Era incapaz de continuar ali sentada com elas a fingir que era insensvel; 
tambm no conseguia aguentar o desgosto de ambas sobre o que julgavam tratar-se do meu desaparecimento.
        Beau seguiu-me at casa. Foi apanhar-me no estdio, onde tambm eu rompera em lgrimas, que me caam, escaldantes, pelas faces.
        Oh, Beau! No devamos ter vindo aqui. Sou incapaz de suportar toda esta tristeza. Sinto que a culpa  minha.
        - Isso  ridculo. Como podes ter culpa? No fizeste com que a Gisselle adoecesse, pois no? Bom... pois no?
        Sequei as lgrimas e respirei fundo.
        - O Paul recordou-me uma altura em que fui com a Nina Jackson ver uma praticante de vudu, que lanou um feitio sobre a Gisselle. Talvez o feitio nunca 
deixasse de surtir efeito.
- Por favor, Ruby, por acaso no acreditas seriamente...
        - Acredito, Beau. Sempre acreditei nos poderes espirituais de algumas pessoas. A minha grandmre Catherine tinha-os. Vi-a curar pessoas, confort-las, dar-lhes 
esperana, com um mero toque das mos.
        Beau esboou um sorriso cptico.
- Ento, o que queres fazer? Queres ir ao hospital?
        - Sim. Tenho de ir.
        - De acordo. Iremos. Queres esperar que a Pearl acorde ou...
        - No. Pediremos  Jeanne e  Toby que cuidem dela at regressarmos.
        - ptimo - anuiu Beau.
        - Deso j. Tenho de ir buscar uma coisa - retorqui.
        -O qu?
        - Uma coisa - repeti num tom firme.
        Subi apressadamente as escadas at aos meus antigos aposentos e esgueirei-me para o interior, sem que ningum me visse ou ouvisse. Dirigi-me  cmoda e abri 
a gaveta do fundo onde tinha a bolsinha com uma erva chamada cinco-em-ramo que Nina Jackson me dera outrora para afastar o mal juntamente com a pequena moeda com 
um fio para usar  volta do tornozelo como amuleto.
        Dirigi-me depois  porta de comunicao e entreabri-a, a fim de espreitar Paul. Encontrava-se profundamente adormecido na cama, agarrado  almofada. Por 
cima da cabeceira da cama, pendurada como um icone religioso, estava a minha fotografia numa moldura de prata. A viso pattica voltou a inundar-me os olhos de lgrimas 
e fez-me doer o peito de tal forma com o peso de tanta tristeza, que no conseguia respirar. Sentia-me como se me tivesse atirado para o caldeiro e s eu fosse 
capaz de escapar a morrer queimada.
        Fechei a porta devagar, sa do meu antigo quarto e voltei para baixo. Beau esperava-me ao fundo das escadas.
        -
         J falei com a Jeanne e a Toby - declarou. - Cuidaro da Pearl at voltarmos.
        - ptimo - comentei.
        Beau no me perguntou o que eu fora buscar l acima. Seguimos no carro para o hospital e perguntmos na recepo onde ficava o quarto particular de Gisselle. 
A enfermeira que Paul contratara estava sentada numa cadeira prximo da cama, a fazer renda. Ergueu os olhos surpreendida e boquiaberta.
        - Mister Tate disse-me que a mulher tinha uma irm gmea, mas nunca vi duas gmeas to parecidas - exclamou, recompondo-se.
        - No somos assim to parecidas - rectifiquei severamente.
        Gisselle teria pronunciado um comentrio do gnero e feito com que ela se sentisse pouco  vontade. A enfermeira ficou satisfeita por poder ausentar-se, 
enquanto efectuvamos a visita. De qualquer maneira, queria-a fora do quarto.
        Mal ela se foi embora, dirigi-me  cabeceira de Gisselle. Tinha os tubos de oxignio no nariz e a conduta intravenosa ligada ao brao. Mantinha os olhos 
fechados e parecia ainda mais pequena e plida do que quando a vira da ultima vez. O prprio cabelo tornara-se bao. A pele tinha a cor da barriga de um peixe morto.
        Beau recuou, enquanto agarrei na mo de Gisselle e baixei os olhos para a fitar. Ignoro o que esperava, mas no deu qualquer indcio de tomada de conscincia. 
Por fim, depois de um suspiro, peguei no saco com a erva-cinco-em-ramo e meti-o por baixo da almofada dela.
        - O que  isso? - perguntou Beau.
        - Algo que a Nina Jackson me deu uma vez. No interior do saco h uma planta que est dividida em cinco segmentos. Proporciona um sono calmo e afasta o mal.
- O qu? No ests a falar a srio.
        - Cada segmento tem um significado: sorte, dinheiro, sabedoria, poder e amor.
        - Acreditas realmente nessa coisa? - indagou.
        - Sim - respondi. Depois, ergui a colcha e atei rapidamente a minha moeda da sorte ao tornozelo de Gisselle.
        - O que ests a fazer?
        - Tambm isto traz sorte e afasta o mal - elucidei-o.
        - O que achas que vo dizer quando descobrirem isto, Ruby?
        - Pensaro provavelmente que uma das amigas da minha grandmre apareceu aqui e o fez - repliquei.
        - Assim espero. A Gisselle nunca traria isso. Troava desse tipo de coisas - recordou-me.
        - De qualquer maneira, tinha de faz-lo, Beau.
        - Tudo bem. No fiquemos tempo demasiado, Ruby - incitou, nervoso. - Devemos voltar a Nova Orlees antes que se faa muito tarde.
        Agarrei um momento na mo de Gisselle, pronunciei uma prece silenciosa e toquei-lhe na testa. Pareceu-me que as plpebras pestanejavam, mas talvez fosse 
a minha esperana ou a minha imaginao.
        - Adeus, Gisselle. Lamento que nunca fssemos verdadeiras irms.
        
        Senti uma lgrima na face e toquei-lhe com a ponta do polegar direito. Depois levei-o at  face dela, onde o pousei ainda molhado. "Talvez agora, talvez 
finalmente agora, tambm ela no ntimo chore por mim", pensei e virei-me a toda a pressa, saindo a correr do quarto e fugindo da viso da minha irm moribunda.
        Paul ainda no se tinha levantado quando voltmos, mas Pearl estava a p e a brincar com Jeanne e Toby no estdio. Os olhos brilharam-lhe de alegria ao ver-me. 
Apeteceu-me correr para ela e agarr-la ternamente nos braos, mas disse para mim mesmo que Gisselle no o teria feito e controlei as emoes.
        - Temos de regressar a Nova Orlees - declarei bruscamente.
Como foi no hospital? - inquiriu Toby.
        - Como se falasse comigo prpria - redargui, e ironicamente era essa a verdade.
        As duas irms esboaram um aceno com rostos igualmente tristes.
        - Podem deixar o beb comigo - sugeriu Jeanne. - No me importo.
        - Oh, no. No  possvel - recusei. - Prometi  minha irm que cuidaria dela.
- O qu? Prometeu  Ruby?
        - Num momento de fraqueza - admiti -, mas tenho de manter a promessa.
        - Porqu? No me parece que seja doida por crianas, no  verdade? - ripostou Toby, desdenhosamente.
        Pedi ajuda a Beau com o olhar.
        - J contratmos uma ama - insistiu ele. - Est tudo combinado e em ordem.
        - Uma tia est mais qualificada para tratar dela do que uma ama, no? - contraps Jeanne.
        - E acha que eu sou o qu? - ripostei. Quando era Pearl que estava em causa, podia ser to firme e arrogante como Gisselle.
        - Bom, s queria dizer que... no  problema para mim.
        - E no  problema para mim - repliquei. - Pearl. - Estendi os braos e ela correu para mim. - Diga ao Paul que lhe telefonamos mais tarde.
        Sa apressadamente com Pearl nos braos e Beau ao meu lado, antes que pudesse haver mais discusso. Tinha o rosto afogueado e os olhos muito abertos, prximos 
da histeria.
        - Calma - aconselhou Beau, quando estvamos todos no carro. - Portaste-te muito bem. Est tudo em ordem.
        S me acalmei quando amos a caminho. A chuva que pairara nas nuvens durante todo o dia manteve a promessa e transformou-se em aguaceiro durante toda a viagem 
de regresso a Nova Orlees. Relmpagos riscavam o cu, e a trovoada rebentou com tanta fora que nos sacudia at mesmo no carro. Fiquei aliviada quando por fim chegmos 
a casa. Aubrey recebeu-nos com uma lista de telefonemas e verificmos que Bruce Bristow telefonara vrias vezes.
        - Vejo que terei de trat-lo com dureza para o afastar de vez - declarou Beau, amarrotando a mensagem na mo com um gesto irritado.
        
        Nesse momento, no podia ligar menos importncia queles problemas. Pearl estava demasiado enjoada com a viagem para comer alguma coisa, e eu sentia-me emocionalmente 
esgotada. Deitei-a e depois tomei um banho quente e tambm me enfiei na cama. Horas depois, ouvi que Beau subia as escadas, mas mal dei por ele quando se estendeu 
ao meu lado e, minutos depois, tambm ele adormecia.
        Nos dias seguintes, invadiu-me o nervosismo e uma grande ansiedade. Para mim, as horas assemelhavam-se a dias e os dias a meses. Havia alturas em que parava 
e consultava o relgio, surpreendendo-me por s terem passado uns minutos. Sempre que o telefone tocava, dava um salto, o corao falhava uma batida e depois disparava, 
mas era por regra uma ou outra amiga de Gisselle. Mostrei-me brusca com todos e em breve a maioria deixou de telefonar. Uma tarde, Pauline ligou-me para me dizer 
que eu estava a perder todas as amigas, afastando-as uma a uma.
        - Toda a gente diz que te tornaste mais convencida do que
nUnca - informou-me. - Dizem que te achas demasiado superior para lhes falares ao telefone e no convidaste ningum a visitar-te.
        - Neste momento tenho coisas mais importantes com que me preocupar - ripostei.
        - No te interessa perderes todas as amigas?
        - No eram, na realidade, verdadeiras. Apenas lhes importa o que podem conseguir de mim - redargui.
        - Tambm estou includa? - inquiriu, petulante.
        - Se a carapua te serve, enfia-a - respondi.
        - Adeus, Gisselle. Espero que sejas feliz no teu mundo - despediu-se, desdenhosa.
        No espao de semanas, afastara a maioria das amigas de Gisselle, pessoas que de qualquer forma nunca me tinham agradado e fizera-o intempestivamente, pelo 
que ningum achou estranho. Beau ficou divertido e feliz. Foi praticamente o nico ponto luminoso nos dias sombrios que se seguiram  nossa visita a Cypress Woods.
        Sempre que telefonava para l, era Toby ou Jeanne que atendiam. Paul estava sempre indisponvel. Tambm elas se mostravam muito bruscas comigo. O estado 
de Gisselle no sofrera alterao. Certa vez, Toby, que conseguia ser mais custica do que Jeanne, disse:
        -  apenas uma questo de tempo. Espero que a morte da sua irm no interfira com nada que tenha programado. Sei a importncia que d  sua agenda social.
        Pensei intimamente que Gisselle merecia estas reprimendas e recebi-as em silncio, mas de qualquer maneira doam. No fim do ultimo telefonema, declarou:
        - No sei porque  que o meu irmo no insiste em que traga a Pearl para casa, onde ela pertence, mas acho que devia faz-lo, Gisselle.
        Como dizer-lhe que Paul no podia pedir-me que levasse para casa uma filha que no era dele?
        - Preocupe-se consigo, Toby. Parece-me que h a bastante com que se ocupar - ripostei e coloquei um ponto final na conversa.
        Senti-me terrivelmente mal com esta atitude e, quando contei a Beau, ele esboou um aceno de cabea triste.
        -  assim que as coisas tm de ser por agora - confortou-me, mas no chegava.
        - s vezes, sinto-me como se tivesse sido apanhada numa teia de aranha. Quanto mais me toro e luto, mais presa fico
        
        Tudo acabar em breve e prosseguiremos as nossas VIdas. Vers - garantiu-me, mas eu no tinha assim tanta confiana. A vida mostrara-me claramente que podia 
dar voltas e reviravoltas quando menos o espervamos.
        Dois dias depois, ocorreu uma delas. Sara-me bem no meu papel na pele da minha irm, sobretudo porque afastara as suas amigas e namorados e me conservava 
bem longe dos locais que ela costumava frequentar. Poucos, se  que alguns, eram suficientemente perspicazes para notarem as diferenas. Ningum esperava, obviamente, 
essa troca de identidades. No ntimo, era bem provvel que pensassem: "Quem quereria ser Gisselle?"
        A minha esperana era que, decorrido algum tempo, conseguisse transformar a personalidade da minha irm at se parecer com a minha, e Beau e eu nos mudssemos 
para outra localidade, talvez outra cidade, e comessemos a vida com muito menos falsidade.
        Estava no meu estdio s voltas com um quadro quando Aubrey me bateu  porta, comunicando-me que tinha uma visita. Antes de poder perguntar quem era, Bruce 
Bristow surgiu por trs dele. O marido da minha madrasta dava a sensao de que envelhecera dcadas, desde que o vira pela ultima vez. O cabelo castanho-escuro exibia 
fios grisalhos, as tmporas estavam completamente brancas e tinha umas olheiras enormes. Perdera tambm bastante peso, o rosto estava macilento e os olhos mortios.
        Cambaleava um pouco e vestia um casaco e calas amarrotadas, com uma gravata manchada e a camisa aberta no colarinho puido. Havia ainda uma arranhadela qualquer 
na face esquerda. Exibiu um sorriso astuto e entrou. Nesse momento, a atmosfera encheu-se de um fedor a gim.
        - O que ests a fazer aqui? A tentar ser a tua irm? - Riu com voz entaramelada.
        Agora que estava mais prximo, verifiquei que tinha os olhos injectados e percebi porque arrastava as palavras.
        - Ests embriagado, Bruce. Sai daqui imediatamente - ordenei.
        - Calma - retorquiu. Fechou e abriu os olhos, vacilando. - Tu e o teu marido podem achar-se muito espertos, mas 
melhor ouvirem o que tenho a dizer, antes de tomarem uma deciso que lamentem.
        - Expulsar-te da nossa vida  uma deciso que nunca lamentarei - retorqui e, porque o sentia, as palavras saram no mesmo tom maldoso em que Gisselle as 
teria pronunciado.
Atirou a cabea para trs, mas soltou nova risada.
        - Portanto, o que ests a fazer aqui? - insistiu e fitou a tela. - No sabes desenhar, nem pintar. s a irm sem talento, recordas-te? - acrescentou com 
a mesma voz entaramelada e agarrando-se ao espaldar de uma cadeira para recuperar o equilbrio.
        - lembro-me de como te desprezava - vinquei. - Parecias uma sanguessuga, andando por aqui quando o meu pai morreu, colando-te  famlia para extrair o que 
pudesses. Tudo isso acabou agora e nada do que digas, por mais insultuoso, poder trazer-te de volta. Agora, vai-te embora antes que o Beau regresse.
        O sorriso alargou-se, e um pouco de saliva escorreu-lhe pelos cantos da boca.
        - Nem sempre te mostraste to ansiosa por me mandares embora - replicou, aproximando-se mais.
        
        Desviei-me, sem largar o pincel. Empunhava-o como se fosse uma espada entre ns. Observou-me um momento, enquanto abria e fechava os olhos numa tentativa 
de os focar. E depois, fixou novamente a tela.
        - No pareces muito perturbada por "a tua irm estar mal" -        comentou.
        - E porque havia de estar? Ela estaria, se fosse eu que estivesse no hospital?
        - Sabes bem que sim - redarguiu num sussurro e fechou os olhos por momentos. Em seguida abriu-os como que obedecendo a qualquer pensamento que lhe tivesse 
iluminado a mente turva. - Nem pareces tu. - Voltou a observar a tela. -  bom de mais para que tenhas sido tu a pint-lo. J estava aqui.
        - J.
        - Foi o que pensei. - Esboou mais um sorriso e tentou compor a expresso mais sria de que foi capaz, tentando endireitar a gravata, enquanto corrigia a 
postura. - Quero que me ajudes a convencer o Beau de que ele devia ser um pouco mais sensato quanto  fortuna da famlia. Conheo alguns dos esquemas de impostos 
da Daphne e estou disposto a revel-los a fontes oficiais - ameaou.
        - Ento, vai. Tambm no tens as mos limpas, pois no'? S exporias o que foste e muito provavelmente ainda s.
        Esboou um sorriso confiante e mais sbrio.
        - Sim, mas sabes como  quando algum apresenta provas ao Estado. Obtm indulto. Posso fazer com que esta propriedade seja pesadamente multada. O que  que 
tu e o teu marido da alta sociedade fariam, hem?
        - Tudo correr bem. Sai, Bruce, antes que mande o Aubrey chamar a Polcia.
        Brindou-me com um olhar desdenhoso.
        - E se contasse ao teu marido sobre aquela vez em que vim visitar-te enquanto tomavas o teu banho de espuma? lembras-te de como te lavei as costas, te dei 
aquela massagem e...
        - J lhe contei - explodi.
        Fitou-me por momentos.
        - No acredito!
        - Ento, no acredites. Pouco me importa. Sai.
        A minha determinao e audcia aborreceram-no e confundiram-no.
        - Levei uns papis daqui. Estou a avisar-vos. Posso provar as minhas acusaes.
        - Ento, prova.
        - Ests doida. Esto ambos doidos. - Examinou-me durante mais um momento e depois observou novamente a tela. Ergueu uma das sobrancelhas interrogativamente. 
A minha resistncia tornara-o sbrio e levara-o a reflectir.
        - Este no  um quadro antigo. A tinta ainda est hmida. Como o fizeste? No s capaz de pintar. - Os olhos estreitaram-se, recordando-me olhos de cobra. 
- H qualquer coisa de estranho nesta histria. - Aquelas palavras tinham o impacte de balas.
        -Sai! - gritei. - Sai!
        Os olhos brilharam-lhe ante uma possibilidade.
        - La Ruby! - exclamou. - Tu s La Ruby. O que se passa?
        - Sai! - repeti, avanando para ele; Bruce ergueu os braos.
        
        Nessa altura, Beau surgiu na ombreira da porta. Precipitou-se para dentro do estdio, agarrou Bruce pelo pescoo e virou-se bruscamente na direco da porta.
        - O que ests a fazer na nossa casa? Disse-te que no aparecesses, no disse? - Empurrou-o para a porta. Bruce recuperou o equilbrio e voltou-se para nos 
fitar com um olhar raivoso.
        - O que  que vocs esto a armar, hem? Esta no  a Gisselle. Conheo a Gisselle. Tem uma expresso mais dura.
        - s ridculo - acusou Beau, mas no com segurana bastante.
        Bruce estava entusiasmadssimo e sorriu.
        -  qualquer esquema para arranjarem mais dinheiro, no. Vou contar a toda a gente.
        - Vai - incitou Beau. - Todos acreditaro nas palavras de um jogador bbedo e pattico. A cidade inteira fala a teu respeito e na forma como te degradaste. 
Tens tanta credibilidade como um criminoso j condenado.
        - Muito bem - retorquiu Bruce com um aceno de cabea.  - arranjarei provas,  o que farei. Excepto se vocs os dois
recuperarem a sensatez e me derem o que, afinal, me cabe por direito. Telefonarei daqui a uns dias para saber se querem ser espertos ou ambiciosos - rematou.
        - Sai daqui, antes que te parta o pescoo - ordenou Beau. avanando para ele.
        Bruce recuou e ps-se a percorrer o corredor. Beau seguiu-o todo o caminho at  entrada principal, abriu a porta e empurrou-o para fora. Bruce fez uma ultima 
ameaa, antes de as portas se fecharem.
        - Toda a cidade vai ficar a par do vosso esquema! - gritou, erguendo o punho.
        Beau fechou-lhe a porta na cara.
        - Est tudo bem, Aubrey - proferiu. - Est tudo sob controlo.
        - Muito bem, sir. - Aubrey retirou-se e Beau seguiu-me at  sala de estar.
        - No te preocupes com ele - tranquilizou-me, depois de se sentar. O corao ameaava saltar-me do peito e o sangue afluira-me ao rosto. - Garanto-te que 
ningum dar crdito a uma s palavra dele. Devias ouvir algumas das coisas que correm a seu respeito.
        - Como  que a Daphne se meteu com uma pessoa deste calibre depois de ter sido casada com o meu pai? - indaguei em voz alta.
        - Tu prpria afirmaste que ela usava as pessoas para depois se livrar delas como se fossem lastro - retorquiu Beau. Aproximou-se e sentou-se ao meu lado, 
agarrando-me na mo.
        - No podes deixar que te apanhe, Ruby.
        - Mas como  que ele soube? No meio de todas as outras pessoas, olhar para mim e saber... um bbedo? - Perscrutei Beau e respondi  minha prpria pergunta. 
- Era ntimo de Gisselle. Ela divertia-se com ele, tenho a certeza.
        - Provavelmente - anuiu Beau.
        - Ele estava sempre a... atirar-se a mim. Aproximava-se pegava-me na mo e olhava-me bem de frente. Eu odiava que o fizesse; tinha sempre um hlito a cheirar 
a cebola ou algo no gnero e tinha de mostrar-me delicada, mas firme. E foi a minha pintura... no devia ter permitido que a visse. Foi ela, mais do que tudo o resto, 
que denunciou...
        
        - Que diferena faz que ele saiba ou no saiba, o que fez e o que no fez?  um homem que perdeu o respeito e, nesta cidade, quando no se tem respeito, 
no se tem voz. Acredita que serei capaz de entender-me com ele - prometeu Beau.
        - No serve de nada, Beau. - repliquei, abanando a cabea - Se uma casa  construda sobre bases fracas, a primeira cheia arrast-la-. Vai voltar e atormentar-nos.
        - Apenas se deixarmos - insistiu, envolvendo-me com o brao. - Anda. Vamos descansar. Mais tarde, sentir-te-s melhor. Sairemos para um jantar fantstico 
num desses restaurantes maravilhosos. De acordo?
        - No sei,, Beau - respondi, com um fundo suspiro.
        - Sei eu.  o mdico que receita - redarguiu, suspirando tambm e ajudando-me a levantar.
        Sobre a cornija em mrmore da lareira, o retrato de Daphne continuava pendurado, e o belo rosto semelhante a mrmore fitava-me com uma expresso de arrogncia 
e satisfao. O meu pai adorava aquela beleza e gostava de ter rplicas dela por todos os stios da manso.
        Lembra-te, filha, o diabo fascina-nos de todas as formas, avisara a grandmre Catherine. Somos atrados para ele como uma criana o  para a maravilha da 
chama de uma vela, sendo tentada a pr o dedo na chama e queimando-se.
        Como esperava e rezava para que Beau e eu no tivssemos posto os dedos na chama da vela.
        

14

SOMBRAS DO PASSADO
        
        Beau parecia ter acertado no que aconteceria relativamente a Bruce e a algo que pudesse fazer ou dizer. Bruce perdera toda a sua credibilidade no mundo dos 
negcios, e o banco penhorara a sua forma mais importante de ganhar dinheiro, o bloco de apartamentos.
        Continuou sabe-se l como a arranjar dinheiro para a bebida, mas tudo o que dizia a quem quer que fosse era considerado uma pattica tentativa de estabelecer 
de novo contacto com a famlia Dumas. Os que o conheciam quando era casado com Daphne recordavam-se do desdm com que ela o tratava. Referiam-se-lhe como mais um 
enfeite no brao dela, outra pea de joalharia.
        Finalmente, um dia Beau telefonou a contar-me que ouvira dizer que Bruce se mudara para Baton Rouge, onde arranjara um emprego, atravs de um dos seus poucos 
amigos, como gerente de um pequeno hotel.
        - Portanto, livrmo-nos dele - declarou Beau, mas eu achava que Bruce Bristow se assemelhava a um bando de mosquitos do pntano: um dia desapareciam mas 
sabia-se que em qualquer altura voltariam para atormentar novamente.
        Entretanto, a situao em Cypress Woods mantinha-se estacionria. Gisselle permanecia em coma; Paul tinha os seus dias bons quando trabalhava um pouco, mas, 
segundo Toby e Jeanne, continuava a passar a maior parte do tempo imerso em autopiedade. Jeanne contou-me que chegara a ir visitar a velha cabana da grandmre Catherine.
        - A cabana! Porque  que ele foi l? - indaguei, sentindo-me resvalar para o abismo do passado.
        - Tornou-se uma espcie de santurio para ele - replicou com a sua voz triste, uma tarde, ao telefone.
        - O que quer dizer, Jeanne?
        - Pouco lhe interessa que o jardim e os campos estejam sem serem cuidados aqui em Cypress Woods, mas levou alguns homens at  cabana e mandou-os cortar 
a relva, plantar outra nova e todo o conjunto. - Fez uma pausa. - Tem mesmo passado noites l.
        - Noites? - redargui, sentindo que a minha ansiedade formava um n na garganta.
        - Dormiu na cabana - revelou.
        O meu corao quase parou para, em seguida, comear a bater rapidamente.
        - Dormiu?
        Jeanne confundiu a surpresa na minha voz com desdm.
        - Sei como isso pode parecer-lhe revoltante, Gisselle. Ele no o confessa.  quase como se se esquecesse realmente do que faz - prosseguiu -, mas o meu marido 
e eu fomos no carro at l uma noite destas e avistmos a chama de um candeeiro de petrleo. Espimo-lo - admitiu.
        - O que viram?
        - Estava enroscado no cho, aos ps daquele velho sof, a dor'mir como um beb. No tivemos coragem de acord-lo.  to triste.
        
        No falei. No consegui falar. Chorava por dentro. Enrosquei-me na cadeira como um trapo. A dor de Paul era muito mais profunda do que imaginara. No estava, 
como Beau calculara, a aceitar as coisas como eram e seriam. Recuava no tempo, agarrando-se a recordaes mais felizes, destruindo-se com o seu retorno ao passado.
        - Sei que isto no lhe interessa, mas a verdade  que est cada vez pior e, se no conseguir controlar-se dentro em breve, como poder voltar a ser um pai 
para a filha? - indagou Jeanne, pois achava que era essa a nica coisa que incomodaria e preocuparia Gisselle.
        - Ele vai recuperar o bom senso. Um dia acordar e tomar conscincia novamente de tudo... - repliquei no tom mais frio de que fui capaz, mas saiu-me numa 
voz sem qualquer confiana nas minhas palavras, e Jeanne apercebeu-se.
        - Acredito tanto como a Gisselle. - Depois de uma pausa, inquiriu: - Tenciona voltar a visitar a sua irm?
        - Perturba-me demasiado - respondi. "A Gisselle diria isto", pensei, embora pessoalmente tambm me perturbasse. S que, como Ruby, no pensaria tanto em 
mim e iria v-la.
        - Tambm no ficamos propriamente doidos de alegria, m'as vamos - comentou Jeanne num tom seco.
        - Para vocs  mais fcil. No tm de fazer a viagem at ao bayou - queixei-me.
        - Claro, essa enorme viagem. Como est a menina?
        - ptima.
        - No passa o tempo a perguntar pelo pai e pela me? Nem sequer fala dela.
        - Ela est bem - insisti. - Limite-se a fazer o que puder pelo seu irmo.
        - Acho que, se ele tivesse a Pearl aqui, recuperaria melhor - afirmou. - A Toby  da mesma opinio.
        - Temos de pensar no que  melhor para o beb - insisti, talvez demasiado para Gisselle.
        - Estar com o pai  o melhor - retorquiu Jeanne, e uma onda de pnico subiu-me do estmago at ao corao, gelando-o. - Contudo, a mam parece concordar 
consigo de momento, e o Paul... o Paul no discute o assunto.
-        Ento, deixem cair - avisei.
        - Quem iria pensar que uma pessoa como a Gisselle quereria uma criana a vaguear pela casa, embora seja grande - comentou Jeanne.
        - Talvez no me conhea to bem como pensa, Jeanne.
        - Talvez no - suspirou. Talvez exista em si um pouco da bondade da sua irm. S sei que estou desgostosissima com tudo isto.  to injusto. Eram o casal 
mais perfeito do mundo, duas pessoas que viviam o romance maravilhoso que todos desejamos viver.
-        Talvez fosse uma fantasia - repliquei num tom suave.
        - Isso  mesmo seu.
        - Esta conversa no leva a nada de importante - ripostei na minha melhor imitao de Gisselle. - Telefono-vos amanh.
-        Porque telefona tantas vezes?  o Beau que a obriga?
        - No h nenhum motivo para ser insolente, Jeanne.
Ficou um momento silenciosa.
        - Desculpe - pediu. - Tem razo. Tenho andado esgotada. Falo-lhe amanh.
        
        Agora que as minhas conversas com Jeanne se processavam num clima de tenso, tornava-se cada vez mais difcil manter o contacto com Cypress Woods e saber 
o que estava a acontecer por l. Beau aconselhou-me a que me afastasse durante uns tempos.
        - De qualquer maneira, est mais de acordo com a personalidade da Gisselle, Ruby. No ponto em que as coisas se encontram, nenhuma delas tem vontade de se 
mostrar especialmente simptica para contigo.
        Esbocei um aceno de concordncia, mas era muito difcil
deixar de telefonar para saber como estava Paul e inteirar-me das novidades sobre Gisselle. No tinha assim tanto com que me distrair, agora que tnhamos criados 
a cuidar da casa.
        Desde o meu confronto com Bruce no estdio que hesitava em voltar at l e comear um quadro. Manter o meu talento em segredo abafava o impulso criativo, 
mas no queria passar o dia a vigiar Mrs. Ferrier, dando a impresso de que no confiava na forma como se relacionava com Pearl. Assim, gastava horas sentada no 
estdio, fitando uma tela vazia,  espera da inspirao, que parecia nublada pelos meus sombrios pensamentos.
        Uma manh, depois do pequeno-almoo, precisamente quando me dispunha a ir at ao estdio, a campainha da porta soou e Aubrey veio comunicar-me que tinha 
uma visita masculina.
        - Um tal Monsieur Tumbul - anunciou, estendendo-me o carto de um indivduo. Por momentos, o nome no n'e disse nada, s que depois olhei melhor para o 
carto e vi que tinha escrito "Louis Tumbul".
        - Louis - pronunciei em voz alta, invadida por uma onda de alegria.
        Tratava-se de Louis, o neto de Mrs. Clairborne, o jovem cego que conhecera e de quem me tornara amiga em Greenwood, o colgio em Baton Rouge para onde Daphne 
me mandara e  Gisselle.
        A principal benfeitora do colgio era uma viuva, Mrs. Clairborne, que vivia numa manso prxima da instituio com o seu neto Louis. Louis, um jovem na casa 
dos vinte anos, cegara quando ainda era um rapazinho, aps ter sofrido o trauma de ver o pai matar a me, sufocando-a com uma almofada. A cegueira manteve-se e incapacitou-o, 
mesmo depois de dzias e dzias de sesses com um psiquiatra.
        Contudo, ele era um talentoso pianista e compositor que punha todos os sentimentos na msica. Conheci-o acidentalmente quando fora a um ch na manso com 
outras estudantes do nosso dormitrio. Atrada pelo som da msica, entrara no estdio, e Louis e eu tornramos amigos ntimos.
        Louis afirmava que a minha amizade o ajudara a recuperar a vista. Acorreu em minha defesa quando quase fui expulsa de Greenwood por causa de algo que Gisselle 
fizera. O seu testemunho forneceu-me um libi e ps fim ao incidente.
        Louis viajara at  Europa para se tratar e estudar no conservatrio de msica. Tnhamos perdido o contacto e agora, entemente surgido do nada, ali estava 
 minha porta.
        - Mostre-lhe o caminho - pedi a Aubrey e esperei ansiosamente pelo nosso encontro, quando, 'de sbito, me lembrei: No podia saud-lo como se fosse Ruby. 
Eu era Gisselle! Estaquei, com o sangue a gelar-me nas veias.
        
        Aubrey conduziu-o at ao estdio. Louis engordara um pouco desde que o vira pela ultima vez, mas o rosto amadurecera e as faces e o queixo estavam um pouco 
mais finos. Usava o cabelo castanho-escuro mais comprido e puxado para trs nos lados. Ainda era um homem bastante elegante, com uma boca forte e sensual e um nariz 
aquilino. A nica verdadeira mudana era a de que usava uns culos com as lentes mais grossas que me fora dado ver.
        - Obrigado por me receber, Madame Andreas - agradeceu. Aproximei-me e estendi-lhe a mo. - Ignoro se se lembra ou no de mim. Era muito amigo da sua irm 
Ruby - acrescentou e apercebi-me de que ouvira as notcias e julgava que eu era Gisselle.
        - Sim, eu sei. Sente-se, por favor, Mister Tumbul.
        - Trate-me por Lous - pediu e dirigiu-se ao sof em frente da minha cadeira.
        Sentei-me e fitei-o por um momento, interrogando-me sobre se poderia deixar escapar a verdade. Sentia um n de frustrao no estmago. Era como se centenas 
de bolhas de sabo estivessem prestes a rebentar no interior.
        - Acabei de regressar da Europa - explicou -, onde estudei msica e toquei.
        - Tocou?
        - Sim, em algumas das mais importantes salas de concertos - respondeu. - Mal cheguei a Nova Orlees, fiz algumas indagaes e contaram-me essa histria horrvel 
sobre a sua irm. Na verdade, vou tocar aqui em Nova Orlees no prximo Sbado, no auditrio do Parque Louis Armstrong, em St. Arin Street. Esperara que a sua irm 
estivesse entre a audincia. - Fez uma pausa.
        - Lamento - desculpei-me. - Sei quanto ela desejaria estar aqui.
        - Sabe? - Observou-me e depois acrescentou: - Trouxe uns bilhetes para si e Monsieur Andreas, no caso de quererem assistir. - Tirou-os do bolso e pousou-os 
na mesa.
        - Obrigada.
        - Agora, quer fazer o favor de me dar notcias sobre a sua irm? - pediu, ao mesmo tempo que o rosto se lhe ensombrava. - Que coisa horrvel aconteceu, afinal?
        - Foi infectada por um vrus que provoca um tipo muito
grave de encefalite - informei. - Est em coma num hospital e temo que as perspectivas sejam sombrias.
        Louis esboou um aceno de concordncia. Eu confirmara o que ele sabia e receava.
        - Vejo que recuperou completamente a vista. A minha irm~ contou-me - apressei-me a acrescentar.
        - A minha vista  agora to boa como teria sido se no fossem os problemas sofridos, mas pode ver por estas lentes que, de qualquer maneira, no nasci para 
ter uma ptima viso. Desde que possa ver as pginas e escrever as notas, estou bem - acrescentou, a sorrir. -  o que venho fazer aqui no sbado,  noite, sabe? 
Tocar composies originais. Penso que uma delas pode interessar-lhe muito. Escrevi-a para a sua rm. chama-se Sinfonia de Ruby.
        - Claro - anui, ao mesmo tempo que sentia um n na garganta e uma lagrimazinha me escorria do olho direito e depois mais uma, do esquerdo. Interroguei-me 
sobre se os olhos dele veriam algo to pequeno. Fixou-me por um instante, sem pronunciar palavra.
        - Perdo, madame. No pretendo faltar ao respeito, mas Monsieur Andreas no era o namorado da sua irm? - perguntou.
        - Noutros tempos - redargui num sussurro.
        -
         Sabia que ela o amava bastante... Apaixonei-me por ela, sabe, mas encarregou-se de deixar bem claro perante mim que o seu corao j pertencia a outro e 
nada do que eu pudesse dizer ou fazer mudaria isso. Um amor to forte  raro, mas suponho que ela casou com outro, no foi?
        - Sim - assenti, desviando os olhos com uma sensao de culpa. A minha histria ansiava por brotar-me dos lbios, qual rio enraivecido contra um dique.
        - E tinha uma criana, uma filha? - prosseguiu.
        - Sim. Chama-se Pearl. Vive agora comigo.
        - Suponho que o marido da Ruby esteja bastante perturbado - replicou.
        Esbocei um aceno de concordncia.
        - Como est a sua av, Madame Clairborne? - interessei-me.
        - A minha av faleceu h trs meses.
        - Oh! Lamento.
        - Sim. Sofreu mais do que as pessoas sabiam. A vida dela, embora fosse uma pessoa rica, no transbordava de felicidade. Viveu, contudo, o suficiente para 
me ver recuperar a vista e tocar em grandes salas de concertos.
        - Isso deve t-la feito muito feliz. E a sua prima, a "dama de ferro" que dirigia Greenwood? Ainda contnua a soberana de todas essas jovens?
        - No - sorriu. - A minha prima reformou-se pouco depois do falecimento da minha av e foi substituida por uma mulher muito mais bondosa e compreensiva, 
Mistress Waverly.
-        Sorriu. - J no h motivo para a sua famlia ter receio de enviar a Pearl para l, um dia.
        - Ainda bem - congratulei-me.
        Tirou do bolso uma caneta e um bloco.
        - Quer ter a bondade de me informar do nome e morada do hospital onde a sua irm est a ser tratada? Gostaria de lhe enviar flores.
        Indiquei-lhos e ele anotou.
        - Bom. No quero tomar-lhe mais tempo. Este  um perodo difcil para si e para a sua famlia. - levantou-se e imitei-o devagar. Pegou nos bilhetes e trouxe-os 
at mim, deixando-mos na mo. - Espero que possa assistir ao concerto com o seu marido - desejou. - Agarrou-me nos dedos e fixou-me com tal intensidade que fui forada 
a baixar os olhos. Quando os ergui de novo, ele sorria. - Vai reconhecer a pea, estou certo -        sussurrou.
        -Louis...
        - No fao perguntas, madame. S espero que esteja na assistncia.
        - Estarei.
        - Muito bem, ento.
        Acompanhei-o at  porta da frente, onde Aubrey lhe entregou o chapu. Depois, Louis virou-se para mim.
        - Quero que saiba que a sua irm teve uma extraordinria importncia na minha vida. Tocou-me profundamente e devolveu-me o desejo no s de viver, mas de 
continuar com a minha msica. A sua personalidade doce e inocente, a pureza com que encarava as coisas, devolveram-me a minha f na vida e deram-me a inspirao 
para escrever o que espero que as pessoas considerem msica importante. Devia orgulhar-se muito dela.
        -
         E orgulho-me - acentuei.
        - Todos rezaremos por ela, ento.
        - Sim, rezaremos - anui, enquanto as lgrimas me corriam pelas faces, sem que fizesse qualquer esforo para as limpar. - Deus o abenoe - sussurrei; Louis 
esboou um aceno de cabea e foi-se embora.
        O meu corao assemelhava-se a uma pedra afundada no canal pantanoso. Limpei, finalmente, as lgrimas.
        Uma mentira arrasta outra, costumava dizer a grandmre Catherine. E depois as mentiras alimentam-se umas das outras, como cobras deleitando-se com os rebentos.
        Quantas mais mentiras seria obrigada a dizer? At onde teria de ir o meu embuste, antes de poder viver em paz com o homem que amava? Louis sabia a verdade, 
descobrira quem eu era. Fazia todo o sentido. Conhecera-me sobretudo pela voz, pelo toque. Aprofundara para l da superficie, pois a superficie para ele era escura 
e, assim, reconhecera-me de imediato. E, no entanto, compreendia que havia motivos para a troca de identidades e no contestou nem fez nada para desmascarar o intrincado 
esquema que Beau e eu havamos concebido e executado. Louis gostava demasiado de mim para fazer perguntas embaraosas.
        Nesse dia, quando Beau regressou a casa, falei-lhe da visita de Louis.
        - Lembro-me dele, lembro-me de falares constantemente dele. Achas que guardar o que sabe para si prprio?
        - Oh, sim, Beau. Sem dvida.
        - Talvez no devssemos assistir a esse concerto - sugeriu Beau.
        - Tenho de ir. Ele espera que eu v e  esse o meu desejo. - Expressei-me num tom to firme que Beau ergueu as sobrancelhas. Reflectiu um momento.
        - No  o tipo de coisa a que a Gisselle assistiria - avisou.
        - Estou cansada de cingir-me apenas ao que a Gisselle faria; cansada de pensar apenas como ela pensaria e dizer apenas o que ela diria. Sinto-me como uma 
prisioneira cada na armadilha da identidade da minha irm! - explodi.
        - Compreendo, Ruby.
        - Mantenho-me encerrada nesta casa a maior parte do tempo com receio de sair e poder dizer a frase errada ou ter a atitude errada sem ti ao meu lado - prossegui, 
num tom de voz agudo.
        - Compreendo.
        - No, no compreendes.  uma tortura - insisti.
        - Iremos ao concerto. Se algum perguntar, ests a faz-lo por mim.  tudo - rematou Beau.
        - Claro. Eu sou a estpida, insensvel, um monte... de carne e ossos corruptos da alta sociedade - gemi. Beau riu-se. - O que foi?
        - Tens razo. Acabaste de descrever o que era a Gisselle.
        - Ento, como te convenceste a casar com ela? - exigi saber, num tom mais brusco do que tencionara.
        Ele fez um trejeito.
        - Expliquei-te tudo isso uma vez, Ruby. Os motivos permanecem os mesmos. Amo-te; sempre te amei, s a ti - respondeu e baixou a cabea, antes de dar meia-volta 
e afastar-se.
        
        Fiquei ali de p, sentindo-me terrivelmente perturbada. Parecia que com aquele meu estado de esprito acabaria por magoar toda a gente. Os que amava tambm 
estavam a passar por um problema emocional. Como  que nos colocara a todos naquela sinuosa e dolorosa situao? Estava a afogar-me, a afogar-me naquele velho charco 
familiar de um imenso desespero.
        Apercebia-me, sem dvida, de que a culpa no me cabia inteiramente. Beau no devia ter-me abandonado nem impelido ao ponto de acreditar que no havia esperana 
para mim e para a minha filha se no casasse com Paul, e Paul no devia ter suplicado, tentando convencer-me, nem vencido com as suas tentaes de uma vida rica 
e confortvel.
        E acima de tudo Gisselle no devia ter-se aproveitado e casado com Beau apenas para me magoar. J verificara que ela na verdade no o amava; fora-lhe infiel, 
sabe-se l quantas vezes... "Somos todos culpados de algo que nos trouxe at este ponto", reflecti. Porm, esse pensamento no fazia com que me sentisse melhor, 
nem diminua o meu sentimento de culpa.
        De qualquer maneira, de que servia atormentarmo-nos um ao outro? De que servia agravar todo aquele turbilho que j existia e talvez nunca terminasse? Fui 
atrs de Beau e encontrei-o no estdio a olhar atravs da janela.
        - Desculpa, Beau - pedi. - No era minha inteno explodir daquela maneira.
        Virou-se devagar e sorriu.
        - Tudo bem. Cabe-te todo o direito de explodires de vez em quando. Ests sob uma grande presso.  muito mais fcil para mim. Apenas tenho de ser eu e poder 
ocupar-me dos meus negcios. Devia ser mais compreensivo e mais sensvel s tuas necessidades. Desculpa.
        - No discutamos esse assunto, ento - redargui.
        Aproximou-se de mim e agarrou-me pelos ombros.
        - No consigo imaginar sequer zangar-me contigo, Ruby. Se o fizer, iria odiar-me ainda mais por isso depois. Prometo-te.
Beijmo-nos, abramo-nos e saimos juntos at ao terrao para ver o que estava Pearl a fazer com Mrs. Ferrier.
        
        Chegara  concluso de que nada do que Gisselle tinha no roupeiro servia para o concerto de Louis; portanto, sa e comprei um elegante vestido comprido de 
veludo preto  altura do tornozelo. Quando Beau me viu com ele, ficou parado um longo momento. Depois, abanou a cabea.
        - O que foi? - perguntei.
        - S o idiota mais insensvel no veria a diferena entre ti e a tua irm e no se aperceberia de quem s realmente - replicou.
        - Dizes isso por me conheceres to bem, Beau.  primeira vista, a Gisselle no parecia assim to diferente, se usasse uma coisa destas. S que no lhe interessava 
ter o aspecto de uma mulher madura. Achava que no era sexy.
        - Talvez tenhas razo - concordou. - De qualquer maneira, estava errada, se achava que a sofisticao no era sexy. Tras-me o flego. - Pensou um momento 
e depois esboou um aceno de cabea. - Acho que esta noite devias pr um dos colares de diamantes da Daphne. Era o que a Gisselle faria - acrescentou, vincando as 
palavras.
        Suspirei, contemplei-me no espelho e concordei que deveria usar algo para compor o decote.
        -
         Alm disso - continuou Beau, varrendo a minha hesitao -, porqu ter ressentimentos contra as jias? Os diamantes no puderam escolher o proprietrio, 
no  verdade?
        Ri e dirigi-me ao guarda-jias de Daphne.
        - Tenho a certeza de que nunca brilharam tanto nela - declarou Beau de olhos brilhantes, quando pus o colar que me lembrava ter sido comprado pelo meu pai.
        - Brilharam, sim, Beau. Embora fosse m e o mais cruel possvel para connosco, era uma mulher bonita, uma feiticeira que se apoderou do corao e amor do 
meu pai e depois o atormentou por isso mesmo.
        - E ao irmo tambm - lembrou-me Beau.
        - Sim, e ao irmo tambm - anui, pensando no pobre tio Jean.
        Sabia-me bem escapar-me aos meus sombrios e pesados pensamentos e arranjar-me para uma noite elegante. A gente mais rica e famosa de Nova Orlees iria assistir 
ao concerto de Louis. O meu corao transbordava de alegria ao ver o seu nome com letras luminosas e a fotografia nos cartazes.
        Seguimos o cortejo de luxuosos automveis e limusinas at  frente do teatro, onde motoristas e porteiros se apressavam a abrir as portas a mulheres com 
modelos exclusivos de estilistas e homens de smoking. Quando surgimos sob as luzes, senti-me como se todos os olhos se fixassem em mim, observando-me os movimentos, 
escutando cada palavra minha. lembrando-me do que Beau dissera quanto  presena de Gisselle num acontecimento semelhante, tentei compor um ar infeliz e incomodado. 
Esta segunda parte no era difcil, pois sentia-me muito nervosa.
        Todos os que vieram falar-nos manifestaram o seu interesse pelo estado de Ruby. "Na mesma", era a resposta esteriotipada de Beau. Por um instante, pareciam 
apiedados e depois passavam rapidamente a outros assuntos. A maioria das pessoas que iam assistir tinha bilhetes para a poca e seguia todos os concertos. Fiquei 
surpreendida por tantas delas conhecerem Louis, saberem que compusera msica enquanto estava cego e que, depois, ao recuperar a vista, comeara a tocar pela Europa 
inteira.
        Uma vez que nenhuma das amizades de Gisselle assistiria a um concerto daqueles, no seria obrigada a encarar a surpresa delas ao verem-me vestida assim. 
Contudo, senti-me feliz quando, por fim, nos sentmos, e a audincia se aquietou. O maestro surgiu ao som de aplausos e, quando Louis entrou, a ovao ainda foi 
maior. Sentou-se ao piano, na sala reinou o mais absoluto silncio e a msica comeou.
        Enquanto Louis tocava, fechei os olhos e lembrei-me daquelas noites na manso da sua av. As recordaes invadiram-me. Vi-o sentado ao piano, com os olhos 
mergulhados na escurido, mas os dedos provocando uma luz que se lhe reflectia no rosto. lembrei-me de como nos sentvamos juntos no banco enquanto ele tocava e 
lembrei-me de que me acariciava e beijava. Recordei a grande exploso de lgrimas e emoo no quarto dele, quando, por fim, me contou a histria dos pais, a obsesso 
que a me lhe dedicava e a raiva do pai.
        
        Idntico ao arco-ris depois da tempestade, Louis sara desse turbilho de dor e tornara-se um pianista de fama mundial. Invadia-me uma sensao no s de 
calor e alegria, mas de esperana para Beau, Pearl e para mim prpria. "A nossa tempestade no tardar a findar", pensei "e teremos uma calma e doce bonana."
        Antes do final do concerto, Louis levantou-se e dirigiu-se  audincia.
        - Esta ultima pea, segundo indica o programa, chama-se Sinfonia de Ruby. Trata-se de uma pea inspirada por uma jovem maravilhosa que fez uma breve apario 
na minha vida e me ajudou a reencontrar a esperana e autoconfiana. Pode afirmar-se que me mostrou a luz ao fundo do tnel. , portanto, com especial prazer que 
toco isto para todos vs esta noite - salientou.
        Poucas pessoas da audincia suspeitavam que era de facto
eu, Ruby Dumas, para quem a msica fora escrita e a quem era dedicada.
        Beau agarrou-me na mo, mas no pronunciou uma palavra. Tentei reter as lgrimas, receosa de que as pessoas notassem, mas tratava-se de um feito quase impossvel. 
Tinha o rosto molhado de lgrimas, quando a msica terminou; contudo, a audincia ficara arrebatada e aplaudiu de p. Louis esboou vnias de agradecimento e abandonou 
o palco, ao som do sucesso obtido.
        - Tenho de ir aos bastidores v-lo e felicit-lo, Beau - disse.
        - Claro - anuiu ele.
        O camarim de Louis estava a transbordar de pessoas que tinham vindo cumpriment-lo. Abriam-se garrafas de champanhe por todo o lado. Julguei que no conseguiramos 
chegar perto dele, mas Louis descobriu-me l atrs e fez-nos um sinal de cabea, pedindo s pessoas que abrissem alas. Todos os olhos se fixaram obviamente em ns, 
com as pessoas a interrogarem-se sobre quem eram aqueles convidados especiais.
        - Foi maravilhoso, Louis - elogiei. - Sinto-me to contente por termos conseguido vir.
        - Sim, espectacular - acrescentou Beau.
        - Obrigado. Fico felicssimo por ter trazido um pouco de alegria s vossas vidas nesta altura especialmente crtica, Madame Andreas. - Beijou-me a mo.
        - Desejaria que a irm da Gisselle pudesse ter estado aqui - acentuou Beau rapidamente e num tom suficientemente alto para que todos ouvissem. O meu corao 
quase parou no silncio que se seguiu. O sorriso de Louis alargou-se.
        - No  o que todos desejaramos? - retorquiu. - Mas no fundo, acabou por estar - acrescentou com um sorriso suave.
        Entreolhmo-nos por um momento e depois foi aberta outra garrafa de champanhe e a ateno de Louis desviou-se o tempo bastante para permitir que Beau e eu 
nos retirssemos delicadamente.
        Sentia um enorme aperto no corao. Mesmo com a janela do carro aberta e o rosto praticamente do lado de fora, tinha dificuldade em respirar.
        - Ainda bem que me convenceste a assistir a este concerto - comentou Beau. - Ele foi realmente espectacular. No estou apenas a falar por falar. Quando tocava, 
a msica adquiria vida prpria e melodias que eu j tinha ouvido antes tornaram-se bonitas como imaginei que deveriam ser.
        - Sim. Ele tem um talento invulgar.
        - Devias sentir-te orgulhosa por o teres ajudado a recuperar o seu objectivo na vida - replicou Beau.
        -
         Ignoro at que ponto tive a ver com isso.
        - A expresso do rosto dele indicou-me que tiveste tudo a ver - redarguiu Beau. - Contudo, no sinto ciumes - apressou-se a acrescentar com um sorriso. - 
Passaste pela vida dele como um anjo-da-guarda, tocaste-lhe e prosseguiste. Mas tu s a minha vida.
        Atraiu-me de encontro ao corpo e beijou-me. Enrosquei-me nele e foi a primeira vez que me senti de facto segura e feliz, desde a nossa chegada a Nova Orlees 
como marido e mulher. Nessa noite, fizemos amor suave e meigamente, acabando por adormecer nos braos um do outro. Ambos dormimos mais tempo do que o habitual. Nem 
mesmo o sol que se infiltrava pelas janelas nos acordou, e Beau desligara o telefone junto  cama para que no nos incomodassem.
        Fui a primeira a ouvir os passos e a leve pancada na porta de Aubrey. De incio, julguei que estava a sonhar. Depois abri os olhos e voltei a escutar. Beau 
gemeu, quando me mexi.
        - Um momento - pedi e levantei-me para vestir o roupo. Beau virou-se na cama e fechou novamente os olhos.
        - Desculpe incomodar, madame, mas Madame Pitot est ao telefone e parece muito agitada. Insistiu em que a chamasse imediatamente.
        - Obrigada, Aubrey - agradeci.
        Dirigi-me  mesa-de-cabeceira e liguei o nosso telefone, as mos tremendo com a antecipao de ms notcias.
        - O que ? - perguntou Beau, esfregando os olhos com as palmas das mos.
        -  a Jeanne - respondi, levantando o auscultador. - Ol, Jeanne.
        - Ela morreu - informou num tom de voz que mais parecia sepulcral. - Morreu ao comeo da manh. O Paul estava l, agarrando-lhe na mo.
        -O qu?
        - A Ruby morreu. Disseram-me que lhe telefonasse. Ningum mais queria faz-lo. Desculpe se a acordei. Pode voltar a dormir - acrescentou.
        - Jeanne, quando? Como?
        - O que quer dizer com quando, como? No foi exactamente uma surpresa, pois no? Mas tem uma maneira muito prpria de evitar as coisas desagradveis, de 
as ignorar, no , Gisselle? S que a criatura da foice no tolera ser ignorada, at mesmo por ricos crioulos da alta sociedade de Nova Orlees.
        - Como est o Paul? - apressei-me a perguntar, ignorando aquele amargo sarcasmo.
        - No sai do lado dela. Vai seguir o corpo passo a passo, at  agncia funerria. Nem sequer escuta os meus pais. Apenas pronunciou uma frase com sentido, 
e para mim, porque sabia que iria telefonar-lhe.
        -Qual foi?
        - Disse-me para a avisar que no trouxesse a menina ao funeral. No quer que ela veja nada disto. Quer dizer, se  que Vem ao funeral.
        - Claro que iremos ao funeral - ripostei. - Ela era minha irm.
        -
         Sim, era sua irm - redarguiu Jeanne secamente. Desculpe. No posso falar mais. Se quiser, telefone mais tarde e pea ao James pormenores sobre o funeral.
        Depois de pousar o auscultador, recostei-me na almofada. Sentia-me como se tivesse ficado sem pinga de sangue. Engoli um soluo.
        Beau j sabia, mas mesmo assim perguntou:
        - O que aconteceu?
        - Ela morreu esta manh.
        Ele abanou a cabea e soltou um profundo suspiro. Senti-lhe a mo no meu ombro. Ficmos ambos silenciosos por um momento, digerindo aquela realidade.
        - Pelo menos, acabou - retorquiu. - Finalmente.
        Virei-me para ele.
        - Oh, Beau!  to estranho.
        - O qu?
        - Pensarem que fui eu que morri. A tristeza e raiva da voz da Jeanne foram-me insuportveis.
        - Sim, mas encerra o assunto para sempre. Tu e eu, tal como te disse, como prometi. Derrotmos o destino.
        Abanei a cabea. Eram estas as palavras que deveriam tornar-me feliz, mas apenas me encheram o corao de um terrivel pavor. J antes sentira as picadas 
surpreendentes e inesperadas do destino. No tinha e provavelmente nunca teria a confiana de Beau.
        Apesar de todas as coisas horrveis que Gisselle me fizera no passado e no obstante os ciumes dela e a sua forma de me olhar de cima porque fora criada 
no bayou, era uma cajun, no conseguindo deixar de me recordar dos momentos mais ternos em que, ao fit-la, detectava o seu desejo de ser amada e de se comportar 
como uma verdadeira irm. Sabia que Beau me diria que o meu corao era to mole como gelatina, mas no consegui deixar de verter lgrimas por Gisselle, aquela Gisselle 
que eu via ansiar por ser amada.
         tarde, telefonei e falei com James. Ele mostrou-se muito delicado, mas igualmente frio. Nada podia parecer-me mais estranho do que assistir s minhas prprias 
exquias e funeral. Quando chegmos a Cypress Woods no dia do enterro, verificmos que a lividez e tristeza da morte se haviam abatido sobre a manso e os seus terrenos. 
O cu apresentava-se carregado e cor de chumbo e as densas nuvens estendiam-se de uma ponta  outra do horizonte. A escurido roubava a cor s ptalas das flores 
e colocava sombras para onde quer que eu olhasse. Todos pareciam tocados pela tragdia. As pessoas sussurravam, deslizavam e abraavam-se umas s outras, como que 
unindo-se num crculo destinado a conservar a melancolia. Achei que os criados pareciam Os mais tristes de todos, com os olhos injectados de sangue e os ombros descados.
        Era-me difcil, se no impossvel, receber expresses de condolncia. Sentia-me horrvel a enganar pessoas to desgostosas e, assim, virei costas e afastei-me 
o mais rapidamente possvel. No entanto e mais uma vez, as pessoas tomaram a minha reaco pela indiferena e egosmo de Gisselle.
        
        Os pais de Paul, as irms dele, Toby e Jeanne, e o marido de Jeanne ficaram na sala de estar a receber os psames das pessoas. Senti os olhos de Gladys Tate 
a fixarem-se em mim com frieza mal entrei, e pareceu-me ver um arremesso de sorriso nos lbios finos quando a cumprimentei. Fez com que me sentisse to pouco  vontade 
que abandonei a sala o mais depressa que pude.
        Paul conservou-se isolado a maior parte do tempo. Percebemos que bebia muito. As nicas pessoas que quis ver foram os parentes mais chegados, sobretudo a 
me. Foi mesmo ao ponto de me fechar a porta, a mim e a Beau. Toby, que fora inform-lo da minha presena, voltou com a notcia de que Paul achava demasiado doloroso 
ver-me, dado parecer-me tanto com Ruby. Beau e eu entreolhmo-nos, surpreendidos.
        - Agora, ele est realmente a exagerar - admitiu Beau num sussurro.
        Fiquei muito preocupada e subi ao seu quarto. Bati  porta e esperei, mas no obtive resposta. Experimentei rodar a maaneta, mas a porta estava fechada 
 chave.
        - Sou eu, Paul. Abre a porta. Temos de falar. Por favor - supliquei.
        Beau ficara para trs, a fim de se certificar que ningum ouvia as minhas splicas.
        - No vale a pena - redarguiu. - Ele no quer ver-te. Espera at mais tarde.
        No entanto, s o vi quando chegou a hora das exquias. o desespero tirara-lhe toda a cor ao rosto, que agora se assemelhava a uma mscara de morte. Fitou-me 
com um olhar inexpressivo e caminhava como algum em transe. Apertei a mo de Beau, fitei-o preocupada e ele esboou um aceno de cabea. Tentou aproximar-se de Paul 
antes de mim e falar-lhe, mas Paul no o reconheceu. Mal reconhecia os prprios pais e, com tanta gente a rode-lo, era-me difcil dizer tudo o que queria dizer-lhe.
        A igreja estava a transbordar, no s por causa das pessoas que os Tate conheciam e com quem negociavam, mas por causa das pessoas que conheciam e se lembravam 
da minha grandmre Catherine. O corao quase me explodiu de desgosto ao ver-lhes os rostos.
        Beau e eu sentmo-nos na frente, no banco atrs de Paul e da famlia e escutmos a elegia pronunciada pelo padre. Sempre que ouvia o meu nome, fazia uma 
careta e olhava em volta. No havia um nico rosto sem lgrimas na igreja. As irms de Paul choravam abertamente, mas Paul assemelhava-se a um morto-vivo, com o 
corpo rgido e os olhos to inexpressivos que me provocavam calafrios. Quem  que, no seu perfeito juzo, olharia para ele e duvidaria que era, de facto, Ruby quem 
se encontrava naquele caixo?, reflecti, sentindo um n no estmago.
        "Estou a ver esta gente a chorar por mim, a ouvir um padre falar a meu respeito e a fitar um caixo, onde supostamente se encontra o meu corpo", pensei, 
sentindo-me um esprito demonaco.
        No cemitrio ainda foi pior. Era eu quem, segundo o que todos acreditavam, estava a ser descida at  cova; era sobre o meu caixo que o padre pronunciava 
as ultimas palavras e executava os ultimos rituais. O meu nome, a minha identidade, estavam prestes a ser enterrados. Pensei intimamente que era esta a derradeira 
oportunidade, a ultima vez em que poderia gritar: "No, no  a Ruby que est no caixo.  a Gisselle. Eu estou aqui. No estou morta!"
        
        Por um momento, julguei que tinha falado, mas as palavras morreram-me nos lbios. Os meus actos haviam-nas tornado proibidas. Apercebi-me de que a verdade 
tinha de ser enterrada aqui e agora.
        A chuva desabou e prolongou-se, impiedosa, mais fria do que o habitual. Abriram-se guarda-chuvas. Paul parecia no dar por ela. O pai e o marido de Jeanne, 
James, tiveram de agarr-lo pelos braos para impedir que casse'. Quando o caixo foi descido e o padre lanou a gua benta, as pernas de Paul cederam. Tiveram 
de o levar para a limusina e darem-lhe gua fria a beber. A me trespassou-me com o olhar e seguiu-o rapidamente.
        - Ele vai ganhar um prmio com esta representao... se  que se trata de representao... - comentou Beau, abanando a cabea. At ele estava mais do que 
surpreendido. Pela expresso do rosto, parecia to atemorizado quanto eu com o bizarro comportamento de Paul.
        Suspirei.
        - Tens razo - sussurrou-me, quando regressmos ao nosso carro. - O Paul sentiu-se to perturbado com a ideia de perder-te, que ficou um pouco alucinado 
e tornou a iluso como realidade. A nica forma de poder aceitar que o deixaras foi acreditar que eras tu quem estava doente e agora morreste - declarou Beau, abanando 
a cabea.
        - Eu sei, Beau. Foi isso que aconteceu. Sinto-me to preocupada.
        - Talvez agora que tudo terminou e ela desapareceu, consiga recompor-se - sugeriu Beau, mas nenhum de ns estava confiante que assim fosse.
        Regressmos a Cypress Woods, sobretudo para ver como se encontrava Paul. O mdico subiu ao quarto para o examinar e, quando desceu, informou-nos que dera 
algo a Paul para o ajudar a dormir.
        - levar tempo - retorquiu. - Estas coisas levam tempo. Infelizmente, no temos qualquer droga, medicamento ou tratamento que cure o desgosto. - Apertou 
a mo de Gladys entre as dele, beijou-a na face e saiu. Ela virou-se e fitou-me de uma forma estranhssima, de olhos chispantes. Depois subiu as escadas para ir 
ter com o filho.
        Toby e Jeanne foram para um canto, a fim de se consolarem uma  outra. As pessoas comearam a ir embora, ansiosas por deitarem aquela horrvel tristeza para 
trs das costas. A me de Paul permaneceu no quarto ao lado dele. Assim, eu no podia v-lo, mesmo que quisesse. Octavous desceu para nos falar. Dirigiu-se a Beau, 
como se tambm ele no conseguisse encarar-me.
        -,AGladys est to em baixo quanto o Paul - murmurou. -  sempre assim. Quando ele estava doente, mesmo em
criana, ela tambm ficava. Se ele estava infeliz, tambm ela
o estava. Que coisa to horrvel esta! - acrescentou, abanando
a cabea e afastando-se. - Horrvel!
        - Chegou a altura de nos irmos embora - replicou Beau num tom suave. - D-lhe um dia ou dois e depois telefona. Quando se tiver recomposto um pouco, convidamo-lo 
a ir a Nova Orlees e falaremos de tudo sensatamente.
        Esbocei um aceno de concordncia. Queria despedir-me de jeanne e Toby, mas elas assemelhavam-se a dois moluscos que tinham fechado a concha de tristeza  
sua volta. No olhavam nem falavam com ningum.
        
        Beau e eu dispusemo-nos, assim, a ir embora. Fiz uma pausa junto  porta. James mantinha-a aberta, esperando, impaciente; no entanto, eu queria percorrer 
o olhar pela manso antes de sair. Invadia-me uma sensao de fim. Aquilo era o termo de tantas coisas. Contudo, s no final da tarde do dia seguinte descobriria 
quantas.
        

15

ADEUS AO MEU PRIMEIRO AMOR
        
        Ao princpio da noite do dia seguinte, exactamente quando Beau e eu nos preparvamos para nos sentarmos  mesa, Aubrey apareceu  porta da sala de jantar, 
muito plido, para me informar de que tinha um telefonema.
        Desde o regresso do funeral e de Cypress Woods que Beau e eu nos movamos como dois sonmbulos, comendo pouco, fazendo pouco, falando em voz baixa. As nuvens 
de tristeza que pairavam sobre o bayou tinham-nos seguido de volta a Nova Orlees e agora estendiam-se sobre as nossas cabeas qual tecto opressivo, escurecendo 
todas as salas e enchendo-nos a prpria alma de sombras.
        Chovera durante todo o caminho de regresso de Cypress Woods. Adormecera ao som montono dos limpa-vidros no pra-brisas e despertara com um frio que nem 
um monte de cobertores e uma dzia de camisolas conseguiriam eliminar dos meus ossos.
        - Quem ?        - perguntei.
        No me apetecia falar com nenhuma das amigas de Gisselle, que, segundo os meus clculos, teriam ouvido falar da minha morte e desejariam entrar em coscovilhices. 
Dera instrues a Aubrey para informar todas as que telefonassem que eu no estava disponvel.
        - No disse, madame. Mas fala com uma voz baixa e rouca e mostra-se muito insistente - explicou.
        Pela forma como Aubrey pronunciava as palavras e revirava os olhos, percebi que quem quer que fosse lhe falara com rudeza. Tinha a certeza agora de que se 
tratava de uma das mal-educadas e mimadas amigas de Gisselle, que no aceitariam "no" como resposta de um criado.
        - Queres que atenda? - props Beau.
        - No. Eu trato do assunto - repliquei. - Obrigada, Aubrey. Lamento - acrescentei, pedindo desculpa pela experincia por que ele tivera de passar.
        Dirigi-me ao estdio e peguei no auscultador com o corao a bater-me com fora e o rosto corado de raiva.
        - Quem ? - inquiri e, por um momento, no obtive resposta. - Est?
        - Ele desapareceu - proferiu uma voz rouca. - Desapareceu, no conseguimos encontr-lo e tudo por tua culpa.
        - O qu? Quem fala? Quem desapareceu? - indaguei a uma velocidade de metralhadora. A voz provocara-me um calafrio pela espinha e pregara-me ao cho.
 - Foi para os canais. Foi para l na noite passada, no regressou e ningum conseguiu encontr-lo. O meu Paul - soluou. Soube, nesse momento, que se tratava de 
Gladys Tate.
        - O Paul... foi para os canais na noite passada?
        - Sim, sim, sim - gritou ela. - Fizeste-lhe isto. Fizeste-lhe tudo isto.
        - Madame Tate...
        -
         Pra! - ordenou. - Deixa de fingir - acrescentou, baixando a voz novamente para aquele tom spero de velha bruxa. - Sei quem s realmente e sei o que tu 
e o teu... amante fizeram. Sei como despedaaste o corao do meu Paul, o destruste at j no lhe restarem sentimentos. Sei como o obrigaste a fingir e a participar 
no teu horrvel esquema.
        Senti-me como se tivesse entrado em gua gelada e ficado afitodada at aos joelhos. Por um momento, fui incapaz de falar. A minha garganta fechou-se e todas 
as palavras emperraram no meu peito, dando-me a impresso de que rebentaria.
        - A senhora no compreende... - articulei finalmente num tom vacilante.
        - Oh, compreendo muito bem. Compreendo melhor do que julgas. O meu filho - prosseguiu numa voz agora cheia de arrogncia - confiava mais em mim do que alguma 
vez saberas. Nunca houve segredos entre ns, nunca. Sabia da primeira visita que te fez e  tua grandmre. Sabia o que pensava de ti, como estava a apaixonar-se 
por ti. Sabia como ficou triste e perturbado quando foste viver com os teus pais crioulos de Nova Orlees e soube como ficou feliz com o teu regresso.
        "Mas eu avisei-o. Avisei-o de que lhe despedaarias o corao. Tentei. Tentei tudo o que estava ao meu alcance - acrescentou, soluando. - Enfeitiaste-o. 
Tal como te disse no outro dia, tu e a bruxa da tua me lanaram um feitio ao meu marido e depois ao meu filho, o Paul. Ele desapareceu, desapareceu - replicou, 
enquanto a voz lhe faltava, movida pelo dio.
        - Madame Tate... Gladys... lamento pelo Paul. Eu... Vamos j e ajudaremos a encontr-lo.
        - Ajudar a encontr-lo! - exclamou com uma gargalhada gelada. - Mais depressa pediria ajuda ao diabo. S quero dizer-te que sei por que razo o meu filho 
tem o corao despedaado e no ficarei aqui sentada a v-lo sofrer, sem que tu sofras o dobro.
        - Mas...
        O telefone emudeceu. Deixei-me ficar sentada com o corao ameaando saltar-me do peito e a cabea a andar  roda. Senti-me como se estivesse numa piroga 
que havia sido apanhada pela corrente e revoluteava perigosamente. A sala girava  minha volta. Fechei os olhos, gemi e o auscultador caiu-me e rolou pelo cho. 
Beau surgiu ao meu lado e amparou-me quando resvalei.
        - O que  isto? Ruby! - Virou-se e gritou por Sally. - Depressa. Traz-me um pano frio e molhado - ordenou, pondo o brao  minha volta e ajoelhando-se. Abri 
os olhos. - O que aconteceu? Quem estava ao telefone, Ruby?
        - Era a me do Paul, a Gladys - ofeguei.
        - O que disse ela?
        - Que o Paul desapareceu. Foi para os pntanos na noite passada e ainda no voltou. Oh, Beau - gemi.
        Sally apareceu com o pano. Beau tirou-lho da mo e pousou-o na minha cabea.
        - Descontrai-te. Ela ficar bem, Sally. Merci - agradeceu Beau, mandando-a embora.
        Respirei fundo algumas vezes e senti o sangue a voltar-me s faces.
        - O Paul desapareceu? Foi o que ela disse?
        - Sim, Beau. Mas disse mais. Disse que sabia de ns, sabia o que tnhamos feito. O Paul contou-lhe tudo. Ignorava que o fizera, mas agora que penso na maneira 
como me fitou no funeral... - Sentei-me. - Ela nunca gostou de mim. Beau...
- Solucei. - Oh, Beau. Ela ameaou-me.

- O qu? Ameaou? Como?
        - Garantiu que eu sofreria o dobro do que o Paul sofreu.
        Beau abanou a cabea.
        - Neste momento ela est histrica. O Paul p-los a todos num frenesim.
        - Ele foi para os pntanos, Beau, e no regressou. Quero ir at l e ajudar a encontr-lo. Temos de ir, Beau.
        - No sei o que podemos fazer. Devem ter todo o pessoal  procura.
        - Beau, por favor. Se alguma coisa lhe acontecer...
        - De acordo - assentiu. - Mudemos de roupa. Tinhas
razo - acrescentou com um tom amargo na voz. - No devamos t-lo envolvido tanto como o fizemos. Agarrei a oportunidade para nos facilitar as coisas, mas devia 
ter pensado melhor.
        As pernas tremiam-me, mas segui-o pelas escadas a fim de mudar de roupa e informar Mrs. Ferrier que amos sair e talvez s voltssemos muito tarde ou mesmo 
no dia seguinte. Metemo-nos no carro e guimos atravs da noite, fazendo a viagem num tempo recorde.
        Havia dzias de carros e furgonetas ao longo do acesso de Cypress Woods. Quando estacionmos junto  casa, olhei para o cais e vi tochas nas mos de homens 
que saam em pirogas e barcos a motor para procurar Paul. Ouvimos os seus gritos ecoando pelo bayou.
        No interior da casa, as irms de Paul estavam sentadas no estdio. Toby parecia uma esttua, com a pele cor de alabastro; Jeanne torcia um leno de seda 
nas mos e rangia os dentes. Ambas ergueram os olhos, surpreendidas, quando entrmos.
        - O que est a fazer aqui? - perguntou Toby.
        Pelas expresses dos rostos e a admirao demonstrada, presumi que Gladys Tate ainda no contara a verdade s filhas. Continuavam a julgar que eu era Gisselle.
        - Ouvimos as notcias sobre o Paul e viemos ver o que podamos fazer para ajudar - apressou-se Beau a responder.
        - Podem ir at l abaixo e juntarem-se ao grupo de busca, suponho - disse Toby.
        - Onde est a vossa me? - perguntei.
        - Est l em cima na sute do Paul, deitada - comunicou Jeanne. - O mdico veio c, mas ela recusou-se a tomar medicamentos. No quer estar a dormir se... 
quando... - Os lbios tremeram-lhe e as lgrimas saltaram-lhe dos olhos.
        - Controla-te - repreendeu Toby. - A me precisa que sejamos fortes.
        - Como sabem de certeza que ele foi para os pntanos? Talvez esteja em qualquer bar - sugeriu Beau.
        - Antes do mais, o meu irmo no iria at um bar um dia depois de ter enterrado a mulher e, em segundo lugar, alguns dos operri'os viram-no dirigir-se para 
o cais - redarguiu Toby.
        - E levando uma garrafa de usque na mo - acrescentou Jeanne tristemente.
        Fez-se um silncio mortal.
        - Estou certo de que o encontraro - pronunciou-se finalmente Beau.
        Toby virou-se lentamente para ele e deitou-lhe um olhar gelado.
        -
         Algum de vocs esteve alguma vez nos pntanos? Algum de vocs sabe como pode ser? D-se uma volta e fica-se a flutuar no meio de um emaranhado de plantas 
e ramos de ciprestes e em breve deixa de se saber como se entrou e no se faz ideia de como sair. Alm disso,  um local cheio de cobras venenosas, aligatores e 
crocodilos, para j nem falar dos insectos e parasitas.
        - No  assim to mau - arrisquei.
        - Ah, sim? Ento caminhe daqui para fora com o seu marido e junte-se ao grupo de busca - retorquiu Toby com uma amargura que se infiltrou no meu crebro 
semelhante a um raio.
        -  o que tenciono fazer. Anda, Beau - incitei, dando meia-volta e afastando-me. Beau caminhava ao meu lado, mas sem entusiasmo.
        - Achas mesmo que devemos meter-nos nos pntanos, Ruby? Quero dizer, se toda esta gente que vive aqui no consegue encontr-lo...
        - Eu encontr-lo-ei - garanti com firmeza. - Sei onde procurar.
        O marido de Jeanne, James, estava no cais, quando l chegmos. Abanou a cabea e ergueu os braos, num gesto de desalento.
        -  impossvel! - retorquiu. - Se o Paul no quer ser encontrado, no o ser. Conhece melhor estes pntanos do que a palma da mo. Cresceu neles. Por esta 
noite, desistimos.
        - No, no desistimos - ripostei num tom spero.
        Ergueu os olhos, surpreendido.
        - No desistimos?
        -  este o seu barco? - perguntei, com um movimento de cabea na direco de um pequeno bote com um motor fora de borda.
        - Sim, mas...
        - Por favor. Leve-nos s pelos pntanos.
        - Acabei de regressar e garanto que...
        - Sei o que estou a fazer, James. Se no quer ir, empreste-nos o barco - insisti.
        - Vocs os dois? Nos pntanos? - Sorriu, suspirou e depois abanou a cabea. - De acordo. Vou dar mais uma vista de olhos. Entrem - concordou.
        Beau, parecendo muito pouco  vontade, meteu-se no barco depois de mim e sentou-se. James estendeu-nos tochas. Depois. avistmos Octavious que vinha a chegar 
com um outro grupo. A cabea pendia-lhe, qual bandeira de derrota.
        - O pai do Paul est muito desgostoso - comentou James, abanando a cabea.
        - Ligue o motor, por favor - pedi. - Por favor...
        - O que espera poder fazer para alm do que todas estas pessoas... algumas das quais pescam e caam aqui... no pudessem ter feito?
        Fitei-o.
        - Acho que sei onde ele pode estar - assegurei quase num sussurro. - Um dia a Ruby falou-me num esconderijo que ela e o Paul partilhavam. Descreveu-o to 
bem que estou erta de conseguir descobri-lo.
        James abanou a cabea com uma expresso cptica, mas ligou o motor.
        - Muito bem, mas temo que estejamos somente a perder tempo. Devamos esperar pela luz do dia.
        
        Afastmo-nos do cais e tommos a direco do canal. Os pntanos podiam tornar-se assustadores de noite, mesmo para os homens que ali tinham vivido e trabalhado 
toda uma existncia. O luar no era suficiente e a vegetao parecia adensar-se e escurecer, formando muros e bloqueando o acesso a outros canais. Os ramos distorcidos 
de ciprestes assemelhavam-se a velhas bruxas de unhas curvas, e a gua assumia uma espessura de tinta, escondendo razes de rvores, troncos  deriva e, obviamente, 
aligatores. Os nossos movimentos e as tochas mantinham os mosquitos  distncia, mas Beau parecia muito pouco  vontade e mesmo assustado. Quase saltou do barco 
quando uma coruja voou a rasar.
        - Para a direita, James, e depois, quando der a curva, vire bruscamente  esquerda.
        - No posso acreditar que a Ruby lhe tenha dado instrues to explcitas - resmungou entre dentes.
        - Ela adorava este local porque ela e o Paul passaram muito tempo aqui - retorqui, defendendo-me. -  como um outro mundo. Dizia ela - apressei-me a acrescentar.
        James seguiu as minhas indicaes. Atrs de ns, as tochas do grupo de busca diminuiram de brilho e perderam-se. Um silncio escuro desceu entre ns e a 
casa. Em breve deixmos de ouvir as vozes dos homens do grupo de busca.
        - Mais devagar, James - pedi. - H algo que tenho de procurar e no  fcil  noite.
        - Sobretudo quando nunca se esteve aqui antes - comentou James. - Isto  intil. Se esperarmos at de manh...
- Ali - indiquei, apontando. - V onde aquele cipreste curva, como uma velha senhora colhendo um trevo-de-quatro-folhas?
        - Velha senhora? Trevo-de-quatro-folhas? - surpreendeu-se 
James.
        - Era o que o Paul dizia sempre  Ruby. - Nem James ou Beau podiam ver o triste sorriso no meu rosto. - Vire  direita sob o ramo mais baixo.
        - Talvez no caibamos por baixo - avisou.
        - Cabemos, se nos dobrarmos - ripostei. - Devagar.
        - De certeza? Acabaremos pendurados numa rocha ou num monte de razes ou...
        - Tenho a certeza. Faa-o. Por favor.
        James descreveu a volta, relutante. Baixmos as cabeas e passmos sob o ramo.
        - Com mil diabos! - exclamou James. - Para onde, agora?
        - V aquela densa parede de musgo que chega  gua?
        -Sim.
        - Atravesse-a.  a porta secreta.
        - Porta secreta! Raios! Ningum iria pensar numa coisa dessas!
        - Era ao que me referia quando falei em estar num outro mundo - repliquei. - Pode desligar o motor. Flutuaremos e chegaremos l.
        Obedeceu. Sustive a respirao, enquanto o barco atravessava o musgo, que se afastou como um reposteiro, permitindo-nos entrar no pequeno lago. Quando estvamos 
completamente no interior, ergui a tocha e Beau imitou-me.
        - Reme devagar em crculo - indiquei.
        
        O brilho das nossas tochas rasgaram a escurido, desvendando o lago. Cobras ou tartarugas mergulharam, criando crculos na gua. Avistmos uma brema que 
se alimentava de mosquitos. Um aligtor levantou a cabea, de dentes reluzindo  nossa luz e depois mergulhou. Ouvi Beau engolir em seco. Algures  direita, um falco 
soltou o seu grito. Na margem do lago, uma meia dzia de lontras procuraram abrigo.
        - O que  isto? - perguntou subitamente James, ao mesmo tempo que se levantava no barco e se servia do remo para puxar o que parecia uma garrafa. Depois, 
inclinou-se para a agarrar. Era uma garrafa de rum vazia. - Ele esteve aqui! - exclamou James, perscrutando mais atentamente o que o rodeava. - Paul! - gritou.
        - Paul! - chamou igualmente Beau.
        Por momentos, os meus lbios recusaram formular o nome. mas depois tambm eu chamei:
- Paul, por favor Se ests a, responde-nos.
        Nada se ouvia, exceptuando o som dos animais do pntano.
 direita, um veado atravessou pelos arbustos. O terror assaltou-me o corao e encheu-me os olhos.
        - Continue a remar  volta do lago, James - disse, sentando-me, mas conservando a tocha incidida bem alto para a direita, enquanto Beau iluminava a esquerda 
com a dele.
        A gua embatia no pequeno bote. Mal corria uma brisa, e os insectos comearam a pressentir a nossa presena, deliciados. De sbito, recortou-se o fundo redondo 
de uma piroga. De incio, parecia um crocodilo, mas, quando nos aproximmos, tornou-se bvio tratar-se da canoa de Paul. Ningum falou. James tocou-lhe com o remo.
        -  dele - certificou. - Paul!
        - Ali.  alguma coisa? - perguntou Beau, inclinando-se no barco, com a tocha.
        James virou o bote na direco indicada por Beau e apontei igualmente a minha tocha. Paul jazia de cara para baixo, prostrado em cima de uma grande rocha, 
com o cabelo desmaselado e enlameado. Dava a sensao de que se tinha iado e depois desmaiara. James virou o barco de forma a que ele e Beau pudessem pr-se de 
p e chegar ao corpo de Paul. Ia tambm a levantar-me quando Beau se virou bruscamente.
        - No! - ordenou, agarrando-me pelos cotovelos e forando-me a sentar. - No olhes! Ele est morto - exclamou.
Tapei o rosto com as mos e gritei. O meu grito agudo trespassou os cantos mais escuros e as sombras do pntano, fazendo com que as aves levantassem voo, os animais 
corressem e os peixes mergulhassem. Ecoou sobre a gua e foi finalmente detido pelo muro de negro silncio que nos espera a todos.
        
        O mdico declarou que os pulmes de Paul estavam to cheios de gua que no fazia ideia como conseguira subir sequer alguns centmetros para a rocha, quanto 
mais iar o corpo todo. Foi ali que exalara o ultimo suspiro. Por milagre, nenhum aligtor o atacara, mas a morte por afogamento distorcera-lhe as feies, e Beau 
tivera razo ao impedir-me de olhar.
        
        Cypress Woods j era uma casa de luto e, portanto, assim continuou, sob a nuvem escura de uma maior tristeza. Os criados, que tanto tinham chorado a minha 
suposta morte, precisavam agora de encontrar outra fonte de onde pudessem extrair mais lgrimas. As irms de Paul, sobretudo Toby, haviam presSentido ms notcias, 
mas ficaram mesmo assim devastadas e retiraram-se na companhia de James para a privacidade do escritrio, enquanto Octavious subia as escadas para estar com Gladys.
        Sentia-me to fraca e o meu corpo to leve que julguei que seria apanhada pelo vento e transportada pela noite. Beau apertou-me a mo e rodeou-me os ombros 
com o brao. Encostei-me a ele e fiquei a v-los trazerem o corpo de Paul.
        Beau queria que regressssemos imediatamente a Nova Orlees. Insistia em que no tinha fora bastante para resistir nem palavras para argumentar. Deixei 
que me conduzisse at ao nosso carro e afundei-me no assento, enquanto ele nos levava para longe dali. As minhas lgrimas haviam secado.
        Quando fechei os olhos, imaginei Paul em miudo, dirigindo-se at  varanda da frente da casa da grandmre Catherine, Vi-lhe o brilho dos olhos quando os 
pousava em mim. As nossas vozes soavam muito entusiasmadas na altura. O mundo parecia to inocente e precioso. Todas as cores, todas as formas. todos os cheiros 
eram mais ricos.
        Sempre que estvamos juntos, explorando os nossos jovens sentimentos, era como se fssemos o primeiro casal da terra descobrindo coisas que no podamos 
imaginar que outros descobrissem antes de ns. Ningum consegue explicar a maravilha que nos nasce no corao quando expomos novos sentimentos em frente de algum 
que faz o mesmo.
        Essa confiana, essa f de infncia  to pura e boa que no se conseguem imaginar traies. Todos os problemas e tristeza que se conhecem e observam no 
mundo  nossa volta sero afastados por fortes e novas emoes tecidas de forma impenetrvel. Podem fazer-se promessas, expor sonhos e sonhar novas coisas juntos. 
Nada parece impossvel, e a ultima coisa que se imagina  que algum destino malicioso brinque connosco e nos conduza por uma estrada levando a trgicos e escuros 
momentos.
        Queria sentir raiva e amargura e culpar algum ou alguma coisa, mas no consegui pensar em ningum que pudesse culpar,  excepo de mim prpria. O peso 
dessa culpa era to grande que se tornava insuportvel. Sentia-me esmagada, derrotada e to cansada que s voltei a abrir os olhos quando Beau disse que tnhamos 
chegado a casa. Deixei que me ajudasse a sair do carro, mas as pernas no aguentavam o peso do meu corpo. Levou-me ao colo at casa e pelas escadas e deitou-me na 
nossa cama, onde me enrosquei, rodeando os braos com o corpo e perdendo a conscincia.
        Ao acordar, Beau j estava vestido. Virei-me, mas tinha uma dor to profunda nos ossos que mal consegui esticar as pernas e levantar-me. Tinha a sensao 
de que a minha cabea se transformara em pedra.
        - Estou to cansada        - repliquei. - To fraca.
        - Fica na cama hoje - aconselhou. - Vou mandar a
sally trazer-te o pequeno-almoo ao quarto. Preciso de tratar de vrios assuntos no escritrio e depois regressarei a casa para te fazer companhia.
        - Beau - gemi. - A culpa  minha. A Gladys Tate tem razo em odiar-me.
        -
         Claro que no tens culpa. No quebraste nenhuma promessa, e tudo o que ele fez, f-lo consciente, sabendo as consequncias que poderiam resultar. Se algum 
tem culpa, sou eu. NO devia ter permitido que se envolvesse tanto. Devia ter-te obrigado a romperes claramente com ele para que compreendesse que devia continuar 
com sua prpria vida, enquanto ns seguiramos a nossa e a Gisselle a sua.
        "Contudo, Ruby - prosseguiu Beau, aproximando-se de mim e pegando-me na mo -, ns estamos predestinados. No h duas pessoas, que se amem tanto como ns 
e no estejam predestinadas.  essa a f que tens de ter, a f a que deves agarrar-te quando te sentires de luto pelo Paul. Se agora falharmos um ao outro, tudo 
o que ele fez ter sido ainda mais em vo.
        "L bem no ntimo, tambm ele deve ter tomado conscincia de que me pertencias. Talvez no tivesse conseguido enfrentar essa realidade e ela o superasse... 
mas ele sabia... ele sabia a verdade.
        "Cumpre-nos agarrar-nos ao que agora temos. Amo-te - rematou, beijando-me suavemente nos lbios. Baixou a cabea
        ao meu peito e abracei-o por um longo momento antes de ele se levantar, respirar fundo e sorrir. - Vou mandar a Sally e depois dizer a Mistress Ferrier que 
te traga a Pearl mais tarde, est bem?
        - Est bem, Beau. Como quiseres. Sou incapaz de pensar por mim prpria.
        - Pensarei por ns os dois - replicou, atirando-me um beijo e saindo.
        Olhei atravs da janela. O cu estava toldado, mas as nuvens pareciam leves. O Sol conseguiria romper e o dia estaria quente e abafado. Depois do pequeno-almoo 
tomaria banho e ficaria de p. A perspectiva de assistir ao funeral de Paul pareCia-me esmagadora. No sabia onde arranjaria foras, mas os acontecimentos provaram 
que esse seria o menor dos meus problemas.
        Ao fim da manh, depois de ter comido alguma coisa e tomado banho, escovei o cabelo e vesti-me. Mrs. Ferrier trouxe-me Pearl e deixei-a brincar com os meus 
pentes e escovas. Sentou-se ao meu lado, imitando-me os movimentos. O cabelo tinha-lhe crescido at aos ombros e tornava-se mais louro de dia para dia. Os olhos 
azuis eram um mundo de curiosidade. Mal aprendia uma coisa, perguntava mais alguma, tocava noutra.
        A sua energia e entusiasmo trouxeram alguma alegria e alvio ao meu corao entristecido. "Que felicidade t-la", pensei. Estava resolvida a dedicar-me a 
ela, a certificar-me de que a sua vida seria mais tranquila, mais feliz e mais preenchida do que a minha. Iria proteg-la, aconselh-la, gui-la para que evitasse 
as armadilhas e reviravoltas traioeiras que a minha existncia sofrera. Apercebia-me de que todas as nossas esperanas e objectivos residiam nos nossos filhos. 
Eram eles a promessa e o nico antdoto para a tristeza.
        Beau telefonou a dizer que regressaria a casa dali a pouco. Mrs. Ferrier levou Pearl a brincar no jardim e resolvi descer para que Beau e eu almossemos 
no terrao quando ele voltasse. Acabara de dar a volta  escada, quando os telefones tocaram. Aubrey anunciou que era Toby Tate e apressei-me a pegar num dos auscultadores.
        - Toby - exclamei. - Lamento termos partido to rapidamente, mas...
        -
         Ningum aqui est muito preocupado com isso - interrompeu friamente. - No estou de forma alguma a telefonar para me queixar do seu comportamento. Muito 
francamente, no consigo imaginar nenhum de ns preocupado com isso. - O tom duro e formal com que se expressava acelerou-me o corao. - Na verdade, a mam pediu-me 
que telefonasse a dizer que preferia que no assistisse ao funeral do Paul.
        - No assistir? Mas...
        - Vamos mandar um carro com uma ama que contratmos para ir buscar a Pearl e traz-la para casa - acrescentou com firmeza.
        -O qu?
        - A mam afirma que a filha do Paul e da Ruby pertence ao grandpre e  grandmre e no  tia egosta. Portanto, todas as suas promessas e obrigaes terminaram. 
Pode regressar  sua vida de prazer e deixar de preocupar-se. Foram estas as palavras exactas da mam. Por favor, tenha a Pearl pronta s trs horas.
        O n que se formara na minha garganta impedia-me de pronunciar palavras. No conseguia engolir. Dava-me a sensao de que o corao escorregara para o estmago 
e uma onda de calor subiu-me da base da espinha  cabea, onde circulou  volta do meu pescoo, semelhante aos dedos compridos e finos de uma bruxa, sufocando-me.
-        Compreende? - impacientou-se Toby.
        - Vocs...
        -Sim?
        - No podem... levar... a Pearl - retorqui, lutando por abrir os pulmes e sugar algum ar. - A sua me sabe que no.
        - Que disparate  esse? Claro que podemos. No acha que uma grandmre tem mais direito a uma neta do que uma tia?
-        No! - gritei. - No deixarei que levem a Pearl.
- No vejo como possa ter muito a dizer sobre esse assunto, Gisselle. Espero que no acrescente mais problemas e tristeza  nossa tragdia. Se ainda existe algum 
que no a despreze,
em breve o far.
        - A sua me sabe que no pode fazer isto! Ela sabe. Diga-lhe. Diga-lhe! - gritei.
        - Bom. Vou transmitir-lhe, mas o carro estar a s trs horas. - Adeus - despediu-se Toby num tom spero, e o telefone emudeceu.
        - No! - gritei, mesmo assim, para o auscultador.
        Desliguei rapidamente e apressei-me a telefonar a Beau.
        - Vou j para casa - respondeu depois de eu despejar, ofegante, o que Toby dissera ser uma exigncia de Gladys Tate.
        - Foi o que ela insinuou ao ameaar que eu iria sofrer o dobro do Paul, Beau.  a forma de ela se vingar.
        - Acalma-te. Vou j para a - prometeu. Desliguei, mas no consegui ficar calma. Dirigi-me ao estdio e pus-me a andar de um lado para o outro, enquanto 
calculava mentalmente as hipteses. Pareceram-me horas at Beau chegar, embora apenas tivessem decorrido uns minutos. Foi ter comigo imediatamente ao estdio, abraou-me 
e forou-me a sentar. No conseguia parar de tremer, os meus dentes entrechocavam-se.
        - Tudo correr bem - garantiu-me. - Ela est a fazer blUf. Apenas a tentar atormentar-te devido ao desgosto que sentiu. Tomar conscincia do que est a 
fazer e no ir por diante.
        - Mas, Beau... toda a gente pensa que eu sou a Gisselle. Enterraram-me!
        -
         Tudo correr bem - repetiu, embora no com a mesma confiana.
        - Ns nascemos nos pntanos, numa cabana. No  como aqi em Nova Orlees, num hospital, onde se tiram as impresses digitais dos bebs para que possam ser 
facilmente identificados mais tarde. O Paul era meu marido e disse ao mundo que eu estava doente e moribunda. Assistiu ao meu funeral e suicidou-se, quer propositada 
ou acidentalmente, por causa da minha morte - ripostei, ao mesmo tempo que cada tomada de conscincia correspondia a mais um prego no caixo da verdade.
        Agarrei nas mos de Beau e olhei-o fixamente.
        - Tu prprio afirmaste que eu tinha feito um bom trabalho ao fingir ser a Gisselle. Toda a gente julga que sou ela. At mesmo os teus pais!
        - Se chegarmos ao ponto de ficar ou no com a Pearl, confessaremos a verdade e contaremos o que fizemos s autoridades. Prometo - disse ele. - Ningum nos 
tirar a nossa filha. Ningum, e muito menos a Gladys Tate - garantiu-me, ao mesmo tempo que me apertava as mos com uma expresso determinada, o que abrandou o 
meu corao e cessou um pouco os tremores.
        - A Toby disse que s trs horas estar aqui um carro com uma ama.
        - Tratarei do assunto - retorquiu. - No quero que te aproximes sequer da porta da frente.
        Esbocei um aceno de concordncia.
        - Pearl! - exclamei subitamente. - Onde est ela?
        - Calma. Onde poderia estar seno com Mistress Ferrier? No a assustes - avisou, agarrando-me no pulso. - Ruby.
        - Sim, tens razo. No devo assustar a menina. No entanto, agora quero-a l em cima. No a quero l fora, quando eles vierem.
        - De acordo, mas f-lo com calma, suavemente - ordenou. - Est bem?
        - Sim. - Respirei fundo e sa ao encontro de Mrs. Ferrier e de Pearl.
        Sem entrar em explicaes pormenorizadas, pedi-lhe que trouxesse o beb para dentro e o conservasse no quarto. Depois fui juntar-me a Beau na sala de jantar, 
mas no s fui incapaz de almoar, como de levar qualquer pedao de comida  boca. Mal consegui beber gua. O meu estmago acusava o nervosismo. Um pouco depois 
das duas, Beau disse-me que subisse as escadas e ficasse com Pearl e Mrs. Ferrier. O corao ameaava saltar-me do peito. Julguei que poderia morrer facilmente de 
medo, mas lutei contra o pnico e ocupei-me de Pearl.
        Pouco antes das trs horas, ouvi a campainha da porta e senti um baque no peito. No consegui deixar de ir at ao cimo
das escadas e ficar  escuta. Beau j informara Aubrey de que seria ele a atender a porta. No queria que Beau soubesse que eu estava a espreitar e  escuta; por 
isso, refugiei-me na sombra quando ele se virou e olhou para o cimo das escadas, antes de abrir a porta.
        Na ombreira recortou-se a figura de um homem de fato completo e uma ama de farda.
        - Sim? - perguntou Beau no tom mais despreocupado que conseguiu.
        -
         Chamo-me Martin Bell - apresentou-se o homem. - Sou advogado e represento a famlia Tate. Monsieur e Madame Tate mandaram-nos vir buscar a neta deles - 
declarou.
        - A neta no vai a lado nenhum hoje nem em nenhum outro dia - replicou Beau com firmeza. - Est na casa a que pertence e onde ficar.
        - Recusa-se a entregar-lhes a neta? - perguntou Martin Bell com alguma surpresa.
        Tudo indicava que o tinham informado tratar-se de uma simples incumbncia. Provavelmente julgara que estaria a ganhar dinheiro fcil.
        - Recuso-me a entregar-lhes a nossa filha, sim, senhor - vincou Beau.
        - Desculpe. A vossa filha? Sinto-me confuso - declarou Martin Bell, olhando para a ama que tambm parecia aturdida.
-        A menina no  filha de Paul e Ruby Tate?
        - No - respondeu Beau -, Madame Gladys Tate est a par. Receio que tenha desperdiado o seu tempo, mas pode cobrar-lhe bem - acrescentou Beau. - Bom dia 
- despediu-Se 
e fechou-lhes a porta na cara.
        Por um instante, permaneceu  espera. Depois, foi at  janela e aguardou at ter a certeza de que o carro se afastara. Quando se voltou, avistou-me no cimo 
da escada.
        - Estiveste sempre a? - indagou.
        - Estive, Beau.
        - Ento, ouviste. Fiz o que prometi. Disse a verdade e mandei-os embora. Quando a Gladys souber da minha resposta, recuar e ir deixar-nos em paz - garantiu-me. 
- Descontrai-te. Acabou. Acabou tudo.
        Esbocei um aceno de cabea e sorri, esperanada. Beau subiu as escadas para me abraar. Depois, fomos os dois at junto de Pearl. Ela estava sentada e muito 
satisfeita no cho do que Outrora fora o meu quarto a colorir animais num livro que se chamava Uma Visita ao Jardim Zoolgico.
        - Olha, mam. - Apontou e depois rugiu como um tigre, arrancando uma gargalhada a Mrs. Ferrier.
        - Ela imita todos os animais - disse. - Nunca vi uma imitadorazinha to perfeita.
        Beau apertou-me ainda mais os ombros e encostei-me a ele. Sabia-me bem estar rodeada da fora dele e sentir aquela firmeza. Agora, ele era o meu rochedo, 
o meu pilar de ao, o que intensificava o amor que lhe dedicava e me enchia de confiana.  medida que o dia foi avanando, o meu nervosismo diminuiu e o n no estmago 
desfez-se. Apercebi-me de que tinha uma fome de lobo quando nos sentmos para jantar.
        Nessa noite, na cama, falmos durante quase uma hora, antes de adormecermos.
        - Lamento no poder ir ao funeral de Paul - disse.
        - Eu sei. No entanto, dadas as circunstncias,  melhor no assistirmos. A Gladys Tate s contribuiria para piorar uma situao j desagradvel. Faria uma 
cena terrvel.
        - Mesmo assim, depois de ter passado tempo bastante, gostaria de visitar o tmulo, Beau.
        - Claro.
        Continumos a falar, e Beau sugeriu planos para o futuro.
        - Se quisermos, podemos construir uma nova casa num pedao de terreno que possumos nos arredores da cidade.
        - Talvez devssemos - concordei.
        -
         Claro que h coisas que podamos fazer nesta casa para a mudar. De qualquer maneira, vamos querer novas recordaes -        explicou.
        No podia estar mais de acordo. As descries dele do que agora nos era possvel enchia-me de novas esperanas; consegui fechar as plpebras e adormecer, 
emocionalmente exausta e esgotada at ao mais fundo da alma.
        No me sentia aliviada quando acordei de manh, mas tinha recuperado fora bastante para principiar um novo dia. Fiz planos para recomear a pintar e pensei 
adquirir um novo guarda-roupa, de modo a que se adequasse melhor  minha personalidade. Agora que afastara todas as amigas de Gisselle e falvamos de um novo comeo, 
achava que tinha liberdade de regressar ao meu verdadeiro eu e eventualmente dar repouso a Gisselle. Estas perspectivas enchiam-me de alegria.
        Tommos um bom pequeno-almoo e conversmos animadamente. Beau tinha tantos planos para negcios e para as nossas mudanas que a minha mente estava a transbordar. 
Imaginava que em breve estariamos ambos to ocupados que no haveria muito tempo para nos entregarmos a tristezas. A grandmre Catherine sempre dissera que o nico 
antdoto para o desgosto e a tristeza era mantermo-nos ocupados.
        Depois do pequeno-almoo, Beau subiu at  casa de banho e eu dirigi-me  cozinha para combinar o jantar com Mrs. Swarin. Sentei-me a ouvi-la descrever a 
receita de frango  Rochambeau.
        - Comea-se por preparar o molho - disse e passou a numerar os ingredientes. S de ouvi-la, cresceu-me gua na boca. "Que sorte termos uma cozinheira com 
tanta experincia", pensei.
        Mrs. Swarin remexia nos tachos e panelas enquanto falava e se movimentava na cozinha e por isso no ouvi a campainha da porta, ficando surpreendida quando 
Aubrey veio comunicar-me que estavam dois cavalheiros  porta.
        - E est um polcia tambm - acrescentou.
        - O qu? Um polcia?
- Sim, madame.
        Senti o peito quente e pesado, ao ritmo da minha respirao ofegante.
        - Onde est a Pearl? - perguntei de imediato.
        - No seu quarto com Mistress Ferrier, madame. Acabaram de subir as escadas.
        - E Monsieur Andreas?
        - Julgo que ainda est l em cima, madame.
        - Por favor, v cham-lo, Aubrey. Depressa - pedi.
        - Muito bem, madame - anuiu, saindo rapidamente.
        Olhei para Mrs. Swarin, que me fitou com uma expresso curiosa.
        - Problemas? - indagou.
        - No sei. No sei - murmurei e deixei que os meus ps me transportassem devagar at ao vestbulo. Beau apareceu nas escadas no preciso instante em que cheguei 
 entrada da nossa casa e avistei o advogado Martin Bell e um outro homem  porta.
        - O que  isto? - exclamou Beau, transpondo a toda a pressa os ultimos degraus.
        -
         Monsieur e Madame Andreas? - perguntou o mais alto dos dois homens de fato completo. Beau avanou rapidamente de forma a chegar  porta antes de mim. Vi 
que a ama que Viera no dia anterior estava atrs deles e senti um aperto no corao.
        -Sim?
        - Sou William Rogers, o scio mais velho da firma de Rogers, Bell e Stanley. Como sabe, devido  anterior visita de Mister Bell, representamos Monsieur e 
Madame Octavious Tate de Terrebone Parish. Estamos aqui com uma ordem do tribunal para levarmos Miss Pearl Tate de volta aos avs - informou, estendendo um documento 
a Beau. - Foi assinada pelo Juiz e deve ser cumprida.
        - Beau - chamei, mas ele esboou um gesto para que aguardasse, enquanto lia.
        - Isto no  verdade - declarou, erguendo os olhos e tentando devolver o documento. - Madame Tate no  a grandmre da criana.
        - Receio que isso caiba ao tribunal decidir, sir. Entretanto, esta aco do tribunal - declarou com um aceno de cabea para o documento - ser executada. 
Ela tem direitos legais primrios  custdia.
        - Mas ns no somos o tio e a tia. Somos a me e o pai - redarguiu Beau.
        - O tribunal possui outras informaes. Os pais da criana esto ambos mortos e os avs so, portanto, os tutores legais primrios - insistiu Mr. Rogers. 
- Espero que a situao no se torne desagradvel - acrescentou. - Para bem da criana.
        Mal tinha pronunciado estas palavras, o polcia colocou-se ao lado dele. Beau perscrutou os dois rostos e depois olhou-me.
        -Ruby...
        - No! - gritei, recuando. - No podem lev-la. No podem!
        - Tm uma ordem do tribunal, mas ser apenas temporria - replicou Beau. - Prometo. Vou telefonar j aos nossos
advogados. Temos os melhores e mais bem pagos advogados de Nova Orlees.
        - Esta aco ser conduzida em Terrebone Parish - informou William Rogers. - A residncia legal da criana. Mas, se tem os melhores e mais bem pagos advogados, 
eles estaro a par - acrescentou, usufruindo do sarcasmo.
        - Beau - pronunciei de lbios trmulos e rosto crispado. Ele ia a abraar-me, mas recuei. - No - recusei, abanando a cabea. - No.
        - Madame, garanto-lhe que esta ordem do tribunal ser cumprida - declarou Mr. Rogers. - Se se preocupa deveras com a criana, far melhor em aceitar a ordem 
calmamente.
        -Ruby...
        - Tu prometeste, Beau! No! - gritei, pondo-me a martelar-lhe o peito com os meus pequenos punhos. Ele agarrou-me nas mos e abraou-me com fora.
        - Ns vamos recuper-la. Vamos mesmo - replicou.
        - No posso - retorqui, abanando a cabea. - No posso. - As minhas pernas cederam e Beau pegou-me ao colo.
        - Por favor. Dem-nos dez minutos para preparar a criana -        pediu, virando-se para os advogados, o polcia e a ama. Mr. Rogers esboou um aceno de 
conc'ordncia e Beau levou-me literalmente ao colo pelas escadas sussurrando-me palavras tranquilizadoras ao ouvido.
        -
         Ser horrvel, se oferecermos resistncia fsica - disse. -        Depois de explicarmos quem somos, tudo acabar rapidamente. Vers!
        - Mas tu prometeste que isto no aconteceria, Beau
        - Como podia adivinhar que ela era to malvola? Deve Ser louca. Com que gnero de homem est casada que lhe permite fazer uma coisa destas?
        - Um homem culPado - respondi, no meio das lgrimas. Olhei para a porta do quarto de Pearl.-Oh, Beau! Ela vai ficar aterrorizada.
        - S at chegar a Cypress Woods. Conhece todos os criados e...
        - Mas eles no vo lev-la para Cypress Woods. Vo lev-la para casa dos Tate.        .
        Beau esboou um aceno de concordncia, ao mesmo tempo que a tomada de conscincia tambm o invadia. Suspirou fundo e abanou a cabea.
        - Tenho vontade de mat-la - disse. - Apetecia-me deitar-lhe as mos ao pescoo e tirar-lhe a vida.
        - J lha tiraram - repliquei. - Quando o Paul morreu Estamos a lidar com uma mulher que perdeu todos os sentimentos menos um, o desejo de vingana. E a minha 
filha tem de ir para aquela casa.
        - Queres que seja eu a fazer isto? - perguntou olhando para o quarto de Pearl.
        - No. Vou faz-lo contigo para que possamos confort-la o mximo que  possvel.
Entrmos e expliquei a Mrs. Ferrier que a menina tinha de ir para casa dos avs. Beau achava que, de momento era prefervel. Pearl conhecia os Tate como avs e, 
portanto dissimulei o desgosto e engoli as lgrimas. Sorrindo, disse-lhe que ela tinha de ir visitar a grandmre Gladys e o grandpre Octavious
        - H uma senhora muito simptica que vai levar-te, Pearl com cuidado. - Continuei. fitou-me. Era quase como se tivesse esperteza suficiente para detectar 
o embuste. No ofereceu resistncia at a levarmos l para baixo e a colocarmos no banco de trs da limusina com a ama. Quando me afastei da porta percebeu que eu 
no ia e ps-se a gritar por mim. A ama tentou confort-la.
        - Vamos l - ordenou Mr. Rogers ao motorista. Os dois advogados meteram-se no carro, fecharam as portas, mas mesmo assim continuei a ouvir os gritos de Pearl.
        Quando a limusina comeou a afastar-se da casa, o beb soltou-se dos braos da ama e encostou o pequeno rosto  janela de trs. Via todo o receio e tormento 
que a invadiam e ouvi-a gritar o meu nome. No momento em que o carro desapareceu as minhas pernas cederam e dobraram-se demasiado rapidamente, sem dar tempo a que 
Beau me impedisse de cair no lajedo e no conforto da escurido.
        

16

TUDO EST PERDIDO
               -
                Bom - pronunciou-se Monsieur Polk depois de ouvir Beau contar a nossa histria -, trata-se de um assunto bastante complicado. Muito mesmo - acrescentou 
e esboou um aceno de cabea enftico, fazendo tremer as bochechas e o farto duplo queixo.
               Recostou-se na imensa cadeira de cabedal preto e premiu as mos contra o peito de tamanho descomunal, com os dedos cruzados e o enorme anel de ouro 
com uma pedra preta oval de nix brilhando ao sol da tarde, que entrava atravs dos finos estores brancos.
        Beau sentava-se ao meu lado, pegando-me na mo. Com a mo que tinha livre, agarrava o brao da cadeira, como se achasse que ele pudesse soltar-se e cair 
na alcatifa castanho-escura 
do escritrio de Mr. Polk. O escritrio situava-se no stimo andar do edificio, e as enormes janelas por detrs da secretria de Mr. Polk davam para o rio, oferecendo 
uma paisagem de barcos e navios que entravam e saam do porto de Nova Orlees.
               Mordi o lbio inferior e sustive a respirao, enquanto o nosso advogado reflectia. Baixara os seus olhos enormes e cor de avel e mantinha-se to 
quieto que temi que tivesse adormecido. O nico som no escritrio era o tiquetaque do relgio de pndulo em miniatura pousado na prateleira  nossa esquerda.
               - No h certides de nascimento? - inquiriu finalmente, erguendo os olhos. O resto do corpo, os cento e vinte quilos, permaneceram instalados na 
cadeira, com o casaco do fato amarrotado e enrugado nos ombros. Usava uma gravata castanha-escura com bolinhas.
               - No. Como lhe disse, as gmeas nasceram na regio do Pntano, sem mdico, nem hospital.
               - A minha grandmre era uma traiteur, melhor do que qualquer mdico - repliquei.
- Traiteur?
        - Curandeira cajun - explicou Beau.
        Mr. Polk esboou um aceno de cabea, desviou os olhos na minha direco e fixou-me um momento. Depois, inclinou-se para diante e pousou as mos na secretria.
        - Vamos tratar de uma audincia para custdia. Nesta situao ser conduzida como um julgamento. O primeiro ponto residir em conseguir achar uma maneira 
legal de a apresentar como Ruby. Depois disso, testemunhar como sendo o pai da sua filha - dirigiu-se a Beau.
        - Claro. - Beau agarrou-me na mo e sorriu.
        - Agora, analisemos tudo de frente - replicou Mr. Polk ao mesmo tempo que estendia a mo para uma caixa de charutos de madeira escura de cerejeira e retirava 
um grosso charuto havano. - Voc - prosseguiu, apontando-me com o charuto
-        e a sua irm gmea, Gisselle, eram aparentemente to idnticas que puderam fazer esta troca de identidade, no  verdade?
        - At s sardas nas faces - respondeu Beau.
        - Cor dos olhos, cor do cabelo, pele, altura, peso? - indagou Mr. Polk.
        
        Beau e eu fomos concordando com um sinal de cabea a cada enumerao.
        - Talvez houvesse uma diferena de quilos entre elas, mas nada de relevante - pronunciou-se Beau.
        - Cicatrizes? - inquiriu Mr. Polk, erguendo as sobrancelhas, esperanado.
        Abanei a cabea.
        - No tenho nenhuma e a minha irm tambm no, embora ela tivesse tido um grave acidente de automvel, ficando incapacitada por algum tempo - elucidei.
        - Um grave acidente de automvel? - Esbocei um aceno de concordncia. - Aqui, em Nova Orlees?
        -Sim.
        - Ento, esteve algum tempo no hospital. ptimo. Haver um historial mdico com registo do tipo de sangue. Talvez vocs tivessem tipos de sangue diferentes. 
Se assim for, o caso ficar imediatamente resolvido. Um amigo meu - prosseguiu, tirando o isqueiro do bolso - disse-me que, no futuro, a partir de anlises ao sangue 
e mediante o ADN, poder-se- identificar quem  o pai de uma criana. Mas ainda estamos a uns anos de distncia.
        - E nessa altura seria demasiado tarde! - queixei-me. Esboou um aceno de cabea e acendeu o charuto, recostando-se na cadeira e soprando as nuvens de fumo 
para o tecto.
        - Talvez tivessem feito algumas radiografias. Ela partiu algum osso no acidente?
        - No - retorqui. - Ficou magoada, e o choque provocou-lhe algo na espinha, afectando os nervos, mas recuperou e conseguiu voltar a andar.
        - Hum! - exclamou Mr. Polk. - Ignoro se poder descobrir-se algo atravs das radiografias. Teramos de lhe fazer tambm radiografias e depois encontrar um 
perito capaz de testemunhar que havia provas residuais do trauma.
        - Vou j ao hospital para as radiografias - declarei, de olhos brilhantes.
        Mr. Polk abanou a cabea.
        - Podem muito bem arranjar um perito que afirme que as radiografias no acusariam danos, se o problema foi curado - declarou. - Deixem-me investigar as fichas 
mdicas do hospital e obter primeiro a opinio de um dos meus amigos mdicos.
        - A Ruby teve uma filha e a Gisselle no - lembrou Beau. - Decerto que um exame...
        - Pode fazer essa afirmao sem sombra de dvida? - interrompeu Mr. Polk.
- Desculpe?
        - A Gisselle est morta e enterrada. Como podemos examin-la? Seria necessrio mandar exumar o corpo... E se a Gisselle tivesse estado alguma vez grvida 
e feito um aborto?
        - Ele tem razo, Beau. No poderia jurar uma coisa dessas - retorqui.
        - Isto  muito estranho. Muito estranho - murmurou Mr. Polk. - Lutou para convencer as pessoas de que era a sua irm gmea, e f-lo to bem que todos os 
que a conheciam acreditaram, no foi?
- Tanto quanto sabemos.
        - E a famlia, a famlia do Paul Tate, acreditou na histria e acreditou que enterraram a Ruby Tate?
- Sim - confirmei.
        -
         Houve mesmo uma certido de bito passada em seu nome?
        - Sim - retorqui, engolindo com dificuldade. As memrias ainda muito vivas de assistir ao meu funeral regressaram a toda a pressa.
Mr. Polk abanou a cabea e pensou um momento.
        - E o mdico que tratou primeiro a Gisselle pela encefalite? - perguntou com visvel excitao. - Sabia que estava a tratar a Gisselle e no a Ruby, no 
 verdade?
        - Receio no podermos pedir a sua ajuda - afirmou Beau, rebentando o nosso balo de esperana. - Fiz um acordo com ele e, de qualquer maneira, iria arruin-lo, 
no? O facto de ter participado nisto?
        - Temo que seja verdade - anuiu Mr. Polk. - Colaborou numa fraude. H algum dos criados que possa ser convocado?
        -Bom... da forma como actumos, o mdico e eu...
        - No sabiam exactamente o que estava a acontecer, no  verdade?
        - Sim. De qualquer maneira, no seriam as melhores testemunhas. O casal alemo no fala ingls muito bem e a minha cozinheira no viu nada. A criada  uma 
mulher tmida que seria incapaz de jurar.
        - No , ento, um caminho a seguir - redarguiu Mr. Polk com um aceno de cabea. - Deixe-me pensar. Estranho. Muito estranho. Registos dentais - exclamou. 
- Como so os seus dentes?
        - Perfeitos. Nunca tive uma crie, nem arranjei um dente.
        - E a Gisselle?
        - Tanto quanto sei, tambm no - informou Beau. - Tinha uma sade invejvel para algum que levava uma vida como a dela.
        - Bons genes - redarguiu Mr. Polk. - Mas ambas tiveram o beneficio das mesmas vantagens genticas.
        Haveria maneira de determinar as nossas identidades a contento de um juiz?, interrogava-me ansiosamente.
        - E as nossas assinaturas? - sugeri.
        - Sim - concordou Beau. - A Ruby sempre teve uma caligrafia mais bonita.
        - A caligrafia  um material de prova a utilizar - retorquiu Mr. Polk num tom nasalado e um tanto oficial -, mas no  determinante. Teremos de apoiar-nos 
nas opinies de peritos e eles podem apresentar o seu prprio perito, que desenvolveria a existncia da falsificao. No seria a primeira vez. Alm disso - acrescentou, 
puxando mais uma fumaa do charuto -, as
pessoas tendem a acreditar que as gmeas conseguem imitar-se
melhor. Gostaria de ter algo mais.
        - E o Louis? - dirigiu-se-me Beau. - Disseste que ele te reconheceu.
        - O Louis? - quis saber Monsieur Polk.
        - O Louis foi algum que conheci quando a Gisselle e eu frequentmos um colgio de raparigas em Baton Rouge.  um pianista que deu recentemente um concerto 
aqui em Nova Orlees.
        - Percebo.
        - Quando o conheci, ele era cego. No entanto, recuperou a viSta - acrescentei, esperanada.
        -
         O qu? Cego, disse? Realmente, monsieur - exclamou, virando-se para Beau. - Quer que leve a tribunal um homem que foi cego para testemunhar que consegue 
estabelecer a diferena!
        - Mas ele consegue! - ripostei.
        - Talvez na sua opinio, mas frente  de um juiz?
        Outro balo rebentou. Sentia o corao a bater descompassadamente. Lgrimas de frustrao picavam-me os olhos. Parecia-me cercada pela derrota.
        - Oua - insistiu Beau, apertando-me novamente a mo. - Que motivo poderiamos ter para que a Ruby fingisse ser a
Ruby? Primeiro, estaremos a revelar o nosso esquema ao mundo e, alm disso, todos os que conheceram a Gisselle sabiam como ela era egosta. Jamais desejaria conseguir 
a custdia de uma criana e ficar responsvel pela sua educao.
        Mr. Polk reflectiu um momento. Virou a cadeira e olhou atravs da janela.
        - Farei de advogado do diabo - retorquiu, continuando
de olhos fixos no rio. Depois, voltou-se bruscamente para ns e apontou de novo o charuto na minha direco. - Disse que o
seu marido, o Paul, herdou terras ricas em petrleo no bayou?
        - Sim.
        - E construiu-lhe uma manso com belos terrenos, uma propriedade?
        - Sim, mas...
        - E era dono de poos que extraem petrleo, proporcionando uma enorme fortuna?
        No conseguia engolir, nem sequer esboar um aceno de cabea. Beau e eu entreolhmo-nos.
        - Mas ns tambm estamos longe de ser pobres, monsieur. A Ruby herdou uma grande quantia em dinheiro e um negcio lucrativo e...
        - Monsieur Andreas, tm  disposio a possibilidade de herdar uma enorme fortuna, uma fortuna cada vez maior. No estamos a falar do seu bem-estar actual.
        - E a criana? - indagou Beau, desesperado. - Ela conhece a me.
 -  muito pequena. Nunca me passaria pela cabea lev-la a depor no banco das testemunhas. Estou certo de que ficaria
aterrorizada.
        - No, no podemos fazer isso, Beau - ripostei. - Nunca.
        Mr. Polk voltou a recostar-se.
        - Deixem-me consultar as fichas do hospital e falar com alguns mdicos. Voltarei a contact-los.
        - Quanto tempo ir demorar?
        - No pode ser feito de um dia para o outro, madame - redarguiu francamente.
        - Mas a minha filha... Oh, Beau.
        - J tomou em considerao ir falar com Madame Tate?
Talvez tudo isto no passe de um acto impulsivo de raiva e
tenha tido algum tempo para reflectir - sugeriu Mr. Polk. - Simplificaria a questo.
        "No digo que seja esta a razo da sua atitude - acrescentou, inclinando-se para a frente. - Mas pode propor desistir de direitos ao petrleo, etc.
        - Sim - anui com um renascer da esperana.
        Beau esboou um aceno de cabea.
        - Pode estar furiosa pelo facto de a Ruby herdar Cypress Woods e todo o petrleo da propriedade - concordou Beau. - Vamos at l tentar que nos receba. Mas 
entretanto...
        -
         Darei andamento  minha pesquisa sobre o assunto - rematou Mr. Polk, levantando-se e colocando o charuto no cinzeiro, antes de se inclinar para apertar 
a mo a Beau. - Tm obviamente conscincia da matria que os nossos colunistas sociais ganharo com tudo isto?
        - Temos - anuiu Beau, fitando-me. - Estamos preparados, desde que recuperemos a Pearl.
        - Muito bem. Boa sorte com Madame Tate - desejou Mr. Polk, e samos.
        - Sinto-me to fraca, Beau, to fraca e receosa - confessei, quando abandonmos o edificio na direco do carro.
        - No podes enfrentar essa mulher, enquanto estiveres nesse estado de esprito, Ruby. Vamos parar para comer alguma coisa e ganhares foras. Sejamos optimistas 
e fortes. Apoia-te em mim, sempre que for necessrio - declarou com uma expresso sombria e de olhos baixos. - Na realidade, a culpa  toda minha - murmurou. - Foi 
minha a ideia e a concretizao.
        - No podes culpar-te s a ti, Beau. Sabia o que estava a fazer e desejei-o. Devia ter pensado, antes de tentar deitar areia para os olhos do destino.
        Apertou-me de encontro a ele, metemo-nos no carro e dirigimo-nos para o bayou. Durante a viagem, ensaiei o que iria dizer-lhe. No tinha apetite quando parmos 
para comer, mas Beau insistiu em que pusesse algo no estmago.
        O final da tarde escureceu cada vez mais,  medida que o Sol se escondia por detrs de algumas enormes nuvens de tempestade. O cu azul pareceu ficar nas 
nossas costas, enquanto nos aproximvamos do bayou e do confronto que nos esperava. Quando os stios e paisagens familiares comearam a tomar forma, a minha apreenso 
aumentou. Respirei fundo vrias vezes e esperei ser capaz de falar sem romper em lgrimas.
        Dei as indicaes necessrias a Beau at  residncia dos Tate. Era uma das maiores casas da regio de Houma, um edificio grego de dois andares e meio com 
seis colunas jnicas que formavam um terrao saliente. Tinha catorze quartos e uma enorme sala de estar. Gladys Tate orgulhava-se da decorao da casa e, at ao 
momento em que Paul construra a manso para mim, ela possua a casa mais bonita do local.
        Quando chegmos, o cu tornara-se cinzento e o ar estava to denso de humidade que julguei poder ver pequenas gotas formando-se diante dos meus olhos. O 
bayou estava calmo, to calmo quanto era possvel no meio de uma tempestade. Folhas pendiam dos ramos das rvores e os prprios pssaros pareciam deprimidos, abrigando-se 
em cantos sombrios.
        As janelas tinham um aspecto triste com as cortinas fechadas ou as persianas descidas. Os vidros reflectiam a escurido Opressiva que pairava sobre os pntanos. 
Nada se mexia. Era uma casa envolta em luto, com os habitantes enclausurados na sua tristeza pessoal. Sentia um peso enorme no corao, e os dedos tremiam-me quando 
abri a porta do carro. Beau estendeu a mo para me apertar o brao e transmitir confiana.
        - Tenhamos calma - aconselhou.
        
        Esbocei um aceno de concordncia e tentei engolir, mas formou-se-me um n na garganta, idntico a um pedao de lama do pntano num sapato. Subimos as escadas, 
e Beau deixou pender a aldraba de encontro ao bronze. O som cavo parecia dirigir-se mais ao meu peito do que  casa. Momentos depois, a porta escancarou-se com fora, 
como que soprada por uma rajada de vento. Toby surgiu na nossa frente. Estava vestida de negro e apanhara o cabelo atrs. Exibia uma expresso plida e triste.
        - O que querem? - impacientou-se.
Viemos falar com os teus pais - respondeu Beau.
        - Eles no esto propriamente com disposio de conversar - ripostou num tom desdenhoso. - Vocs tinham de cauSar-nos problemas, no meio do nosso luto.
        - H alguns terrveis mal-entendidos que temos de tentar exclarecer - insistiu Beau e depois acrescentou: - Mais pelo beb do que por qualquer outra pessoa.
        Toby fitou-me. Houve algo no meu rosto que a confundiu e levou a relaxar a postura.
        - Como est a Pearl? - apressei-me a inquirir.
        - ptima. Muito bem. Est com a Jeanne - acrescentou.
        - Ela no est aqui?
        - No, mas estar - declarou num tom firme.
        - Por favor - suplicou Beau. - Precisamos de uns minutos com os teus pais.
        Toby ponderou um instante e depois recuou.
        - Vou saber se eles querem falar com vocs. Esperem no escritrio - ordenou e percorreu o trio na direco das escadas.
        Beau e eu entrmos no escritrio. Havia um nico candeeiro aceso a um canto e, com aquele cu cinzento, a diviso transbordava de tristeza. Acendi mais um 
candeeiro ao lado do sof e sentei-me rapidamente, receosa de que as pernas cedessem.
        - Deixa-me ser eu a iniciar a conversa com Madame Tate - replicou Beau.
        Conservava-se um pouco de lado, com as mos atrs das costas e ambos ficmos a aguardar e  escuta, de olhos grudados na entrada. A calma reinou durante 
tanto tempo que os meus olhos vaguearam, acabando por pousar no retrato por cima da lareira. Era um retrato que eu pintara de Paul h algum tempo. Gladys Tate pendurara-o 
em substituio do seu retrato e do de Octavious. Fizera um bom trabalho, pensei. Paul parecia to cheio de vida, com um brilho nos olhos azuis e um suave sorriso 
desenhado nos lbios. Agora dava a sensao de que o sorriso transmitia uma cruel satisfao, desafio e vingana. Era incapaz de fitar o retrato sem que o corao 
comeasse a bater aceleradamente.
        Ouvimos passos e um instante depois apareceu Toby sozinha. A minha esperana morreu. Gladys no iria receber-nos.
        - A minha me vai descer - declarou -, mas o meu pai no se encontra em condies de receber ningum de momento. Podem sentar-se - dirigiu-se a Beau. - Ainda 
vai demorar. Ela no est propriamente preparada para receber visitas nesta altura - acrescentou num tom amargo, e Beau sentou-se obedientemente ao meu lado. Toby 
fitou-nos por um instante.
        "Porque se mostraram to obstinados? Se houve uma altura em que a minha me precisou da menina ao lado dela, era agora. Que crueldade a vossa de dificultarem 
tudo e forarem-nos 
a ir a tribunal. - Perscrutou-me e depois virou-se directamente para Beau: - Esperaria algo assim dela, mas julguei que tu fosses mais compreensivo, mais maduro.
        -
         Toby - interferi. - No sou quem tu pensas.
        Ela esboou um trejeito.
        - Sei exactamente quem . No acha que temos pessoas .como voc aqui, pessoas egostas e ocas que no poderiam interessar-se menos pelos outros?
        -Mas...
        Beau ps-me a mo no brao. Fitei-o e verifiquei que implorava silncio com o olhar. Engoli as palavras e fechei os olhos. Toby virou costas e deixou-nos.
        - Ela compreender mais tarde - replicou Beau num tom meigo.
        Uns bons dez minutos depois, ouvimos os saltos de Gladys a descerem as escadas, e cada rudo assemelhava-se a um tiro de pistola apontado ao meu corao. 
Os nossos olhos fixaram-se com antecipao na ombreira da porta, at ela aparecer. Surgiu na nossa frente, mais alta e mais lgubre no vestido preto, com o cabelo 
apanhado severamente na nuca, como o de Toby. Tinha os lbios plidos, mas os olhos brilhavam, febris.
        - O que querem? - perguntou, brindando-me com uma expresso chispante.
        Beau levantou-se.
        - Madame Tate, viemos tentar uma conversa sensata consigo, lev-la a compreender porque  que agimos desta maneira.
        - Compreender? - Sorriu friamente. -  simples de compreender. So o gnero de pessoas que s se importam convosco e, se infligirem uma horrvel dor e sofrimento 
a algum na vossa busca de felicidade, o que interessa? - Dirigiu-me um olhar cheio de dio, antes de se virar e sentar-se na cadeira de espaldar como uma rainha, 
de mos cruzadas no regao e o pescoo e ombros rgidos.
        - Muito do que aconteceu  culpa minha, no da Ruby - prosseguiu Beau. - Sabe - disse, virando-se na minha direco - h alguns anos ns... engravidei a 
Ruby da Pearl, mas era cobarde e deixei que os meus pais me mandassem para a Europa. A madrasta da Ruby tentou que ela fizesse um aborto numa clinica para que tudo 
ficasse em segredo, mas a Ruby fugiu e voltou ao bayou.
        - Como desejava que no o tivesse feito - cuspiu Gladys Tate, de olhos odiosos e com o desejo de me fulminar.
        - Sim, mas f-lo - prosseguiu Beau, sem atender a todo aquele veneno. - Para o melhor ou o pior, o seu filho ofereceu-se para dar um lar  Ruby e  Pearl.
        - Para o pior. Veja onde ele est agora - retorquiu, e senti um arrepio gelado a percorrer-me a espinha.
        - Como sabe - continuou Beau suave e pacientemente -, eles no tiveram um casamento verdadeiro. O tempo passou. Cresci e apercebi-me dos meus erros, mas 
era tarde de mais. Entretanto, reatei a minha relao com a irm gmea da Ruby, que tambm julguei que amadurecera. Estava errado nesse aspecto, mas isso  outra 
histria.
        Gladys esboou um trejeito.
        - O seu filho sabia quanto eu e a Ruby gostvamos um do outro e sabia que a Pearl era a nossa filha, a minha filha. Era um bom homem e queria que a Ruby 
fosse feliz.
        - E ela aproveitou-se dessa bondade - acusou Gladys, com o longo polegar erguido.
        - No, Gladys, eu...
        -
         No fiques para a sentada a tentar negar o que fizeste ao meu filho - declarou, de lbios trmulos. - O meu filho
-        gemeu. - Dantes eu era a menina dos seus olhos. O Sol erguia-se e baixava ao ritmo da minha felicidade e no da tua. Mesmo quando o enfeitiavas aqui no 
bayou, ele adorava sentar-se a falar comigo, gostava da minha companhia. Tnhamos uma relao fantstica e um amor profundo - prosseguiu. - Mas foste cruel e afastaste-o 
de mim com o teu feitio - disparou e apercebi-me de que no havia dio to grande como o nascido do amor atraioado. Esse o motivo por que a sua mente reclamava 
vingana.
        - No fiz essas coisas, Gladys - declarei tranquilamente. -        Tentei desencorajar a nossa relao. Cheguei a contar-lhe a verdade a nosso respeito - 
rematei.
        - Contaste, sim, e ergueste viciosamente uma sebe entre ns. Ele ficou a saber que eu no era a sua verdadeira me. No achas que isso mudou as coisas?
        - No queria dizer-lhe. No me cabia - gritei, lembrando-me dos avisos da grandmre Catherine quanto a provocar qualquer tipo de separao entre uma me 
cajun e o filho. - Mas no se pode construir uma casa de amor sobre alicerces de mentira. A verdade devia ter sido contada por si e o seu marido.
        - Que verdade? - redarguiu com um esgar. - Eu era a me dele at tu apareceres. Ele amava-me - gemeu. - Era essa a verdade de que precisvamos... amor.
        Uma nuvem pairou momentaneamente sobre ns. Gladys engoliu a raiva e fechou os olhos.
        Beau decidiu prosseguir.
        - O seu filho, consciente do amor que existia entre mim e a Ruby, concordou em ajudar-nos. Quando a Gisselle adoeceu gravemente, prestou-se a receb-la e 
a fingir que ela era a Ruby. para que a Ruby pudesse tornar-se a Gisselle, e ns marido e mulher.
        Gladys abriu os olhos e soltou uma gargalhada que me fez gelar o sangue.
        - Sei tudo isso, mas sei tambm que ele pouca opo tinha. Ela ameaou provavelmente contar ao mundo que ele no era meu filho - retorquiu, de olhos vidrados 
em mim.
        - Eu jamais...
        - Dirias o que quer que fosse agora, portanto no tentes - avisou.
        - Madame - replicou Beau, dando um passo em frente.
-        O que est feito no tem remdio. O Paul ajudou. Era sua
inteno que vivssemos com a nossa filha e fssemos felizes.
O que est a fazer agora resume-se a deitar por terra o que o
Paul tentou concretizar.
        Ela fitou Beau por um momento, e os poucos resqucios de sanidade pareceram desvanecer-se no seu olhar.
        - A minha pobre neta agora no tem pais. A me foi enterrada e o pai ser colocado ao lado dela.
        - Porqu forar-nos a ir a tribunal e fazer com que todos passem novamente por esta tristeza, Madame Tate? Nesta altura deseja certamente paz e tranquilidade, 
e a sua famlia...
        Ela virou os olhos pretos e chispantes na direco do retrato de Paul e a expresso suavizou-se.
        -
         Fao tudo isto pelo meu filho - declarou, fitando-o com algo mais do que um amor de me. - V como ele sorri e est feliz. A Pearl crescer aqui, sob este 
retrato. Pelo menos, ter isso. Tu - acrescentou, com o fino e longo dedo apontado novamente na minha direco - tu, tiraste-lhe tudo, at a vida.
        Beau fitou-me, desesperado, e depois pousou o olhar nela uma vez mais.
        - Se for uma questo de herana, Madame Tate - redarguiu -, estamos dispostos a assinar qualquer documento.
        - O qu? - replicou, levantando-se de um salto. - Julgam que tudo isto  uma questo de dinheiro? Dinheiro? O meu filho est morto. - Endireitou os ombros 
e premiu os lbios. - Esta discusso acabou. Quero que saiam da minha casa e das nossas vidas.
        - No conseguir levar a melhor. O juiz...
        - Tenho advogados. Falem com eles. - Sorriu-me to friamente que o sangue me gelou nas veias. - Assumiste o rosto e o corpo da tua irm e rastejaste at 
ao corao dela. Agora, vive l - proferiu, saindo da sala.
O corpo doa-me da cabea aos ps e o corao no passava de uma bola vazia que me enchia o peito de tristeza.
        -Beau!
        - Vamos - disse, abanando a cabea. - Ela enlouqueceu e o juiz perceber. Anda, Ruby. - Estendeu-me a mo e senti-me 
como se flutuasse.
Antes de abandonarmos a sala, voltei a fixar o retrato de Paul. A sua expresso de contentamento enchia-me o corao de uma tristeza que nem mil dias de sol poderiam 
dissipar
        
        Depois da triste viagem de regresso a Nova Orlees, cedi  fadiga emocional e dormi toda a manh. Beau acordou-me para me informar que Mr. Polk acabara de 
telefonar.
        - E...? - perguntei, sentando-me de imediato na cama com o corao aos saltos.
        - Temo que no sejam boas notcias. Os peritos dizem-lhe que tudo  idntico a nvel de gmeos, desde o tipo de sangue at ao tamanho dos rgos. O mdico 
que tratou da Gisselle acha que uma radiografia nada revelar. No podemos apoiar-nos 
em dados clnicos para estabelecer identidades sem sombra de dvida.
        "Quanto a eu ser o pai da Pearl... uma anlise ao sangue s confirmaria se eu no o fosse... e no o contrrio. Como Monsieur Polk esclareceu, esse tipo 
de testes ainda no est aperfeioado.
        - O que faremos? - gemi.
        - Ele j solicitou uma audincia e temos uma data de tribunal - disse Beau. - Contaremos a nossa histria e usaremos as amostras de caligrafia. Ele quer 
igualmente servir-se do teu talento artstico. Monsieur Polk preparou uns documentos para assinarmos de forma a abdicarmos voluntariamente de qualquer reivindicao 
aos bens de Paul, eliminando assim um motivo. Talvez seja suficiente.
        - E se no for, Beau?
        - No pensemos no pior - incitou.
        
        O pior era a espera. Beau tentou mergulhar no trabalho. mas eu apenas conseguia dormir e vaguear de sala em sala. passando por vezes horas sentada nos aposentos 
de Pearl, de olhos fixos nos seus animais e bonecas de peluche. Ainda no tinham passado quarenta e oito horas depois de Mr. Polk ter assinado a nossa petio junto 
do tribunal quando comemos a receber telefonemas de jornalistas. Nenhum revelava as fontes. mas parecia-me bvio, a mim e a Beau, que a sede de vingana de Gladys 
Tate era insacivel e ela comunicara deliberadament a histria  imprensa. Fora matria de ttulos.
GMEA AFIRMA SER A GMEA ENTERRADA!
TRAVA-SE BATALHA PELA CUSTDIA
        
        Aubrey recebera instrues para comunicar que no estvamos disponveis para quem quer que telefonasse. No receberamos visitas nem responderiamos a perguntas. 
At  audincia do tribunal, eu era uma prisioneira virtual na minha prpria casa.
        Nesse dia, de pernas a tremer, agarrei-me ao brao de Beau, enquanto descamos as escadas para entrar no carro e seguir para o tribunal de Terrebone Parish. 
Estava um desses dias nublados em que o Sol se dispe a brincar, oferecendo-nos uns escassos raios para de seguida desaparecer por detrs de um muro de nuvens, deixando 
o mundo escuro e horrvel. Reflectia a minha disposio que passava de esperanada e optimista a deprimida e pessimista.
        Mr. Polk j estava no tribunal  espera, quando chegmos. A histria despertara os curiosos do bayou e tambm de Nova Orlees. Passeei rapidamente o olhar 
por uma multido de espectadores e avistei algumas das amigas da grandmre Catherine. Sorri-lhes, mas elas sentiam-se confusas, inseguras e receosas de corresponderem 
ao sorriso. Sentia-me uma estranha. Como iria explicar-lhes porque  que trocara de identidade com Gisselle? Como  que iriam compreender?
        Ocupmos os nossos lugares e depois, com bvio espaveneio e tirando o mximo partido da situao, Gladys Tate fez a entrada. Continuava vestida de luto. 
Agarrava-se ao brao de Octavious, caminhando com grande dificuldade para mostrar ao mundo que a tnhamos arrastado para aquela horrvel audincia na pior das alturas. 
No pusera maquilhagem, o que a fazia parecer plida e doentia, a mais frgil de ns frente ao juiz. Octavious mantinha-se de cabea baixa e no olhou uma nIca 
vez para ns.
        Toby, Jeanne e o seu marido James caminhavam atrs de
Gladys e Octavious Tate, com esgares que nos eram dirigidos.
Os advogados deles, William Rogers e Martin Bell, conduziam-nOs aos respectivos lugares. Tinham um aspecto imponente
Com as pesadas pastas e os fatos escuros. O juiz entrou e todos se Sentaram.
        O juiz chamava-se Hilliard Barrow e Mr. Polk descobrira que ele era famoso pela sua reputao de homem custico, impaciente e determinado. Era alto e magro 
com traos duros:
Olhos pretos e encovados, sobrancelhas grossas, um nariz comprido e ossudo e uma boca fina que se assemelhava a um trao quando unia os lbios. Tinha cabelo castanho 
j grisalho e comeando a rarear, fazendo com que o cimo do crnio reluzisse sob as luzes do tribunal. Duas mos compridas e ossudas ressaltavam das mangas da toga 
negra.
        -
         Por norma - comeou -, este tribunal est relativamente vazio durante este tipo de processo. Quero avisar a assistncia de que no permitirei conversas 
ou sons de aprovao ou desaprovao. Est em jogo o bem-estar de uma criana e no a venda de jornais e revistas cor-de-rosa para as classes altas de Nova Orlees. 
- Fez uma pausa e perscrutou a multido para verificar se havia o mnimo vestgio de insubordinao nos olhos de algum. Senti um aperto no corao. Parecia um homem 
vazio de emoes,  excepo de preconceitos contra os ricos de Nova Orlees.
        O escrivo leu a nossa petio e depois o juiz Barrow pousou o olhar duro e arguto em Mr. Polk.
        - Tem um caso a apresentar - declarou.
        - Sim, Meritssimo. Gostaria de comear por chamar Monsieur Beau Andreas a depor.
        O juiz assentiu com um sinal de cabea e Beau apertou-me a mo e levantou-se. Todos os olhos se fixaram nele quando avanou em passo confiante at ao banco 
das testemunhas. Procedeu ao juramento e sentou-se rapidamente.
        - Monsieur Andreas, como prembulo da nossa apresentao, importa-se de explicar ao tribunal nas suas prprias palavras porqu, como e quando o senhor e 
Ruby Tate efectuaram a troca de identidades entre Ruby e Gisselle Andreas, que era sua mulher nessa altura?
        - Protesto, Meritssimo - ripostou Mr. Williams. - Cabe ao tribunal decidir se esta mulher  ou no Ruby Tate.
        O juiz esboou um esgar.
        - Monsieur Williams. No h um juri a impressionar. Acho que sou capaz de compreender a pergunta feita sem ser influenciado por qualquer insinuao. Por 
favor, sir. Actuemos com a mxima rapidez.
        - Sim, Meritssimo - acedeu Mr. Williams e sentou-se Arregalei os olhos. Talvez, afinal, tudo se resolvesse a nosso favor, pensei.
        Beau deu incio  nossa histria. No se ouviu um nico som na sala durante todo o relato. Ningum sequer tossiu ou aclarou a garganta e, quando acabou, 
gerou-se um silncio ainda mais profundo entre a assistncia. Era como se todos tivessem ficado pregados aos assentos. Quando me virei e prescrutei o que me rodeava, 
verifiquei que todos os olhares se fixavam em mim. Beau sara-se to bem a contar a nossa histria que muitos comearam a interrogar-se sobre se no poderia ser 
assim. Senti as minhas esperanas aflorarem  superficie dos meus pensamentos conturbados.
        Mr. Williams levantou-se.
        - Gostaria de fazer algumas perguntas, Meritssimo.
        - Prossiga - consentiu o juiz.
        - Monsieur Andreas. Afirmou que diagnosticaram a chamada encefalite de St. Louis  sua mulher, enquanto estavam na vossa propriedade. O diagnstico foi feito 
por um mdico?
        -Sim.
        - Esse mdico no sabia que estava a fazer o diagnstico  sua mulher, Gisselle? - Beau olhou na direco de Mr. Polk. - Se assim foi, porque no o trouxe 
aqui para testemunhar que
se tratava de Gisselle e no de Ruby? - insistiu Mr. Williams,
e Beau no respondeu.
        - Monsieur Andreas? - incitou o juiz.
        -
         Meritssimo - interveio Mr. Polk. - Dado as gmeas serem to idnticas, no achmos que o mdico fosse capaz de testemunhar para alm de todas as dvidas 
quanto  gmea que examinou. Investiguei o historial clnico das gmeas at onde podia ser investigado e estamos preparados para declarar que as gmeas idnticas 
partilham tantas caractersticas fisiolgicas que  praticamente impossvel utilizar dados mdicos para as identificar.
        - No tm dados clnicos que entrem no processo? - perguntou o juiz Barrow.
- No, sir.
        - Nesse caso, que provas jurdicas tenciona apresentar para apoiar esta histria incrvel, sir? - inquiriu o juiz, indo directo ao assunto.
        - Nesta altura, estamos preparados - replicou Mr. Polk, aproximando-se do juiz - para apresentar amostras das caligrafias que lhe permitiro distinguir rapidamente 
uma gmea da Outra. As mesmas foram retiradas de dossiers escolares e documentos legais - acrescentou Mr. Polk, apresentando as provas.
        O juiz Barrow examinou-as.
        - Precisaria evidentemente de mandar analis-las por um perito.
        - Gostaramos de reservar-nos o direito de mostr-las aos nossos peritos, Meritssimo - interferiu Mr. Williams.
        - Claro - anuiu o juiz e colocou as provas de lado. - H m'ais algumas perguntas para Monsieur Andreas?
        - Sim - respondeu Mr. Williams, sorrindo cepticamente. - Sir, mantm que Paul Tate, depois de ficar ao corrente deste
inacreditvel esquema, se prestou a levar a irm doente para casa dele e fingir que era a sua mulher?
        - Correcto - replicou Beau.
        - Pode dizer ao tribunal porque  que ele faria tal coisa?
        - O Paul Tate era dedicado  Ruby e queria v-la feliz. Sabia que a Pearl era minha filha e queria ver-nos com a nossa filha - acrescentou Beau.
        Gladys Tate gemeu to alto que todos fizeram uma pausa. Fechara os olhos e deixara cair-se para trs de encontro ao ombro de Octavious.
        - Monsieur? - perguntou o juiz.
        Octavious sussurrou algo ao ouvido de Gladys e ela bateu as plpebras. Voltou a endireitar-se com um grande esforo. Depois esboou um aceno de cabea, indicativo 
de que estava bem.
        - Est, assim, a declarar perante este tribunal - prosseguiu Mr. William - que Paul Tate se prestou de sua livre vontade a aceitar a cunhada e a fingir que 
ela era mulher dele ao ponto de quando ela morreu ter cado numa profunda depresso que causou a sua prpria morte? Fez tudo isto para se assegurar de que Ruby Tate 
era feliz a viver com outro homem?  o que pretende que este tribunal acredite?
        -  a verdade - confirmou Beau.
        Mr. William alargou o sorriso.
        - No tenho mais perguntas, Meritssimo - declarou.
        O juiz indicou a Beau que estava dispensado. Ele parecia muito triste e aturdido quando voltou a sentar-se ao meu lado.
        - Ruby - disse Mr. Polk.
        Esbocei um aceno afirmativo e ele chamou-me a depor. Respirei fundo e, com os olhos quase fechados, avancei at ao banco das testemunhas. Depois de ter jurado, 
voltei a respirar fundo e incitei-me a ser forte para bem de Pearl.
        -
         Diga, por favor, o seu verdadeiro nome - pediu Mr. Polk.
        - O meu nome legal  Ruby Tate.
        - Ouviu a histria de Monsieur Andreas. H algo com que esteja em desacordo?
        - No.  tudo verdade.
        - Discutiu esta troca de identidades com o seu marido Paul e ele concordou, realmente, com o plano?
        - Sim. No queria que ele se envolvesse tanto - acrescentei -, mas ele insistiu.
        - Descreva o nascimento dessa criana - disse, afastando-se.
        Contei a histria e de como Paul estivera presente durante a tempestade e ajudara Pearl a nascer. Mr. Polk fez-me depois reviver muitos dos pontos mais importantes 
da minha vida, acontecimentos no colgio de Greenwood, as pessoas que conhecera e coisas que realizara. Quando acabei, fez um aceno de cabea para a retaguarda e 
um ajudante trouxe um cavalete, alguns lpis de desenho e um bloco.
        Mr. Williams levantou-se de um salto, mal se tornou bvio o que Mr. Polk pretendia demonstrar.
        - Protesto, Meritssimo - exclamou Mr. Williams.
        - O que planeia que entre nas actas, Monsieur Polk? - perguntou o juiz.
        - H muitas diferenas entre as gmeas, Meritssimo, muitas que reconhecemos serem dificeis de provar, mas uma delas  possvel e resume-se  capacidade 
de Ruby de desenhar e pintar. Ela teve quadros em galerias de Nova Orlees e...
        - Meritssimo - interrompeu Mr. Williams -,  irrelevante se esta mulher consegue ou no traar uma linha. Nunca ficou provado que Gisselle Andreas no conseguisse.
        - Temo que ele tenha razo, Monsieur Polk. Tudo o que provar aqui  que esta mulher tem talento artstico.
        Mr. Polk emitiu um suspiro de frustrao.
        - Mas, Meritssimo, nunca na histria de Gisselle Andreas existiu qualquer prova...
        O juiz abanou a cabea.
        -  um desperdcio do tempo do tribunal, monsieur. Prossiga, por favor, com a testemunha ou apresente novas provas ou chame outras testemunhas. - Mr. Polk 
abanou a cabea. - Acabou, ento?
        - Sim, Meritssimo - respondeu Mr. Polk com profundo desalento.
        - Monsieur Williams?
        - S algumas pequenas perguntas - replicou ele, pleno de sarcasmo. - Madame Andreas. Declara que se casou com Paul Tate, embora ainda estivesse apaixonada 
por Beau Andreas. Por que casou, ento, com Monsieur Tate?
        - estava s e ele queria dar-me um lar, a mim e  minha filha.
        - A maioria dos maridos quer dar um lar s mulheres e filhos. Ele amava-a?
        -Oh, sim.
        - Amava-o?
        -Eu...
        - Bom, amava-o?
        - Sim, mas...
- Mas o qu, madame?
        -
         Mas era um tipo diferente de amor, uma amizade... - Ia a dizer "fraterna", mas, quando fitei Gladys e Octavious, fui incapaz de pronunciar a palavra. - 
Um tipo diferente de amor.
        - Eram marido e mulher, no eram? Segundo me disse, casaram numa igreja.
        - Sim.
        Ele semicerrou os olhos.
        - Teve encontros amorosos com Monsieur Andreas, enquanto estava casada com Monsieur Tate?
        - Sim - confirmei, e algumas pessoas da assistncia soltaram uma exclamao abafada e abanaram a cabea.
        - E segundo o que nos contou, o seu marido sabia?
        - Sim.
        - Sabia e tolerava? No s tolerava, como estava disposto a aceitar em casa a sua irm moribunda e a fingir que era a senhora, para fazer a sua felicidade. 
- Deu meia volta enquanto continuava a falar e dirigiu-se tanto  audincia como ao juiz. - E depois ficou to deprimido com a morte dela que se afogou no pntano? 
 esta a histria que Madame e Monsieur Andreas querem que todos aceitem?
        - Sim! - exclamei. -  verdade.  tudo verdade.
        Mr. Williams perscrutou o rosto do juiz e retorceu o canto da boca num trejeito.
        - No tenho mais perguntas, Meritssimo.
        O juiz assentiu com a cabea.
        - Pode descer, madame - disse. Eu, porm, no conseguia pr-me de p. As minhas pernas pareciam de palha e as costas como se se tivessem transformado em 
geleia. Fechei os olhos.
        - Ruby! - chamou Beau.
        - Sente-se bem, madame? - perguntou o juiz.
        Abanei a cabea. O corao batia-me com tanta fora que me faltava a respirao. Senti o sangue a fugir-me do rosto. Quando abri os olhos, Beau agarrava-me 
na mo. Algum colocara um pano molhado em cima da minha testa e apercebi-me de que desmaiara.
        - Consegues andar, Ruby? - indagou Beau.
        Esbocei um aceno afirmativo.
        - Faremos um curto intervalo - decidiu o juiz, batendo com o martelo.
        Tive a sensao de que me martelara o corao.
        

17

MAIS ESPESSO DO QUE GUA
        
        Durante o intervalo, Beau e eu fomos levados at uma sala de espera onde havia um pequeno sof. Beau obrigou-me a deitar e aplicou o pano molhado na minha 
testa, enquanto Mr. Polk ia fazer um telefonema para o escritrio. Parecia taciturno e enervado. Na verdade, achei que parecia irritado connosco por o termos metido 
naquela situao.
        - Beau, fizemos figura de idiotas, no foi? - perguntei, tristemente. - Depois de contarmos a nossa histria, o advogado dos Tate levou-nos a passar por 
idiotas.
        - No - encorajou Beau. - As pessoas acreditaram em ns. Li-lhes nos rostos. E, alm disso, depois da tua caligrafia ser comparada com a da Gisselle e analisada...
        - Descobriro um perito para a desacreditar. Sabes que sim. Ela est to decidida a magoar-nos, Beau. No olhar a custos. Se fosse preciso, utilizaria toda 
a fortuna do Paul para nos derrotar!
        - Calma, Ruby. Por favor. Temos de voltar e...
        Ambos nos virmos quando a porta se abriu e Jeanne entrou. Por um momento, ningum falou. Jeanne manteve a porta parcialmente aberta atrs dela, como se 
pudesse mudar de opinio e escapulir-se da sala a qualquer instante.
        - Jeanne! - exclamei, sentando-me. - Entra, por favor.
        Ela fitou-me, de lgrimas nos olhos.
        - J no sei em quem acreditar - replicou, abanando a cabea. - A me jura que... tu e o Beau no passam de dois bons mentirosos.
        - No, Jeanne. No estamos a mentir. Lembras-te de quando vieste ter comigo e tivemos aquela agradvel conversa antes de te casares? Lembras-te de que no 
estavas certa quanto a caSares-te com o James?
        Arregalou os olhos e depois estreitou-os.
        - A Ruby podia ter-te contado.
        Abanei a cabea.
        -No. Escuta...
        - Mas, mesmo que sejas a Ruby, no sei como podias ter magoado o meu irmo daquela maneira.
        - No h que compreender tudo, Jeanne. Nunca foi minha inteno magoar o Paul. Eu amava-o.
        - Como podes dizer isso com ele aqui? - indagou com um aceno de cabea na direco de Beau.
        - O Paul e eu tnhamos um tipo diferente de amor, Jeanne.
        Ela fitou-me com uma tal intensidade que era como se me trespassasse com o olhar.
        - No sei. No sei mesmo no que acreditar - vincou e depois os olhos adquiriram a dureza do cristal. - No entanto, vim aqui dizer-te que se s a Ruby e fizeste 
tudo isto, lamento por ti.
        - Jeanne!
        Ela virou-se e saiu rapidamente.
        - Ests a ver? - redarguiu Beau, sorrindo. - Agora, ela tem dvidas. No ntimo, sabe que s a Ruby.
        - Assim o espero - desejei. - Contudo, sinto-me to mal. Devia ter percebido quantas pessoas iria magoar.
        
        Beau agarrou-me com fora e respirei fundo. Ele foi buscar-me um copo de gua e, enquanto o bebia, Mr. Polk regressou, parecendo ainda mais desalentado.
        - O que se passa? - quis saber Beau.
        - Acabei de receber ms notcias - elucidou. - Eles tm uma testemunha surpresa.
        - O qu? Quem? - perguntei, ao mesmo tempo que a minha mente perscrutava as possibilidades.
        - Ainda no sei quem  - respondeu. - Informaram-me, porm, que pode resolver tudo a favor deles. H mais alguma coisa que no me contaram?
        - No, monsieur - retorquiu Beau. - Nada foi deliberadamente oculto. E tudo o que contmos  verdade.
        Ele esboou um aceno de cabea cptico.
        -  altura de voltar - disse.
        Foi ainda mais difcil regressar  sala de tribunal do que havia sido entrar pela primeira vez. Sentia-me um qualquer espcime sob um microscpio. Os olhares 
de todos seguiram-me at  frente da sala do tribunal e as pessoas ao meu lado sussurravam com as mos  frente da boca. Provocou-me uma onda de calor que me subiu 
das pernas at ao rosto. Todas as velhas amigas da grandmre Catherine estudavam cada um dos meus movimentos, numa procura de gestos que confirmassem a minha identidade. 
O ar estava denso com as perguntas de todas elas. Seria que Beau e eu estvamos a tentar engendrar algum esquema? Ou o nosso relato era verdadeiro?
        Ocupmos os nossos lugares. Gladys Tate j estava sentada com uma expresso de ao. Octavious conservava o olhar perdido no vazio. Jeanne sussurrou algo 
a Toby, e as irms de Paul fitaram-me irritadas. Uns momentos depois, o juiz Barrow voltou e reinou o silncio na sala de audincias.
        - Monsieur Polk - declarou. - Est pronto para continuar?
        - Sim, Meritssimo. - O nosso advogado levantou-se com os documentos que tinha preparado para assinarmos referentes  herana.
        - Meritssimo. Os meus clientes reconhecem que os seus motivos para tentarem ganhar a custdia da Pearl poderiam ser mal interpretados. Para afastar essas 
interpretaes erradas, estamos dispostos a prescindir de todos e quaisquer direitos  herana conjugal relativa aos bens de Paul Tate. - Deu um passo em frente 
e apresentou os documentos ao juiz, que os examinou, fazendo depois um aceno de cabea a Mr. Williams para que se aproximasse tambm. Ele observou os documentos.
        - Teremos obviamente de estud-los, Meritssimo, mas - declarou com a confiana de algum que antecipara a nossa reaco -, mesmo que eles estejam em ordem, 
tal no elimina a possibilidade de que estes dois impostores deitem as garras  fortuna dos Tate. A criana, de que esto a tentar ganhar a custdia, herdaria, e 
eles seriam naturalmente os tutores dessa enorme herana.
        O juiz virou-se para Mr. Polk.
        - Meritssimo, os meus clientes alegam que o pai natural de Pearl Tate  Beau Andreas. Ela no poderia reivindicar o direito  fortuna de Monsieur Tate.
        O juiz esboou um aceno de concordncia. Assemelhava-se a observar um jogo de xadrez com pessoas a srio no tabuleiro, em vez das figuras de cavaleiros e 
rainhas, pees e reis. Ns ramos os pees e a minha querida Pearl dirigia-se para a vitria.
        -
         Tm quaisquer outras provas, Monsieur Polk, ou mais testemunhas?
        - No, Meritssimo.
        - Monsieur Williams?
        - Temos sim, Meritssimo.
        O juiz recostou-se. Mr. Polk regressou ao seu lugar ao nosso lado e Mr. Williams dirigiu-se  secretria para conferenciar Um momento com o scio, antes 
de se virar e pronunciar o nome da testemunha.
        - Gostaramos de chamar Monsieur Bruce Bristow a depor.
        - O Bruce! - exclamei. Beau abanou a cabea com uma expresso surpreendida.
        - Este no  o marido da sua madrasta? - indagou Mr. Polk.
        - , mas... j no temos nada a ver com ele - explicou Beau.
        As portas l atrs abriram-se e Bruce avanou pela coxia, com um sorriso malicioso nos lbios quando olhou na nossa direco.
        - Ela deve ter-lhe feito uma oferta, comprado o testemunho dele - disse a Mr. Polk.
        - Que tipo de testemunho pode dar este homem? - interrogou-se em voz alta.
        - Ele dir o que for preciso, mesmo sob juramento - replicou Beau, brindando Bruce com um olhar irritado.
        Bruce jurou e sentou-se na cadeira das testemunhas. Mr. Williams aproximou-se dele.
        - Diga o seu nome, por favor, sir.
        - Bruce Bristow.
        - E foi casado com a falecida madrasta de Ruby e Gisselle Dumas?
        -Fui.
        - H quanto tempo conhece as gmeas?
        - H bastante - declarou, fitando-me com um sorriso. Anos. - Fui empregado de Monsieur e Madame Dumas cerca de oito anos antes da morte de Monsieur Dumas.
        - Depois do que casou com Daphne Dumas e se tornou para todos os efeitos prticos o padrasto das gmeas Ruby e Gisselle?
        - Sim,  verdade.
        - Conhecia-as, portanto, bem?
        - Muito bem. Intimamente - acrescentou.
        - Na qualidade de nico parente vivo das gmeas, pode garantir ao tribunal que  capaz de as distinguir?
        - Claro. A Gisselle - retorquiu, voltando a fitar-me - tem uma personalidade completamente diferente, uma perspiccia digamos mais sofisticada. A Ruby era 
mais inocente, tmida, suave.
        - Est agora e esteve recentemente implicado em alguns problemas legais com os actuais proprietrios das empresas da famlia Dumas, Beau e Gisselle Andreas? 
- inquiriu Mr. Williams.
        - Sim, sir. Eles expulsaram-me do negcio - declarou, fixando-nos. - Depois de anos dos meus dedicados prstimos, resolveram reforar um idiota acordo pr-nupcial 
entre mim e a minha falecida esposa. Afastaram-me da posio que me cabia por direito e mandaram-me para a rua, tornando-me uma pessoa sem meios de subsistncia.
        -
         Ele est a mentir - sussurrou Beau a Mr. Polk.
        - Devia ter-me falado dele - replicou. - Perguntei-lhe se havia mais algum.
        - Quem sabia que a Gladys Tate o descobriria?
        - Muito provavelmente foi ele que a descobriu, Beau - interferi. - Por vingana. Ajustam-se como uma mo numa luva.
        - Esta mulher que v sentada na sua frente, sir - declarou Mr. Williams, virando-se para mim -, participou directamente em tudo isto?
        - Sim. Regressei h pouco para lhe suplicar compreenso e expulsou-me literalmente do que tinha sido a minha prpria casa - respondeu.
        - Portanto, no se trata de uma mulher tmida e inocente -        concluiu Mr. Williams com um sorriso de satisfao.
        - Dificilmente - concordou Bruce, alargando o seu prprio sorriso e fixando o juiz, que me fitou com um olhar perscrutador.
        - Mesmo assim, sir,  possvel que uma gmea idntica engane algum, levando-o a acreditar que  a irm - retorquiu Mr. Williams. - Ela pode ter seguido 
um argumento bem preparado e dito as coisas exactas para o convencer de que era a irm.
        - Suponho que sim - anuiu Bruce.
        Por que razo Monsieur Williams estaria a dar-nos o benefcio da dvida?, interroguei-me, mas sem descobrir a resposta. Apertei as mos com tanta fora que 
fiquei com os dedos dormentes.
        - Ento, como pode ter a certeza de que recentemente teve uma discusso com a Gisselle e no com a Ruby?
        - Tenho vergonha de responder - replicou Bruce, baixando os olhos.
        - Mesmo assim receio ter de perguntar-lhe, sir. Est em jogo o futuro de uma criana para j nem falar de uma imensa fortuna.
        Bruce esboou um aceno de cabea e ergueu os olhos, como se estivesse a concentrar-se num anjo no tecto.
        - Uma vez deixei-me seduzir pela minha enteada Gisselle.
        A audincia emitiu um suspiro em unssono. 
        - Ela era, como mencionei, muito sofisticada e mundana - acrescentou.
        - Algum mais sabia disto, monsieur?
        - No - negou Bruce. - No era coisa de que me orgulhasse muito.
        - Mas esta mulher deu-lhe a entender que sabia? - perguntou Mr. Williams, apontando para mim.
        - Sim. Referiu o assunto durante a nossa discusso e ameaou us-lo contra mim, se me opusesse ao seu esforo e do marido para me afastar da posio que 
me cabia por direito. Dadas as circunstncias, achei melhor retirar-me rapidamente e recomear a minha vida.
        "No entanto - acrescentou, olhando para Madame Tate -. quando ouvi dizer o que se propunham fazer agora, tive de avanar e cumprir o meu dever, independentemente 
dos possiveis danos  minha reputao.
        - Est, portanto, a afirmar ao tribunal, sob juramento, que esta mulher que se apresentou como Ruby Tate conhecia pormenores ntimos entre si e Gisselle, 
pormenores que apenas Gisselle teria sabido?
        -
         Correcto - assentiu Bruce e recostou-se, satisfeito.
        - O nico motivo que o leva a fazer isto - sussurrou Beau a Mr. Polk -  porque o formos a abandonar os negcios. Ele e a Daphne fizeram acordos financeiros 
muito obscuros.
        - Esto preparados para divulgar tudo isso? - inquiriu Mr. Polk.
        Beau fitou-me.
        - Sim. Faremos tudo. - Beau comeou a elaborar rapidamente algumas perguntas para Mr. Polk.
        - No tenho mais perguntas para a testemunha, Meritssimo - declarou Mr. Williams, regressando  sua mesa, junto  qual Gladys Tate se sentava, parecendo 
mais forte. Olhou na minha direco e sorriu friamente, provocando-me calafrios na espinha.
        - Monsieur Polk. Quer interrogar esta testemunha?
        - Quero, Meritssimo. Se me conceder um momento - acrescentou, enquanto Beau completava os seus apontamentos. Mr. Polk pegou-lhes e depois levantou-se.
        - Monsieur Bristow, porque no contestou as aces que lhe foram levantadas pelas empresas da famlia Dumas?
        - J disse... existia um infeliz acordo pr-nupcial e fui submetido a chantagem pela minha enteada Gisselle.
        - Tem a certeza de que a sua relutncia em recorrer nada teve a ver com as actividades financeiras levadas a efeito por si e Daphne Dumas?
        -Tenho.
        - Est disposto a deixar que esses negcios sejam examinados por este tribunal?
        Bruce vacilou um pouco.
        - Nada fiz de errado.
        - No est aqui para se vingar de ter sido afastado do negcio?
        - No. Estou aqui para contar a verdade - declarou Bruce num tom firme.
        - Perdeu recentemente um bem comercial em Nova Orlees que estava hipotecado?
        - Sim.
        - Deixou de ter um rendimento e um estilo de vida confortveis, no?
        - Agora tenho um bom emprego - insistiu Bruce.
        - Que no lhe paga um quarto do que ganhava quando lhe pediram que abandonasse as empresas da famlia Dumas, no  verdade?
        - O dinheiro no  tudo - gracejou Bruce.
        - J ultrapassou o seu problema com o lcool? - prosseguiu Mr. Polk.
        - Protesto, Meritssimo - objectou Mr. Williams, levantando-se. - Os problemas pessoais de Monsieur Bristow nada tm a ver com este testemunho.
        - Tm tudo a ver, se ele esperar obter lucros financeiros e for um alcolico que precisa de dinheiro para a sua dependncia - arguiu Mr. Polk.
        - Est a acusar os meus clientes de subornarem este homem? - replicou Mr. Williams, apontando para Bruce.
        - Basta - interrompeu o juiz. - Protesto aceite. Tem mais algumas perguntas pertinentes para o assunto em causa, Monsieur Polk?
        Mr. Polk pensou um momento e depois abanou a cabea.
        -
         No, Meritssimo.
        - ptimo. Obrigado, Monsieur Bristow. Pode descer. Monsieur Williams?
        - Gostaria de chamar Madame Tate a depor, Meritssimo.
        Gladys Tate levantou-se devagar, como se lutasse contra um enorme peso nos ombros. Limpou os olhos com um leno de seda bege e depois soltou um profundo 
suspiro antes de dar a volta  mesa e avanar at ao banco das testemunhas. Examinei Octavious. Durante a maior parte do tempo, mantivera a cabea baixa e assim 
continuava agora.
        Depois de ter prestado juramento, Gladys sentou-se na cadeira, como algum a deslizar para um banho quente. Fechou os olhos e premiu a mo direita contra 
o corao. Mr. Williams ficou de p, esperando que ela acalmasse o suficiente para falar. Quando examinei as pessoas da audincia, vi como a maioria sentia pena 
dela. Tinham os olhos cheios de compaixo e simpatia.
        - A senhora  Gladys Tate, me do recentemente falecido Paul Marcus Tate? - perguntou Mr. Williams, e ela voltou a fechar os olhos. - Lamento, Madame Tate. 
Sei como o seu desgosto ainda  recente, mas tenho de perguntar.
               - Sim - respondeu. - Sou a me de Paul Tate. - No me olhou.
        - Era muito chegada ao seu filho, madame?
               - Muito - anuiu. - Antes de o Paul casar, acho que no passou um s dia sem que nos vssemos ou falssemos. Existia entre ns mais do que uma relao 
de me e filho. ramos bons amigos - acrescentou.
               - Portanto, ele confiava em si?
        - Oh, totalmente. Nunca tivemos segredos um para o outro - declarou.
-  mentira - sussurrei.
               Mr. Polk ergueu as sobrancelhas. Beau virou-se para mim. Os olhos indicavam-me que queria que eu contasse toda a verdade a Mr. Polk. Esperara no 
ter de o fazer. Parecia-me uma to grande traio a Paul.
               - Alguma vez discutiu consigo este elaborado plano para trocar a mulher com a mulher de Monsieur Andreas, depois de ela ter sido atingida pela encefalite?
               - No. O Paul amava muito a Ruby e era um jovem muito orgulhoso, bem como religioso. No desistiria da mulher que amava s para que outro homem pudesse 
ser feliz a viver em pecado - respondeu num tom desdenhoso. - Casou com a Ruby na igreja depois de ter percebido que era o que havia a fazer. Lembro-me de quando 
me falou da sua deciso. Sentia-me 
obviamente infeliz por ele ter tido uma filha fora do casamento, mas tambm feliz por ele querer fazer o que era moralmente correcto.
               - Ela no ficou feliz - murmurei. - Ela f-lo infeliz. Ela...
               - Chiu - ordenou Mr. Polk, que parecia to fascinado como os demais pela histria dela e no queria perder um pormenor.
               - E, na verdade, depois de eles terem casado, a senhora, o seu marido e as suas filhas aceitaram a Ruby e a Pearl como se fossem famlia, certo?
               -
                Sim. Tnhamos jantares de famlia. Cheguei mesmo a ajud-la a decorar a casa. Faria tudo para manter o meu filho feliz e prximo de mim - replicou. 
- O que ele queria para si prprio, era o que eu queria para ele. E ele era louco pela criana. Oh, como ele adorava a nossa querida neta. Ela tem o rosto, os olhos, 
o cabelo dele. V-los passear juntos no jardim ou' v-lo lev-la para um passeio de piroga no canal enchia-me o corao de alegria.
               - No existe assim qualquer dvida no seu esprito de que a Pearl seja filha dele?
- Nenhuma.
               - E ele nunca lhe disse nada em contrrio?
               - No. Porqu casar com uma mulher com um filho de outro homem? - retorquiu.
               Cabeas esboaram acenos de concordncia.
        - Durante a doena da Ruby, teve muitas oportunidades de visitar a casa deles?
- Sim.
               - E ele alguma vez lhe deu mostras de que estava preocupado com a irm da mulher e no com a mulher? - prosseguiu Mr. Williams.
               - No. Pelo contrrio e, como todos aqui presentes que viram o meu filho durante este perodo difcil podem testemunhar, ele andava to desgostoso 
que se fechou sobre si prprio. Negligenciou o trabalho e comeou a beber. Estava constantemente deprimido. Despedaava-me o corao.
               - Por que razo no internou pura e simplesmente a mulher num hospital?
               - No podia suportar estar longe dela. Passava o tempo ao seu lado - replicou Gladys Tate. - Dificilmente o faria, se no se tratasse da Ruby - acrescentou, 
fitando-me com desprezo.
               - Porque pediu ao tribunal que lhe concedesse uma ordem para reaver a sua neta?
        - Esta gente - declarou Gladys Tate, cuspindo as palavras na nossa direco - recusou dar-me a Pearl de volta. Mandaram embora o meu advogado e uma ama. 
E tudo isto - gemeu -, enquanto eu chorava a morte do meu filho, do meu menino.
               Rompeu em lgrimas. Mr. Williams aproximou-se rapidamente com o seu leno.
        - Lamento - desculpou-se num tom choroso.
        - No faz mal. Leve o tempo que quiser, madame.
Gladys limpou as faces e depois fungou e respirou fundo.
        - Sente-se bem, Madame Tate? - indagou o juiz Barrow.
        - Sim - respondeu num fio de voz.
        O juiz Barrow esboou um sinal de cabea a Mr. Williams, que deu um passo em frente e continuou.
        - Foi recentemente visitada por Monsieur e Madame Andreas, no  verdade? - perguntou.
        - Sim - confirmou, fitando-nos.
        - E o que  que eles queriam?
        - Queriam fazer um acordo - respondeu. - Ofereceram-me 
cinquenta por cento da fortuna do meu filho, se no forasse esta audincia do tribunal e me limitasse a entregar-lhes a Pearl.
        - O qu? - balbuciou Beau.
        - Ela est a mentir! - gritei.
        O juiz bateu com o martelo na mesa.
        - Eu avisei. Nada de interrupes - censurou.
        -Mas...
        -
         Fique calma - ordenou Mr. Polk.
        Acobardei-me, afundando-me na cadeira com a raiva a queimar-me as faces. No haveria limite? At onde iria ela, para satisfazer a sua sede de vingana?
        - O que aconteceu ento, madame? - inquiriu Mr. Williams.
        - Recusei, como  bvio, e ameaaram levar-me a tribunal, o que fizeram.
        - No tenho mais perguntas, Meritssimo - declarou Mr. Williams.
        O juiz fitou Mr. Polk com uma expresso dura.
        - Tem mais algumas perguntas para esta testemunha?
        - No, Meritssimo.
        - O qu? Obrigue-a a retirar essas mentiras - incitei.
        - No.  melhor livrar-me dela. Possui a simpatia de todos. At mesmo do juiz - aconselhou Mr. Polk.
        Mr. Williams ajudou Gladys Tate a levantar-se e acompanhou-a de volta  cadeira. Algumas pessoas na audincia choravam abertamente por ela.
        - Hoje, no conseguiro a criana, se  que isso acontecer alguma vez - murmurou Mr. Polk, arquejante.
        - Oh, Beau - gemi. - Ela est a ganhar. Ser uma av terrvel. No ama a Pearl. Sabe que a Pearl no  filha do Paul.
        - Monsieur Williams? - chamou o juiz.
        - No h mais testemunhas nem provas, Meritssimo - declarou num tom confiante.
        Mr. Polk recostou-se, de mos cruzadas no estmago e uma
expresso sombria. Olhei do outro lado da sala para Gladys, que se preparava para sair vitoriosa. Octavious continuava de olhos fixos na mesa.
        - Chame mais uma testemunha, Monsieur Polk - disse-lhe, 
desesperada.
        -O que  isso?
        Beau agarrou-me na mo. Fitmo-nos bem nos olhos e ele esboou um aceno de concordncia. Virei-me para o nosso advogado.
        - Chame mais uma testemunha. Dir-lhe-ei o que perguntar - retorqui. - Chame Octavious Tate a depor.
        - Faa-o! - ordenou Beau num tom firme.
        Mr. Polk levantou-se devagar, inseguro e relutante.
        - Monsieur Polk? - interrogou o juiz.
        - Temos mais uma testemunha, Meritssimo - respondeu ele.
        O juiz pareceu desagradado.
        - Muito bem - anuiu. - Vamos pr termo a este assunto. Chame a sua ultima testemunha - acrescentou, vincando a palavra "ltima".
        - Chamamos Monsieur Tate a depor.
        Uma onda de surpresa varreu a audincia. Escrevi febrilmente num pedao de papel. O juiz bateu com o martelo na mesa e fitou a multido, que se acalmou de 
imediato. Neste momento, ningum queria ser convidado a abandonar a sala.
        Octavious, surpreendido ante o som do seu nome, ergueu lentamente a cabea e olhou em volta, como se apenas nesse momento compreendesse onde estava. Mr. 
Williams inclinou-se para lhe sussurrar qualquer estratgia, antes de ele se levantar. Entreguei as minhas perguntas a Mr. Polk, que as leu rapidamente, fitando-me 
depois com uma expresso severa.
        -
         Madame - avisou. - Pode perder toda a simpatia, se isto se revelar falso.
        -  verdade - declarei num sussurro.
        Octavious encaminhou-se devagar at ao banco das testemunhas, de cabea baixa. Quando jurou, repetiu as palavras muito lentamente. Vi que lhe pesavam na 
lngua e no corao. Sentou-se rapidamente, afundando-se no assento como um homem que, se assim no fosse, teria cado no cho. Mr. Polk hesitou e depois encolheu 
os ombros, avanando em nossa defesa.
        - Monsieur Tate, depois de o seu filho ter apresentado Uma primeira proposta de casamento a Ruby Dumas, visitou Ruby Dumas e pediu-lhe que recusasse?
        Octavious desviou o olhar na direco de Gladys e depois baixou o rosto.
        - Sir? - insistiu Mr. Polk.
        - Sim, pedi.
        - Porqu?
        - No achei que o Paul estivesse preparado para casar - respondeu. - Estava apenas a comear o seu negcio no petrleo e acabara de construir a casa.
        - Parece-me uma boa altura para pensar em casamento retorquiu Mr. Polk. - No havia outro motivo que o levasse a pedir a Ruby Dumas para recusar a proposta 
do seu filho?
        Octavious voltou a pousar o olhar em Gladys.
        - Sabia que a minha mulher ficaria infeliz - redarguiu.
        - Mas a sua mulher acabou de testemunhar que ficou feliz pelo facto de o filho Paul estar a fazer o que era certo e testemunhou que aceitou totalmente Ruby 
Dumas na sua famlia. No foi verdade, monsieur?
        - Ela aceitou, sim.
        - Mas no de bom grado? - Antes que Octavious pudesse responder, Mr. Polk acrescentou rapidamente: - Acreditava que a criana era filha do seu filho?
        - Eu... achei que era possvel, sim.
        - No entanto, foi ter com Ruby Dumas para lhe pedir que no casasse com o seu filho?
        Octavious no deu resposta.
        - O seu filho disse-lhe que a Pearl era filha dele?
        - Ele.. disse que queria zelar pela vida da Ruby e da Pearl.
        - Mas nunca disse que a Pearl era filha dele? Sir?
        - No, a mim, no.
        Mas  sua mulher, que depois lho comunicou? Foi assim?
        -Sim. Sim.
        - Ento, porque  que no achou que ele estava a tomar a atitude correcta?
        - No fiz essa afirmao.
        - Contudo, admitiu que no queria que esse casamento se realizasse. Na verdade, monsieur, isto  muito confuso. No havia outro motivo, um motivo mais Srio?
        Octavious virou lentamente a cabea na minha direco e fixmo-nos. Supliquei-lhe a verdade com o olhar, embora soubesse quanto essa verdade era devastadora.
        - Ignoro o que pretende dizer - retorquiu.
        - Por favor - gritei. - Por favor, faa o que est certo.
        O juiz baixou o martelo.
        - Pelo Paul - acrescentei.
Octavious esboou um trejeito e os lbios tremeram-lhe
        -
         Basta, madame. Avisei-a e...
        - Sim - anuiu Octavious em voz baixa. - Havia um outro motivo.
        - Octavious! - gritou Gladys Tate.
        O juiz recostou-se na cadeira, chocado ante aquelas exploses, uma de cada lado.
        - No acha que j.  altura de falar desse outro motivo, Monsieur Tate? - inquiriu o nosso advogado num tom solene.
        Octavious assentiu com a cabea e fitou novamente Gladys.
        - Lamento - pronunciou. - No consigo ir por diante com isto. Devo-te muito, mas o que ests a fazer no  justo minha querida mulher. Estou cansado de me 
esconder atrs de' uma mentira e sou incapaz de tirar a me a uma filha
        Gladys gemeu de dor. Vrios pescoos se esticaram para ver as filhas a confortarem-na.
        - Pode fazer o favor de informar o tribunal sobre esse tal motivo adicional? - pediu Mr. Polk.
        - H muito tempo atrs, sucumbi  tentao e cometi um acto adltero.
        Toda a audincia emitiu um suspiro abafado.
        - E?
        - Como resultado, nasceu o meu filho. - Octavious ergueu a cabea e fitou-me. - O meu filho e a Ruby Dumas...
- Monsieur?
        - Eram meios-irmos - confessou.
        Gerou-se o pandemnio. O martelo do juiz mal se ouviu acima de toda a confuso. Gladys Tate desmaiou e Octavious Ocultou o rosto entre as mos.
        - Meritssimo - interpelou Mr. Polk, avanando. - Acho que seria do melhor interesse do tribunal e de todos os interessados se pudssemos terminar esta sesso 
no seu gabinete.
        O juiz reconsiderou e depois esboou um aceno de concordncia.
        - Falarei com os advogados das duas partes no meu gabinete - declarou, erguendo-se.
        Octavious no se mexera do banco das testemunhas. Levantei-me rapidamente e transpus a distncia que nos separava. Quando ergueu a cabea, tinha as faces 
molhadas de lgrimas.
        - Obrigada - agradeci.
        - Lamento o que fiz - disse.
        - Eu sei e acho que agora encontrar paz interior.
        Beau aproximou-se e beijou-me. Depois levou-me dali, e as Pessoas afastaram-se para nos abrir caminho. Dei cabo de todas as unhas, enquanto Beau e eu espervamos 
do lado de fora do gabinete do juiz. O corao ameaava saltar-me do peito e tinha o estmago em brasa. Os advogados dos Tate foram os primeiros a sair; mas os rostos 
empedernidos nada revelavam. Nem sequer olharam na nossa direco. Por fim, Mr. Polk veio ter connosco e informou-nos que o juiz desejava avistar-se connosco a ss.
        - O que  que ele decidiu? - indaguei, ansiosa.
        - Tenho apenas por misso pedir-lhe que entre, madame. Por favor.
        Agarrei com fora no brao de Beau e as minhas pernas ameaavam ceder a qualquer momento. Se tivssemos de sair dali sem a minha filha...
        
        No gabinete e sem a toga vestida, o juiz Barrow mais parecia um simptico e velho grandpre. Fez-nos sinal para que nos sentssemos diante dele no sof, 
aps o que tirou os culos para ler e se inclinou para a frente.
        - Desnecessrio ser dizer que esta foi a audincia mais invulgar de toda a minha carreira. Penso que agora desvendmos a verdade. No estou aqui para imputar 
culpabilidades. Uma parte de tudo isto deveu-se a acontecimentos para l do vosso controlo, mas verificaram-se todo o tipo de fraudes, fraudes ticas e morais tambm, 
e sabem como muitas delas vos cabem.
        - Sim - anui num tom transbordante de remorso.
        O juiz Barrow fitou-me um momento e esboou um aceno de cabea.
        - Os meus instintos segredam-me que os motivos para os vossos actos foram bons, motivos de amor, e o facto de se terem mostrado dispostos a arriscar as vossas 
fortunas e reputao, contando a verdade em tribunal, pende a vosso favor.
        "No entanto, o Estado pede-me que julgue se devem ou no ficar com a custdia desta criana e a tutoria do seu bem-estar e educao moral ou se  ou no 
melhor para ela ser confiada a uma organizao estatal at se encontrar um lar apropriado.
        - Meritssimo - comecei, disposta a enumerar uma dzia de promessas.
        Ele levantou a mo.
        - Tomei a minha deciso e nada do que disser ir modific-la - declarou num tom firme. Depois, sorriu e acrescentou:
- Espero ser convidado para um casamento.
        Soltei uma exclamao de alegria abafada, mas o juiz Barrow voltou a ficar srio.
        - Pode e deve voltar a ser novamente a senhora.
        Lgrimas de felicidade inundaram-me o rosto. Beau e eu beijmo-nos.
        - Dei ordens para que lhes devolvessem a vossa filha. Vo traz-la aqui por uns momentos. Quanto s ramificaes legais resultantes do vosso anterior casamento 
e  recuperao de identidade... deixo tudo isso ao cuidado dos vossos carssimos advogados.
        - Obrigada, Meritssimo - agradeci por entre as lgrimas.
        Beau apertou-lhe a mo e samos do gabinete.
        Mr. Polk esperava-nos no corredor.
        - Devo confessar - admitiu - que tinha as minhas dvidas quanto  veracidade da vossa histria. Sinto-me feliz pelos dois. Boa sorte.
        Samos e ficmos l fora  espera do carro que nos traria Pearl de volta. Ainda havia por perto pessoas que se tinham demorado na sala do tribunal a discutir 
os chocantes acontecimentos. Reconheci Mrs Thibodeau, uma das velhas amigas da grandmre Catherine Estava agora com problemas em andar mas conseguiu chegar at Junto 
de ns e pegou-me na mo
        - Sabia que eras tu - declarou - Disse de mim para mim que a neta da Catherine Landry podia ter uma gmea mas ela vivera a maior parte dos seus dias com 
ela e herdara-lhe o esprito. Fitei o teu rosto naquela sala e vi a tua grandmre a olhar para mim e soube que tudo se resolveria em bem.
        - Obrigada, Mistress Thibodeau.
        -
         Deus te abenoe, filha, e no te esqueas de ns.
        - No esquecerei. Voltaremos - prometi.
        Ela abraou-me e fiquei a v-la afastar-se, sentindo uma tristeza no corao ao lembrar-me da minha grandmre a caminhar ao lado das amigas para a igreja.
        O Sol surgiu por detrs do aglomerado de nuvens e inundou-nos de uma luz quente quando o carro com Pearl se aproximou. A ama que vinha no banco da frente 
abriu a porta e ajudou-a a sair. Mal me viu, os olhos de Pearl brilharam.
        - Mam! - gritou.
        Era a melhor palavra do mundo. Nada me enchia o corao de tanta alegria. Estendi-lhe os braos para que corresse para mim e depois enchi-lhe a cara de beijos 
e, apertei-a com fora. Beau rodeou-me os ombros com o brao.  nossa volta, as pessoas observavam a cena com sorrisos nos rostos.
        Quando nos afastmos do edificio do tribunal, avistei a limusina dos Tates a arrancar. Os vidros das janelas eram escuros, mas o Sol brilhou com mais fora 
e a silhueta de Gladys Tate recortou-se nitidamente. Parecia que se tinha transformado em pedra.
        Senti pena dela, embora tivesse feito uma coisa muito mesquinha. Nesse dia perdera tudo, muito mais do que a vingana. A sua vida fictcia despedaara-se 
 sua volta como porcelana chinesa. Regressava a uma vivncia cada vez mais sombria e conturbada. Rezei para que ela e Octavious conseguissem comear de novo e obter 
paz, agora que as mentiras estavam postas a nu.
- Vamos para casa - sugeriu Beau.
        Estas palavras nunca tiveram tanto significado para mim como nesse momento.
        - Primeiro quero fazer uma paragem, Beau - repliquei.
        Ele no precisou de indagar onde.
        Um pouco mais tarde, encontrava-me diante da sepultura da grandmre Catherine.
        "Uma verdadeira traiteur tem um esprito sagrado", pensei. "Paira durante muito mais tempo, a fim de zelar pelos entes amados que deixou atrs de si." O 
esprito da grandmre Catherine continuava ali. Sentia-o, sentia-a a pairar muito prximo. A brisa transformava-se no seu sussurro, na sua carcia, no seu beijo.
        Sorri e ergui os olhos para o cu azul agora pejado de pequenas nuvens. Mrs. Thibodeau tinha razo, reflecti. A grandmre estivera comigo durante todo aquele 
dia. Beijei os dedos, toquei na pedra e depois regressei ao carro, a Beau e  minha querida Pearl.
        Enquanto nos afastvamos, olhei pela janela e avistei um falco-dos-pntanos pousado num ramo de cipreste. Observou-nos 
e depois levantou voo atravs do vento e manteve-se ao nosso lado e  nossa volta at que se virou e desapareceu no bayou.
        - Adeus, Paul - disse num sussurro. "Mas voltarei", pensei.
        "Voltarei."



EPLOGO
               
               Os meus sonhos quanto a ter um casamento pomposo ainda no iriam concretizar-se. A publicidade e toda a agitao  vol ta da audincia sobre a custdia 
continuaram a pairar sobre ns.
regressmos a Nova Orlees. Beau achou que seria prefervel uma pequena cerimnia bem longe da confuso e, uma vez que de qualquer maneira os pais dele no estavam 
a aceitar tudo muito bem, era-me impossvel discordar
               Debatemos dias a fio se devamos ou no 'vender a casa no Garden District e construir uma casa nova mesmo  sada de Nova Orlees. Por fim, chegmos 
ambos  mesma concluso: estvamos felizes com o nosso pessoal e no conseguiriamos encontrar uma localizao mais bonita. De prefernciaamudar optei por uma nova 
decorao, do cho ao tecto, substituindo' reposteiros, quadros e mesmo alguns dos acessrios. Era como se vivssemos um louco frenesim de purificar a casa e expurg-la 
de quaisquer indcios da minha madrasta, Daphne.
               Conservei, obviamente, todas as coisas que sabia terem sido preciosas para o meu pai e no alterei um s pormenor do quarto que fora outrora do tio 
Jean. Permaneceu como um santurio  sua memria, algo que sabia que o m'eu pai desejara. Guardei todas as coisas que tinham a ver com Daphne metendo roupas, jias, 
fotografias e recordaes em bas 'Depois reuni os pertences de Gisselle e ofereci muitos deles a lojas de bijutarias e vendas de caridade.
               Com as divises pintadas de novo, reposteiros novos nas janelas e mudanas na decorao, a casa assumiu a minha identidade e a de Beau. Restavam, 
obviamente, memrias pairando como teias de aranha.
        Depois de ter feito o que queria com a casa, voltei a aplicar energias na minha obra artstica. Um dos primeiros quadros que desenhei e em seguida pintei 
foi o de uma jovem mulher sentada num terrao com um beb recm-nascido nos braos. O cenrio situava-a numa casa e numa propriedade como a nossa no Garden District.
        Quando Beau examinou o quadro, opinou que achava que eu fizera um auto-retrato e, depois, umas semanas mais tarde, acordei com sintomas de gravidez e apercebi-me 
de que a inspirao para o quadro viera de uma consciencializao mais profunda do meu ntimo.
        Beau jurou que significava que eu tinha algo dos poderes de traiteur da grandmre Catherine.
        - Porque  que no pode ser? Vocs acreditam que se trata de um poder herdado, no ? - replicou.
        - Nunca senti nada do gnero, Beau, e nunca sonhei sequer em curar pessoas. No possuo esse tipo de viso mstica.
        Ele esboou um aceno de concordncia, pensou uns momentos e depois fez uma revelao surpreendente.
        - s vezes, quando estou com a Pearl e ela se pe a balbuciar na linguagem dela, vejo-a fixar o olhar atentamente e o rosto parece de sbito muito mais velho 
do que o de uma criana de quatro anos. H uma percepo no seu olhar. Nunca sentiste isso quando ests com ela?
        - Sim - anui -, mas receava mencionar algo do gnero com medo que te risses de mim.
        -
         No estou a rir-me. Apenas me interrogo. Sabes - prosseguiu -, ela conseguiu mesmo atrair os meus pais. A minha me tenta no o demonstrar, mas no consegue 
disfarar, e o meu pai... quando est com ela, parece novamente um rapazinho.
        - Ela sabe lev-los.
        - A toda a gente - afirmou Beau. - Acho que tem magia. Pronto. J admiti. Mas no o digas a nenhum dos meus amigos - apressou-se a acrescentar; eu ri. - 
Ainda me vers a acreditar num desses rituais de vudu que tu e a Nina Jackson costumavam praticar.
        - Nunca digas nunca - avisei.
        Riu-se. Ia eu nas duas semanas do meu nono ms quando conseguiu surpreender-me com um presente maravilhoso. Localizara Nina e trouxe-a at nossa casa a fazer-me 
uma visita.
        - Tenho uma visita surpresa - anunciou Beau, entrando antes dela na sala de estar.
        - Quem?
        Depois, afastou-se da porta e Nina avanou. No parecia muito mais velha, embora tivesse o cabelo totalmente grisalho.
        - Nina! - exclamei, pondo-me de p. O meu corpo estava to avantajado, que me senti um hipoptamo, surgindo de um pntano. Beijmo-nos.
        - Ests mesmo grande - comentou Nina. - E prximo. Vejo-to nos olhos.
        - Oh, Nina, onde estiveste?
        - A viajar um pouco para cima e para baixo do rio. Agora, a Nina reformou-se. Vivo com a minha irm.
        Sentou-se e falou comigo durante uma hora. Apresentei-lhe Pearl e ela mostrou-se encantada, fartando-se de a elogiar e de afirmar como estava bonita. Confessou-me 
que achava que ela era igualmente uma criana especial. E depois anunciou que ia acender uma vela azul para o meu novo beb, a fim de que a criana tivesse sucesso 
e proteco.
        - No falta muito - profetizou, metendo a mo no bolso, de onde tirou um pedao de cnfora para eu usar  volta do pescoo. Afasta os germes de ti e do beb 
- declarou, e eu disse-lhe que o usaria mesmo no hospital.
        - Por favor, no te comportes como uma estranha. Vem visitar-nos outra vez, Nina.
        - Podes ter a certeza - replicou.
        - Nina - pedi, agarrando-lhe na mo -, achas que a raiva que atirei ao vento, quando fui ver a me vudu contigo por causa da Gisselle, se afastou?
        - Afastou-se do teu corao, filha. Isso  o mais importante.
        Abramo-nos, e Beau levou-a a casa.
        - Foi um presente maravilhoso, Beau - agradeci-lhe, quando ele voltou. - Obrigada.
        - Vejo que ela deixou qualquer coisa - observou, fixando o pedao de cnfora  volta do meu pescoo. - J imaginava. Para te falar verdade - confessou -, 
esperava que o fizesse.
        - No posso correr riscos.
        Rimos a este respeito.
        
        Quatro dias depois, iniciou-se o meu trabalho de parto. Foi intenso, ainda mais do que tinha sido com Pearl. Beau no me abandonou um s instante e acompanhou-me 
mesmo at  sala de partos. Agarrou-me na mo e ajudou-me a controlar a respirao. Acho que sentiu todas as minhas dores, pois via-o a fazer trejeitos. Por fim, 
as guas rebentaram e o beb comeou a entrar neste mundo.
        -  um rapaz! -exclamou o mdico e, depois, gritou: - Um momento!
        Beau arregalou os olhos.
        -  outro rapaz! Gmeos! - acrescentou o mdico. Tinha admitido essa possibilidade. Um estava a esconder o outro, tapando o pulsar do corao com o dele.
        - Parabns! - felicitou, e as enfermeiras ergueram dois meninos louros e de olhos azuis nos braos.
        - No vamos livrar-nos de nenhum deles - gracejou Beau. - No te preocupes.
        "Gmeos", pensei. "Vo amar-se desde o primeiro dia", prometi a mim prpria. "Desde o primeiro dia."
        Pearl ficou contentssima com a notcia de que no teria apenas um irmo, mas dois. A nossa primeira grande tarefa seria encontrar nomes para ambos. J tnhamos 
discutido a hiptese de uma rapariga e depois a de um rapaz, concordando em que o rapaz se chamaria Pierre, o nome do meu pai. Sabia o que queria fazer, mas sentia-me 
insegura em relao a Beau. Mais tarde, ele surpreendeu-me no hospital ao fazer ele prprio a sugesto.
        - Devamos chamar Jean ao nosso segundo filho - declarou.
        - Oh, Beau, pensei nisso, mas...
        - Mas o qu? - redarguiu com um sorriso. - J te disse que agora sou crente. Estava predestinado.
        "Talvez", pensei. "Talvez."
        Beau tinha um fotgrafo  espera no dia em que levmos os gmeos para casa. Tirmos fotografias os cinco. Agora, ramos uma pequena famlia. Contratmos 
uma ama para ajudar a tratar dos gmeos, no incio, mas Beau achou que poderiamos mant-la mais tempo.
        - No quero que descures a tua arte - insistiu.
        - Nada  mais importante do que os meus filhos, Beau. A minha arte ir ficar em segundo plano - declarei.
        Queria estar prxima dos meus meninos e certificar-me de que eram ensinados a amar e a zelar um pelo outro. Beau compreendeu.
        Uma semana depois de ter voltado do hospital com os nossos gmeos, sentei-me nos jardins, a descontrair-me com a leitura de um livro. Pearl estava l em 
cima com a nova ama, intrigada e fascinada com os dois irmos bebs.
        - Desculpe, madame - pediu Aubrey, aproximando-se - mas acabou de chegar uma entrega especial para si.
        - Obrigada, Aubrey - agradeci, pegando no sobrescrito.
Quando vi que fora enviado por Jeanne, recostei-me, de dedos trmulos, enquanto o abria. Continha uma fotografia e um bilhete.

"Querida Ruby,
A minha me insistiu para que deitssemos fora tudo o que nos recorde de ti. No consegui ter coragem para me desfazer disto. Acho que o Paul gostaria que fosse 
parar s tuas mos.

Jeanne"

        
        Examinei a fotografia. No conseguia lembrar-me de quem a tirara. "Um dos colegas de estudos de Paul!", pensei. Era uma fotografia de ns dois tirada no 
salo de fais do do, quando Paul me levara ao baile. Tinha sido o meu primeiro encontro a srio e antes de saber a verdade a nosso respeito. Ambos parecamos to 
jovens, inocentes e cheios de esperana. Nada mais tnhamos pela frente do que felicidade e amor.
        S me apercebi de que estava a chorar quando uma lgrima caiu na fotografia.
        - Mam! - ouvi Pearl a gritar do terrao. Virei-me e avistei-a correndo na minha direco, com Beau atrs dela. - Eles olharam para mim! O Pierre e o Jean! 
Eles olharam os dois para mim e sorriram!
        Apressei-me a limpar os vestgios de lgrimas e meti a fotografia e o bilhete entre as pginas do meu livro.
        -  verdade! - confirmou Beau. - Tambm vi.
        - Que bom, minha querida. Os teus irmos vo amar-te para sempre.
        - Anda, mam. Vamos v-los. Anda - incitou, puxando-me 
pela mo.
        - J vou, querida. S um instante.
        Beau fitou-me.
        - Sentes-te bem? - perguntou.
        - Sim - sorri. - Sinto.
        - Vou lev-la. Anda, princesa. Deixa a mam descansar um pouco mais, sim? E depois ela vir.
        - Vens mesmo, mam?
        - Vou, querida, prometo.
        Beau pronunciou Amo-te com os lbios e levou Pearl de novo para casa.
Sentei-me.  distncia, uma nuvem assumiu a forma de uma piroga flutuando pelo cu, e pareceu-me ouvir a grandmre Catherine sussurrando novamente na brisa, enchendo-me 
de esperana.

Fim
